When You Came To Me
25 A Estreia - Parte 1
A esquina em que ficava o teatro em que a montagem off-Broadway de O Fantasma da Ópera seria encenada dividia atenção com uma floricultura, uma loja de presentes e com uma banca de jornais que, com o tempo, parou de ser tão frequentada – culpa da era digital –, e que agora dava os primeiros indícios de se transformar em uma banca de doces apenas. Durante a noite, entretanto, esses estabelecimentos estavam todos fechados, exceto o teatro, que era o primeiro a abrir quando o sol se punha. Por conta da estreia, a calçada, que não tinha mais do que um metro e meio de largura, estava cheia de gente, entre possíveis espectadores que ainda não tinha comprado os seus ingressos, os espectadores que já tinham comprado os seus ingressos, fotógrafos que pareciam acionar flashes por razão nenhuma e uma ou outra companhia de rádio com os seus gravadores, falando com ninguém em especial. Talvez houvesse blogueiros especializados em musicais por ali também, mas eles se confundiam entre as demais pessoas. Uma coisa que todos tinham em comum era o fato de estarem em torno de uma cerca que fora improvisada até a entrada lateral do teatro, por onde entraria o elenco, uma simulação mais humilde de um tapete vermelho, mas uma tradição bastante comum em estreia de musicais.
No meio daquela multidão, estava Quinn Fabray e seu companheiro, Sam Evans. O fato de estarem ali era justificado pela vontade da mulher, e não do homem – Sam nunca fora ao teatro e, até então, não tivera vontade nenhuma de ter essa experiência. Quinn até gostava do teatro, mas naquele dia a sua vontade era a de ver sua antiga secretária, aquela mulher mirrada, pequena, de nariz grande, atuar. Era uma experiência que ela jamais perderia, mesmo que tivesse que abandonar por um dia sua nova casa em Lima e arrastar o seu namorado – Sam aceitara facilmente ser chamado assim, depois de uma semana inteira em que todas as noites foram preenchidas por momentos em que os dois se relacionavam com corpos despidos – consigo. Agora, ela ansiava pelo momento de ver Rachel e de ela dar a entender que a conhecia na multidão. Causaria inveja em todos e, para Quinn, aquilo seria realizador, conhecer uma verdadeira artista.
– Estou morrendo de calor. Tem certeza de que usar um terno foi uma boa ideia? – perguntou Sam às suas costas, unido a Quinn pela mão.
– Dê uma olhada ao redor, Sam. É uma noite de gala. Sentir esse calor todo é parte da tradição.
Quinn se encontrava em um vestido vermelho e comprido sem brilho, mas elegante. O cabelo fora amarrado em um coque no alto da cabeça. Era uma das primeiras pessoas agarradas à cerca, a pouquíssimos passos de onde parte do coro passava, atores ou dançarinos que ninguém conhecia, mas gente incrivelmente simpática, o que talvez eles considerassem uma boa estratégia para burlar o anonimato que a falta do estrelato lhes empregava. Quinn sorria para todos eles, mas não fazia mais do que isso. Sam suspirava, impaciente, vez e outra às suas costas.
– E eu que jurava que nunca mais voltaria à Nova Iorque... – ele dizia. – Ei, rapaz, o que é isso?!
– Quinn, preciso falar com você! – uma terceira voz disse, depois de Sam ser praticamente forçado a largar a mão de Quinn.
– Finn?! – a mulher se surpreendeu. Finn vestia um terno muito semelhante ao de Sam, mas com um brilho que deixava claro que aquele, diferentemente do Sam, não fora um conjunto alugado, mas algo provavelmente exclusivo. – O que você está fazendo aqui?
– Você me disse que ela estaria nessa peça.
– Eu disse mesmo, mas estou me referindo a você estar aqui, ao meu lado. O que está acontecendo?
– Eu não consigo ver a Rachel em nenhum lugar.
– Quinn, esse cara está te causando problema? – Sam disse, surgindo por trás da montanha que era Finn.
– Não, esse é o meu antigo chefe, não vai causar problema. – Voltando-se a Finn, Quinn continuou: – Saiba de uma coisa, Sr. Hudson, você e todas essas pessoas que estão ao seu redor estão querendo ver a Rachel agora. Se o que você pretende é fazer alguma surpresa amorosa para ela, o momento não é esse. – De repente, uma grande explodiu na multidão. – Oh, meu Deus, quem vem aí?!
Todos os rostos se voltaram para o Cadilac preto que acabara de estacionar em frente ao tapete vermelho. Dele, surgiu um homem loiro, também de terno negro, um com um rosto infantil demais para parecer um homem maduro, mas com uma presença de espírito que chegava a ser espaçosa. Quinn não o conhecia, mas, a julgar pelo furor que causara, talvez aquele fosse o ator por trás do Raoul. Ou o próprio Fantasma da Ópera.
– Ninguém importante – disse Quinn e se voltou para Finn. – Eu não acho que você vai conseguir mais do que uma foto se ficar por aqui esperando pela chegada dela, Finn. Entre no teatro. Compre alguma coisa para beber. Tome o seu assento. Tente abordá-la quando ela estiver indo embora do teatro. A multidão a ser vencida será bem menor.
A gritaria voltou a acontecer. Quinn girou nos calcanhares. Sam proferiu um palavrão. O táxi que acabara de estacionar fora o que deixara Rachel entrar na área do tapete vermelho. Vestida com um vestido rosa claro, simples, mas com um penteado bem peculiar, lembrando alguma daquelas antigas divas da Broadway, e com muito mais maquiagem no rosto do que Quinn se lembrava de tê-la visto antes, Rachel estava estonteante. Distribuiu simpatia pela plateia. Sorriu para todos e para ninguém em especial. Acenou. Parecia feliz, mas não inteiramente. Aquela deveria ser uma ocasião especial, não? Quinn gritava o seu nome, mas não era a única. Rachel parou um instante no tapete vermelho, com as mãos na cintura, e então seguiu caminho, passando pela mesma porta que o ator loiro entrara. Sumiu da vista de todos.
Quinn voltou-se para Finn mais uma vez. O homem tinha o queixo no chão.
– Eu me lembro dessa mulher – disse Sam, com um ar distante. – Ela era secretária em algum lugar em que eu fazia entregas...
– Finn, estou torcendo por você hoje – disse Quinn. – Mas entre lá. Assista à peça. Não vai conseguir mais do que esse relance dela por enquanto.
Finn assentiu com a cabeça e sorriu de lado. Acariciou Quinn na altura do ombro e se virou. Agradeceu pela ajuda e sumiu na multidão.
– Eu nunca achei que pudesse caber tanta gente assim em um mesmo lugar – Sam comentou. – Os Estados Unidos inteiro deve estar aqui hoje.
– Não exagere, Sam. Vamos tomar o nosso lugar. O balcão A já deve estar cheio a essa altura.
~//~
Tudo aconteceu muito rápido para Rachel. Acordara cedo naquele dia, mas de repente já era o horário do almoço, momento em que ela se forçara a comer alguma coisa, mesmo sem sentir apetite nenhum. Depois disso, já eram quase cinco horas da tarde, a quatro horas de o espetáculo ter a sua estreia. Ela comprara um vestido simples em uma loja de departamento qualquer, mas também se dera ao luxo de ir a um cabeleireiro mais chique e caro, esperando desviar a atenção da vestimenta barata para o seu rosto. Quando seu horário no cabeleireiro teve fim, a estreia para a peça já batia na sua porta há algum tempo. Não podia se atrasar: no meio do teatro, isso não era elegante. Vestiu-se com pressa e tomou um táxi para o local. Enfrentou o tapete vermelho com um sorriso trêmulo e com pernas que não pareciam querer obedecê-la. Uma vez dentro do teatro, correu para o seu camarim, e só então se deu conta do que estava prestes a enfrentar.
Precisou de ajuda para retirar a maquiagem, desfazer o penteado e então encaracolar os cabelos. As mãos tremiam. Não tinha coragem de encarar o próprio rosto no espelho. Aquela estreia devia ser algo animador, não devia? Por que ela se sentia tão tensa então?
Ouviu a primeira chamada para a peça: faltavam quinze minutos para a estreia. O coração subiu à garganta em um salto. Proferiu um palavrão que a maquiadora ouviu e achou engraçado.
– Sei o que você está sentindo – ela tinha dito. – Só não passe mal como muitas outras estrelas que vi fazer isso. O vômito pode deixar suas cordas vocais comprometidas.
Rachel não sentira vontade de vomitar até a maquiadora lembrá-la disso. Quando a ânsia pareceu querer irromper de uma vez por todas pela garganta, não havia mais tempo para ataques de nervosismo: o comentarista anunciou que a peça estava prestes a começar. Os avisos de segurança eram anunciados por uma atriz de voz aguda, a que faria o papel de Meg Giry no seu lugar.
– Você precisa ir – disse a maquiadora.
– Rachel, você precisa vir! – disse um homem de headset que surgiu na porta do camarim.
Eu preciso ir, Rachel pensou. Não foi por isso que eu esperei a minha vida inteira?
Rachel vestia roupas bastante extravagantes em tons de verde, vermelho e amarelo. Aguardou, ao lado de outras mulheres vestidas como ela e com o visual muito parecido com o dela, no backstage enquanto as primeiras cenas eram encenadas e enquanto a primeira sinfonia tomava conta do teatro. Muitos desejavam boa sorte a ela, e ela desejava o mesmo de volta. Quando menos pôde esperar, era a sua hora de entrar.
E ela entrou.
Cantou e fez passos de balé pelo palco, sincronizados com os de outras dançarinas, como parte do então coro. Sorria com simpatia. Os holofotes e as palmas a animavam. Um relance da plateia, que estava lotada, provocou sua animação com uma intensidade como ela jamais se lembrava de ter sentido antes. Estava na Broadway, recebendo a atenção de centenas de pessoas. A vida não a preparara para tão grande emoção. Enquanto forçava aquele sorriso, enquanto a voz cantava a ópera, ela sentia vontade de chorar de tão grande emoção. Até quando conseguiria segurar as lágrimas? Até quando?
Meu Deus, até quando?
– A Christine pode cantar – disse Meg Giry e agarrou a mão de Rachel, acordando-a do devaneio. Rachel, preste atenção no que está fazendo! – Ela conhece a canção.
A Carlotta já deixou o palco. Eu terei de cantar “Think of Me”.
– Uma garota do coro...? – zombou o rapaz que atuava como o dono da Ópera.
– Christine foi bem ensinada – disse Madame Giry em seu tom enérgico.
E de repente Rachel estava no centro do palco. O espanto que tomou o seu rosto era real, mas era perfeito para a encenação, uma vez que Christine precisava demonstrar medo pela frente do palco. Rachel olhou para trás, como ensaiara tantas outras vezes, mas aproveitou a deixa para procurar força. Engoliu em seco. Ouviu os primeiros acordes de “Think of me”. Engoliu em seco novamente. Olhou para a plateia. Meu Deus, quando foi que essas centenas de pessoas se tornaram milhares?
Não há volta. Eu esperei por isso. Esse é o meu momento.
Começou a cantar.
“Think of me
Think of me fondly
When we’ve said goodbye”*
Desafinou no final do último verso. Era parte do combinado. Ouviu a bengala de Madame Giry bater no chão. Obrigou-se a seguir adiante. O seu eu confundia-se com o de Christine nesse momento.
“Remember me once in a while
Promise me you’ll try”**
Passou pelas costas o lenço que segurava. A tensão da plateia podia ser sentida em sua própria pele.
“When you find that once again you long to take your heart back and be free
If you ever find a moment
Spare a thought for me!”***
A orquestra ficava mais intensa. O coração de Rachel deu um salto no peito, parecendo querer rompê-lo. Houve vozes gritando ao redor, parte delas vindas do elenco, parte do público, mas Rachel não conseguia diferenciá-las. Tinha que trocar o vestido, e isso diante da plateia. Mãos a apalpavam. Em poucos segundos, estava vestida como Carlotta minutos atrás. E tinha que cantar novamente.
“We never said our love was evergreen
Or as uncharging as the sea
But if you can still remember
Stop and think of me”****
Porque eu tenho a impressão de que você está cantando para mim, Christine?, Rachel permitiu-se pensar durante uma pausa entre os versos. Essa música não fala sobre Christine ou sobre quem quer que ela esteja encenando, mas sobre mim e Finn. Céus, como isso é possível?
Raoul cantava em algum lugar. Rachel girava com o seu lenço. Distribuía sorrisos aos cantos. Estava sozinha no palco. Como podia se sentir tão segura?
“Flowers fade, the fruits the Summer fade,
They have your seasons so do we
But please promise me that
Sometimes you will think of...”*****
Rachel encarou a plateia. Franziu o cenho por um instante, estranhando todos aqueles olhares sérios na sua direção. O que eles esperavam, afinal?
Rachel deveria praticar um solo com a voz. Começou-o. Oscilou notas. Fez pausas. Encarou a multidão. Esticou os braços. Subiu um pouco do tom e tornou a abaixá-lo. Abaixou o olhar também.
Encontrou Finn na primeira fileira.
A voz de repente não queria mais sair.
Rachel sentiu a pressão da orquestra, esperando que ela desse um pequeno sinal que fosse de que eles poderiam explodir com as notas mais intensas junto com o seu vibrato mais alto. Mas Rachel de repente não sabia mais como fazer isso. O olhar, sem brilho, permaneceu alguns instantes parado no homem na primeira fileira. Os braços penderam para os lados. O lenço que segurava foi ao chão. Finn derramou uma lágrima – uma simples lágrima –, mas havia holofotes suficientes voltados na sua direção para fazer aquela pequena e singular lágrima parecer um diamante despejado do olhar. Por que ele está chorando?, ela pensou e engoliu em seco, o teatro ainda perturbado pelo silêncio que ela provocava, a expectativa tão grande que podia ser tocada e apanhada no ar.
Por que ele está aqui?
– Rachel, finalize a canção, rápido! – uma voz mecânica disse ao seu ouvido.
– Certo – ela disse e a palavra ressoou para todo o teatro. O microfone não deixaria escapar nem o menor dos seus sussurros, e ela sabia disso.
Desviou o olhar de Finn.
Retomou o seu solo com uma nota mais grave, a mesma com que o interrompera. Tomou fôlego. Subiu para uma nota muito mais alta do que qualquer outra que cantara até ali, e foi então que a orquestra explodiu em seu encalço. Parte da plateia saltou espantada.
“...of me!”******
Houve aplausos.
Houve muitos aplausos.
Rachel ajoelhou-se diante da plateia e simulou um abraço que englobava todo o teatro.
O som dos aplausos não parecia afetá-la. Rachel sempre pensara que sentiria arrepios quando esse momento chegasse, mas não sentia o menor sinal de cócegas em qualquer parte do corpo.
Talvez fosse porque, num súbito, seu desejo não fosse mais receber aplausos.
O que Rachel queria era Finn, do jeito como sempre quis, e essa vontade, por si só, conseguira tingir tudo com desimportância. Mesmo o glamour do teatro. Conseguira afastar a importância dos aplausos. Conseguira afastar a paz de espírito que ela conseguira alcançar ao finalmente se tornar a estrela de uma peça.
Não posso mais olhar para ele, ela pensou. Não posso. Não depois de tudo o que ele fez. Não depois de tudo o que ele está me fazendo. Você arruinou a minha vida uma vez, Finn, mas não vai fazer o mesmo novamente. Não agora!
NÃO AGORA!
Rachel seguiu em frente com a peça. Tinha um trabalho a concluir e supôs que não dar atenção a uma antiga paixão, ignorando principalmente o fato de Finn ter sido ousado o suficiente para comprar uma das primeiras cadeiras do teatro para assistir à peça, fosse diminuir a influência que ela tinha sobre ela.
Mas estava enganada.
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