Jasmim não era uma mulher muito sociável, conhecimento que corria a boca de todo o grupo da montagem off-Broadway de O Fantasma da Ópera. Quando não estava no palco fingindo ser o que não era em frente aos olhares atentos de diretores, escritores e produtores, estava trancada em seu camarim trocando mensagens de texto com alguém misterioso – ou pelo menos era isso o que os boatos diziam. Rachel, que também não era a última palavra em fazer amigos, nunca dirigira a palavra a ela, pelo menos não enquanto não atuava como Meg Giry e Jasmim como Christine. Também não era possível saber se as duas tinham algum tipo de laço afetivo, porque Jasmim era estritamente profissional, talvez a razão pela qual fora escolhida para o papel principal de O Fantasma da Ópera.

Portanto, quando recebeu, através de um bilhete colado sobre sua caixa de maquiagens, um convite para almoçar com ela, Rachel pensou que se tratasse de uma brincadeira. O ramo do teatro é cheio de gente maldosa, era o que aprendera durante todo o tempo de oficina que tivera até ali. Não se surpreenderia se aquela fosse uma piada de mau gosto vinda de alguém do coro, que, apesar de possuir gente muito talentosa, estava cheia de gente invejosa também.

Só foi se dar conta de que aquele era um convite legítimo quando a própria Jasmim a abordou em um corredor para lhe dirigir a palavra.

– Espero que tenha recebido o meu convite – ela dissera em sua voz afinada, mesmo enquanto falava. – E espero que o aceite também.

Rachel aceitou. Não porque estivesse com fome de junk food – Jasmim queria ir ao Burger King – ou porque imaginava que algo bom partiria de uma conversa com Jasmim. Aceitou o convite porque a possibilidade de se relacionar com a principal estrela da peça e talvez até fazer uma amizade com ela eram coisas boas em todos os sentidos. Networking fora a palavra que aprendera com uma das bailarinas. Se se tornasse amiga de Jasmim, muito provavelmente poderia vir a se tornar tão bem sucedida quanto ela mais cedo do que supunha.

O horário de almoço nunca era o mesmo. Os diretores não viam problema nenhum em trabalhar por horas e horas a fio, e quando se empolgavam com algo que viam, estendiam o treino de determinada cena por quanto tempo mais achassem necessário, mesmo que o som de estômagos roncadores fosse capitado não só pelos ouvidos de quem sentia fome, mas também pelos microfones que os atores portavam. Portanto, especialmente naquele dia, quando Rachel foi se encontrar com Jasmim, já era bastante tarde.

O dia estava nublado e escuro, apesar de ainda ser cinco horas da tarde. Talvez estivesse prestes a chover. As luzes da rua já estavam acesas e os comércios começavam a chamar atenção. Jasmim era relativamente famosa no meio do teatro, mas os nova iorquinos não eram do tipo que gostavam de mostrar admiração por gente famosa quando elas andavam na rua – achavam que esse tipo de coisa atrapalhava suas rotinas super aceleradas –, então, lado a lado, ela e Rachel caminharam tranquilamente e em silêncio até o Burger King mais próximo, um que já estava relativamente cheio mesmo naquele horário.

Jasmim era uma mulher incrivelmente bela. De pele clara, levemente rosada, olhos claros, azuis, e cabelos castanhos, destacava-se facilmente naquela multidão de gente comum. Mesmo Rachel não era um destaque como ela. Talvez isso explicasse o porquê de Jasmim ser uma estrela e ela não.

Jasmim pediu um Whopper duplo com queijo e um copo de Coca Cola. Rachel foi mais modesta: um lanche de pão integral e frango, mas sem o frango, por ser vegetariana, e um copo de água. Não achava uma boa ideia comer tanto quando tinha tantas horas de cantoria para enfrentar ainda. Aliás, lhe era um verdadeiro motivo de espanto a escolha de Jasmim que, magra como era e como deveria se manter, não poderia se dar ao luxo de um lanche tão gordo em horário de trabalho.

– Fico feliz que tenha aceitado o meu convite – Jasmim começou a dizer, não dando a mínima para o seu lanche, enquanto Rachel, que estivera faminta há boas horas, já mordia o seu segundo pedaço.

– Eu é que fico feliz por você ter me convidado – Rachel replicou, sem mentir.

– Eu precisava conversar com alguém sobre as coisas que têm se passado na minha mente antes de... Antes de fazer o que pretendo fazer.

– Precisa de conselhos?

– Não necessariamente. Preciso de alguém que ouça o que eu falo, e não o que canto. Você deve entender.

– Entendo...

Jasmim voltou-se para o lanche e o abriu. O cheiro vindo dele embrulhou o estômago de Rachel, que quase cuspiu o pedaço que acabara de morder do próprio lanche. Como as pessoas podem comer isso? Os direitos de pelo menos metade dos seres vivos do mundo foram violados só para que esse lanche fosse fabricado!

Jasmim levou o hambúrguer à boca e arrancou um pedaço. Suspirou como se tivesse recebido um beijo apaixonado, os olhos fechados como se o corpo tivesse entrado em transe.

– Há muitos e muitos anos que não como um desses – informou enquanto limpava a boca. – Se esses lanches são a morte em formato de alimento, eu nunca vi uma morte tão saborosa!

– Mas Jasmim...

– Eu sei o que você vai dizer. Eu não deveria estar comendo isso. Um lanche tão pesado fará a minha barriga aparecer e a quantidade de gordura que há nesses dois bolos de carne sobrepostos, assim como nas fatias de queijo, é tão grande que poluirá não só o meu estômago, mas a minha garganta e cordas vocais também. Não vou cantar com tanta afinação depois de comê-lo. Posso ficar rouca e, o que é pior, sonolenta por conta do meu metabolismo. Sei de todas essas coisas.

– E por que continua, Jasmim? Você é a estrela do espetáculo.

Jasmim riu antes de dizer:

– Continuo porque já não dou mais a mínima para essas coisas.

Rachel sentiu medo. Algo no modo como Jasmim falava denunciava que aquela não seria uma conversa casual qualquer entre possíveis amigas.

– Eu estou noiva de um homem que amo muito – a estrela voltou a falar.

– Ouvi falar a respeito.

– Ele me pediu em casamento antes de eu descobrir que faria parte da peça. Lembro-me do momento, fiquei feliz como uma garota que ganha um presente, tão ou até mais feliz do que quando descobri que faria parte dessa peça. Combinamos que nos casaríamos depois que a primeira temporada de O Fantasma da Ópera terminasse, daqui a dois anos, e então eu desistiria do papel para cuidar do matrimônio. Ele concordou, sabe o quanto importante é para mim estar no palco.

– Imagino que vocês se amem muito.

– Eu o amo incondicionalmente. Daria a minha vida e desistiria de tudo por ele.

Rachel pensou inconscientemente em Finn. Incrível como mesmo a lembrança da imagem dele era capaz de preenchê-la com calor.

– Ele se acidentou gravemente um tempo atrás – Jasmim continuou. – Acidente de carro envolvendo um motorista bêbado. Foi levado ao hospital às pressas por um amigo que tinha uma van. Os médicos fizeram o que foi possível para mantê-lo vivo e conseguiram. Ele está vivo hoje e em casa. Eu não sei o que faria se não o tivesse mais ao meu lado.

Rachel sorriu com simpatia e empatia. Achava incrível que uma mulher que admirava tanto e com a qual pouco conversara nos últimos dias estivesse falando de um assunto tão pessoal com ela, em uma situação totalmente informal, longe do profissionalismo que envolvia as oficinas de teatro.

– E agora ele precisa muito da minha ajuda – Jasmim continuou. – Quer dizer, fica em casa o dia inteiro, deitado, não consegue andar e tem uma dificuldade tremenda para movimentar os braços. Não consegue se alimentar e nem tomar banho sozinho. Precisa de ajuda para tudo. Os médicos dizem que a fisioterapia feita no hospital, e também os exercícios que ele indicou para serem feitos em casa, podem ajudá-lo a recobrar os movimentos, mas que esse é um processo lento. Muito lento, Rachel. A recuperação será gradativa, mas ele precisa de toda a ajuda para fazer qualquer coisa, mesmo as coisas mais simples. Se ao menos estivesse conseguindo falar com clareza...

– Eu sinto muito, Jasmim – disse Rachel e, antes que pudesse evitar, estava segurando a mão de Jasmim, que estava fria e suada.

– Obrigada.

– Se houver qualquer coisa que eu puder fazer para te ajudar, por favor, não hesite em pedir. Estou aqui para te auxiliar no que for preciso.

– Obrigada mais uma vez, Rachel. Você pode me ajudar, sim, e ainda vou te dizer como.

– Por favor.

Jasmim desprendeu a própria mão e a usou para agarrar o hambúrguer. Arrancou dois, três pedaços e mastigou em silêncio, fitando um ponto indeterminado do chão do estabelecimento. Quando a boca parou de trabalhar, voltou a falar:

– Eu estava pagando uma pessoa para cuidar dele, uma enfermeira especialista nesse tipo de caso. Ela o ajudou muito. Dava a comida nos horários certos, assistia televisão com ele, o ajudava a fazer os exercícios e inclusive dava banho nele enquanto eu estava fora. Ele uma vez me disse que odiava quando ela dava banho nele, porque se sentia inútil, incapaz e vulnerável. Disse isso com senso de humor, é claro, porque ele, assim como eu, estava muito mais do que grato pela ajuda que essa enfermeira estava nos oferecendo. Mas agora ela não pode mais trabalhar para a gente.

Por um momento, Rachel achou que tivesse entendido o porquê daquela conversa: Jasmim queria pedir a ela que desistisse do teatro e que tomasse conta de seu marido. Proporia um pagamento interessante, maior do que a quantia irrisória de dólares que a oficina pagava, e diria que ficaria muito mais do que agradecida se Rachel aceitasse a oferta.

A frase seguinte de Jasmim, entretanto, derrubou todas as conclusões precipitadas que ela tomara até ali.

– Estamos ficando sem dinheiro. – Apesar de a frase em si ter sido triste, Jasmim sorriu. – Tenho umas economias acumuladas a partir do que ganhei com a última temporada da peça que fiz, mas os gastos com médicos nesse país são muito caros. O meu noivo não pode trabalhar e eu estou aqui fazendo o possível para conseguir tornar a peça um sucesso para então começar a ganhar a mais quando finalmente estivermos no palco, em exibição. Tenho certeza de que os investidores aprovarão essa montagem, pois O Fantasma da Ópera é e sempre será um sucesso de público, por ser um clássico, então essa é uma fonte de renda com a qual eu poderia contar.

– Sim, Jasmim! Acredite nisso! Eu acredito! Só precisamos terminar mais essas semanais finais de oficina e então a montagem finalmente vai ficar pronta! Só mais alguns dias e tenho certeza de que o seu excelente trabalho será muito bem recompensado! Você é perfeita!

Jasmim riu antes de dizer:

– Eu não tenho todo esse tempo, Rachel. Nem o meu noivo tem.

Rachel franziu o cenho, confusa.

– Ele precisa de mim – Jasmim prosseguiu –, e precisa agora, hoje, amanhã e depois de amanhã ainda precisará. Precisa de alguém que o alimente e que dê banho nas horas certas. Acredito que, pelo menos comigo, ele vai se sentir mais à vontade para isso. E também precisa de alguém que se dedique a levá-lo ao hospital nas datas e horários de consulta, que faça com ele os exercícios de fisioterapia que o médico indicar e que lhe faça companhia para que ele não se sentia sozinho no mundo só porque um idiota qualquer o atropelou por dirigir bêbado. – Jasmim secou uma lágrima com uma das mãos e fitou Rachel com seriedade ao dizer: – Ele precisa de alguém que faça tudo isso por ele, que esteja disponível para ele o dia inteiro e que faça isso de graça e com amor. Ele precisa da sua noiva ao seu lado. – Jasmim deu de ombros e concluiu: – Ele precisa de mim.

Rachel apertou os olhos e fechou os punhos com força enquanto tentava entender o que acara de ouvir.

– Você está pensando em deixar a peça – disse em voz alta.

– É o mais prático que posso fazer agora.

– Mas Jasmim...

– Nada do que você disser pode me fazer voltar atrás. Não seja egoísta e não faça de conta que você não entende o quanto o meu futuro marido precisa de mim.

– Mas então por que você está me contando isso?

Jasmim voltou a agarrar a mão de Rachel quando disse:

– Porque eu quero que você me substitua como Christine em O Fantasma da Ópera, Rachel.

Rachel recebeu a oferta com menos alegria do que achou que receberia quando o dia em que a oportunidade de ser a estrela de um espetáculo finalmente chegasse. Não era com um clima mórbido como aquele que era para acontecer, era?

Notas finais
meu deus, a música nova da lea michele