Já havia mais de um mês desde que Sam fora ao teatro pela primeira vez, na companhia de Quinn, e naquele domingo, enquanto espremia laranjas em um processador de frutas, ele decidiu se lembrar disso. O sumo amarelo era derramado em uma jarra de cristal e era o som dele que embalava os seus pensamentos, quebrando o silêncio naquela cozinha. Terminadas as laranjas, ele levou a jarra embaixo de uma torneira e a encheu com água. Adicionou açúcar e, com uma colher grande, pôs-se a mexer a mistura. Sucos naturais, para alguém que fazia a dieta que ele fazia, eram praticamente uma obrigação diária.

Retirou o avental que vestia e o pousou em uma espécie de porta-casacos que ficava perto do portal que dava para a sala de estar. Bagunçou os cabelos e limpou o suor da testa; aquele domingo não estava de todo quente, mas Sam já trabalhava na cozinha há um bom tempo, o que definitivamente aumentara a temperatura no lugar. Teria que comprar ventiladores para a casa. Mais um item para a enorme lista do que comprar, que já tinha inúmeros componentes, entre máquina de lavar roupa e um cachorro, por exemplo. Sempre tivera vontade de ter um cachorro.

Consultou o relógio na parede: eram mais de duas da tarde. Estava acostumado com brunches que ficavam prontos antes da uma, mas acordara um pouco tarde naquele dia, o que atrasara consideravelmente o preparo de muitos dos alimentos. Até agora, sobre a mesa da cozinha, o que ele tinha era uma jarra de suco de laranja, alguns hambúrgueres devidamente temperados, crus e prontos para serem assados, uma travessa com molho barbecue, que Sam tivera o cuidado de preparar, resistindo à tentação de apenas comprar um que já estivesse pronto, e havia mais alimentos do lado de fora, no quintal de trás, sobre uma mesa de madeira, mas esses Sam ainda não tivera a oportunidade de consultar. Preferira cuidar da sua parte do brunch, mantendo o foco no que tinha que fazer, ao invés de se distrair com as mãos habilidosas de Quinn Fabray ou com seu belo rosto, onde aquele olhar concentrado era mantido.

Passou pela porta de vidro da cozinha e alcançou o tal quintal nesse instante. Carregava em uma das mãos a jarra de suco e, na outra, uma bandeja com pedras de gelo. Pousou tudo sobre a mesa de madeira em que Quinn trabalhava e pôs-se e destacar os cubos de gelo, derrubando-os um a um na jarra. Quinn estava tão concentrada que não se deu ao trabalho de desviar o olhar do repolho que cortava em tiras para pelo menos observar o que o namorado e companheiro de casa fazia. A faca deslizava em uma coreografia hipnotizante, de um lado para o outro, sobre a tábua de madeira e nunca errava o que tinha que fazer. Era quase possível ter a impressão de que Quinn era uma cozinheira nata.

– Estou diante de uma verdadeira e experiente cozinheira ou cortar repolhos é o que você sabe fazer de melhor? – Sam perguntou em tom de brincadeira.

– Cortar repolhos não é nenhum desafio, Sam. Qualquer vídeo de culinária na internet pode te ensinar as técnicas para isso. – Quinn desviou o olhar na direção de Sam por um instante e ergueu as sobrancelhas, jovial. O brilho do sol em seu rosto parecia concedê-la uma aura angelical, diferente. Limpou o suor da testa e parte dessa aura sumiu, talvez porque fosse apenas o reflexo da luz nele. – Terminou o que tinha que fazer lá dentro?

– Terminei. Estou arranjando coragem para montar a churrasqueira aqui fora.

– Tudo bem – disse Quinn, sorriu brevemente e voltou a cortar os repolhos. Agarrou as folhas em um punhado e as levou a uma bandeja onde já havia cenouras e beterrabas raladas. – Precisamos comprar um rádio.

– Eu já tenho um no meu quarto.

– Estou falando de um rádio bom, Sam, e não daquela velharia que veio junto com a casa. Esse silêncio todo me faz sentir isolada. Quase me leva a crer que não estou na cidade mesmo.

– Vou colocar isso na lista do que comprar.

– Não se esqueça!

Sam girou nos calcanhares e caminhou sobre a grama fofa até a cobertura de um telhado de zinco, onde a churrasqueira, um amontoado de ferro negro, permanecia desmontada. Agachou-se para organizar os ferros e pôs-se a trabalhar.

Quinn aceitara morar com Sam havia poucas semanas. Aquele fora um convite que ele fizera um tempo antes, quando a descobrira em Lima também, mas Quinn se mostrara bastante hesitante em aceitar mudar de vida tão subitamente, o que ele achou bastante irônico em vista de tudo o que ela fizera apenas para encontrá-lo. Durante aquele tempo, eles se encontraram brevemente durante o horário de almoço no trabalho, instantes em que comiam e se beijavam, ou então à noite, após o expediente, na casa de Sam, criando a interessante imagem de uma casa onde estacionavam duas vans da UPS. Quinn costumava voltar cedo – pelo menos no conceito de Sam – para o seu apartamento alugado, porque sempre dizia ter o que fazer antes de ir dormir. Era nesses momentos que o homem sugeria que ela fosse morar com ele, mas ela, e ele estava acostumado com isso, insistia em dizer que não podia ainda.

Foi quando surgiu a oportunidade de eles irem ao teatro que esse cenário mudou. Quinn, por alguma razão, fazia questão de ir a tal estreia d’O Fantasma da Ópera em Nova Iorque, o que frustrou o rapaz, pois ele não tinha vontade de nenhuma de ir assistir a opera. Quinn, contudo, o subornou. Disse que, se ele fosse com ela até Nova Iorque uma vez mais, ela aceitaria morar com ele. “É uma prova de que você se importa comigo de verdade, e eu não posso deixar um homem que se importa comigo escapar, não é mesmo?”, ele se lembrava de ela ter dito. Ele concordou com a loira sem pestanejar. E ela cumpriu sua parte do trato antes muito antes do que ele achava que fosse.

Não se lembrava ao certo da data em que a coisa acontecera, mas de repente estava dividindo o espaço de um guarda-roupa velho, surrado, e que logo seria substituído por um novo (item que também fazia parte da lista do que comprar), com Quinn. Dividia a cama e o banheiro também. O copo de escova de dentes. O sofá, principalmente nas quintas e sextas-feiras à noite. A conta do restaurante, e também a do supermercado. As poucas contas da casa. O jardim, em sábados à tarde, quando se sentavam abraçados e conversavam sobre assuntos desconexos. A mesma van, quando saíam juntos. O valor do motel. As alegrias, as tristezas e o amor. Agora que contabilizava tudo, Sam percebia que pouco mais de um mês era suficiente para muita coisa acontecer. Não conseguia nem imaginar o que aconteceria durante um ano na companhia de Quinn.

Faziam amor quase toda noite, exceto quando chegavam cansados o suficiente para se jogarem na cama e dormir antes de conseguir sequer dizer um boa noite – ou quando Quinn não queria, por razões que ela considerava pessoais. Sam achava isso irônico também, já que, mais do que ele, ela sempre parecera ter uma sede insaciável por sexo. Tê-lo todo dia talvez a tivesse feito perder um pouco do encanto por ele. Nada mais natural.

Mas quando transavam, não era muito diferente de todas as outras vezes em que transaram. Já tinham utilizado grande parte da casa para isso, exceto o jardim, porque os espaços entre as tábuas da cerca que servia de divisa entre o terreno de Sam e Quinn e os dos vizinhos eram grande, o que permitiria a várias pessoas assistirem a relação entre os dois com uma vista privilegiada. Sam ainda não tinha tanta vontade de se expor dessa forma. Quinn, por outro lado, tinha, mas respeitava a decisão do namorado. Mesmo assim, vivia a dizer que torcia para que, a qualquer dia, ele aceitasse transar com ela sob o olhar da noite, do luar. Era uma fantasia que tinha.

Sam terminou de montar a churrasqueira e levantou-se num pulo. Contemplou o trabalho feito e deu-se por satisfeito. Bateu uma mão na outra e percebeu só então que precisaria de água e sabão se quisesse limpar as mãos realmente.

– Agora eu tenho certeza de que você é um homem – disse Quinn de onde estava, usando um tom divertido. – Um homem que não sabe montar uma churrasqueira não é um homem, mas um garoto.

– Com quem você aprendeu isso? Com a sua avó?

– Li em algum livro antigo. – Quinn apertou os olhos na direção de Sam antes de dizer: – Uau! Essa sujeira deixa você sexy.

E só por respirar você é sexy para mim, Quinn, Sam pensou e sorriu de lado. Nem o suor de um trabalho doméstico é capaz de afastar o seu encanto. O que eu tinha na cabeça quando achei que vir até Lima me faria esquecer de você?

– Obrigado. Você também não fica mal com esse avental florido – Sam disse de volta.

– Eu já falei sobre como você não consegue ser engraçado quando tenta? – Quinn esbravejou, procurando alcançar Sam cozinha adentro daquela forma.

Sam retornou com um pote de álcool para churrasco, um saco de carvão e, na segunda viagem, os hambúrgueres temperados e o molho barbecue. Esses últimos foram pousados sobre a mesa de madeira, ao lado das saladas que Quinn preparava.

Sam ainda se lembrava de como se acendia uma churrasqueira; seu pai o havia ensinado mais de uma vez durante sua infância porque, assim como Quinn, acreditava que um homem de verdade era aquele que sabia fazer um bom churrasco. Despejou um pouco de álcool no centro da churrasqueira e acendeu-o com um fósforo. Minutos depois, o fogo estava alto o suficiente para assar os hambúrgueres com rapidez. Tornou a vestir um avental e cuidou da carne em silêncio.

Quinn logo terminou o que tinha que fazer e, após uma caminhada silenciosa, surpreendeu o homem à churrasqueira ao abraçá-lo pelas costas. Suas mãos pequenas se uniram no abdome do jovem e sua cabeça repousou suavemente em seu ombro. Sam não foi capaz de ver, mas imaginou que Quinn tivesse fechado os olhos, e mesmo de olhos fechados ela continuava linda. Quinn suspirou profundamente e começou a dançar uma dança sem música, balançando o corpo de um lado para o outro, forçando Sam a fazer o mesmo sem entender por quê. Quando os primeiros hambúrgueres ficaram prontos, Sam apanhou uma das mãos da namorada na sua mão livre e, com isso, deu a entender que não poderia mais prosseguir com aquela lenta coreografia. Quinn o beijou no ombro e se retirou, como se desfilasse, em direção à mesa onde a maioria dos alimentos já se encontrava.

Sam amontoou todos os hambúrgueres em uma mesma travessa e a levou à mesa, onde Quinn o aguardava. Não se lembrava de ter visto uma toalha como aquela, de listras com cores de creme, vermelha e branca, sobre a mesa antes. Quinn devia tê-la providenciado enquanto ele devaneava diante da churrasqueira. Havia também pratos, talheres e copos, um ao lado do outro, posicionados de forma a permitir que quem comesse tivesse uma ampla visão do jardim também. Espalhados sobre a mesa, também estavam os alimentos preparados, inclusive a travessa de hambúrgueres, cujo espaço Quinn fizera questão de reservar ao providenciar a arrumação.

Sam se sentou ao lado de Quinn e a alisou na altura da coxa. Quinn sorriu e fez o mesmo nele. Beijaram-se rapidamente e permaneceram a se olhar, sorrindo não só com os lábios, mas com os olhos. Sam curvou-se para frente e beijou-a novamente. Ao fim do beijo, Quinn aguardou alguns segundos antes de tomar a iniciativa de beijá-lo também. Quando menos puderam esperar, estavam ambos atracados, com as pernas de Quinn entrelaçadas nas de Sam, as mãos do rapaz segurando a cabeça e a cintura da mulher, forçando a sua aproximação, enquanto ela alisava o seu peito e pendia uma mão sobre seu ombro. Beijaram-se de olhos fechados, aproveitando o silêncio do jardim, cortado vez e outra por algum pássaro, grilo ou carreta que passava roncando motores na rua, a alguns metros dali. Entre os dois, eles não souberam dizer quem foi que pôs fim ao beijo, mas, enfim, ele teve fim. Talvez tivessem encerrado ao mesmo tempo. Quinn apoiou-se no banco, procurando se afastar de Sam, e riu como uma adolescente que achava graça no que acabara de fazer. Sam, desconcertado, bagunçou os cabelos com uma mão e riu para si.

– Estou com fome, Sam – disse Quinn.

– Eu também.

– Vamos ter que mudar os nossos horários daqui para frente.

– É mesmo? Por que você acha isso?

– Você me distrai.

– Distraio?

– Sim.

– Você também me distrai. Muito.

– Os chefes vão perceber que sempre chegamos atrasados ao trabalho, Sam.

– E que nossos horários de almoço duram mais do que o de qualquer outro funcionário.

– Nossos cafés da manhã começam quase ao meio dia, horário do almoço!

– E nossos jantares se prolongam o suficiente para haver a troca de dias.

– Às vezes, acordo cansada.

– Às vezes, quase durmo ao volante durante uma entrega.

– Mas nem tantos empecilhos me fazem querer desistir de você.

– E nem eu penso em desistir de você.

– E é por isso que vamos ter mudar os nossos horários, você não acha?

– Por que você não gosta de se atrasar para nada?

– Porque não quero que contratempos nos separem outra vez.

– Você tem razão.

Sam e Quinn mexeram nos talheres, apanhando um hambúrguer cada.

– Se viver com você for desse jeito, acho que quero viver assim para sempre – disse Quinn e levou um pedaço de hambúrguer à boca.

– E se não for?

Quinn deu de ombros. Terminou de mastigar e falou:

– Os seus hambúrgueres são deliciosos. Acho que mesmo assim eu ficaria. Por eles.

Sam gargalhou.

– Eu te amo, sabia? – ele disse, por fim.

– É amor o que eu sinto por você também.

Beijaram-se mais uma vez, rapidamente.

Foi quando a mão de Quinn largou o garfo para tocar o pênis de Sam sobre a bermuda e a mão de Sam tocou o seio de Quinn sobre a blusa que eles acharam melhor deixar o brunch para depois. Mas nunca chegaram a comê-lo realmente.

Enquanto devoravam um ao outro no quarto do andar superior, as moscas não pouparam esforços e fizeram a festa sobre a mesa no jardim.

Naquele dia, portanto, acabaram por pedir comida indiana pelo telefone, providência que se tornou costume entre os dois no decorrer de todos os dias, a partir daquele, em que ficaram juntos, pois a embalagem da refeição, que a conservava durante todo o tempo em que Sam Evans e Quinn Fabray usavam a boca para várias outras finalidades, que não a de se alimentar, era o que a tornava tão especial para o casal, que dificilmente tinha tempo ou disposição para fazer as coisas nos momentos em que elas deveriam ser feitas.

Exceto o amor, pois isso eles faziam até quando não julgavam apropriado fazer.

Notas finais
A parte Fabrevans acaba aqui :) Mas não se preocupem, Fabrevans fighters! Vou pensar em uma nova fanfic com o ship para logo mais! o/ Próximo capítulo, o último.