When You Came To Me
24 Escrito Nas Paredes
Quinn segurava o pênis de Sam em uma das mãos e o massageava de cima para baixo em um ritmo lento que não tinha por objetivo fazer com que o homem ejaculasse, mas sim mantê-lo ereto, excitado e interessado em permanecer na cama. Quinn conhecia bem a mente de um homem depois que terminava o sexo; se não avisava que estava cansado demais e que precisava dormir – em alguns casos, ele simplesmente se virava para o lado e dormia, sem aviso nenhum –, ele se levantava, sem se dar ao luxo de vestir pelo menos a roupa de baixo, e se dirigia à cozinha, onde procuraria qualquer coisa com gordura para comer e preencher o vazio que antes era preenchido pelo desejo do corpo de uma mulher. Talvez a estratégia de Quinn estivesse surtindo o efeito esperado, pois, até então, Sam não demonstrara a menor vontade de se levantar ou de dormir. Com a cabeça pousada nos braços cruzados, ele fitava aquele teto que um dia fora branco, mas que hoje era coberto por uma sombra esquisita, negra como uma contaminação, oriunda de algum vazamento do passado, em silêncio, talvez pensando no que dizer a seguir. Os lábios, entretanto, permaneciam selados e imóveis, o que, por algum motivo, provocava em Quinn a vontade de beijá-los. Só não os beijara ainda porque tinha medo de atrapalhar qualquer que fosse o devaneio que tomava conta dos pensamentos do homem.
Já passava da meia noite. O encontro começara com um chá fraco, muito mal preparado por Sam, acompanhado de biscoitos que só eram bons porque foram feitos por uma indústria, e não pelas mãos lindas, mas inexperientes de Sam. Conversaram pouco, o que Quinn associou ao fato de o homem estar constrangido, algo pelo qual ela não o julgava – Sam estava no seu direito de se sentir assim. Quinn não falara frases sugestivas, pois não queria forçar nada; depois de tudo o que fizera, era direito de Sam escolher se queria ou não levá-la para a cama naquela tarde. Foi preciso uma hora de conversa e esclarecimentos para que ele finalmente a convidasse para ir ao quarto, sob o pretexto de mostrar a casa, fora o que dissera. Quinn esperara que ele virasse as costas para sorrir como uma criança que sabia que seria presenteada com aquilo que mais desejava.
Sam a perdoara. Quer dizer, Quinn nunca achou que precisasse realmente de um perdão – uma desculpa concedida seria mais do que suficiente –, mas ele disse que a perdoava. A perdoava por usá-lo como objeto sexual, e então ela justificou que só agira assim porque, bem, Sam era o objeto sexual do sonho de muitas mulheres, inclusive dela própria, mas garantiu que poria fim a esse pensamento, a essa impressão, e que passaria a vê-lo como a pessoa que ele era. Sam demonstrou gratidão, mas não pareceu de todo convencido. Quinn se sentiu obrigada a jogar naquela cara linda, branca, que ostentava aqueles belos olhos azuis e aquela cabeleira loura e bagunçada que ela desistira de todo o glamour da vida em Nova Iorque para viver como uma entregadora da UPS naquele fim de mundo chamado Lima, lugar em que crescera e do qual fugira quando se tornara adulta, porque tinha certeza de que ficar ao lado dele era o que ela mais queria na sua vida. Claro que uma afirmação como aquela parecia um absurdo, vinda de uma mulher que o conhecia há poucos meses, e ela tinha plena consciência disso, mas era por conta daquilo que não entendia, de fatos dos quais não tinha consciência alguma, que viajara até Sam. Há coisas que só podem ser sentidas, jamais explicadas ou escritas, e Sam devia saber do que ela estava falando. Ele garantiu que sabia, e a beijou com mais ternura. A essa altura da conversa, já tinham terminado o sexo pela primeira de uma série de três vezes que foi concluída antes de a meia noite chegar. Quinn gozara em todas elas.
Agora, estavam deitados lado a lado como se já se conhecessem desde muitos anos. Sam se sentia à vontade na companhia de Quinn, o pênis ereto como se estivesse pronto para outro round, e ela se sentia completa ao seu lado. Antes daquilo, tinha uma noção vaga do que era se apaixonar por alguém, e na verdade achava que isso nunca fosse acontecer com ela. Mas acontecera, agora tinha certeza. A falta que sentira de Sam, mesmo que pouco tivessem conversado durante todo aquele tempo, era algo que ela não desejaria nem ao seu inimigo mais mortal. Fora sofrível, algo pelo qual ela esperava jamais ter que passar novamente. Às vezes, é preciso perder alguém por inteiro para perceber como ela faz falta.
O celular de Quinn, que estava perdido em um amontoado confuso de roupas pardas no chão, os uniformes masculinos e femininos da UPS, tocou uma música longínqua, abafada pela quantidade de tecido que a separava da atmosfera. Quinn não teria pensado em atendê-lo se, a julgar pelo horário, não pensasse que poderia ser algo importante. Sam não pareceu se importar quando ela largou o seu pênis e, nua, caminhou pelo quarto até onde as roupas estavam largadas. Continuou sozinho o que antes ela fazia, motivado e inspirado pelas belas curvas do corpo de Quinn, pela maneira como ela parecia à vontade, sem pudor nenhum, exibindo seios firmes e livres e pernas grossas diferentes da maioria das pernas das americanas, que costumavam ou ser finas demais ou grossas pelos motivos errados.
Quinn apanhou o celular e, ao ver o nome exibido na tela, franziu o cenho, preocupada.
– Quem é? – Sam perguntou. – Problema?
– Ou não – Quinn respondeu enquanto o nome de Finn piscava na tela do celular. – Pode ser a solução. Alô?
– Quinn? – disse a voz rouca e distante de Finn. Havia um quê de desespero no modo como ele falava. – Eu não sabia a quem mais recorrer. O que está fazendo em Lima?
– Como é que você descobriu que eu estava em Lima?
– Os registros da organização são bem mais vastos do que você imagina. Descobri rapidamente que você um dia morou em Lima, então, quando disse que ia desistir do emprego para ir atrás de um amor, pensei que iria para o lugar onde o seu primeiro amor estivesse.
– Um pensamento prático, típico de um homem, que te levou ao sucesso, mas que também foi presunçoso. Você teve sorte dessa vez, mas apenas dessa vez. – Sacudiu a cabeça em negativa para Sam quando ele questionou o que estava acontecendo. – Diga logo o que quer.
– É sobre a Rachel.
– O que te leva a pensar que eu sei alguma coisa sobre ela?
– Vocês conversavam bastante, saíam para almoçar juntas, faziam o horário do café juntas, trocavam mensagens por Skype.
– Coisas que colegas de trabalho fazem corriqueiramente, o que não significa que sejam amigos do peito.
– Mas, hoje, percebo que qualquer pessoa no mundo sabe mais sobre a mulher que eu amo do que eu mesmo. Por que deixei isso acontecer?
– Porque você é um homem?
– Ou será que foi porque sempre acreditei que um homem de sucesso é aquele que consegue fazer enormes quantias em dinheiro antes de completar trinta anos?
– Você é esse tipo de cara?
Finn hesitou antes de assumir:
– Fui. No passado.
– Passado de um dia atrás?
– Passado que terminou quando a mulher que eu amo deixou de tomar a mesa em frente ao meu escritório. Ela fugiu de mim.
– Fugiu porque você foi um idiota, imagino. – Como eu fui, Quinn incluiu em pensamento. Engoliu em seco.
– Preciso de qualquer notícia do seu paradeiro. Qualquer sinal. Nunca a encontro em casa, o que me leva a supor que ela ainda está fugindo de mim.
– Você não tem o costume de caminhar pelas ruas de Nova Iorque, tem?
Finn provocou um instante de silêncio. Quinn conhecia bem o tipo de homem que Finn era, alto, preguiçoso, corpulento e que dificilmente andava pelas ruas fora das proteções da lataria de um carro caro.
– Basta um olhar em direção às paredes de qualquer bar ou lanchonete de Nova Iorque – Quinn prosseguiu. – Estão anunciando uma montagem off-Broadway de O Fantasma da Ópera. A Rachel conseguiu o que qualquer outra aspirante a cantora de teatro do mundo sempre sonha em ter: o estrelato. Ela vai estrelar a peça como Christine.
– C-Como é que você sabe de tudo isso?
Sam surgiu às costas de Quinn e a agarrou pela bunda, explorando-a e aprofundando a mão até encontrar a entrada da vagina. Quinn perdeu o raciocínio por um instante e revirou os olhos. Suspirou.
– Quinn?
– Há pôsteres espalhados por Nova Iorque – ela disse de uma vez, com pressa, como uma frase decorada. – Você devia aprender a apreciar mais aquilo que está próximo a você, oh, meu Deus!
Mais uma vez, Finn hesitou antes de dizer:
– Você tem razão. Está tudo bem por aí?
– Me ligue em outro horário quando um surto de loucura como esse te tomar novamente. Até mais, Finn.
– At... – Quinn desligou antes que Finn tivesse a chance de se despedir.
Mas não podia ser julgada. Sam queria começar mais um round e ela estava cheia de vontade daquele homem. De qualquer modo, Finn Hudson nem era mais o seu chefe.
~//~
Finn jogou o celular desligado ao seu lado, na cama, e se voltou para a tela do notebook, que repousava sobre suas pernas. Ouvira falar alguma coisa sobre como era perigoso usar equipamentos como aquele sobre as pernas, algo que envolvia infertilidade ou coisas do tipo, mas no momento isso não parecia ter importância. O quarto, mergulhado em escuridão, selado em todas as suas oportunidades de abertura, o que incluía a porta para o corredor, a porta para o banheiro e a única e enorme janela para a rua, parecia exigir que ele tomasse alguma atitude em relação à sua vida, nem que deixasse de dormir aquela noite para isso. Tinha uma reunião no trabalho que começaria logo cedo, dali a aproximadamente sete horas, mas não teria cabeça nem para dormir e muito menos para reger uma reunião enquanto não soubesse o que fazer em relação a Rachel.
Mas Quinn abrira os seus olhos e comprovara o que ele já sabia: qualquer pessoa no mundo sabia do paradeiro de Rachel, menos ele. Uma mulher sabia se esconder muito bem quando sentia essa necessidade, e Rachel fora muito mais do que bem sucedida quando decidira nunca mais encarar Finn nos olhos, depois da conversa imbecil que ele tivera com ela naquele tal de restaurante chamado Breadstix. Ela, ao contrário dele, devia ter um autocontrole muito bom, senão já o teria procurado. Ou vai ver ela não o amava mais.
Apagou a última hipótese da cabeça e abriu a página do Google no navegador. Pesquisou por “O Fantasma da Ópera off-Broadway” e chegou a um hot-site simples, meramente informativo, sem animações nem nada, apenas com textos e imagens, algo que podia perfeitamente estar sendo exibido em uma revista ou nos pôsteres de que Quinn falara. No centro de tudo, havia um homem mascarado, vestido de preto, com o cabelo estranhamente lambido para trás. Ao lado dele, abraçada a ele e sorrindo com uma alegria que partiu o coração de Finn, estava Rachel, mas os seus cabelos estavam cacheados, o que não a deixou mais bela, porque, para Finn, Rachel era bonita de que qualquer jeito.
Torceu para que ela estivesse encenando aquela felicidade, porque se ela estivesse tão feliz quanto aquele cartaz demonstrava, significava que ela o superara melhor do que ele desejava. E se o superara, bem, as chances de já estar compromissada àquela altura eram enormes, porque Rachel não era o tipo de mulher que passava em branco na multidão. Ela era bonita e, ao que parecia, talentosa também. Era atraente em qualquer um de seus aspectos.
Finn comprou ingressos para a primeira fileira do teatro – só não comprou o assento do meio porque esses já estavam ocupados –, no canto. Assistiria Rachel de perto. Procurou por opções de meet-and-greet, mas não havia isso por lá. Não seria no camarim que ele a veria, então. Teria que esperar a peça terminar para abordá-la. Mas, para quem esperara por tanto tempo, esperar mais duas horas de peça não era nada.
Você está tão perto, Rachel, ele pensou quando já tinha os ingressos impressos na mão. Mas por que eu sinto como você estivesse distante, na verdade?
Abriu uma nova aba no navegador e procurou por floriculturas no Google. Encontrou várias páginas sobre o assunto. Abriu umas cinco. Estava em busca de um buquê de flores que fosse mais chamativo do que aquele que enviara a Rachel pela primeira vez, e de preferência um que fosse caro.
Encontrou um perfeito e fez a compra também, agendando a entrega para um dia antes da estreia da peça, que seria na sexta-feira da próxima semana. Sentiu o coração subir à garganta. Nunca estivera tão ansioso em toda a sua vida.
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