When You Came To Me
5 Perfume
Rachel estava calma quando foi trabalhar no dia seguinte, afinal, o choque inicial já se fora. Mas isso não queria dizer que ela estava de todo tranquila.
Que era um fato que ela odiava os seus antigos chefes, isso não tinha como negar. Se antes perguntassem, ela até diria que preferia que eles fossem mudados, que fossem alguém mais jovem e compreensivo, que não fosse alguém tão autoritário e que não falasse tão alto. Alguém que fosse mais paciente e que compreendesse que cada pessoa tem o seu tempo para concluir um trabalho, e também as suas limitações. Finn Hudson era cada um desses casos, mas com um adicional: era bonito.
E Rachel nunca desejaria que um chefe fosse bonito. Por algumas razões.
Secretárias, por natureza, eram muito mal faladas em ambiente de trabalho. Por se vestirem bem, por lidarem com tantas pessoas e por, às vezes, terem boa aparência, sempre há quem diga que elas têm costume de sair com a maioria dos pegadores da empresa. Rachel podia afirmar de boca cheia que nunca saíra com ninguém do escritório, mas nunca as pessoas vinham até ela para perguntar se ela de fato saíra com alguém; os boatos eram criados e as histórias corriam com tanta frequência que até mesmo Rachel suspeitava da veracidade delas. Certa vez, levantaram a hipótese de ela ter começado a sair com o zelador do prédio, que até que era um homem bem apessoado, e os detalhes em torno da história eram tantos que Rachel se perguntava se não tinha mesmo acontecido de ela ter saído com ele e simplesmente se esquecido disso.
Fato era que Rachel não saíra com ninguém desde que chegara, e não pensava em sair tão cedo. Quanto mais pudesse evitar que as pessoas falassem mal a seu respeito, melhor.
Mas Finn Hudson era bonito.
Não só bonito, é claro, mas atraente, falava bem, tinha mãos grandes que Rachel adoraria segurar e um corpo alto e robusto que ela adoraria desbravar e...
– Pare de pensar nesse tipo de coisa, Rachel! – disse a mulher, largando, com um baque, uma pilha de processos sobre sua mesa.
Rachel nunca desejou tanto que seu atual chefe fosse, na verdade, um porco nojento e ignorante como todos os outros. Se fosse alguém repulsivo, de poucos amigos, um troglodita que não sabia conversar e que não tinha o sorriso mais perfeito que Rachel já vira na vida, talvez ela não tivesse tanta vontade de entrar na sala dele o tempo inteiro, até mesmo para falar as coisas mais tolas como a previsão do tempo. Não pensaria nele a todo instante, também, e, se pensasse, suas reflexões girariam em torno do quanto ele era nojento e como ela se sentia feliz por não ter que dividir cama com alguém que nem ele. Talvez até tirasse sarro da esposa do homem, que, querendo ou não, deveria ser uma mulher bem forte para aguentá-lo.
Mas tais pensamentos não faziam sentido nenhum em relação a Finn Hudson. Ele, ao que parecia, era um homem perfeito e, ao invés de querer se afastar dele, tudo o que ela queria era se aproximar mais e mais. Que homem um dia fizera isso por ela? O tal do Jesse St. James, que ela conhecera na escola, durante a época de Glee Club? Nem ele. Era um garoto tão esnobe que adorava mais a própria aparência do que a da namorada. Se pudesse, namoraria com o próprio espelho.
Mas o jeito como Finn Hudson olhava para ela quando dizia...
– Bom dia – ele disse ao passar pela mesa da secretária. Seu sorriso de lábios cerrados era bonito, pois as maçãs do seu rosto se erguiam e esmagavam seus olhos negros e brilhantes. A mão que ele pousou sobre a baia, esperando chamar a atenção da secretária com o barulho, passara tão perto do rosto de Rachel que por pouco ela não ergueu a própria mão para agarrá-la.
Mesmo quando passou pela porta do aquário em que ficava a sua sala, o aroma delicioso de seu perfume caro permaneceu no ar. As mãos da mulher, que seguravam algumas folhas de relatório, de repente vacilaram e as deixaram cair no chão.
Foi o som desse descuido que a acordou de seu transe e a fez se dar conta de que ela não respondera a saudação do próprio chefe.
O que ele vai pensar de mim?!, Rachel pensou com urgência, reunindo as folhas com rapidez. Largou tudo de qualquer jeito sobre a mesa de trabalho, bagunçando datas, o que se tornaria um enorme empecilho mais tarde, e se levantou num pulo, agarrando a maçaneta da porta do aquário antes que pudesse evitar.
Sorridente, com as mãos unidas em frente ao ventre e com os pés unidos como se estivesse prestes a cantar um dos muitos solos de Barbra Streisand que já cantara na vida, Rachel se deparou a pouquíssimos passos de onde Finn estava. A expressão no rosto do homem primeiro foi séria, mas então seus lábios voltaram a se retorcer naquele sorriso gracioso. Não era um sorriso de simpatia, muito pelo contrário; aquele era o indício de que um ataque de risos estava por vir.
Rachel arregalou os olhos, espantada. Será que fizera algo de errado?
– O que é tão engraçado, Sr. Hudson? – perguntou. Não conseguia guardar a língua dentro da boca quando sentia vontade de falar, defeito que ela fizera questão de descrever em sua ficha de inscrição quando tentou a vaga de secretária, detalhe que não pareceu preocupar os responsáveis de Recursos Humanos.
– Finn, por favor.
– Desculpe... Finn.
– Bem, você entrou na minha sala, ficou a me encarar com esse seu sorriso... – fez uma pausa, correndo os olhos por toda a extensão do corpo da secretária –... lindo e não disse qualquer coisa. Diga: o que não há de engraçado sobre isso?
Rachel teve que pensar rápido, primeiro porque não podia deixar que Finn percebesse que ela corara e segundo porque precisava evitar que ele descobrisse que a sua súbita entrada em sua sala fora, na verdade, um impulso incontrolado.
– Eu vim passar um recado – foi o que disse. O perfume do chefe parecia deixá-la embriagada.
– E quis passar o recado pessoalmente? Geralmente, você faz isso pelo telefone.
Não torne isso mais difícil, por favor!
– Pode falar – Finn prosseguiu, depois de um longo tempo de hesitação vindo de Rachel. – Desculpa se fiz parecer que você me atrapalha. Eu gosto de você.
Rachel não sabia se prestava atenção nas palavras dele ou se se deixava envolver pelo aroma que corria suas narinas.
– E então?
– B-Bem... – a mulher começou a dizer. – Na verdade, eu queria perguntar o nome do seu perfume.
– O nome do meu perfume?
– Isso...
– Você gostou?
– Adorei... – Rachel respondeu sorrindo, corando e vacilando sobre as próprias pernas, como uma colegial faria ao falar com o garoto amado.
Finn reprimiu um ataque de risos que Rachel percebeu no mesmo instante. Novamente, teve que pensar rápido para voltar a agir profissionalmente. A conversa estava saindo pior do que o esperado.
– Quer dizer, penso em comprar um igual para um dos meus pais, o aniversário dele está por perto e...
– Ah, imaginei que fosse isso mesmo.
– E por que mais seria? – disse Rachel e fez um gesto como o de quem considera uma bobagem pensar em qualquer outra explicação menos óbvia para a situação.
– Eu estava me perguntando a mesma coisa.
Finn anotou alguma coisa em uma folha de bloco de notas e entregou o papel a Rachel. Rachel o apanhou com cautela, como se ele estivesse prestes a explodir.
– E o recado? – Finn insistiu.
– O... O recado...?
Rachel, sua idiota!
– Você acredita que eu esqueci qual era o recado? – disse e se apressou para deixar a sala. – Mas é alguma coisa que vi na minha caixa de e-mail, vou verificar e volto a te procurar.
– Vou esperar por esse momento.
Rachel levantou um polegar para o VP e fechou a porta com uma batida alta demais para os padrões de tranquilidade do escritório. O corpo não respondia mais aos comandos corretamente e o coração saltava com tanta fúria que parecia prestes a deixar aquele corpo.
~//~
Quarta-feira e o celular de Quinn Fabray ainda não tinha tocado.
Quer dizer, o atendente de telemarketing da companhia de cartão de créditos voltara a procurá-la, fazendo uma proposta de pagamento para a alta dívida que ela levantara por ter ultrapassado o limite que tinha disponível no cartão de crédito. Mas Quinn não estava interessada nele, pois a voz do atendente não era nem metade tão sexy quanto a do entregador da UPS e as coisas que ele tinha para dizer não eram nem um pouco tão encantadoras quanto ela esperava que uma ligação de celular nos próximos dias fosse.
Começava a se perguntar se anotara corretamente o número no post-it. Passara por um momento tão grande de nervosismo quando se deparara com o loiro de corpo escultural à porta da sua baia que poderia muito bem ter anotado o número da casa de comida indiana que sempre servia o seu jantar de sexta-feira ao invés do número do próprio celular. Se fosse esse o caso, Quinn não voltaria a vê-lo nunca mais.
Bem, pelo menos até a segunda-feira, que era a data em que a entrega de processos feita pela UPS era agendada.
Mas Quinn queria vê-lo antes disso. Segunda-feira parecia a cinco anos de acontecer, e as mãos da mulher até tremiam só de pensar em percorrer o corpo daquele homem em uma noite de sexta-feira – em dois dias! Mas como poderia encontrá-lo em Nova Iorque? Quer dizer, o encontro ocorrido no restaurante chinês fora uma coincidência das grandes, algo que acontece uma em um milhão de vezes no universo. Procurá-lo, portanto, não daria em nada.
Quinn precisava fazê-lo vir até ela.
Mas como?
– Quinn? – chamou o colega de trabalho nerd que dividia baia com ela.
– Sim? – Quinn voltou-se para ele, séria, como se, antes de ser interrompida, estivesse trabalhando.
– Você gosta de livros, não gosta?
– Amo! – e era verdade.
– Recebi por e-mail um link para compra de livros por menos de cinco dólares. É de uma dessas lojas online, sabe? O livro não tem capa dura nem nada, mas a história continua a mesma...
Sim! Excelente ideia!, Quinn pensou, arregalando os olhos e demonstrando tanta alegria que levou o colega de trabalho a subentender que a ideia de comprar livros, para ela, era fabulosa. O rapaz quase se assustou diante da reação observada.
– Compra de livros pela internet? – ela repetiu, fitando o rosto do colega, o olhar estático como se ela tivesse morrido na cadeira.
– Foi o que eu disse, mas...
– Quem faz a entrega desses livros?
– Você quer saber a pessoa responsável pelas entregas...?
– A empresa! Que empresa faz entrega de produtos comprados pela internet? – Quinn não se lembrava de já ter comprado pela internet antes e, se comprara, o entregador não lhe fora tão marcante assim.
– Não sei. Tem opções de escolha lá...
Quinn abriu o link enviado pelo amigo e encerrou a conversa.
Escolheu quatro livros a esmo, de autores que ela mal conhecia e de gêneros literários que ela nem ao menos se dera conta de quais eram. Clicou no botão de comprar e, na tela de endereço de entrega, especificou que o pacote tinha que ser entregue especificamente a Quinn Fabray e inclusive descreveu as coordenadas de sua baia na empresa. “Apenas em mãos!”, colocou nas observações. Preenchido o endereço, foi para a janela seguinte, que pedia dados de pagamento. Não se lembrava mais da dívida do cartão do crédito, então preencheu as informações que já conhecia de cor nos campos correspondentes e sorriu quando a mensagem “Pedido Finalizado!” apareceu na tela.
Sorriu ainda mais quando recebeu o e-mail de confirmação de pagamento. Aquilo significava que uma taxa a mais a seria cobrada na próxima fatura, é claro, mas, por enquanto, para Quinn, era apenas a informação de que ela voltaria a ver Sam mais cedo do que imaginava.
O e-mail de pedido aprovado veio logo em seguida, descrevendo informações de endereço de entrega, de pagamento e prazo da entrega, que, de fato, seria feita pela UPS.
Em três dias úteis.
Três dias úteis?!
– Três dias úteis é daqui a quantos dias? – Quinn perguntou ao colega, tentando transparecer normalidade na voz. Sem sucesso.
– Na segunda-feira, imagino.
Quinn sentiu vontade de estrangular o colega de trabalho como nunca antes quisera.
Mesmo com uma compra pela internet, ela só voltaria a ver Sam na segunda-feira!
Será que esse é o destino conspirando para que eu desista do homem da minha vida?, Quinn pensou, já levando o indicador de unha parcialmente roída aos dentes.
Fosse o destino ou não, ela não estava disposta a desistir tão facilmente. Sam Evans devia pertencer a ela e a ninguém mais!
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