When You Came To Me
6 Garrafa de Leite
Sam abriu a porta do apartamento, jogou o boné em um cabide ali perto, deixou a bolsa da UPS em uma cadeira ao lado e caminhou para dentro da casa. Esfregou o rosto. Sexta-feira e o trabalho fora pior do que no restante da semana. As coisas não deveriam funcionar assim, segundo o conceito dele; sexta-feira, tecnicamente, era o dia em que se fingia que trabalhava, e não o contrário. Mas as entregas daquele dia foram muitas e em lugares tão distintos que até dirigir, algo que Sam adorava fazer no cotidiano, tornou-se algo irritante.
Desabotoou a camisa parda que vestia e caminhou até a cozinha, que nada mais era do que um corredor, de chão coberto por ladrilhos pretos e brancos, com uma bancada, um fogão e uma geladeira em frente a este. O espaço era tão pequeno que ou se abria a porta do armário, ou o a do forno, nunca os dois ao mesmo tempo. Mas Sam, e até mesmo o Blaine, mal gastava tempo na cozinha, de qualquer forma, portanto, não se importava com o seu tamanho.
Retirou uma garrafa de leite de dentro da geladeira, leu, sem prestar muita atenção, o anúncio de gente desaparecida que nela havia e, depois de quebrar o lacre da garrafa, levou-a à boca sem culpa. Blaine odiava que bebessem o leite direto do gargalo, mas como ele não estava em casa, Sam se sentiu no direito de quebrar essa regra. Ninguém sofre por aquilo que não vê, não é o que dizem? E também, Blaine talvez não fosse tão certinho quanto defendia ser. Todo mundo tinha os seus segredos.
Sam estava tão envolvido pelo sabor do leite correndo sua língua e descendo com frescor pela garganta que não se atentou à chave que girava no trinco da única porta do apartamento. Quando a porta abriu e Blaine se deparou com o amigo daquele jeito, quase descamisado, com uma garrafa de leite nos lábios e os olhos fechados como se o homem estivesse em transe, nenhuma das partes disse nada. Sam adorava o que estava fazendo e Blaine adorava o que via.
Quando Sam abaixou a garrafa e limpou a boca com o verso da mão, no entanto, o que o colega de apartamento disse, fazendo um esforço tremendo para evitar gritos, foi:
– Você sabia que pode ser preso se eu pegar esse telefone agora e denunciar você à polícia pelo que está fazendo, não sabe?
Primeiro, Sam franziu o cenho, confuso, pensando no que o amigo queria dizer com aquilo. Não entendeu de imediato e, com um gesto de mão – aquela que segurava a garrafa de leite com metade de seu conteúdo ainda –, pediu que Blaine explicasse.
– O leite – Blaine disse e olhou para a garrafa.
– Você quer?
– De jeito nenhum. Não depois de essa sua boca desproporcional ter tocado a boca da garrafa. Isso devia ser proibido por lei! – Blaine finalizou e se retirou para o banheiro.
– Você devia esquentar menos a cabeça – Sam retrucou e se levantou. Parou à porta do banheiro, fechada, e prosseguiu: – Se você quiser, posso usar um funil e evitar que o leite toque a boca da garraf...
– Muito obrigado, Sam! – Blaine gritou do outro lado da porta. – Mas você me faria um imenso favor se simplesmente terminasse de beber o leite todo e me privasse de ver essa garrafa outra vez!
Sam riu em silêncio, sacudindo ombros.
O som da água quente caindo a toda de um chuveiro fez-se ouvir do outro lado da porta.
– Vou ao Coconut Bar hoje – Blaine disse de repente. – Quer ir?
– Coconut Bar? Aquele próximo a...
– Esse mesmo.
– Esse bar é gay, não é?
Houve um instante de hesitação antes de Blaine dizer:
– É.
– E o que eu vou fazer lá?
– Sucesso. Do jeito que você é, não é difícil imaginar o que os frequentadores não fariam por você – Blaine disse com um quê de sarcasmo.
– Você está querendo dizer que sou bonito?
A porta de repente se abriu e, para a surpresa de Sam, Blaine estava vestido apenas com uma toalha na cintura.
– Eu não vou conseguir tomar o meu banho como manda o figurino se você continuar a conversar comigo. Agora, se puder me dar uma licença.
Sam espalmou as mãos no alto, num sinal de que nada podia fazer a respeito daquela repreensão, e caminhou para longe dali. Blaine ainda demorou alguns instantes antes de fechar a porta do banheiro novamente e iniciar o seu show de cantoria embaixo do chuveiro. A música da vez era Teenage Dream, da Katy Perry. Sam só sabia disso porque Blaine jamais o deixaria se esquecer.
Deitado na cama, o entregador da UPS olhou para o lado e voltou a se deparar com o papelzinho amarelo, entregue por Quinn Fabray. Sam tomara o cuidado de deixá-lo com a face voltada par abaixo, embaixo do seu relógio despertador, porque queria evitar a curiosidade de Blaine. Se esse soubesse que uma mulher estava interessada por ele, começaria a dar conselhos a torto e a direito do que ele deveria fazer para conquistar a loira, e Sam não queria ouvir nenhum dos possíveis conselhos do amigo.
Apanhou o papel e observou os números. Claro que poderia ligar para ela naquela noite, afinal, Quinn sugerira que eles se vissem na sexta-feira à noite, por volta das oito horas, e não era nem seis horas ainda. Se tomasse o celular e ligasse para ela agora, Quinn teria uma hora inteira para demorar com a sua arrumação e encontrá-lo no local marcado. Não era tarde demais para começar um romance, muito menos para sair com uma possível futura amiga. Ele não tinha nada de mais para fazer naquela sexta-feira, tinha?
Tinha: academia. Não era à toa que seu corpo era tão definido, afinal, Sam tinha uma disciplina jamais vista no que dizia respeito à boa forma. A academia de sexta-feira à noite – por volta das oito horas – era praticamente um ritual sagrado, algo que lhe partia o coração se tivesse que ser ignorado.
Sam pensava se estava disposto a esquecer da academia daquela sexta-feira para sair com Quinn. Quinn era uma mulher linda, tinha olhos para os quais ele gostou muito de olhar, um rosto forte, mas delicado, e um sorriso gracioso de uma mulher esperta, que sabe o que quer. Uma olhada mais baixa e era possível divisar seios pequenos, não minúsculos, por baixo da blusa de seda que ela usava no dia, porque talvez ela fosse uma dessas mulheres sempre magras. Ainda assim, suas pernas, semiescondidas por debaixo da saia leve que vestia, eram grossas, do tipo que uma mão espalmada adoraria explorar. Claro que era inevitável pensar em Quinn Fabray nua, porque, querendo ou não, aquela era uma mulher que fazia o desejo de qualquer homem se aflorar.
Foi esse tipo de pensamento que fez nascer uma ereção por debaixo da calça de Sam.
Certo de que já fazia um tempo que Blaine tomava banho, Sam tratou de acalmá-la, pois não queria que o amigo a percebesse quando deixasse o banheiro.
Não conseguiu ser rápido o bastante; não conseguia parar de pensar em Quinn. Portanto, quando Blaine surgiu no quarto, Sam jogou-se em uma posição desconfortável na cama, sentado e debruçado sobre as pernas, optando por usar uma expressão entediada no rosto, como se estivesse naquela posição desde que Blaine entrara no banheiro.
– Vai para a academia? – Blaine perguntou. Já estava vestido com uma calça jeans, e apenas com ela, enquanto circulava pelo quarto, secando os cabelos.
– Estou pensando.
– Uau! Isso é uma novidade! O que será que conseguiu fazer com que o famoso Sam Evans desistisse de seu encontro sempre marcado na academia?
Sam deu de ombros, em um gesto mais suspeito do que ele desejava.
– Há uma mulher na parada? – Blaine perguntou.
E Sam engoliu em seco.
E Blaine correu para tomar o lugar ao seu lado na cama.
– Qual é o nome dela? Que aparência tem? Você a conheceu enquanto fazia uma entrega? É um antigo amor de infância?
– Não! – Sam respondeu, afastando-se para o lado. Queria ter dito que não encontrara antigo amor de infância nenhum, mas Blaine entendeu a negação de outra forma.
– Então realmente há uma mulher na parada, apesar de não ser um antigo amor de infância! – Blaine riu e jogou-se para trás. – Pouco tempo em Nova Iorque, mas Sam Evans já conseguiu atacar um coração inocente!
Sam ensaiou uma risada, mas falar de Quinn aos risos não parecia certo, então o riso soou falso.
– Quer alguns conselhos? – Blaine continuou. – Combinei de encontrar o pessoal às oito, mas ainda tem um tempo até...
O celular de Sam tocou – uma música Country antiga e antiquada –, e foi ele o responsável por interromper o discurso animado de Blaine.
– Não vai atender? – Blaine perguntou.
– Claro – Sam respondeu e apanhou o celular.
O aparelho vibrava na sua mão.
Sam tinha medo do nome que poderia ver na tela assim que virasse o aparelho, mas o olhar inquisidor de Blaine o obrigava a fazê-lo mesmo assim.
As chances de aquela ligação ser de Quinn Fabray eram enormes. Mas como ela conseguira o seu número?
– Rápido! – Blaine instigou.
Sam virou o celular.
Era um amigo que ligava.
Ufa!
– Alô? – Sam disse com alegria, mas seu rosto foi indo de alegre a triste, pouco a pouco, durante todo o minuto em que durou a ligação.
– O que aconteceu? – Blaine quis saber.
– Um amigo meu foi atropelado. Precisam de um motorista para levá-lo ao hospital.
– Então não é hoje que você vai sair com a tal admiradora secreta?
Sam não se deu o trabalho de responder aquela pergunta. Abotoou a camisa da UPS no tronco novamente e saiu pela porta do apartamento, com a chave da van na mão.
Um amigo seu precisava de ajuda e não havia tempo para papo furado sobre uma mulher estranha em um momento como aquele.
~//~
Rachel morava em um apartamento modesto, sozinha, que alugara antes mesmo de se mudar para Nova Iorque – precavida como era, jamais providenciaria uma mudança da casa confortável de seus pais se não tivesse certeza do chão em que pisaria assim que chegasse ao seu destino. Era um quarto, cozinha e sala bem apertados, nos quais cabiam não só ela, mas também o seu ego enorme. Portanto, estava satisfeita.
Deixara a bolsa em uma estante próxima a uma poltrona e caminhou com lentidão pelo apartamento. Não sabia ao certo para onde ir, porque estava um tanto desnorteada, sem rumo. Não sabia se queria um pouco de água da torneira ou um banho morno. Não sabia se queria ler um bom livro ou assistir a um dos muitos musicais que o Netflix oferecia – na verdade, ela já assistira todos eles, mas havia alguns de que ela gostava mais e que não se importava nem um pouco de assistir de novo.
Não sabia se amassava e jogava fora o papel que Finn Hudson entregara na sua mão dois dias atrás ou se o lia mais uma vez.
Claro que, àquela altura, já o decorara. A caligrafia de Finn era fina, esticada, quase incompreensível, mas Rachel dedicara alguns minutos para decifrá-la. De qualquer forma, aquele não era um texto muito grande.
Eternity, by Calvin Klein
Se quiser, posso te mostrar onde guardo o frasco.
Aquela era a resposta para a pergunta idiota que ela fizera sobre o seu perfume. Claro que era um perfume caro, disso não havia dúvidas. Mas não era com a marca do perfume que Rachel estava preocupada, e sim com a segunda frase, escrita pelo chefe, no papel que ele lhe entregara.
Afinal, aquele era um convite para que ela fosse até à sua casa, não era? E não era difícil imaginar onde o poderoso Finn Hudson guardava o seu frasco de perfume.
Se não fosse no quarto, seria no banheiro, e em nenhum dos dois lugares é normal que duas pessoas de sexos opostos combinem de comparecer apenas para observar frascos de perfume. Aquele era um convite claro para que Rachel fosse até a casa dele, um flerte que ela esperava de qualquer um, menos do próprio chefe. Além do mais, a frase escrita por Finn não significava apenas que ele queria ter um pretexto para tomar um chá com a sua secretária.
Ele queria levá-la para cama, é claro.
Nada mais natural. Homens são sempre homens, não importa em que posição em um organograma empresarial estejam!
Mas Rachel não queria aceitar o convite. Estava apaixonada pelo chefe, mas não queria parecer uma mulher fácil e oportunista. Querendo ou não, ela queria muito continuar com aquele emprego, e se envolver com o chefe é o primeiro passo para garantir a perda de um sonho que nem esse.
Rachel se sentou e apertou o papel na mão. Falava sobre amar o trabalho, mas, ultimamente, mal tinha coragem de olhar para o rosto do próprio chefe.
O que eu faço?, era a pergunta que martelava o seu pensamento o tempo todo.
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