When You Came To Me
28 Veludo
Rachel abriu os olhos uma primeira vez naquele sábado de manhã e, se encontrasse o relógio com eles, teria visto que não eram mais do que sete horas da manhã. Preferiu fechá-los em seguida, ou talvez fosse o corpo que, exausto, protestava contra a repentina vontade que ela tivera de acordar – não porque estava descansada, mas porque sabia que não estava em casa e, quanto mais cedo fosse embora, melhor. Adormeceu antes que pudesse levar o pensamento adiante. A rotina do teatro a estava cansado, mas não era só isso; encontrar-se com Finn em qualquer noite vaga durante as semanas contribuía com esse cansaço. A saudade que ela inconscientemente sentira dele durante o tempo em que estivera afastada fizera crescer uma fome de seu antigo chefe que mesmo uma noite inteira de amor não era capaz de saciar. Nem duas. Rachel suspeitava que nem a vida inteira o encontrando faria com que deixasse de desejá-lo.
Dormiu intensamente, sentindo, por uma fração de segundo, o jeito como os músculos flexionados e doloridos reclamavam a cada movimento. Tentara algumas posições diferentes com Finn na noite passada, algumas que exigiam um enorme esforço da mulher, que tinha que apoiar os braços na cama ou então se segurar em torno dos ombros do homem a fim de evitar uma queda. Finn, muito embora suasse durante o sexo, não parecia se esforçar muito para segurar Rachel, e ela tinha algumas possíveis explicações para isso: ela era pequena, magra e não devia simbolizar um grande fardo para um homem com braços fortes como os que ele tinha, ou para alguém da altura dele. Claro que, vez ou outra, ele suspirava profundamente, mas geralmente quando estava perto de chegar a um orgasmo. A sua exaustão vinha depois que gozava, momento em que ele se deitava de lado, abraçava Rachel pelas costas, a envolvendo, e adormecia por alguns minutos. Quando acordava, cobrava o olhar da amada e então voltavam a fazer amor. Uma noite como essa só era possível entre a sexta-feira e o sábado, já que as rotinas da semana não permitiam um encontro que perdurasse por tanto tempo.
Rachel girou os olhos e os abriu novamente, incomodada com algum tipo de claridade. Era a janela. Finn gostava de cortinas claras, e a daquele quarto era quase branca. A luz que passava por ela, portanto, não era refreada, mas espalhada, praticamente iluminando o quarto todo. Rachel estava voltada para ela quando acordou. Franziu o cenho e levou as mãos aos olhos, procurando privar-se do sofrimento que era encarar tanta luminosidade logo cedo, e um leve incômodo em sua cabeça indicava que uma forte ressaca estava a caminho, fruto das enormes doses de vinho que Finn lhe oferecera na noite passada e que ela nem sequer pensara em recusar.
Afastou os cobertores para o lado e se sentou. Um instante de inconsciência a fez se sentir mal humorada, principalmente pelo fato de não estar em casa e de não ter visto os seus chinelos onde deveriam estar. Caminhou pelo carpete felpudo que cobria grande parte do chão do quarto de Finn e parou-se um instante diante do espelho.
Eu mudei, pensou enquanto observava o próprio reflexo. E de fato havia mudado. Aprendera a usar um forte rímel em torno dos olhos, o que de certa forma lhe concedera um ar mais maduro. Adquirira um bronzeado, o que a diferenciava das demais nova iorquinas e não nova iorquinas ao seu redor. Ostentava uma franja, mas esse não era a única alteração em seu cabelo; havia fios louros que começavam e terminavam sem padrão por todo o seu cabelo, criando uma ilusão e combinação de cores interessantes de se ver. Aquela era uma nova Rachel, disso não havia dúvidas, mas a mudança no visual nada mais era do que um reflexo da mudança de personalidade que ela própria sofrera.
Rachel amadurecera. Mais uma vez, completou em pensamento. Achara que deixar Lima e ir para Nova Iorque fora uma reviravolta em sua personalidade, como uma imposição da sua vontade perante os pais, um sinal de que ela não era só uma menininha, mas hoje via que esse fora apenas o começo do caminho. Adquirir maturidade não é como virar a página de um livro, mas continuar a lê-lo até o seu fim. O que há na última página? Ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: aprende-se a cada nova palavra lida ou experiência vivida. Trabalhar como secretária, apaixonar-se pelo chefe, sofrer uma desilusão amorosa e usá-la como ponto de partida para a realização de um sonho definitivamente fez com que Rachel se aproximasse mais do que era se tornar uma adulta de verdade. Reatar com Finn, no entanto, servira única e exclusivamente para deixá-la feliz por inteiro.
O que, em sua concepção, já era uma grande coisa.
Em falar nisso...
– Finn – chamou, voltando-se para a cama. – Finn? – repetiu quando não o encontrou por lá. – Céus!
Isso não era comum. Não era. Finn nunca deixava a cama antes dela, nunca, em hipótese alguma. Em um surto de paranoia, que a atacava com mais frequência do que às outras pessoas, Rachel pensou que Finn a tivesse abandonado; a casa em silêncio, as janelas fechadas, a sensação de que estava sozinha, tudo levava a crer que Rachel fora abandonada. Devia ter imaginado que isso aconteceria.
E devia ter imaginado também que esse surto logo teria um fim. Ao descer as escadas aos galopes, encontrou Finn na cozinha, uma cena que seria comum se o homem não estivesse em frente ao fogão. Ele nunca estava, talvez nem soubesse para que servia um. Ou não sabia usá-lo. De qualquer modo, naquela manhã, lá estava ele, girando botões em cima do balcão, observando algo que borbulhava dentro de uma espécie de chaleira, focado como se passasse por um experimento importantíssimo. Estava preparando café.
Ele está fazendo o café da manhã, Rachel pensou e sorriu, ao portal da cozinha. Aproveitou que ele ainda não a tinha notado e deu alguns passos para trás. Fossem quais fossem as intenções por trás de ele ter decidido levantar mais cedo naquela manhã para preparar o café, Rachel não achava uma boa ideia interrompê-lo ou oferecer ajuda. Um café da manhã é a confirmação de um encontro, ela costumava dizer, e Rachel já fizera muitos para ele, mas o processo inverso nunca fora acontecera. Finn finalmente queria confirmar um encontro – não que ele não estivesse confirmado antes, mas Finn queria oficializá-lo daquele jeito, preparando o café da manhã, porque sabia o que Rachel pensava a respeito. Queria agradá-la ainda mais do que já andara agradando. Rachel tentava adivinhar qual seria a razão disso.
Ele demorou a concluir o que fazia e, durante todo o tempo, Rachel ficou sentada na escada, ouvindo o som de talheres sendo mexidos, de gavetas abrindo, de um fogo a trabalhar. Achou melhor entrar na cozinha apenas quando o silêncio pareceu tomá-la. Entrou se espreguiçando, pensando em ensaiar surpresa quando visse a garrafa de café já pronta, mas o espanto que tomou o seu rosto naquele momento, entretanto, foi real.
Finn preenchera a mesa da cozinha com as mais diversas variedades de opções para um café da manhã, onde a garrafa de café, que ela pensava que fosse a atração principal, era apenas um detalhe. Havia queijos, pães e geleias de frutas, mas também havia frutas, caldas e jarras com sucos e iogurtes. Seria uma refeição para uma grande quantidade de gente, mas Finn certamente só queria maravilhar Rachel com tantas opções, sem esperar que ela comesse todas elas. Queria mostrar que se importava com ela o suficiente para acordar mais cedo e providenciar um café da manhã bastante elaborado. Rachel admirou isso, não porque tantos alimentos em cima da mesa significava um grande gasto para aquele homem que, sem dúvidas, era bastante rico, mas porque Finn se esforçara para agradá-la, e isso era mais valioso do que qualquer um dos queijos caros sobre a mesa. Ele tomou o cuidado de preparar um café da manhã vegetariano, ela chegou a observar enquanto, boquiaberta, passava os olhos pela mesa. Não conseguiu evitar a euforia quando o sentimento tomou conta do seu corpo.
– Finn, isso é... – ela começou a dizer.
– Maravilhoso? Delicioso? Comprei tofu também, porque sei que você gosta de alimentos feitos de soj...
– Eu queria dizer surpreendente. Eu não esperava.
– Queria retribuir todos os outros cafés da manhã que você fez para mim até hoje, antes da nossa fase conturbada – disse Finn e, abraçando Rachel pelas costas, deu-lhe um beijo no pescoço, provocando arrepios na mulher. – Talvez essa mesa não simbolize nem a metade do esforço que você teve quando resolveu preparar desjejuns para mim, mas entenda isso como um começo. Essa não será a última vez em que prepararei um café da manhã para você.
– Você não precisa me agradar dessa forma – disse Rachel e dobrou-se para trás a fim de beijar rapidamente os lábios de Finn. – Mas já que tudo já está preparado, não vejo por que não provar pelo menos um pouco de cada.
Rachel puxou uma cadeira e Finn e se sentou na cadeira ao seu lado. Olharam-se e tornaram a se beijar. Finn tinha um gosto doce na boca, que talvez tivesse vindo do café que ele provara há pouco. Rachel mordeu os lábios, procurando prolongar essa essência, antes de se voltar para frente.
– Ao café – ela disse ao se dar conta de que Finn acabara de se deixar distrair pelo jeito como ela mordia os lábios. – Queremos comer tudo enquanto ainda estiver fresco, não é mesmo?
– Claro – Finn respondeu, piscando uma vez para acordar de seu devaneio. – Você tem toda a razão.
Rachel sorriu para ele e pôs-se a comer.
– Há algo que eu não te contei, Rachel – disse Finn, a mão preocupada em molhar uma faca na geleia de morango. – Sobre quando comecei a te procurar.
– Na verdade, você não me disse muitas coisas sobre como foi essa busca.
Finn ergueu as sobrancelhas, como se estivesse surpreso com o próprio erro.
– Mas eu não sei se estou interessada em saber disso – Rachel continuou, entretanto. – Pensar no jeito como você correu atrás de mim e em como eu me desvencilhei me traz lembranças bem ruins à mente. Lembranças de quando eu ainda era cega, se é que você me entende.
– Entendo, mas tenho certeza de que essa é uma história que você vai adorar saber.
– Assim eu fico curiosa. Conte-a.
– Bem, eu estava cuidando dos processos de uma viagem que precisa ser feita ao Rio de Janeiro, no Brasil, até o ano que vem, a trabalho. Segundo o Presidente da companhia, há uma solicitação de treinamento da filial de lá, e nada melhor do que um funcionário daqui ir até lá para resolver isso, você deve se lembrar do que estou falando.
– Lembro.
– Enquanto lia aquelas folhas, a Quinn Fabray entrou na minha sala, batendo os pés no chão, dizendo algo sobre se demitir porque precisava cuidar da própria vida. Disse que ia em busca do próprio amor.
– Você está falando sério?
– Nunca falei tão sério em toda a minha vida.
– A Quinn nunca pareceu ser do tipo que amaria alguém... Vivia a dizer que não acreditava nessas coisas, e falava bastante sobre desejos carnais e tudo mais.
Finn deu de ombros.
– Eu não a conhecia muito bem. Falava pouco com o seu setor. Enfim, fato é que esse discurso que ela me passou foi o que serviu de gatilho para eu começar a ir atrás de você com mais empenho, já que, até então, eu não tinha arranjado coragem suficiente para mover montanhas e te encontrar.
– Então foi a Quinn Fabray que te motivou a ir bater na minha porta?
– Pode-se dizer que sim.
– Uau... – Rachel levou uma torrada à boca e mastigou-a demoradamente antes de dizer: – Isso também é surpreendente, mas devo dizer que não é uma história tão emocionante quanto achei que fosse ser.
– Eu ainda não terminei.
Rachel sentiu o peso da frase dita por Finn nas próprias costas, o que a obrigou deixar a torrada sobre a mesa por um instante. Virou sem sua cadeira e ficou frente a frente com o homem que amava. Ele também se ajeitou em sua cadeira, arrumando-se em uma postura que lhe permitia olhar nos olhos de Rachel enquanto falava.
– Eu tenho mais uma coisa para dizer, que envolve essa história que comecei, mas antes preciso perguntar uma coisa.
– Pergunte – Rachel pediu, falando quase que em tom de súplica.
Finn escondeu a mão às costas e, quando a retirou, nela havia uma caixinha vermelha, de veludo, com uma estrela dourada no topo, detalhe que foi o grande responsável por fazer os olhos de Rachel brilharem um pouco mais.
– Oh, meu Deus! Você vai... Você vai... – Rachel franziu o cenho e levou uma mão ao peito, muito mais do que chocada. – Você vai me pedir em casamento?
– Não, Rachel, a gente anda se encontrando há quanto meses? Seis? Sete?
– Nove.
– É muito cedo para um casamento, você deve concordar. Mas não para um pedido de namoro.
Finn abriu a caixa. Dentro dela, uma aliança prateada, com um fio de ouro branco que se destacava em meio ao brilho acinzentado da prata, reluziu. Rachel desviou os olhos dela para o rosto de Finn e derramou uma série de três lágrimas, distribuídas entre ambos os olhos.
– Um anel de compromisso – conseguiu dizer, rouca.
– Exatamente. – Com um ar sorridente que fez Rachel querer voar sobre o seu colo e beijá-lo como se não houvesse amanhã, Finn prosseguiu: – Acho que já te conheço há tempo suficiente para compreender algumas das suas vontades, e sei que uma delas, uma que você não consegue refrear de maneira nenhuma, é a de oficializar as coisas. Uma aliança como essa poderia oficializar o nosso namoro. E então, o que acha? Quer namorar comigo, Senhorita Rachel Berry?
– Foi por causa disso que você preparou esse café da manhã super elaborado?
– Achei que pudesse ajudar a te impressionar.
– É claro que eu quero namorar com você, Finn! É claro que eu quero!
Jogou-se para frente e o abraçou; o aroma da colônia que ele diariamente usava correu suas narinas, preenchendo-a com alegria. Virou o rosto do homem em sua direção e o beijou com intensidade.
– Obrigada por isso! Obrigada!
– Uau, essa reação foi melhor do que a que eu tinha imaginado – disse Finn, tentando controlar um ataque de risos.
– Mas o que esse pedido tem a ver com a história da Quinn? – Rachel perguntou. Àquela altura da conversa, a caixa de veludo já estava bem presa em suas mãos.
– Não, Rachel, a história que eu estava contando não era sobre a Quinn – respondeu Finn, com uma expressão divertida no rosto. – Era sobre nós, eu e você, como eu disse no começo.
– Mas...?
– A viagem. Foi por causa disso que eu comecei essa conversa.
Rachel endireitou-se na cadeira, ficando ereta, os olhos arregalados, os ombros tensos pela expectativa do que estava prestes a ouvir.
– Ninguém se inscreveu para a viagem ainda, então eu pensei que poderia me candidatar a essa vaga – disse Finn e segurou as mãos de Rachel nas suas, mantendo, junto com ela, a caixa de veludo vermelho fechada. – Sou vice presidente daquela droga, então eu poderia levar comigo quem eu quisesse nessa viagem de uma semana.
– V-Você está pensando em...?
– Sim, eu quero levar você nessa viagem, Rachel. O Rio de Janeiro, como você deve saber, é um lugar lindo, tem praias, boas lojas, e agora é verão por lá, estação que eles dizem ser a melhor para ir até a cidade. – Finn olhou para o chão por alguns instantes. Quando retomou a fala, falava sério como o homem que se sentava por trás da escrivaninha de vice-presidente. – E então, Rachel? Aceita fazer parte dessa experiência comigo?
– Você quer que eu viaje com você? Quer que eu passe uma semana com você em uma cidade tropical?
Finn consentiu com a cabeça.
– Há surpresas nos aguardando por lá, tenha certeza disso.
– Por acaso, você não estaria pensando em...?
– Quem sabe? – Finn interrompeu e sorriu, malicioso.
Rachel tinha todos os motivos necessários para dizer não àquela proposta. Uma viagem, àquela altura da temporada na montagem off-Broadway de O Fantasma da Ópera, não fazia o menor sentido. Pessoas revisitavam o teatro apenas para vê-la atuar, portanto, a menor ameaça de abandonar a peça deixaria os diretores furiosos, o que poderia manchar sua reputação perante o meio do teatro.
Mesmo assim, havia uma boa razão para aceitar ir a essa viagem, e ela, ao que parecia, exercia mais influência do que qualquer pensamento negativo.
Rachel amava Finn.
E se isso não fosse suficientemente bom, Finn Hudson amava Rachel Berry também.
Por essas e outras que, depois um segundo de hesitação, Rachel proferiu:
– Sim, eu aceito.
E ao dizer essa frase, ao beijar Finn nos lábios, ao fazer amor com ele naquela manhã e, tempos depois, ao fazer as malas e ir com ele para o Brasil, Rachel sabia que não estava simplesmente aceitando uma viagem qualquer ao lado do homem que amava, mas sim a oportunidade que Finn lhe concedera de dizer sim à pergunta que, meses depois, em um quiosque qualquer da praia de Copacabana, segurando uma caixinha de veludo não muito diferente da que ela recebera ao ser pedida em namoro, de joelhos, Finn decidiria fazer:
– Rachel Berry, aceita se casar comigo e se tornar a mulher da minha vida?
E ela novamente aceitaria.
Aceitaria como certamente fosse aceitar qualquer outra proposta que estivesse relacionada a ser feliz ao lado do homem pelo qual ela lutara e que tanto lutara para tê-la de volta também. Era o que tinha certeza de estar destinada a fazer.
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