When You Came To Me

2 Quer sair para almoçar?


Quinn Fabray não gostava de ser interrompida, e muitos até poderiam atribuir isso a uma extrema dedicação ao trabalho, mas a verdade era que ela simplesmente não gostava de ser incomodada. Em ambiente de trabalho, então, sempre que alguém aparecia para procurá-la, era quase certeza de que um problema estava a caminho, e não uma solução ou um convite para um restaurante, por exemplo. Por essas e outras, a expressão no rosto de Quinn era sempre séria e, enquanto trabalhava – ou enquanto fingia que trabalhava ­–, nenhuma palavra saía da sua boca. A mesma lógica, no entanto, não era aplicada quando ela se levantava para conversar com outra pessoa, como quando parara para conversar com Rachel Berry instantes atrás. Mas esse era outro caso.

Portanto, quando o colega de trabalho cutucou-lhe o ombro, falando algo sobre uma entrega da UPS, era previsível que ela fosse se irritar. Odiava ser interrompida, e seu amigo já devia saber disso, afinal, já trabalhavam há quantos anos? Dois? Três? Mesmo que fosse um mês, uma pessoa inteligente já teria notado que Quinn não gostava de ser perturbada. Não era o caso do seu colega de baia, pelo visto.

– Entrega para mim? – ela sussurrou, procurando soar simpática.

– É, o rapaz novo da UPS está aí – disse-lhe o amigo antes de ajeitar os óculos de aros grossos e negros sobre o nariz.

Quinn levantou-se de sua posição confortável em sua cadeira e caminhou lentamente até a entrada da baia, procurando aproveitar essa demora para melhorar a expressão em seu rosto. Mau humor matinal, em uma segunda-feira, também era algo comum para ela, e era bom que o entregador estivesse preparado para isso.

Não que tivesse havido qualquer sinal de mau humor no rosto de Quinn quando ela se deparou com o tal do novo entregador da UPS.

Primeiro porque a imagem que o homem passava, a de um jovem trabalhador com rosto angelical, apesar dos lábios grandes demais, e cabelos louros que complementavam essa aura angélica, era incrível. Seu uniforme pardo não o deixava esconder pernas trabalhadas e braços fortes, e foi apenas ao percebê-los que Quinn deixou de achar que o entregador tinha a aparência de um anjo, mas a de um demônio sedutor, na verdade, daqueles que interrompiam mulheres em seu horário de trabalho apenas para seduzi-las com tanta beleza.

Quinn se sentiu grata por esse refresco no estresse do trabalho logo cedo. Acabou encostando-se ao portal da baia, erguendo uma sobrancelha para o homem, enquanto este parecia esperar uma atitude sua.

– V-Você é Quinn Fabray? – o homem perguntou. A voz era grave como a de um homem e não combinava em nada com seu rosto de certa forma infantil.

– Pediram que você viesse me procurar? – Quinn perguntou, os braços cruzados como se não demonstrasse interesse nenhum pela conversa. Um disfarce.

– Ahn, sim. – O homem parecia encabulado. Nada mais natural. Quinn tinha plena consciência de que o seu olhar, quando ela desejava, costumava fazer homens de ferro se derreterem com facilidade. Não era à toa que se arrumava tanto diariamente, era? – Quer dizer, a pessoa que te mandou essa encomenda achava importante que ela chegasse a você. E é por isso que estou aqui.

Quinn lançou um rápido olhar à caixa que o homem segurava com as grandes mãos. Não precisava ler o seu remetente para saber do que ela se tratava: folhas de papel sulfite com relatórios, notas fiscais bagunçadas, bilhetes que imploravam um pouco de compreensão pela falta de organização, esse era o tipo de coisa que vinha em pacotes da UPS quando eram direcionados a ela. Suspirou, desanimada, imaginando o trabalho que vinha a seguir. Por essas e outras que não tinha tanto apreço pela chegada do entregador da UPS quando a avisavam dele.

Quer dizer, isso até conhecer aquele deus grego de olhos claros e cabelos louros. O antigo entregador, um homem já de certa idade, com cabelos um pouco grisalhos e um corpo até que bonito, não parecia pertencer àquele uniforme, e talvez os seus chefes tivessem percebido isso no dia anterior, do contrário, não teriam mandado um novo entregador àquela região, teriam?

Uma caixa como a que o entregador agora segurava significava pelo menos três horas de trabalho para Quinn. Diante daquele homem, no entanto, era incrível como o desânimo que geralmente ela sentiria por antecipação não fazia sentido. Fosse quem fosse aquele entregador, ele tinha uma espécie de magia que fazia qualquer problema perder sua importância.

E Quinn não podia deixá-lo escapar. Não era sempre que um homem daquele aparecia à porta da sua baia, era?

– Qual é o seu nome? – Quinn deparou-se perguntando.

– Fiz uma coisa de errado? Estou começando hoje...

– Você não fez nada de errado! – Muito pelo contrário!, Quinn pensou em dizer. – Era só por curiosidade, mesmo.

O homem deu de ombros antes de levar um indicador até uma pequena placa presa à camisa, em seu peito.

– S. Evans – Quinn leu e piscou uma vez ao voltar o olhar para o rosto do homem. – S de quê?

– Sam. Sam Evans.

– Ah...

O homem pareceu ainda mais desconcertado. Quinn demorou o olhar em seu rosto e inconscientemente o desviou para o braço flexionado que lhe oferecia a caixa. Um braço tão belo quanto o era o restante daquele tal de Sam Evans.

Demorou um pouco até Quinn se dar conta de que a única coisa que o homem estava aguardando antes de finalmente se retirar dali era que ela tomasse de uma vez por todas a caixa que ele já oferecia há um bom tempo.

– Eu posso ficar aqui o quanto quiser, se assim preferir – ele disse e deu um peteleco rápido na caixa. – Mas então eu teria que justificar o meu atraso para os meus superiores. Consegue pensar em uma boa desculpa?

Quinn não ficou só vermelha, mas roxa de vergonha. Respirou fundo, retomando a autoconfiança com a qual caminhava até o trabalho diariamente, e respondeu, em um tom tão sedutor quanto o do rapaz:

– Vamos deixar isso para outra hora. – Girou graciosamente no lugar, levantando rapidamente a barra do vestido, mostrando pernas curvilíneas e bem cuidadas, e caminhou até a mesa, apanhando um bloco de notas e uma caneta para anotar algo. – Sexta-feira à noite, quem sabe?

– Como...?

– Nossa, que indelicadeza a minha! – Quinn exclamou ao regressar. – Meu nome é Quinn Fabray. Eu devia ter me apresentado antes de perguntar o seu nome, mas às vezes eu esqueço como funciona esse tipo de formalidade e...

– Eu entendo, não precisa se preocupar.

– Claro que entende.

Sam estendeu uma máquina grande à frente, onde esperava que Quinn assinasse o recebimento. Quinn tomou a máquina e a caneta eletrônica na mão e rabiscou uma assinatura simples. Devolveu, com um sorriso, o aparelho ao entregador.

– Isso é meu – Sam disse ao apanhar o aparelho – e isso é seu – finalizou ao entregar a caixa a Quinn. – Tenha um bom dia, madame.

– Terei – Quinn replicou e, rapidamente, emendou: – Um ótimo dia para você também.

Sam agarrou a aba do boné e se retirou do recinto. Quinn o seguiu com o olhar por tempo suficiente para deixar evidente para o colega de baia, que também a observava, que a relação entre ela e o entregador estranho não tinha acabado ali.

E se o plano de Quinn desse certo, a chance de o amigo se mostrar certo até o final da semana estava mais do que garantida.

~//~

Finn Hudson observava uma lista com mais de trezentos e-mails há mais de uma hora quando percebeu que tanta leitura não o estava levando a nada. Os assuntos tratados por aquelas correspondências eram passado e não ajudavam em nada no trabalho que ele precisava fazer. Além do mais, aquela era uma segunda-feira, e talvez fosse melhor que ele fizesse um trabalho que exigisse mais concentração na terça ou na quarta-feira. Quem sabe na quinta?

Levou as mãos ao rosto e esfregou os olhos, sentindo uma dor leve na cabeça por ter passado tanto tempo observando a tela do computador. Quando tornou a abrir os olhos, deparou-se com a parede de vidro à sua frente e com a secretária sentada, de costas para ele e de frente para um computador, do outro lado dela. A mulher tratara de jogar os cabelos compridos e negros para trás, talvez porque seus braços se movimentavam bastante enquanto ela mexia em processos enormes.

Pensou em chamá-la para entrar e conversar um pouco. Ninguém merecia trabalhar em uma segunda-feira, antes do horário do almoço, merecia?

É claro que merece!, ele se corrigiu em pensamento. Mas não em seu primeiro dia de trabalho. Hoje é dia de confraternizar e conhecer melhor os colegas de trabalho.

Tomou o gancho do telefone em uma das mãos e apertou a tecla cuja descrição era “Secretária Berry”. Ouviu o telefone da funcionária tocar uma vez e a observou voltar-se para trás, na sua direção, com uma expressão espantosa no olhar antes de atendê-lo:

– Berry.

A voz da mulher soara mecânica do outro lado da linha, mas o timbre que ela tinha era encantador e sedutor. A secretária não dissera mais do que uma palavra, mas estava claro, de alguma forma, que o jeito como ela falava era responsável por derreter muitos homens em horário de trabalho. Talvez por isso o antigo VP tivesse pensado em contratá-la como secretária. Olhar para aquela mulher e trocar palavras com ela durante todo um dia talvez fosse relaxante e interessante.

– Rachel, aqui é Finn Hudson – ele disse, ereto em sua cadeira, procurando manter a compostura de um homem de poder.

Rachel girou toda a cadeira até encontrá-lo de frente através da parede de vidro. Por cima, devia haver pelo menos três metros de distância entre a mesa do VP e a da secretária, uma distância que, se a porta da sala estivesse aberta, o som de uma voz poderia percorrer facilmente, sem ter que precisar de um telefone para chegar ao outro lado da parede de vidro. Mas Finn gostou da proximidade que a linha do telefone proporcionava. Poderia falar baixo, como um homem sério, sem nenhum esforço, se a conversa continuasse daquela forma.

– Eu estou te vendo, Sr. Hu...

– Finn, por favor.

Rachel inclinou a cabeça para o lado e revirou os olhos antes de repetir:

– Finn.

– Assim é melhor. Fica menos impessoal.

– Menos impessoal do que uma conversa feita por telefone entre duas pessoas separadas por uma parede de vidro? – O que Rachel dizia era um verdadeiro insulto, mas Finn estava tão envolvido pela voz da secretária que não se deixou influenciar por ele. – Na prisão de Lima, Ohio, é assim que um preso e um amigo conversam. Não podem se tocar.

Não podem se tocar?, Finn pensou e engoliu em seco. Claro que Rachel Berry estava falando da condição de um preso que, por conta de uma parede de vidro, não podia abraçar um familiar, um amigo ou um interesse amoroso enquanto conversava com um. Mas será que não notara o duplo sentido de sua frase? Ou será que Rachel, aquela secretária tão atenciosa em seu trabalho, simplesmente não sabia como ser sutil quanto aos seus desejos mais profundos?

Finn sentiu vontade de rir. Mesmo assim, manteve a carranca séria e impassível enquanto pensava no que dizer em seguida.

– Hum, Rachel, há algo de importante sobre o escritório que eu precise saber?

– Algo de importante? – ela questionou, franzindo o cenho. – Como o quê? Horários de entrada e saída ou o que não fazer enquanto estiver trabalhando?

– Talvez algo mais parecido com uma lista de pessoas que podem ser difíceis de lidar. – Finn estava inventando aquilo. Sabia o quanto antiético era pedir algo do tipo, mas precisava estender o assunto com Rachel antes que ela suspeitasse das suas intenções.

– Isso não é certo.

– Talvez você não precise fazer uma lista realmente, mas apenas me passar alguns nomes...

– Ainda assim, seria uma lista.

– Acho que você entendeu o que eu desejo, na verdade.

– Você quer se aproximar mais – ela disse e recostou-se na cadeira, fitando-o com olhos apertados. – Quer sair para almoçar, Sr. Hudson?

Finn sentiu-se tão entorpecido pelo convite da mulher que até se esqueceu de corrigi-la a respeito do tratamento usado. Cruzou as pernas em sua cadeira, dobrou o corpo para frente, como se forçasse um acareamento entre ele e a secretária, e disse:

– Eu não podia ter pensado em uma ideia melhor.

Rachel pareceu satisfeita.

– Ótimo – disse, sorridente. – Vou marcar um almoço para hoje em um restaurante por perto e chamar algumas das pessoas do escritório. Quem sabe isso não o ajude a descobrir quais são as pessoas mais difíceis de lidar por aqui?

Definitivamente, não era esse o plano que Finn tinha em mente.

– Perfeito – foi o que ele disse, no entanto. – Pode funcionar.

– Eu sei. Há algo mais em que posso ajudar?

Havia, é claro, mas, àquela altura da conversa, nenhum flerte surtiria o menor efeito.

– Por enquanto, não. Volto a ligar, qualquer coisa.

– Está bem. Vou ver se apareço no almoço também.

– Vou contar com isso.

– Até mais, Sr. Hudson.

– Finn, por favor – disse Finn e desligou, exalando frustração até pelas orelhas.