When You Came To Me
3 Como você consegue...
Sam entrou em sua van, jogou o aparelho de assinatura eletrônica sobre a poltrona em que deveria estar sentado um passageiro, se houvesse algum, abriu o vidro ao seu lado e deu uma longa respirada. Retirou o boné, libertando os cabelos louros há muito presos, e procurou ajeitá-los. Segundo o regulamento, ele não precisava usar boné o tempo inteiro, mas era imprescindível que, diante do cliente, sua cabeça estivesse coberta por ele, principalmente por conta de seus cabelos tão intensamente claros.
Ligou o rádio com um clique e sintonizou uma estação de música Country, sua preferida. A música que tocava agora era Red Solo Cup, uma que, coincidentemente, ele adorava tocar no violão quando tinha tempo. Cantarolou junto com os autofalantes e acelerou pelas ruas agora livres de Nova Iorque. Já não havia tantos trabalhadores causando engarrafamento àquela altura, pois já passara da hora de todo mundo se sentar em suas cadeiras confortáveis e vegetar em frente a um computador. Sam sentia pena por essas pessoas.
Talvez por isso tivesse aceitado o emprego na UPS. Adorava dirigir e odiava a monotonia que havia em tomar um posto de trabalho e gastar todo um dia apenas nele, sem fazer nada de absolutamente útil. O dia em Nova Iorque hoje, por exemplo, estava lindo, ensolarado, com um clima fresco, mas ninguém no prédio que ele acabara de deixar sabia disso. As janelas, cobertas por persianas, não os deixava observar a vida lá fora. Não era muito diferente do que colocar cabrestos em um cavalo, na opinião do jovem.
Fez a curva na Broadway e seguiu em frente. Não havia tantos carros ou táxis naquela parte da avenida, mas as pessoas eram tão numerosas que, sozinhas, eram capazes de deixar o trânsito bem ruim. Sam parou atrás de um Ford azul comum e apoiou os braços no enorme volante diante de si, esperando que o tráfego voltasse a funcionar. Soltou o ar todo dos pulmões em um único suspiro e seguiu com os olhos uma bela loira que, negligentemente, optara por atravessar a rua em um lugar bem distante da faixa de pedestre.
– Red Solo Cup... – ele repetiu com a música, tamborilando de leve no volante.
Quando a música terminou, a imagem da tal da Quinn Fabray, para quem ele entregara sua última encomenda, surgiu à sua mente – talvez porque a mulher que acabara de observar atravessar a rua se parecesse um pouco com ela. Era triste saber que mulheres lindas como aquela costumavam ficar enfurnadas em escritórios, longe da vista de qualquer homem que um dia pudesse observá-las e tentar uma vida feliz ao seu lado. Ele próprio tentara alguns flertes com a Fabray enquanto lhe entregava a caixa, mas, por mais sugestivas que tivessem sido as frases da mulher, ele não se sentira inteiramente confiante diante dela. Mulheres que nem ela tinham fetiche por entregadores, e ele não tinha vontade – ainda – de usar isso a seu favor. Queria conhecer alguém bacana, e não um caso para uma noite.
Meia hora depois, parava diante de uma loja de ferramentas escondida entre dois restaurantes em uma avenida movimentada. Conferiu o endereço na caixa que separara e as informações que as placas na rua forneciam. Tinha encontrado o lugar correto. Estacionou o carro ao lado de um parquímetro, depositou algumas moedas nele e, colocando o boné sobre a cabeça, caminhou até a entrada da tal loja.
– Ah, então você é o novo garanhão que traz as encomendas! – esbravejou um senhor de idade, já sem nenhum cabelo na cabeça, ao deixar os limites do balcão em que antes estava para se aproximar de Sam. Carregava algumas ferramentas em um avental e estava tão alegre quanto o dia.
– Sou tão diferente assim do anterior? – Sam perguntou, sorrindo.
– Muito!
– O senhor é muito atencioso.
– Que nada! O rapaz de antes já tinha me avisado que iria deixar o cargo – o homem retrucou, sacudindo uma mão manchada no ar.
– E você sabe por que ele pediu demissão? – Sam quis saber. Até então, estava gostando de trabalhar pela UPS, mas qualquer informação sobre o destino de trabalhadores antigos era importante. Poderia haver segredos guardados atrás de súbitas demissões que seriam de grande importância para um novato.
– Mudou-se para Oklahoma com a família – o senhor disse, fazendo cara de nojo. Não gostava de Oklahoma, pelo visto. – Conseguiu abrir uma mercearia por lá e desistiu da vida de entregador da UPS.
– Então foi por uma boa causa – Sam afirmou, já oferecendo a caixa ao homem.
– Por uma boa causa? Por uma ótima causa, meu jovem! – O senhor apanhou a caixa e a sacudiu, como se suspeitasse que parte do seu conteúdo estivesse faltando. Deu-se por satisfeito com o barulho ouvido e prosseguiu: – Ele ganhou na loteria, o que veio a calhar em um bom momento. Ele andava pensando em abrir um comércio há muito tempo.
– Vocês deviam ser muito amigos para ele te relevar tanta coisa.
– Éramos excelentes amigos, como se nos conhecêssemos desde a infância! E certo é ele de querer investir o dinheiro que ganhará em um empreendimento. Uma vez, ganhei na loteria e gastei tudo em mulheres e bebida!
– Um erro, não?
– Que nada! Me diverti muito naquela noite, ótimas lembranças. Algumas lembranças e experiências valem mais do que dinheiro, você não acha?
– Claro, com razão – Sam concordou, sem pensar. Só queria ir embora daquele estabelecimento e continuar com o seu dia de entregas.
– Tenho que assinar alguma coisa? – o homem perguntou, olhando para o aparelho eletrônico que Sam segurava embaixo do braço.
– Ah, que cabeça a minha! – Sam exclamou e entregou ao homem a máquina de assinatura eletrônica. – Assine aqui, por favor.
– Você não iria querer cometer um erro como esse no seu primeiro dia de trabalho, quereria?
– Claro que não, preciso desse emprego.
O senhor assinou e devolveu a máquina a Sam.
– Obrigado, senhor. Tenha um bo...
– Espere um pouco, meu jovem! O que é isso?
Sam andou até o homem, enquanto ele pousava óculos de grossas lentes sobre o nariz, e observou o que ele segurava. Era um papelzinho amarelo, com alguns dizeres. Onde Sam o vira antes?
– Isso é um telefone! – disse o homem. – Está querendo me chamar para sair, novo entregador? – O homem gargalhava enquanto fazia piadas de teor homofóbico a respeito da situação.
– Não hoje, senhor – Sam retrucou e apanhou o papel. – Esse papel devia estar preso na...
– Alguém te chamou para sair, e se for uma dessas mulheres de salto-alto que trabalham em escritórios, eu acho bom você se apressar em ligar para esse número!
Sam apertou os olhos na direção do homem.
– Vou pensar no assunto. Tenha um bom dia – finalizou e se retirou para o carro, não antes de agarrar rapidamente a aba do boné em um aceno de despedida.
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Rachel vestia um casaco fino, de lã, que era mais bonito do que capaz de aquecer o corpo, enquanto aguardava o elevador. Estava atrasada para o almoço que marcara com alguns funcionários para dar as boas vindas ao novo VP porque tivera processos para destinar às devidas aprovações, e esse sempre era um trabalho que exigia rapidez. A perna que sacudia em sinal de nervosismo, portanto, não podia ser contida. Causar má impressão para o VP em seu primeiro dia de estadia poderia comprometer o seu cargo na empresa.
– Está indo para onde? – alguém perguntou ao seu lado.
Rachel desviou rapidamente o olhar na direção da voz. Era a tal da Quinn Fabray.
– Para o meu horário de almoço – respondeu, séria.
– Está um pouco atrasada, não?
– Como é que você sabe?
– Estou indo para o mesmo restaurante que você agora.
– Mas eu não te mandei o convite para o almoço de boas vindas.
Houve uma pausa longa e desconfortável na conversa. Quinn balançou a cabeça em um lento consentimento, fitando o chão como se nele procurasse refúgio.
– Quer dizer, eu só chamei os mais próximos – Rachel tentou corrigir, assim que lhe surgiu a ideia. – Somente as pessoas que vão trabalhar diretamente com o Sr. Hudson.
– E eu não sou uma dessas pessoas?
Claro que era, e Rachel não tinha dúvidas quanto a isso. Só não convidara Quinn Fabray e nem mais ninguém do financeiro para ir ao almoço porque o escritório costumava odiar qualquer um vindo desse setor. Os funcionários do financeiro, segundo a opinião de muitos, servia apenas para serem xingados, e não para confraternizar em um horário descontraído de almoço.
Quer dizer, isso entre os homens que não sustentavam nenhum interesse amoroso pela famosa Quinn Fabray.
– Tudo bem, não precisa se preocupar – Quinn tornou a dizer, tocando de leve o ombro de Rachel. – Eu sei o que pensam sobre mim e sobre os meus colegas de trabalho, e, para falar a verdade, eu não estava esperando o convite para o almoço, mesmo.
Rachel franziu o cenho, confusa.
– E por que está indo ao almoço, então? – perguntou sem pensar. – Quem foi que te convidou?
– Um desses babacas que ficam me mandando e-mails a torto e a direito, desses que vivem me chamando para sair. – Nem Quinn e nem Rachel se olhavam enquanto conversavam. Pareciam mais interessadas nas portas do elevador do que no rosto uma da outra. – Eu jamais aceitaria sair com alguém do escritório, ainda mais com alguém que sustenta muitos outros interesses por mim, que não só a amizade.
– Por que aceitou o convite dessa vez, então?
– Porque esse é um almoço de boas vindas do novo chefe, e é importante comparecer a esse tipo de evento.
Rachel assentiu com a cabeça, convencida. Nesse instante, as portas do elevador se abriram e por muito pouco ela não esbarrou em Quinn quando adentraram a cabine.
– Tem uma coisa que me fascina a seu respeito – Rachel deixou escapar, virando-se para Quinn pela primeira vez.
– Uma coisa que te fascina? – Quinn repetiu, olhando-a com desconfiança, após apertar o botão do térreo no painel do elevador.
– Acho que escolhi a palavra errada – Rachel emendou. Embora tivesse sido sincera ao extremo ao dizer o que dissera a Quinn, não queria parecer uma aduladora diante da colega de trabalho. – Como você consegue...
– Como eu consigo o quê?
Rachel tomou fôlego antes de perguntar:
– Como você consegue tanta atenção?
Quinn ainda parecia não ter entendido o que Rachel quisera dizer com aquilo.
– Quer dizer – Rachel apressou-se em continuar –, você mal deixa o seu setor durante o horário de trabalho e mal conversa com as pessoas que trabalham com a gente... Eu não me lembro nem de ter ouvido um bom dia seu algum dia, porque, aliás, nunca nem te vejo passar diante da minha mesa. Ainda assim, eu sei quem você é, e a maioria do escritório também sabe. E todos os homens que te chamam para sair... Como é que você consegue tudo isso?
– Essa pergunta foi feita apenas por curiosidade?
Não, Rachel pensou. A pergunta fora feita porque ela queria aprender a agir como Quinn no dia a dia e chamar a atenção dos olhares masculinos que mais importavam da mesma forma. A tremedeira que sentira diante de Finn Hudson, por exemplo, era algo que ela tinha certeza que Quinn não sentiria se estivesse na mesma situação. Havia uma aura de autoconfiança em torno dela que era sedutora e cativante. Rachel queria adquiri-la para não mais passar por momentos de vexame como os passados durante aquela manhã.
Mas não relevaria nada disso a Quinn, nem sob pena de morte. Por isso, o que respondeu foi:
– Sim, é só por curiosidade.
Quinn inclinou a cabeça para o lado, como se achasse curiosa aquela resposta.
– É uma pena eu não poder responder essa pergunta.
– Você não pode? – Rachel perguntou, quase que tomada por ira.
– Não, sinto muito. Se eu soubesse o segredo, escreveria um livro e venderia milhões. – Ao perceber a seriedade no rosto de Rachel, Quinn emendou: – Brincadeira.
– Tudo bem – Rachel disse, desolada. Fitou o próprio reflexo na porta de metal à sua frente e, mentalmente, começou a se comparar com a mulher ao seu lado, em silêncio. De repente, não queria que aquela conversa continuasse por mais tempo.
Mas Quinn queria.
– Tem certeza de que foi só por curiosidade que você fez essa pergunta?
– Por que a pergunta?
– Sei lá – Quinn disse, rindo. – De repente, me ocorreu que você estivesse querendo tentar alguma coisa com o novo Vice Presidente. Quer dizer, é uma terrível de uma coincidência você me fazer uma pergunta como essa, sobre chamar atenção masculina e tudo mais, justo hoje. Mas seria uma loucura se interessar justamente pelo próprio chefe, não é mesmo?
Rachel engoliu em seco antes de afirmar:
– Seria. Claro que seria.
As portas do elevador se abriram com o soar de um sino e a conversa terminou ali. Rachel e Quinn seguiram juntas até o restaurante em que o almoço de boas vindas fora marcado e não mais se falou no assunto discutido no elevador até então.
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