When You Came To Me
26 A Estreia - Parte 2
A peça acabou. As luzes se apagaram todas de uma vez, exceto a que mostrava o rosto de Meg Giry. Houve novamente uma salva de palmas e, ainda que aquela fosse a nona ou a décima salva de palmas que Rachel ouvia naquela noite, ela ainda era capaz de sentir arrepios diante daquela. Quando até a luz do rosto de Meg Giry foi apagada, todo o elenco se encontrou nos bastidores para trocar vivas e urras, elogios, abraços e beijos. Rachel parabenizava cada uma das pessoas que a abordava, com um sorriso largo e verdadeiro que ela não conseguia conter. A sensação de que fizera a coisa certa naquela noite nunca fora tão intensa. Como podia uma secretária medíocre de uma empresa de eletrônicos qualquer de repente se tornar a estrela de uma peça da Broadway? Depois daquela noite, ela acreditava em qualquer coisa. Em qualquer coisa!
Voltaram pouco a pouco ao palco, primeiro o coro, depois os bailarinos, e então vieram os antagonistas, para só então os protagonistas terem suas vez de curvar-se diante da plateia. A ordem era previsível: primeiro Raoul, depois Rachel como Christine e então o Fantasma da Ópera, que, naquela noite, fizera muito bem o seu trabalho. Os três se curvavam e mandavam beijos e acenos. Quando a cortina abaixou, as salvas ainda podiam ser ouvidas, mas agora com menos intensidade. Além do mais, os atores começavam a voltar para os seus camarins, onde pretendiam despir-se de seus personagens e acabar aquele dia de trabalho. Rachel seguiu sozinha para o seu camarim.
O Finn estava na plateia, ela voltou a se dar conta e os olhos se arregalaram. As mãos ficaram trêmulas por um instante, sem conseguir tirar os brincos pendurados nas orelhas. Como ele pôde fazer isso comigo? Quase me desconcentrou. Quase acabou com a minha estreia. Como pode dar as caras desse jeito sem antes avisar?
– Como é que eu posso esperar alguma coisa dele, depois de tudo o que a gente passou? – sussurrou para si no camarim.
Despia-se do pesado vestido em que se encontrava e lembrava-se de cada uma das oportunidades que Finn tivera de fazer a coisa certa, mas não fizera. Poderia tê-la pedido em namoro naquele restaurante, o Breadstix. Poderia tê-la pedido em namoro, inclusive, enquanto ela preparava aqueles cafés da manhã super elaborados na casa dele – esforços que hoje ela via que não deram frutos nenhum. Ele não queria namorá-la, queria apenas o seu corpo, e ela era uma mulher crescida, hoje, aliás, era uma estrela de teatro, e não podia se deixar levar pela lábia de um homem, por mais apaixonante e irresistível que ele fosse. Rachel queria que sua história de amor fosse tão inspiradora quanto a de Jasmim, que inclusive desistira do teatro para poder cuidar do moribundo marido. Era um romance tão inspirador que fazia com que Rachel se sentisse arrependida só de pensar na hipótese de largar a vida que conquistara naquele dia para dar ouvidos a um homem que, pelo observado, não sabia o que era amor.
Demorou mais do que pretendia no camarim. Retirou cada traço de maquiagem que havia em seu rosto e desfez os cachos dos cabelos. Vestiu um vestido simples, de verão, que trouxera em sua bolsa – não havia mais glamour envolvendo o teatro àquela altura, até porque o público provavelmente devia ansiar mais do que qualquer outra coisa voltar para suas casas para descansar. Não muito diferente daquilo que Rachel desejava para si agora.
Saiu da sala e desligou as luzes. Um rapaz da produção a esperava à porta, dizendo que a guiaria até a saída, algo pelo qual ela ficou bastante agradecida. Conversaram pouco, abordando pontos altos da peça, e Rachel recebeu muitos elogios mais. Agradeceu a todos. Perguntou dos atores que atuaram como Raoul e como o Fantasma da Ópera, e o rapaz da produção disse que ambos os rapazes ficaram impressionados com a atuação dela. Os organizadores da peça, aliás, demonstraram arrependimento por não a terem escolhido antes, e foi nessa altura da conversa que Rachel se sentiu verdadeiramente orgulhosa. Não havia nada que pudesse tornar aquela uma noite ruim.
Impressão que perdeu um pouco da força quando a atriz atingiu a rua e se deparou com um homem de um metro e noventa, vestido em um terno visivelmente caro, parado na parede oposta àquela em que ficavam as portas duplas por onde ela saíra.
– Como sabia que eu estaria aqui? – ela perguntou, parada no lugar, a poucos metros de onde Finn se encontrava. A essa altura, o produtor que a acompanhava sumia pela avenida movimentada da qual aquele beco era uma travessa. A noite estava fresca, mas o cheiro do lugar não era bom. Remetia a mofo.
– O prédio não tem muitas saídas – disse Finn, dando alguns passos trôpegos na direção de Rachel, o que a fez se perguntar se ele não estava bêbado. – Só precisei fazer algumas perguntas e lavar a mão de um produtor com grana para garantir que você saísse exatamente por essa porta.
Rachel riu, não com felicidade, mas irritada com a ironia da ocasião.
– Você fez isso, esse suborno todo, porque muito provavelmente tinha certeza de que, se não fosse dessa forma, se você não me forçasse a te encontrar sem que eu tivesse consentimento disso, não haveria outro jeito, não é mesmo?
– Eu te liguei durante todo esse tempo.
– E eu não atendi a nenhuma das suas ligações. Não entendeu a mensagem implícita nessa minha atitude, Finn? Eu não queria falar com você. Nunca mais quis, desde aquela droga de almoço. – Rachel olhou de relance para o lado. Os carros passavam com pressa na rua, a distância. – O que deu em você para querer me procurar até mesmo em casa? Os seus pais não ensinaram educação a você? Sei o que dizem sobre Nova Iorque, mas você não é daqui, Finn, eu sei disso, então o que te fez pensar que seria uma boa ideia ir até à minha casa me procurar? Você achou que eu o receberia bem? Pensou que eu abriria a porta do meu apartamento e então o convidaria para fazer amor, como em todas aquelas outras vezes em que fizemos amor?
– Eu estava apelando. Não sabia mais o que fazer.
– Sabia sim. Você é um homem poderoso, tem os seus contatos. Não deve ter dado a mínima para os cartazes da peça que acabou de assistir, mas descobriu de algum jeito que eu a estrelaria. Você é um homem que sabe como alcançar um resultado quando o quer, não a toa foi visto com bons olhos pelos diretores da empresa em que trabalha, que o aceitou como vice-presidente mesmo tendo pouca idade. – Rachel cruzou os braços em frente ao corpo. – E sabe o que mais me irrita em saber todas essas coisas sobre você? É que, sabendo que você luta com unhas e dentes por aquilo que quer, notar que você nunca quis lutar por mim enquanto tínhamos o que tivemos me dá a entender que você nunca me quis realmente.
– Eu lutei por você, Rachel! Como pode dizer isso?
– Fico pensando em como você contava aos outros que tinha saído comigo. Provavelmente, se vangloriava por ter saído com a secretária, seguindo aquele ritual machista e escroto que os homens seguem quando estão em uma situação de poder e querem demonstrá-lo aos seus funcionários mais baixos. Deve ter comemorado com os amigos quando me conquistou. – Rachel apertou os olhos na direção de Finn. – Fez o que um bom homem faria, não é mesmo? E não viu problema nenhum em acabar comigo do jeito que acabou.
– O que você esperava que eu fizesse, afinal? Deixou o restaurante sem nem dizer o que eu fiz de errado! Que mania esquisita que vocês mulheres têm! Sempre esperam que nós, homens, descubramos o que fizemos de errado!
– Eu não queria que você descobrisse nada, Finn! Quando saí do restaurante, eu nunca mais queria te ver, e foi só isso!
– O que eu disse que te provocou isso, hum? Me diga!
– Eu não devo explicação nenhuma a você. Olhe onde estou, Finn! Broadway! Viu os homens que me aplaudiram em pé hoje? Muitos deles devem estar me desejando agora, e tenho certeza de que pelo menos um deles pode me amar de verdade!
– Então é isso. Você acha que eu não te amei.
Rachel riu novamente.
– Rachel – Finn chamou e surpreendeu a mulher ao agarrá-la pelo ombro. – Nós estávamos nos conhecendo, e eu estava curtindo o que fazíamos. Eu gostava de estar com você. Gostava de vê-la todos os dias. E tudo o que você queria, então, era uma oficialização de que eu te amava? – Finn olhou rapidamente para baixo. Rachel o acompanhou com o olhar. Havia um buquê de flores muito mais do que elaborado na mão do rapaz, um detalhe que ela não conseguia nem imaginar como não o percebera antes. – Eu te mandei flores. Eu comprei essas flores para te parabenizar hoje. Eu corri atrás de você. Você diz que eu não sei o que é amor, Rachel, mas talvez seja você que não sabe. Amor é sentimento, e não coisas entregues como presentes. Eu fiz tudo para te agradar, e foi porque eu gaguejei durante uma conversa que de repente você desistiu de mim? – Finn se afastou e abriu os braços. – O amor de verdade não é como o do teatro, Rachel!
Finn girou nos calcanhares e caminhou com pressa em direção à saída do beco.
Rachel o observou com um olhar frio que não durou muito tempo.
Por que eu sinto vontade de correr atrás dele?, ela se perguntava, de repente sentindo o peito subir e descer com um ritmo acelerado, como se precedesse os soluços de um choro. Eu sei o que ele fez comigo, então por que eu sinto vontade de impedir que ele se vá? Por quê?
Porque eu sempre soube que ele estava procurando por mim, e era por isso que eu não o aceitava de volta. Gostava do jeito como ele me procurava, pois me fazia sentir desejada. E hoje no teatro eu senti isso. É o que eu sou: uma mulher baixinha de nariz comprido que vive em busca de chamar a atenção, uma idiota que brinca com os sentimentos dos outros só para se sentir desejada. Sou horrível.
E como não pude me dar conta disso antes?
Rachel correu. Os saltos batiam no chão ora molhado, ora seco, e ela corria com dificuldade, pois os sapatos não eram dos mais confortáveis.
– Finn, por favor – ela gritava. – Não vá embora, agora eu entendo o que estava acontecendo, eu entendo! – Ela erguia um braço à frente na inútil tentativa de fazê-lo parar, mas não conseguia. – Eu nunca amei ninguém, Finn, nunca soube o que era amor de verdade, nunca me senti desejada, e foi você que me fez sentir isso! Eu tinha medo de perdê-lo, sim, eu tive esse medo! – Por que ele não para?! – E foi por isso que fiz o que fiz, mas, céus!, Finn, por favor, pare!
Finn parou, e não olhou para trás. Parou porque tinha que atravessar a rua e ainda havia muitos carros correndo por ela. Mesmo assim, aquela pausa foi suficiente para permitir que Rachel o alcançasse.
E ela o alcançou.
Puxou-o pelo ombro e o girou na sua direção. Finn a encarou com um olhar duro que era ao mesmo tempo sensual e intimidador.
– Eu fiz o que fiz porque sou idiota, imatura e porque te amo – ela disse.
E ele manteve aquele olhar.
Ainda a olhava daquela forma antes de puxá-la para um beijo que não foi exatamente terno, mas selvagem, com raiva e desejo, do tipo que fez as pernas de Rachel fraquejarem por um instante. Mas ele a amparou durante todo o tempo do beijo.
Me amparou como sempre amparou durante a nossa conturbada relação, de um jeito que não é sentido apenas pelo toque, mas com o coração.
– E acho que tenho muito a aprender antes de receber o seu perdão.
– Você acha que merece o meu perdão? – ele perguntou, sério.
– Não.
– Eu também não.
Rachel sentiu o coração ser esmagado.
– Não acho que você mereça o meu perdão, porque não há o que perdoar – Finn concluiu, entretanto. – Devia ter dito antes que era uma aspirante a atriz de teatro. Eu teria compreendido melhor o jeito como você encarava as coisas, carregando tudo com drama.
Rachel riu com alegria.
Uma risada que não foi muito diferente daquela que estourou pela sua boca quando Finn a penetrou naquela noite.
A temperatura subiu no quarto de Finn, então ambos os corpos estavam suados. Finn suportava Rachel nos braços, movimentando o pênis dentro da vagina dela com força, soltando uns sons confusos pela boca e contorcendo o rosto em uma careta de raiva, apesar de ele estar bem distante de sentir raiva. Rachel gozou várias vezes durante o sexo, depois de intervalos longos, sentindo amor pelo homem que a penetrava. As mãos de Finn a exploravam, acariciavam os seus seios, e então vinham os seus lábios, que ela aceitava em seu corpo do mesmo jeito em que aceitava nos próprios lábios.
Tudo está acertado entre nós?, Rachel se perguntou enquanto Finn, dobrado sobre ela, perdia um pouco da insistência de seus movimentos ao deixar claro que acabara de gozar.
– Eu também te amo, Rachel – ele disse e a beijou nos lábios. – E obrigado por me fazer sentir assim hoje em dia.
Sim, está tudo acertado, ela concluiu, então, e sorriu.
Estava certa. Nada poderia tornar aquela uma noite ruim, porque coisas boas, quando acontecem, acontecem todas de uma vez só e fazem valer a pena todo o esforço que foi empenhado na busca por elas.
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