Nova Iorque nunca pareceu uma cidade grande para Finn, mas, quando sua busca por Rachel começou, de repente, aquele território todo pareceu infindável, como os grandes latifúndios de séculos antigos.

E a quantidade de pessoas? A ele, antes, pareciam milhares – na melhor das hipóteses, milhões –, mas, hoje em dia, eram bilhões. A cada novo rosto que ele topava na rua e se dava conta de que não era o de Rachel, uma frustração jamais antes sentida tomava conta do seu corpo. Era um sentimento que ele considerava quase impertinente para alguém como ele, levando em conta o poder que ele tinha e o cargo de confiança que conquistara em uma empresa tão grande. Conseguira transpor todos os obstáculos para alcançar o sucesso em sua carreira, mas, agora, percebia que eles nunca chegaram nem perto de serem tão difíceis quanto os que haviam em encontrar a mulher que amava.

Deixou de se interessar pelo trabalho. A princípio, pensou que isso fosse parte de se conviver com uma rotina durante um grande período, e foi preciso algum tempo para ele se dar conta de que tanto desinteresse tivera início no dia em que a funcionária Quinn Fabray pedira demissão. As palavras que ela dissera, sobre buscar um amor e tudo mais, eram tudo o que ele precisava ouvir naquele momento em que a falta de Rachel pesava mais do que qualquer outro problema.

E ele conhecia tão pouco a seu respeito. Sabia onde ela morava, mas não sabia se devia bater à sua porta. Tinha o seu número de telefone, mas, por alguma razão, ela não o atendia. Talvez o celular tivesse sido roubado – esse tipo de coisa acontecia bastante em Nova Iorque, não? –, mas ela jamais deixaria de atender as suas ligações, deixaria? Na mais horrível das hipóteses, sim.

Uma hipótese horrível que, ele tinha que assumir, não estava tão distante de ser a realidade.

Mas como ele podia imaginar que a sua secretária fosse querer levar a relação a outro nível tão cedo? Havia algo no lance de se amar escondidos que ele apreciava, ou talvez fosse aquele toque de fazer alguma coisa errada, distante dos olhares alheios, que tornava a relação tão interessante. Mas Rachel não parecia apreciar isso dessa forma; queria uma relação estável. Ele não podia julgá-la; naquela idade, mulheres já não querem mais brincar de ficar beijando garotos por aí – querem um homem para amar.

E Finn queria ser esse homem? Claro que queria! Mas por que tão cedo?, ele se perguntava. Será que Rachel não conhecia os boatos em torno de boas relações que terminavam assim que um compromisso era assumido? Ou será que as noções de cedo e tarde de Finn estavam desatualizadas demais em relação ao seu tempo e idade?

Fosse o que fosse, Finn queria voltar a ver Rachel, e tinha até um plano para consertar o fiasco de encontro do qual fizera parte na última vez em que a vira. Era um plano tão audacioso que ele não via por que não daria certo. O destino, afinal, parecia estar trabalhando a seu favor – pelo menos em partes.

Mas o passo inicial para que isso desse certo era encontrar Rachel, e, como ele observara antes, esse era um obstáculo bastante difícil de ser transposto naquela droga de cidade enorme. Claro que ele poderia frequentar lugares comuns até encontrá-la – qualquer morador de uma cidade grande vai ao supermercado em algum momento, não? –, mas não conhecia os horários dela e talvez passasse mais tempo no mercado do que achava saudável. Poderia ir ao Central Park, também, mas mal tinha tempo para isso e também não sabia se Rachel era adepta do costume de correr no parque com um cachorro – hábito adotado por mulheres que ainda não tinham filhos para acompanhá-las nesses passeios.

Será que a ideia de procurá-la em casa era tão ruim assim?

Finn não tinha mais a o que recorrer. Claro que existia a possibilidade de ele ser recebido por uma chuva de ovos quando tocasse a campainha do prédio em que Rachel morava, mas foi por essa razão que ele decidiu vestir um terno mais barato, mas nem por isso menos elegante, para ir até o local. Estacionou em frente ao prédio e depositou algumas moedas em um parquímetro. Apertou a tecla do interfone correspondente ao apartamento de Rachel e, com o coração na garganta, aguardou o atendimento da mulher.

Atendimento esse que não veio tão cedo.

E nem tão tarde.

Aguardou quinze minutos antes de apertar a campainha novamente e pouquíssimos segundos antes de insistir no toque. Talvez a campainha do apartamento de Rachel fosse daquelas que só funcionam depois de serem acionadas por muito tempo – os prédios de Nova Iorque, apesar de bonitos, dificilmente tinham as coisas funcionando como devia –, razão pela qual ele pressionou o botão várias outras vezes. Não imaginou que ela estivesse sendo capaz de vê-lo e, por isso, o estivesse ignorando, porque essa era uma possibilidade paranoica e nada real. Prédios comuns como aqueles mal tinham câmera de segurança.

Já trabalhava há meia hora em sua tentativa frustrada de chamar a atenção de Rachel quando um som eletrônico, como o de uma ligação que tem início, surgiu pelos autofalantes do interfone.

– Rachel! – Finn exclamou, encostando-se ao portão como se tivesse certeza de que sua proximidade fosse determinante na hora de convencer a mulher a deixar o seu apartamento para atende-lo. – Rachel, eu...

– Não é a Rachel – respondeu uma voz grave e rouca, robótica por conta do fraco sistema de áudio do interfone.

– Por favor, eu preciso falar com ela, senhor...

– Você está falando sobre a Srta. Berry?

– Sim, é dela que estou falando!

– Ela saiu logo cedo hoje, parecia apressada...

– Cedo? Que horas? – Finn estava desesperado. Se pelo menos soubesse o horário em que Rachel estava acostumada a sair, poderia abordá-la em seu caminho para onde quer que ela fosse.

– Cedo, meu jovem. Apenas cedo.

– Isso não ajuda...

– Vai ter que voltar outra hora, rapaz, porque já faz um bom tempo desde que ela começou a sair cedo desse jeito. Deve ter encontrado um novo emprego. Nunca tem hora para voltar. Espero que não esteja mexendo com coisa errada.

– Duvido que ela fosse mexer com coisa errada.

– Preciso voltar ao meu posto. Boa sorte com a sua busca, senhor...?

– Hudson. Finn Hudson.

– Senhor Hudson – finalizou o porteiro e desligou.

Finn voltou para o carro e um dilema sondava sua mente: que trabalho poderia fazer com que Rachel ficasse durante tanto tempo fora de casa? Garçonete? Vendedora em uma loja de roupas? Será que teria voltado a ser secretária, mas em uma empresa exploradora?

Nada vinha à sua mente. No momento, o que ele precisava era de voltar ao seu escritório e colocar a cabeça no lugar.

~//~

Rachel teve que se forçar a relembrar o balé quando recebeu a ligação de que fora aprovada para a montagem off-Broadway de O Fantasma da Ópera, mas esse foi um sacrifício ao qual ela se dedicou sem reclamar.

Primeiro, saltitou por todo o apartamento, jogando lençóis, almofadas, grãos e as mãos para o alto, ora entoando um vibrato, ora algum verso de “Think Of Me”. Demorou algum tempo para que a realidade caísse sobre ela e a avisasse de que ela não ganhara o papel de Christine, diferentemente do que inicialmente desejara, mas o da personagem Meg Giry, uma antagonista que até aparecia algumas vezes – e que encerrava a peça também –, mas que não tinha tanto destaque quanto os outros antagonistas. Mas Rachel estava satisfeita. Nem todo grande ator da Broadway começava já no topo.

O balé e a boa condição física se fizeram necessários porque sua personagem era uma bailarina. Durante boa parte dos primeiros minutos da peça, seu único trabalho era dançar de um lado para o outro enquanto estrelas brilhavam na frente do palco em um diálogo que Rachel conhecia de cor. Era quando as estruturas do teatro se quebravam, anunciando a primeira aparição d’O Fantasma da Ópera, que Rachel dava as caras.

He is there, the Phantom of The Opera! – repetia enquanto andava de um lado para o outro. Era praticamente a sua fala mais marcante em toda a montagem, uma vez que sua personagem parecia ter certo fascínio pelo Fantasma da Ópera.

Feito isso, voltava a dançar até chegar a sua hora de cantar sobre o Anjo da Música com a atriz escolhida para Christine, uma moça alta, de olhos azuis e cabelos naturalmente cacheados, simpática demais para o gosto de Rachel e encantadora demais para que ela não conseguisse sentir inveja.

Os ensaios aconteciam durante uma enorme parte do dia. Segundo os organizadores, o desenvolvimento da peça estava perto de ultrapassar o seu prazo, portanto, todos os detalhes precisavam ser acertados durante a menor quantidade de tempo possível. Rachel repetia os mesmos passos de balé centenas de vezes ao dia, ao ponto de ficar exausta e clamar por um momento em que pudesse se sentar. A boa parte de se esforçar tanto durante aquela temporada de ensaios era que Rachel estava sendo paga por isso – muito pouco, mas ainda assim estava sendo paga. Quando a peça estreasse, e se ela fosse um sucesso, essa situação mudaria de cara.

Rachel tomava o metrô e um ônibus para voltar ao seu apartamento no final do dia, já quase de madrugada. Caminhava pelas ruas de Nova Iorque, vazias e frias, e sentia medo a cada esquina que dobrava. Exceto em noites de sexta-feira, seu bairro não era muito movimentado, então o seu passo era apressado e ela fazia o que podia para tornar sua presença na rua o mais insignificante possível, desde usar roupas mais escuras até abaixar a cabeça, evitando contato visual. Como uma estrela que tenta se apagar, pensava e, às vezes, se entristecia. Mas valerá a pena!

Abriu o portão do prédio em que morava e passou pelo hall de entrada, cumprimentando o porteiro. Acionou o botão do elevador, que muito provavelmente só apareceria em alguns minutos, e cruzou os braços sobre o peito, sorridente, aguardando enquanto aquele vagão centenário não aterrissava no térreo.

– Srta. Berry... – disse a voz rouca do porteiro, um senhor curvado e frágil, caminhando a passos pesados e nada apressados na direção de Rachel.

– Boa noite – disse Rachel.

– Boa noite. Ahn, Srta. Berry, um homem veio até aqui hoje para te procurar, ele... Você estava esperando por alguém?

Rachel vasculhou a mente à procura de alguém que pudesse estar aguardando, mas não recordou nenhum rosto. Ultimamente, estivera falando com tão poucas pessoas, e isso para não mencionar que quase não tinha amigos que pudessem lhe fazer uma possível visita surpresa naquela cidade. Franziu o cenho e, voltando-se na direção do porteiro, respondeu:

– Eu não esperava por ninguém.

– Calhorda! – o homem exclamou e, por uma fração de segundo, Rachel pensou que estivesse sendo difamada. – Eu sabia que aquele homem não era boa pessoa!

– Me desculpa?

– Ele estava insistente, Srta. Berry! Apertou a sua campainha um milhão, eu disse um milhão, de vezes! Provavelmente, queria aplicar um golpe, eu já vi gente fazendo isso antes, eles são espertos, ah, são...

– Aplicar um golpe em mim?

– Golpes!

– Mas... Como você pode ter certeza disso? Ele não escolheu o meu apartamento a esmo?

– Ele sabia o seu nome! Quando eu atendi o interfone, ele disse o seu nome!

– Berry?

– Rachel.

Rachel?, Rachel pensou. Era um tratamento muito íntimo para alguém que queria apenas aplicar um golpe.

– Como ele era?

– Você se surpreenderia se eu contasse! – disse o homem e, entretanto, continuou: – Dizem que são os negros os principais culpados pelo alto índice de criminalidade em Nova Iorque, mas às vezes o criminoso aparece à sua porta usando terno e gravata! Crime de colarinho branco, eu diria!

Não pode ser!

– Terno e gravata? – Rachel repetiu.

– Dos bons, provavelmente roubados! Esses ladrões não medem esforços quando querem agradar os olhares alheios com uma boa aparência...

– Ele era alto, cabelo preto, olhos pequenos e...

– Não enxergo detalhes tão pequenos quanto esses há bons anos, minha jovem. Mas ele disse um nome. Falso, eu posso afirmar.

Rachel piscou algumas vezes na direção do porteiro, exigindo uma continuação.

– Finn Hudson – ele completou e cuspiu.

E o sino do elevador soou, seguido do ranger da porta que abria, revelando o interior velho e enferrujado do vagão.

– Esse nome significa algo para você, Srta. Berry? – o porteiro esbravejou, alto demais para o horário, enquanto Rachel entrava no elevador.

– Significava – ela respondeu e teclou o andar para o qual desejava ir. – Mas isso há muito tempo atrás.

Notas finais
Posso compartilhar com vocês a ENORME felicidade que eu senti quando a Dianna Agron, A FAMOSA E LINDA DIANNA AGRON, apareceu como estrela no mais novo clipe da minha banda favorita de todos os tempos, o The Killers????