Rachel não conseguiu o papel principal de Bombshell, e não por falta de talento vocal, segundo o que os próprios organizadores e produtores do musical foram capazes de afirmar, mas porque a aparência da mulher não estava nem perto de ser parecida com a de Marilyn Monroe, personalidade que servia de inspiração para os escritores da peça. Rachel chegara a afirmar que poderia pintar os cabelos de louro e então arranjar alguma forma de encaracolá-los, até de cortá-los, mas a única mulher naquela banca de jurados, a que se sentava no meio, foi bem enfática ao dizer:

– E você estaria disposta a engordar para ganhar o papel?

Rachel estava disposta a fazer o que fosse preciso, até mesmo engordar se isso garantisse o seu sucesso na Broadway, mas, por algum motivo, preferiu desistir daquela empreitada. Não que as exigências feitas fossem absurdas, longe disso, mas porque eram exigências demais para uma simples peça de teatro que talvez nem fosse um sucesso. Eram exigências que mascaravam a falta de satisfação com o desempenho que Rachel demonstrara. No final, eles só queriam justificar, mesmo com uma mentira, o porquê de não quererem que aquela baixinha de nariz grande e chato fosse a estrela do musical.

Rachel chorou durante algum tempo, em seu quarto, sentada de pernas cruzadas, preocupada com a própria postura – sabia que encurvar-se sobre as próprias pernas, em uma postura depressiva, poderia comprometer o perfeito estado de suas costas, por isso, permanecia ereta. Bebeu vinho sem álcool, daqueles destinados às crianças. Limpava os olhos constantemente e deixou de usar rímel por conta disso – ao final de cada sessão de choro, seus olhos terminavam escuros como os de um urso panda. Ia se deitar com os ombros leves, mas com a cabeça pesada, o nariz congestionado, os olhos inchados. Tentava imaginar-se naquela cena e, de alguma forma, apreciava todo o drama que ela envolvia.

No dia seguinte, levantava-se de cabeça erguida, sorridente como costumava acordar, e distribuía saudações de “Rise and shine!” pela casa, pronta para mais um dia em busca de realizações.

Ninguém havia dito que entrar para a Broadway seria uma tarefa fácil, mas Rachel também não esperava que fosse tão difícil. Audições para peças existiam aos montes, o que, a princípio, levou a mulher a pensar que alguma de suas investidas resultaria em sucesso. Passou quase três semanas fazendo audições e não conseguiu nada, apenas promessas de ligação para os próximos dias. Tantos nãos a levaram a pensar que sua voz, afinal, não fosse tão boa quanto imaginava.

Talvez não seja tão boa ainda, pensava, tentando tranquilizar-se.

Poderia usar a temporada em que estava desempregada para praticar canto, é claro. O problema em tomar essa decisão, contudo, estava no fato de que suas economias estavam prestes a acabar e uma vida em Nova Iorque não era muito barata. Rachel sabia que os tempos de ensaio, ou workshop, como o meio do teatro gostava de chamar, costumavam pagar uma quantia irrisória para seu elenco, algo em torno do salário mínimo, mas, para ela, já era mais do que suficiente. Estar nos palcos era realizador e indescritível, ela podia afirmar, embora jamais tivesse saboreado tal sensação.

Portanto, pelo menos a princípio, não viu por que começar sua carreira em uma peça off-Broadway seria um problema.

Que seu talento era incrível, Rachel não tinha dúvidas, mas, como observara antes, talvez não fosse tão boa para os padrões Broadway. As peças off-Broadway, no entanto, eram menos exigentes, uma vez que as exibições eram voltadas para um público de, no máximo, quinhentas pessoas, em um teatro menor. Talentos natos dificilmente se dispunham a fazer uma audição para uma peça off-Broadway, mas Rachel estava desesperada. Descobriu uma data de audição para uma montagem de O Fantasma da Ópera e compareceu na data e horário combinados. Não estava acostumada à ópera, mas, pela primeira vez em muito tempo, sentia-se positiva sobre o que tinha que fazer. Quem sabe o papel de Christine não estivesse destinado a ela naquele dia?

O galpão tinha um aspecto visivelmente inferior ao de todos os outros em que fizera audição até então, parecendo uma quadra de basquete escondida em um canto sinistro de Nova Iorque, mas Rachel não deu muita atenção a isso. Os produtores à banca pareciam simpáticos, sorriam a todo instante e pareciam abertos a ouvir novos talentos. Tanta segurança da parte deles deixou Rachel segura também, então, quando chegou sua vez de cantar, depois de ouvir cinco outras belas vozes entoando a famosa “Think Of Me”, Rachel se dirigiu ao centro do pátio pronta para dar o seu melhor.

– O seu nome, querida? – perguntou a única mulher do trio à banca, sentada no meio. Será que é um padrão para organizadores?, Rachel pensou e por pouco não riu.

– Rachel Berry.

– Quando quiser, querida.

Era a deixa para que ela começasse a cantar.

E Rachel cantou.

Think Of Me” não expressava realmente o sentimento de Christine durante a peça, afinal, era uma música que ela cantava em outra peça, uma que era encenada dentro da história, o seu primeiro solo na montagem. Era uma música que falava de amor, de afastamento, sobre lembrança de tempos bons. Christine insistia diversas vezes em dizer que a pessoa para a qual se dirigia deveria pensar nela.

Portanto, a cada novo final de estrofe em que Rachel tinha que repetir “Think of me”, o rosto de Finn surgia em sua mente.

O que era inevitável. Rachel só se dispusera a tentar a sorte na Broadway porque imaginava que um pouco de atenção do público fosse suprimir sua vontade de sentir amor – não por qualquer pessoa, mas por Finn. Como já concluíra diversas vezes, insistir em amá-lo era insistir em um amor que não era recíproco, como se preferisse magoar-se a viver uma vida plena e tranquila. Mas afastar-se disso se mostrava um desafio particularmente difícil, como se cada decisão sua tivesse o seu destino diretamente relacionado ao de Finn. Era quase como se o tal destino não quisesse permitir o sucesso de Rachel enquanto ela não voltasse aos braços do homem que ainda amava.

Mas ela precisava se esquecer dele. Não podia continuar com esse peso preso ao seu corpo, impedindo-a de voar e fazer o que devia ser feito.

Think of me,

Think of me waking silent and resigned

Imagine me

Trying too hard to put you out of my mind

Rachel sentiu uma lágrima descer por uma das faces e sentiu-se frustrada. Não deveria chorar, pareceria antiprofissional. Mas aquela foi a primeira de uma série de outras três. Desesperada por impedir que os analisadores as percebessem, abaixou as mãos, que estavam erguidas para o alto, uma postura típica de uma cantora de ópera, e usou-as para limpar os olhos, já cantando os últimos versos da canção.

Quando finalizou, o toque do piano ao fundo sumiu e o único som que se ouvia vinha das tentativas de Rachel de se acalmar. Quando retirou as mãos dos olhos, encarou o trio de avaliadores e sorriu. Os olhos nunca estiveram tão vermelhos.

– A gente entra em contato – disse a mulher do meio, dessa vez com um pouco menos de simpatia. – A saída é pela esquerda, Srta. Berry.

Rachel apagou o sorriso do rosto e se retirou imediatamente.

~//~

Quinn Fabray não queria trabalhar.

Tinha pilhas e pilhas de processos sobre a mesa, todos esperando algum tipo de conferência, mas ela não queria conferi-los. Não via por quê. Aquilo não tinha importância para ela, assim como mais nada no mundo tinha, depois da partida de Sam. Por que verificar o trabalho dos outros, se não se sentia motivada o suficiente para isso? Deveria era largar aquele emprego.

Uma janela de conversa do Skype chamou a sua atenção na tela do computador. Olhou de relance para o nome mostrado nela. Era o tal funcionário de marketing, um cara até bonito, conhecido pelos olhos azuis e pela queixada máscula. Um tolo, na opinião de Quinn. Havia mais de uma semana desde que ele decidira flertar com ela, convidando-a para almoços diários, ou jantares, quando ela afirmava que não tinha tempo almoçar ­– mentira que andara contando e uma desculpa que precisava renovar. O rapaz não parecia ser esperto o suficiente para entender quando recebia um fora e permanecia insistindo nos convites.

Quinn olhou de relance para o celular, cinco minutos após ter feito o mesmo, costume que adquirira nos dias que seguiram o desaparecimento de Sam. Aquela era a usa mente imaginando que, a qualquer instante, fosse receber uma mensagem do loiro, uma surpresa, um convite para qualquer um dos programas chatos que ele tinha em mente ou para comer em um restaurante qualquer. Quinn estava disposta a aceitar qualquer coisa, desde que estivesse com ele, desde que o encontrasse ainda naquela semana.

Mas a mensagem nunca chegava.

Sam Evans, afinal, tinha desistido dela.

Mas não pode ser, ela pensava, a cabeça apoiada nas mãos, os dedos entrelaçado nos cabelos. Ele não faria isso, faria? Não comigo. Não depois de tudo pelo que passamos. Isso é impossível!

Mas ele tinha feito, do contrário, teria enviado pelo menos uma mensagem indicando o seu destino. Não o fez, preferira fazer tudo por debaixo dos panos, sem comunicar ninguém. Agora, deveria estar em outro estado, roubando o coração de outra donzela qualquer, como já devia estar acostumado a fazer.

E tudo o que Quinn tinha a disposição, no momento, era um computador, um colega de trabalho mala e um funcionário do marketing que insistia em querer sair com ela.

Quinn não queria continuar com aquilo, pois era humilhante. Uma mulher como ela não podia basear a sua existência em um emprego insignificante de contadora em uma empresa medíocre de Nova Iorque. Uma vida devia ser contada em boas experiências, que não necessariamente as profissionais. Diante desse pensamento, Quinn deparou-se pensando: por que não fazer um sacrifício a fim de conseguir o que tanto desejava?

Apoiou as mãos sobre a mesa e usou isso como impulso para se levantar. Passou pelo colega de baia, bagunçando seus cabelos com um cafuné carinhoso, e se retirou do recinto.

Seguiu em frente no corredor e dobrou à esquerda, passando pela área do café, onde alguns homens conversavam aos sussurros – Como um bando de fofoqueiras! Desejou a eles um bom dia e seguiu em frente.

Deparou-se com a mesa da secretária que, desde que Rachel pedira demissão, continua vazia e parou um instante por lá. Rachel nem se dera o trabalho de jogar fora o copo de café que comprara no fatídico dia. Quinn o apanhou e o levou à lata de lixo. Limpou a mão em um relatório avulso que havia sobre a mesa da secretária e então se voltou para a porta da sala do vice-presidente, onde Finn Hudson agora estava.

Entrou sem bater – imaginava que o som de seu salto alto fosse suficientemente alto para anunciar sua presença – e caminhou até a mesa do vice-presidente, apoiando ambas as mãos sobre ela, uma atitude que poucas pessoas dentro da organização teriam coragem de ter. Sorriu na direção do olhar sonso de Finn Hudson e umedeceu os lábios antes de anunciar:

– Eu me demito.

Finn mostrou-se confuso. Apertou os olhos na direção de Quinn, cruzou as mãos na altura do queixo e questionou:

– E por que você veio comunicar isso a mim? Não deveria falar com alguém do RH?

– Talvez – disse Quinn, cruzando os braços em frente ao corpo. – Mas eu sempre os achei muito burocráticos. Como quero com rapidez o dinheiro a que tenho direito, decidi falar diretamente com quem manda na grana dessa filial. Você.

– Isso é muito imprudente da sua parte...

– Sr. Hudson, somos seres humanos, corte essas noções de formalidades hierárquicas que você tem na cabeça! Dê prosseguimento ao meu processo de demissão, é tudo o que eu te peço.

– Está bem – disse Finn, dando de ombros. – Mas por que está se demitindo, Srta. Fabray?

– Eu achei que isso fosse pessoal.

– Preciso colocar no formulário de feedback.

Mas que imensa palhaçada!, Quinn pensou e riu.

– Escreva aí que estou me demitindo porque acho que um emprego medíocre como esse não faz de mim alguém tão importante quanto sei que nasci para ser. Diga que preferi deixar a vaga para alguém que não vê problema em gastar boas horas do seu dia fazendo algo que não gosta, afinal, ainda sou jovem e tenho uma longa vida pela frente. Escreva que pretendo gastar esse tempo fazendo algo útil e de valor.

– Do que está falando, Srta. Fabray? – Finn perguntou, usando um tom de curiosidade que nada tinha a ver com o teor da conversa.

– Vou atrás do meu amor. Diferentemente dessa espelunca, aquele homem, sim, faz com que eu me sinta importante. Talvez porque ele seja importante para mim. Satisfeito?

Finn tinha desviado o próprio olhar para algum ponto sem importância no chão, reflexivo. Quinn franziu o cenho na sua direção, confusa.

– Sr. Hudson, você está satisfeito?

– Não – ele disse de prontidão. – Nem um pouco satisfeito com...

– Sinto muito, mas esse já não é mais um problema meu – Quinn o interrompeu e girou nos calcanhares. – Preciso do dinheiro na minha conta até o final da semana. Estou pensando em fazer uma viagem.

Bateu a porta e se dirigiu para o elevador daquele prédio que, ela esperava, seria usado pela última vez em sua vida.

Notas finais
Houve demora para postagem? Houve... Mas todos sofremos com esse blecaute do Nyah, não é mesmo? rs