Aprovar ou não aprovar o orçamento?

Finn mantinha a cabeça apoiada nas mãos, puxando a testa para cima, os dedos embrenhados em seus cabelos. Era a postura de alguém que fora derrotado, mas não em seu caso; Finn não admitiria derrota nenhuma sem lutar antes.

Tinha diante de si um relatório feito pelo financeiro, com o orçamento do que seria a viagem de um funcionário, a trabalho, para o Brasil, São Paulo. O funcionário ficaria por lá por dois meses, cuidando de assuntos relacionados ao sistema de informática oferecido pela empresa, mas o custo de vida dessa temporada mostrou-se tão caro que Finn não via por que aprová-lo.

Tudo bem que a divulgação desse trabalho poderia render bons frutos.

Se ele fosse mal divulgado, contudo, todo o dinheiro investido iria para o ralo.

Aprovar ou não aprovar o orçamento?

O funcionário escolhido era de confiança, segundo o que diziam, mas até o mais poderoso dos homens sustenta desconfianças por quem é bom demais. Finn nunca vira aquele tal de Figgins, nem mesmo conversara com ele. A viagem, desde o início, fora tratada entre o funcionário e seu gerente. Finn, nesse processo, estava na posição de alguém que apenas aprovava o orçamento, ou seja, que liberava o dinheiro. Uma assinatura na folha de capa do relatório e tudo poderia dar errado.

Aprovar ou não aprovar o orçamento?

Uma assinatura e, quem sabe?, tudo poderia dar certo também.

– Preciso relaxar – disse e esfregou o rosto com ambas as mãos. A testa nunca pareceu tão pesada, tamanha a tensão em seu corpo. – Preciso relaxar, preciso relaxar, preciso...

Parou o olhar em Rachel Berry que, a alguns metros dali, separada dele por uma parede de vidro, parecia compenetrada em algo que a tela de seu computador exibia. Estava tão imóvel que parecia uma estátua. Por baixo do encosto da cadeira, Finn conseguia ver seu quadril. Aquele belo quadril. Quando será que voltaria a sair com Rachel, para que pudessem repetir aquelas noites que, até então, tinham sido mágicas e únicas?

O som de uma nova janela do Skype surgiu para responder a sua pergunta.

Rachel Berry diz: Preciso conversar com você. 11:19

Finn nunca tinha um bom pressentimento de mensagens como aquelas. Mulheres nunca falam que querem conversar com alguém, a menos que estejam dispostas a colocar esse alguém contra a parede. Mesmo assim, como Finn também queria conversar com ela, ele não demorou a responder. Quem sabe ela não estivesse pensando em marcar algo para o fim de semana?

Finn Hudson diz: Por mim, tudo bem. Quer marcar alguma coisa? 11:20

Rachel Berry diz: Podemos almoçar juntos. 11:20

Finn Hudson diz: Eu não poderia pensar em uma melhor sugestão. 11: 20

Rachel Berry diz: Ok. Podemos ir àquele restaurante novo, o Breadstix. 11:21

Finn Hudson diz: O que achar melhor.

Rachel não voltou a responder e Finn só voltaria a falar com ela quando o horário de almoço chegasse.

~//~

Quinn estava entediada. O problema em trabalhar tão bem e rápido estava no fato de que, em algum momento, não se teria mais o que fazer. Empresas como aquela não eram boas para passar um tempo livre, e por essa razão Quinn se sentia frustrada também. Já conversara de todos os assuntos possíveis com o seu colega de baia – não falara sobre Sam porque duvidava que ele pudesse ajudá-la em alguma coisa –, e agora estava diante da tela de um computador, pensando no que fazer para que os minutos voassem até o horário de almoço.

Sam Evans...

Sam Evans era uma boa opção de como passar o tempo, mas aquela não era uma segunda-feira, dia de entrega da UPS, e estava bem longe de ser. O costume de só poder vê-lo no início da semana e durante o fim de semana era bom, mas às vezes não parecia suficiente. Quinn queria vê-lo a todo instante, ou pelo menos saber o que ele estava pensando. Será que ele podia responder mensagens de texto enquanto trabalhava?

Apanhou o celular e enviou mensagem que considerou curta, mas suficientemente sugestiva. Queria se divertir enquanto trabalhava, e imaginava que Sam poderia resolver disso.

Para: Sam

Thu, 11:28 am

Como vai essa força, Boca de Truta?

Riu assim que releu a frase. Era um texto infantil na sua concepção, mas era direto e certamente faria com que Sam dessa a ela o que ela queria: uma imagem dele.

Minutos depois, a resposta veio.

De: Sam

Thu, 11:30 am

Estou bem, obrigado. E você?

Nenhuma foto.

Para: Sam

Thu, 11:31 am

Estaria melhor se você estivesse aqui.

De: Sam

Thu, 11:33 am

É uma pena, mesmo.

Para: Sam

Thu, 11:33 am

Queria saber como você está.

De: Sam

Thu, 11:35 am

Eu disse, estou bem.

Para: Sam

Thu, 11:36 am

Eu quero “ver” como você está, Sam.

De: Sam

Thu, 11:38 am

Nos veremos em breve.

Para: Sam

Thu, 11:38 am

Quero ver você agora!

De: Sam

Thu, 11:41 am

Isso não vai ser possível, Q...

Para: Sam

Thu, 11:41 am

Mande uma foto sua.

De: Sam

Thu, 11:42 am

O quê?!

Para: Sam

Thu, 11:42 am

Nu.

De: Sam

Thu, 11:50 am

Quinn, não sei o que você pensa que está acontecendo, mas isso não está certo.

Para: Sam

Thu, 11:50 am

É tudo o que eu peço, Sam! Por favor!

De: Sam

Thu, 11:50 am

Depois a gente se fala.

Quinn jogou o celular sobre a mesa como se fosse ele o culpado pela conversa que acabara de ter.

Como Sam podia ser tão frio com a sua causa? Ela estava entediada e o corpo de Sam era um entretenimento sem igual! Por que ele não queria agraciá-la com uma imagem sua?

O Sam é o único homem que eu conheço que não gosta de se vangloriar por causa do corpo que tem, Quinn pensou, uma caneta enfiada entre os dentes. Será que é isso o que me faz sentir tão atraída por ele?

– Quinn? – chamou o companheiro de trabalho, às suas costas. – Preciso de uma ajuda aqui. É com o sistema de lançamento de viagens.

Quinn estava tão desesperada para fazer algo que se levantou num pulo. Normalmente, odiaria ter que ensinar ao colega o que ela já ensinara diversas outras vezes, mas, naquela ocasião, pelo menos, isso a ajudaria a passar o tempo.

Ajudou o colega e demorou muito mais do que o necessário para concluir a tarefa. Foi tempo suficiente para o horário de almoço chegar.

~//~

Finn sempre saía para almoçar ao meio dia em ponto, era no que acreditava. Levanta-se de sua cadeira, parava em frente à janela, de vidro escuro, que servia como espelho também, arrumava os cabelos, vestia um paletó, abria uma pasta em busca de alguns trocados e saía. Rachel nunca estava em sua mesa nesse instante, porque, diferentemente do que ele supunha, saía para almoçar ao meio dia em ponto.

Pensara que iria encontrá-la por ali para que então pudessem ir juntos ao tal Breadstix, mas, como sempre, não a encontrou. O escritório não estava vazio, mas a maioria dos funcionários já não estava por perto. Finn cumprimentou um rapaz antes de tomar o elevador e desceu sozinho até o térreo. Pediu informação sobre a localização do Breadstix com um taxista e se encaminhou com tranquilidade até o local marcado, conversando ao celular e aproveitando esse tempo para cuidar de alguns problemas pessoais.

Encontrou Rachel dez minutos depois do que ela imaginava que fosse encontrá-lo.

O Breadstix era um lugar comum, com mesas de madeira e sofás no lugar de cadeiras. Servia especiarias feitas com pão, como o próprio nome sugeria, mas também tinha um cardápio diferenciado, de pratos comuns, como macarronada. Finn sentou-se em frente a Rachel e sorriu na sua direção. Rachel, que segurava o cardápio com uma das mãos, levou a outra à nuca, jogando alguns fios de cabelo na frente ao rosto.

– Pensei em pedir uma bebida quente – Finn começou a dizer, tentando soar casual.

– Você tem reunião hoje à tarde – disse Rachel, automaticamente.

– E então você me convence do contrário. – Fechou o cardápio e o colocou em cima da mesa. – Vou comer pão mesmo.

– É a especialidade da casa.

– É o que o nome dá a entender mesmo.

Rachel levou uma torrada com orégano à boca e mordiscou um pedacinho. A cabeça permanecia apoiada em uma das mãos como se fosse ela a pessoa prestes a receber um sermão, e não o contrário. Finn sentiu compaixão pela mulher. Se houvesse qualquer coisa que pudesse fazer para ajudá-la...

Aprovar ou não aprovar o orçamento?

Por favor, de novo, não!

– Estou tendo uns problemas com a aprovação do financiamento do Figgins – ele desabafou. – Você sabia que o custo de vida no Brasil é tão caro assim?

– Nunca pesquisei nada a respeito.

– Eu também não. Estou surpreso. – Girou os olhos na direção de Rachel por um instante e, intimidado com o seu olhar, voltou a contemplar a bandeja com as torradas. – Mas seria uma oportunidade e tanto.

– Tem vontade de ir para o Brasil?

– Tenho vontade de ir para outro lugar, um que fosse fora dos Estados Unidos. – Rachel assentiu demoradamente com a cabeça. – Mas não é sobre isso que você quer conversar, é?

Rachel arrumou-se na cadeira, deixando a torrada mordiscada de lado, e revelou:

– Eu queria falar sobre o que estou sentindo.

Finn franziu o cenho.

– E o que você está sentindo agora? – perguntou.

– Estou sentindo que estou apaixonada por você.

Finn engoliu em seco.

Aprovar ou não aprovar o orçamento?

Porra, por que esse pensamento continua voltando?!

– Desculpa, o que disse? – perguntou, apertando os olhos como se enxergar Rachel pudesse ajudá-lo a ouvir melhor.

– Estou apaixonada e achei que você também estivesse. Quer dizer, adorei ir à sua casa nesses dias, fazer café da manhã para você e então te ver nos dias seguintes, mas... Às vezes, não estou tão certa disso.

– Como assim, Rachel? Eu adoro estar com você.

– E eu não duvido disso. – Rachel empurrou a bandeja de torradas e prosseguiu: – Acho que gosto de você por como você faz com que eu me sinta. Você foi o único homem que conheci que me fez sentir bonita. Você me olha com um desejo, uma admiração, que não pertence a mais ninguém, faz com que eu me sinta importante, e as palavras que você diz quando fazemos amor... – Rachel corou. Finn achou esse detalhe interessante. – Essas palavras são encantadoras.

– Gosto do que estamos fazendo.

– Eu também. Mas às vezes sinto que poderíamos fazer muito mais, e que eu poderia gostar disso também.

Aprovar ou não aprovar o orçamento?

– Na melhor das hipóteses, é claro...

Aprovar ou não aprovar o orçamento?

– O que fazemos é maravilhoso, mas é como se faltasse algo...

Aprovar ou não aprovar?

– Eu estou apaixonada por você, Finn, e você já deve saber disso. É um homem esperto. O que eu não sei é se...

Rachel fez uma pausa.

Aprovar ou não aprovar...?

–... se o que eu sinto por você é recíproco.

Aprovar ou não aprovar?

– Finn, eu não queria mais ser a mulher que frequenta a sua cama aos finais de semana. Pensei muito a respeito disso, então entenda que há seriedade na minha fala quando digo que eu queria ser alguém mais importante na sua vida, assim como você tem sido para mim.

Aprovar ou...

– Finn, eu queria ter um relacionamento com você.

Aprovar...

– Eu quero ser a sua namorada.

Aprovar ou não aprovar o relacionamento?

Finn levou ambas as mãos ao rosto e o esfregou do mesmo jeito que fizera horas atrás. Ouviu sua boca soltar um suspiro. Ouviu o som vindo do paletó sendo dobrado no canto de seus braços. Ouviu a respiração acelerada de Rachel e poderia ouvir seu coração acelerado também, se lhe desse atenção suficiente.

Só não conseguia ouvir os próprios pensamentos. Uma frase ribombava insistentemente em sua cabeça, ressoando com a voz de seu chefe, o presidente da empresa, aquele carrasco!, uma frase confusa, intimidadora como uma sentença, gritada como um pedido desesperado de ajuda.

“APROVAR OU NÃO APROVAR, FINN HUDSON?!”

– Eu não sei – ele sussurrou para si.

Mas Rachel foi capaz de ouvi-lo.

– Tudo bem – ela disse. – Tudo bem – repetiu.

Fez surgir algumas notas de um dólar sobre a mesa e, com essa mão, impulsionou o corpo para cima. Retirou-se da mesa sem olhar para trás, deixando um aroma de colônia que Finn achava encantador.

Um aroma que ele sentira em sua cama durante alguns dias.

O aroma vindo de uma mulher que ele acabara de inconscientemente expulsar de sua vida.

– Eu não fiz isso... – ele voltou a murmurar. – Oh, meu Deus!, eu não fiz isso!

Quando Rachel abriu a porta do Breadstix para atingir a rua, houve o soar de um sino.

E aquele foi o último relance de Rachel que Finn foi capaz de ver por um bom tempo.

Notas finais
Aprovar ou não aprovar? rs