O Bronks nunca foi uma opção para Sam Evans quando o chefe lhe propôs que fizesse suas entregas em outra região. Não era porque tivesse preconceito com o lugar – o processo, na verdade, era inverso, ou seja, era a população de lá que via problema em recebê-lo, talvez por conta da claridade da sua pele, dos seus olhos e também de seus cabelos. Era uma hostilidade previsível, levando em conta as histórias e lendas urbanas contadas sobre o lugar, e Sam suspeitava que inclusive o chefe soubesse disso. Na melhor das hipóteses, talvez ele tivesse imaginado que o ar vivaz e simpático de Sam fosse cativar a todos e tornar o trabalho mais fácil. Na pior, ele queria que Sam fosse morto porque ninguém por lá ia com a cara dele.

A súbita vontade de se afastar de Quinn Fabray foi apenas o gatilho para que ele quisesse de uma vez por todas deixar Nova Iorque. Não gostava daquele lugar realmente e via poucas oportunidades para gente que nem ele, que vinha de uma cidade afastada, com poucos atrativos e oportunidades ainda mais parcas. Aceitara ir até Nova Iorque porque acreditava no sonho americano de conseguir se tornar alguém de verdade na cidade grande, em meio aqueles prédios imensos, paredes de concreto construídas há séculos, e carros caros que circulavam pelas ruas com mais frequência dos que os ônibus de transporte público com os quais Sam estava acostumado em Kentucky.

Por essa razão, aceitou fazer sua mudança para Lima, Ohio, local em que uma vaga para entregador da UPS fora aberta, sem reclamações. Não só acolheu o pedido como praticamente implorou para que o cargo fosse concedido a ele. O salário era um pouco menor, mas o custo de vida em Lima, segundo o que ele ouvira falar, era menor também, o que tornava a baixa remuneração um problema sem importância. E ele ainda teria uma van para fazer suas entregas, assim como para fazer seus passeios nas horas vagas. Seria como fazer o que ele já fazia, mas em um território mais confortável e longe da possível influência que Quinn Fabray exercia sobre ele.

Influência da qual ele tinha uma leve suspeita de que sentiria falta.

Fizera as malas em uma sexta-feira à tarde, assistido de perto por um Blaine que, de braços cruzados ao portal da minúscula cozinha, permanecia em silêncio, talvez pensando no que dizer ou – e Sam discordava dessa segunda possibilidade – apenas permitindo que ele saboreasse esse momento de partida. Nem mesmo se ofereceu para ajudá-lo, mas Sam não precisava de ajuda; nem tinha tantas coisas assim. Quando fechou o último zíper, levantou-se, ajeitou sobre a cabeça um boné de um time de baseball qualquer que Blaine lhe dera de presente e sorriu na direção do rapaz.

– Engraçado que, enquanto eu via você fazer sua coisa durante essa última hora, eu torci muito para que você desistisse dessa ideia – disse Blaine finalmente. – Achei que você ia ficar com preguiça de finalizar essas suas duas únicas malas, mas você tem tão poucas coisas que de repente desisti de acreditar nisso. Me apeguei à esperança de você desistir de ir para Lima por causa de mim, pelo menos. – Blaine riu ao concluir à frase. – Mas sou suficientemente esperto para saber que você não curte o que eu curto e que, se fosse para ficar, você ficaria só pela nossa amizade. Ou por causa da tal da Quinn Fabray.

– A gente ainda vai continuar a se falar, Blaine. Nossa amizade não acaba aqui.

– O que me leva a crer que nem mesmo a Quinn Fabray foi capaz de segurá-lo aqui. – Blaine franziu o cenho momentaneamente. – Ou será que foi ela quem te expulsou de Nova Iorque?

– Podemos tratar desse assunto por telefone depois, quando eu já estiver em Lima?

– Você quer conversar sobre isso quando esse assunto não doer mais?

– Você faz parecer que é algo bem mais complicado do que um simples afastamento entre homem e mulher que mal se conhecem.

– Vocês transaram.

– Hoje em dia, isso não significa nada.

Sam vestiu as alças de uma de suas malas e a outra ele levantou em uma das mãos. Nesse instante, Blaine decidiu se aproximar e, surpreendendo o homem, puxou-o para um abraço que o fez largar a mala de mão com um baque.

– Você não achou que ia embora sem um desses, achou? – disse Blaine, a voz estranhamente embargada.

– Acho que eu estava querendo evitá-lo – disse Sam, abraçando o amigo com firmeza. – Não queria chorar como uma garotinha.

– E você está chorando como uma garotinha?

Sam usou uma mão para limpar uma única lágrima que desceu pelo olho esquerdo.

– Não. Acho que estou chorando como um homem.

O peito de Blaine pulava contra o seu, motivado pelos soluços que o homem fazia esforço para controlar.

– Homens não choram – ele disse entre um soluço e outro.

– Há algumas raras exceções.

Permaneceram abraçados e em silêncio durante alguns minutos. Por mais que o conhecesse há poucos meses, Sam conseguia sentir na pele a saudade que passaria a sentir de Blaine assim que fosse para Lima. Havia algo naquele rapaz que gostava de rapazes que o tornava único e inspirador, um amigo como Sam jamais tivera na vida. Se não fosse Blaine o seu companheiro de apartamento, talvez ele nem tivesse gastado todo aquele tempo em Nova Iorque.

– Sua partida vai ser difícil para mim – disse Blaine, concluindo o abraço.

– É, eu sei como é. O aluguel vai ficar mais caro – Sam brincou.

– Era justamente com isso que eu estava me preocupando – afirmou Blaine e riu. – Até mais, White Chocolate.

– Até mais, Blaine.

Quando saiu do apartamento pela última vez, Sam deixou a sua cópia da chave sobre a mesa de canto que havia ao lado da porta. Blaine não o acompanhou até a estação de trem pois não podia, tinha combinado de sair com alguns amigos e precisava começar o seu ritual de arrumação o mais cedo possível. Depois disso, então, Sam não voltou a ver o amigo, mas nem por isso deixou de pensar nele durante a viagem.

Chegou de madrugada a uma casa pequena que conseguiu alugar de última hora, de uma senhora bastante resistente, que tinha medo de alugar a residência para jovens festeiros que iam embora deixando os móveis quebrados e o aluguel atrasado.

– Não tenho força nem pernas para correr atrás dessa gente e cobrar o dinheiro! – ela dizia com sua voz rouca e mecânica no telefone. – Mas tenho contatos na polícia e não tenho medo de usá-los!

Sam garantiu que não faria festas e que não quebraria móveis, afinal, o que queria era começar uma boa vida sem ter que destruir outra. Com um emprego garantido e uma casa para voltar ao final do dia, então, Sam se sentiu pronto para fazer o que fosse preciso, começando com o pé direito.

A toda vez que evitava pensar em Quinn, a mente viajava até ela. Não podia negar a si próprio que a mulher fora marcante na sua vida, que os momentos pelos quais eles passaram, incluindo o jantar horroroso e constrangedor no Seafull, acompanhado daquela noite de amor incrível em um motel na região, seriam profundamente inesquecíveis, uma vez que Sam ainda parecia sentir na boca o gosto de Quinn. Conseguia se lembrar do nervosismo que o tomava toda vez que entrava na empresa em que ela trabalhava, do prazeroso medo que envolvia a ansiedade da expectativa do que ela era iria aprontar e também daquelas salas de reunião com nome de cidades do mundo. Querendo ou não, Quinn fora capaz de construir uma boa história ao seu lado, uma da qual o homem só desistira porque sabia que o final estava próximo e que era previsível.

Já passara da idade de alimentar sexos rápidos com mulheres atraentes e voltar para a casa no fim do dia sem ter com quem contar.

Adaptou-se rapidamente à nova rotina. Lima não era o império dos negócios, muito menos uma megalópole permeada por torres de concreto como as de Nova Iorque. Era uma cidade simples, com seus bairros bem situados e ruas pouco movimentadas – bem movimentadas apenas quando a população precisava ir ou voltar do trabalho, mas não era nada comparado aos engarrafamentos que Sam tinha que enfrentar mesmo em horário de almoço quando estava na Big Apple. Havia mercearias por perto e também academias, estabelecimentos aos quais ele poderia ir a pé, sem ter que tomar um táxi ou tirar sua van da UPS da garagem. Gostava do clima juvenil que tomava conta das ruas nas tardes, quando as escolas terminavam seus períodos letivos, e gostava especialmente de passar em frente ao McKinley High, uma escola que parecia emanar alegria e contaminar aqueles que a observavam.

Sua função na UPS continuou a mesma: chegar ao prédio da UPS pela manhã, retirar as encomendas e entregá-las até o final do dia. O trabalho em si, contudo, tornou-se mais fácil, uma vez que as encomendas eram mais escassas, o trânsito era melhor e os endereços de entrega eram muito próximos uns dos outros. Ao final do serviço, quando entregava o relatório de assinaturas ao chefe, recebia a informação de que podia ir para casa mais cedo do que esperava, uma vez que as entregas para o dia já tinham terminado. Aproveitava esse tempo para fazer exercícios na academia e preparar jantares mais elaborados do que aquelas refeições congeladas que povoavam as prateleiras dos supermercados de Nova Iorque.

Gostava também do fato de que ninguém por ali o chamava de Barbie. Por mais que nunca tivesse reclamado da estranha alcunha que lhe fora concedida, não era um nome que um homem comum aceitaria sem se sentir no mínimo constrangido, por mais que se mantivesse em silêncio.

Passou duas semanas em Lima e nunca se sentiu tão acolhido por um lugar. Em vários momentos de sua rotina, tornou-se possível se esquecer de Quinn e, por que não?, pensar em um novo romance. Gostava da atendente do supermercado e do olhar esperto que ela lhe direcionava toda vez que informava o preço das parcas compras que Sam fazia. Gostava do jeito como ela mordia o lábio quando ele fazia uma piada sem graça, de duplo sentido, e do quase sotaque que modificava o jeito como ela falava. Depois de ouvir por tanto tempo o sotaque dos nova iorquinos, a voz da atendente lhe era quase um bálsamo.

Só não a beijara ainda porque não a considerara tão perfeita quanto Quinn, e forçar-se a ficar com a atendente no intuito de se forçar a se esquecer da mulher que deixara em Nova Iorque era uma traição não só para consigo, mas para com a própria atendente. Aquela era uma mulher muito legal para passar por esse tipo de coisa. Sam precisava consertar a própria vida antes de se dedicar a modificar a de outra pessoa.

Foi em uma tarde de sexta-feira que Quinn Fabray apareceu à porta de sua casa como a aparição de alguém morto. Como tivera bebido algumas cervejas em seu caminho até a casa – tomara o cuidado de dirigir por ruas que não eram frequentadas pelos policiais e vigilantes da lei-seca –, não deu atenção a ela; estava certo de que era uma miragem. Quando ela caminhou atrás ele, seguindo-o em direção à estrada da casa, um pensamento difuso tomou o seu pensamento: Se eu fechar os olhos e contar até cinco, assim que os abrir, ela não vai mais estar por perto. E assim o fez.

Quando abriu os olhos e olhou por cima do ombro, Quinn continuava lá, mas ele ainda não estava totalmente convencido de que ela era real. A mulher, cujo corpo ele considerava perfeito, estava vestida com o uniforme feminino da UPS, um short mais curto do que o masculino, uma camisa mais justa e botinas mais femininas, constatações que ressaltaram a impressão de aquilo ser uma miragem.

– Não achei que três cervejas pudessem me deixar tão louco. – Olhou para o rótulo da garrafa que segurava na mão. Dois por cento de teor alcoólico. – Devem ter adicionado folhas de coca à mistura, como aquelas garrafas de refrig...

– Sam, sou eu.

Sam olhou nos olhos de Quinn, que estavam tão brilhosos e tocantes quanto costumavam estar na época em que ele a conhecera. Os cabelos dela estavam amarrados em um rabo-de-cavalo comum às raras funcionárias da UPS que também faziam entregas.

– Ao que parece, meu subconsciente guardou muito bem a sua imagem na mente. – Sam franziu o cenho. – Uma pena que a tenha trazido de volta em um uniforme da UPS.

– Não foi a sua mente que me trouxe de volta, Sam, mas aquela van estacionada ali na frente. – Quinn apontou um automóvel idêntico ao de Sam, estacionado em frente à casa do rapaz. – Agora entendo por que você fazia tanta questão de dirigir isso por Nova Iorque. Olhar as ruas do alto é fascinante.

– Oh, meu Deus, você está mesmo aqui, Quinn! – disse Sam e quase tropeçou nos próprios pés ao dar um passo para trás.

– Estou. Foi um longo e tortuoso caminho e alguns dias de procura, mas consegui te encontrar. – Quinn parou o olhar em Sam e apertou os olhos antes de dizer: – Espero que eu consiga consertar as coisas agora. Não vai me chamar para entrar?

Notas finais
Dianna Agron de volta para o 100º episódio de Glee, estamos felizes? rs