When You Came To Me
4 Comida Chinesa
– Finn Hudson! – disse um funcionário de nome Noah Puckerman, um de que Quinn não gostava muito, ao aproximar o novo VP da mesa reservada por Rachel Berry. Puck, como era conhecido, era quase tão alto quanto o VP e, um pouco mais moreno, tinha um penteado que até as mulheres menos conservadoras consideravam ousado demais para um ambiente de trabalho: um moicano. Trabalhava na parte de T.I. da empresa, o que talvez justificasse a aceitação dos superiores pelo seu visual moderno, afinal, quem é que se importa com a aparência de alguém quando o computador não quer ligar ou quando o e-mail não quer funcionar?
Finn saudou a todos com uma mão aberta, como Quinn tinha certeza de que vira Barack Obama fazer muitas e muitas vezes, e tomou a ponta da mesa, como um verdadeiro chefe. De terno negro e com uma postura ereta demais para um ambiente que originalmente devia ser bem descontraído, o homem levou todos – pelo menos Quinn imaginava que sim – a pensar que estavam prestes a encarar uma reunião que não tardaria a mostrar números e dados chatos durante a próxima hora. Quinn esperava que estivesse errada quanto a esse pensamento.
O restaurante era um desses que, de fora, parecem intimidadores por serem tão bonitos. Servia comida chinesa, apesar disso, em louças que diziam ser importadas, e o alimento era preparado por verdadeiros chineses. O dono do lugar, um senhor oriental que exalava simpatia, vivia a dizer que vira seus companheiros cozinheiros crescerem e que, portanto, confiava em suas aptidões. Muitas das receitas ali, ainda segundo o que dizia, eram invenções deles próprios. Quinn achava essa conversa um papo furado, mas sendo as informações ditas verdadeiras ou não, a comida servida ali era excelente, e fora por essa razão que ela aceitara o convite enviado por e-mail por um rapaz que, agora, sentava-se a uma boa distância de onde estava agora. Ele não esperava que ela fosse se sentar ao seu lado durante o almoço, esperava?
Os pedidos já tinham sido feitos e, ainda assim, Rachel não parava de ajeitar os seus guardanapos e copos sobre a mesa. Colocava e retirava um casaquinho, ora sentindo frio, ora sentindo calor. Quinn, que era a pessoa sentada ao seu lado, naturalmente começou a se incomodar com aquilo. Imaginou que um pouco de conversa fosse distraí-la daquele ritual interminável.
– A posição das toalhas me parece perfeita – disse, apoiando a cabeça em uma das mãos.
– Não para os padrões chineses – Rachel respondeu com prontidão.
– Padrões chineses? E quem se importa com eles? Quase não há chineses nesse restaurante. Estamos em Nova Iorque!
– Você não entenderia, Quinn...
– A menos, é claro, que você esteja pensando em conquistar um.
Rachel olhou muito rapidamente de relance para Finn Hudson, mas Quinn não percebeu esse olhar, apesar de ter dito:
– Os chineses não são a principal atração do dia, Berry. – Apontando um indicador fino na direção do novo chefe, Quinn emendou: – Ele é.
– Não estou questionando isso. – As mão delicadas e de aparência frágil da mulher voltaram a remexer os guardanapos. Quinn, apesar de fazer uma força incrível para olhar para o rosto de Rachel enquanto lhe falava, não parava de desviar a atenção para aquelas mãos inquietas.
– Ainda é o problema com o VP?
– Desculpa, o que disse? – Rachel respondeu, apesar de Quinn ter certeza de que ela tinha entendido a pergunta.
– Ele tem sido cruel com você? Apesar de bonitão, é uma pedra no sapato, como você temia que fosse?
– Não! De forma alguma! Ele é um amor!
A maneira como Quinn uniu as sobrancelhas, com desconfiança, fez com que Rachel engolisse em seco.
– Digo, ele é melhor do que o esperado – a mulher tratou de corrigir.
Uma batida de garfo em um copo encerrou a conversa. Tanto Rachel quanto Quinn e o restante da mesa se voltaram para Finn Hudson, que era quem queria chamar a atenção. Ao se levantar, ele sorria para todos com mais formalidade do que Quinn achava ideal, o que voltou a levá-la a pensar que seus piores pesadelos – os de ter que engolir um yakisoba inteiro junto com um monte de chatice – se tornariam realidade.
– Eu queria agradecer a essa recepção calorosa – ele dizia – e a esse tratamento incrível que estou recebendo. É algo com o qual não estou acostumado e que certamente não esperava. Não sei se vocês sabem, mas já trabalhei com muitas pessoas, e vocês, sem sombra de dúvidas, me parecem a melhor equipe de todas.
Ele deve falar isso para todo mundo, Quinn pensou, embora sorrisse amavelmente.
– Tenho certeza de que vamos fazer um excelente trabalho juntos – Finn prosseguiu. – Estou aqui para isso também, não? Se quiserem, podem contar comigo para o que der e vier.
Houve uma salva de palmas. Uma mulher, no outro lado da mesa, chorava copiosamente, apesar de o discurso não ter sido nem metade tão inspirado quanto Quinn imaginara que seria.
– E um obrigado ainda maior para a minha secretária, a Srta. Rachel Berry, que foi quem sugeriu esse restaurante incrível para a confraternização – ele falou e olhou para a secretária em questão. Quinn mal acreditou em seus olhos quando a deparou mais corada do que era aceitável para uma pessoa normal. – Hoje, o almoço é por conta da casa.
Dessa vez, não houve só salva de palmas, mas também urras. Um chinês, a um canto do restaurante, sacudia um indicador no ar em negativa, dizendo que não aceitava que a comida fosse “por conta da casa”.
– Imagino que o Sr. Hudson esteja querendo dizer que o almoço será pago pela empresa, e não pelo restaurante, correto? – Quinn disse em tom de piada, esperando melhorar o humor do chinês em fúria. Funcionou.
– Foi exatamente o que eu quis dizer – Finn concordou, sorrindo com simpatia na direção da mulher.
Quinn lançou-lhe uma piscadela e voltou a cabeça para o outro lado. Não estava interessada nos encantos do novo VP.
Mas estava tremendamente interessada nos encantos do homem que encontrou sentado em uma banqueta em um balcão, comendo sozinho, de costas para a mesa em que ela estava. Vestia o uniforme da UPS e, se a memória de Quinn não falhasse, aquele era o mesmo entregador de horas atrás. Aquela cabeça coberta por fios grandes e loiros não era muito comum, era? Muito menos aquele corpo escultural, marcado por um uniforme que não cobria muita coisa.
Quinn vasculhou a bolsa de mão que trouxera consigo em busca do celular. Encontrou-o com rapidez e checou a sua tela. Não havia ligação nenhuma de um número estranho, para a sua tristeza. Será que o tal do Sam Evans não percebera o post-it que ela colara em seu aparelho de assinatura eletrônica?
Achou melhor agir com rapidez em relação a ele. Não queria por nada no mundo deixar aquele homem escapar.
Tomou um guardanapo e sibilou um palavrão ao se dar conta de que não trouxera uma caneta consigo. Teve que apelar e voltou-se para Rachel, procurando ajuda.
– Uma caneta? – Rachel repetiu, com estranheza, como se Quinn tivesse pedido um estetoscópio, na verdade, e não uma simples caneta.
– Não consigo pensar numa maneira de ser mais clara.
– Eu tenho uma aqui... – e realmente tinha. Era cor-de-rosa, recheada de glitter e tinha uma estrela amarela na ponta. Quinn não sabia dizer o que era pior: usar aquela caneta em meio a tanta gente vestida em roupas sociais ou perder o homem da sua vida porque não queria passar por esse vexame. – Mas por que você quer uma caneta agora?
– O meu novo namorado está logo ali e ele precisa saber que eu estou interessada nele.
Rachel voltou-se na direção olhada por Quinn e encontrou o entregador da UPS. Não se lembrava mais dele, apesar de tê-lo visto há poucas horas.
– Aquele é o seu novo namorado? – perguntou.
– Sim. Mas ele não sabe disso ainda.
Rachel pareceu ainda mais confusa.
Quinn anotou o seu número de telefone no guardanapo e chamou a atenção de um garçom. O chinês mal pareceu compreender suas palavras, mas assentiu animado, repetindo “entregador da UPS” várias vezes enquanto se encaminhava na direção de Sam.
Foi com algum horror que Quinn viu o homem da sua vida se levantar enquanto o garçom se encaminhava até ele, e o que era pior: ele não estava sozinho, na verdade. Havia um entregador junto com ele, e esse não tinha se levantado ainda.
O garçom entregou o guardanapo para um homem gordo, de aparência assustadora, vestido com o uniforme da UPS, e apontou para Quinn. Com o rosto em chamas, a mulher se virou antes que o homem pudesse descobrir de quem era o número de telefone. Surtiu efeito, porque seu telefone ficou sem tocar durante todo o almoço e o homem em questão não veio até a sua mesa.
Você não dá uma dentro, Quinn!, pensava enquanto empurrava a comida chinesa goela abaixo. Estava sem apetite nenhum depois do que acontecera.
~//~
Sam morava em um apartamento minúsculo próximo ao Central Park. Dividia-o com um amigo que, naquela noite, não estava presente, então Sam não teve que discutir com ninguém enquanto tomava seu demorado banho. Quando saiu do banheiro, caminhou três passos até o guarda-roupa e escolheu a esmo uma roupa para dormir. Estava calçando um par de meias quando se deparou com o papelzinho amarelo com o telefone de Quinn sobre a mesa de criado-mudo.
Segurou-o por entre os dedos e examinou o que estava escrito. A caligrafia era impecável e bonita, digna de uma mulher dedicada e inteligente. Sam passou o polegar pelos números escritos e refletiu sobre o que poderia acontecer se ele tomasse o celular em uma das mãos e os digitasse por lá. Aquela ligação poderia significar que a sua vida de felicidade poderia começar naquele minuto, ou então que o sexo de sexta-feira à noite estava garantido. Ambas as perspectivas, no entanto, lhe pareciam assustadoras. Seria uma quebra de rotina tremenda ter uma namorada depois de tanto tempo, não seria?
Mesmo assim, Sam dobrou-se até a mesa de criado-mudo novamente e segurou o seu antigo celular em uma das mãos. Recebera uma mensagem de texto dos pais, mas, por enquanto, ele a ignorou. Digitou o número de Quinn, mas não apertou o botão de ligar; primeiro, salvou o número, usando apenas um “Q.” como identificação, e então olhou para frente, para a minúscula janela que tinha em seu quarto. Em algum lugar ali fora, Quinn Fabray devia estar esperando um retorno seu.
Mas Sam ainda não sabia se queria retornar.
Envolvera-se uma vez com uma mulher que tinha fetiches por garotões loiros e musculosos, mas não se sentira tão bem quanto gostaria. Seus amigos viviam a dizer que sexo casual era uma boa para rapazes bonitos que nem ele, que curtição era o melhor em viver em uma cidade como Nova Iorque, mas ele provara do que lhe fora sugerido e não gostou. Quer dizer, a noite com a mulher foi incrível, afinal, não é todo dia que se sai com uma beldade. Mas quando voltou para a casa no dia seguinte, Sam não se sentiu tão completo quanto gostaria. Faltava algo.
E se a tal da Quinn Fabray estivesse pensando em fazer o mesmo? A vida é muito curta para gastar tempo com momentos que não trazem felicidade, não? Pelo menos assim Sam acreditava. Sua vida de colegial rebelde, que beija toda e qualquer menina só para se sentir o pegador da região, já tinha acabado, ficara lá em Lima no dia em que ele decidira ir para Nova Iorque tentar uma nova vida. Ficar com uma garota por ficar não ajudaria em nada nos seus planos, que consistiam basicamente em levantar uma grana legal e ajudar os pais, que estavam passando por momentos bem difíceis ultimamente. Seus irmãos precisavam de roupas novas há tanto tempo, também...
Ouviu a porta da frente, a não muitos metros dali, se abrir e escondeu o post-it no bolso da calça. O amigo, um rapaz de nome Blaine Anderson, baixo para os padrões normais, de cabelos e grossas sobrancelhas negras, entrou e o deparou deitado desconfortavelmente em sua cama. Franziu o cenho, como aquele que percebe algo de errado, e não tardou a perguntar:
– Eu estou interrompendo alguma coisa?
– De forma alguma – Sam respondeu com tanta rapidez que a desconfiança de Blaine só se acentuou.
– Se estiver se masturbando, cara, pode usar o banheiro...
– Não seja idiota, cara! – Sam disse e arremessou um travesseiro no rosto de Blaine, interrompendo a fala do amigo.
Preferia que o amigo pensasse que ele estava se masturbando do que pensando em uma possível paixão, e por isso não negou ou afirmou a piada de Blaine.
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