When You Came To Me
15 Kentucky
Quando Sam abriu a porta de entrada do apartamento, um aroma indiscutivelmente saboroso invadiu suas narinas.
Era um que não era muito frequente naquele lugar, mas que ele apreciava muito. Fazia-o lembrar de Kentucky, dos pais à cozinha preparando um almoço mais elaborado, geralmente em um domingo. Sam tinha na mente a imagem da mãe vestida em um avental, banhada pela claridade que vinha da janela aberta em frente à pia, enquanto cortava aipos. O pai, ao lado, tomava conta de uma panela fumegante, talvez do preparo de uma macarronada, alimento que Sam gostava muito mas que, há muito tempo, não degustava. Se tivesse sorte, era justamente de uma macarronada tradicional e caseira como a da sua infância que vinha o aroma que ele sentia.
Fechou a porta às costas e, antes de jogar o corpo exausto na cama, dirigiu-se à minúscula cozinha. Blaine estava lá, sozinho, em silêncio, aguardando o final do preparo de algo que girava dentro do micro-ondas, aparelho que emitia o único som no ambiente. Era quase uma hora da tarde, mas Blaine parecia ter acordado há pouco tempo. Se tivesse ido a uma balada, não era uma surpresa que tivesse acordado tão tarde.
– Bom dia, flor do dia – disse Blaine ao notar o amigo.
– Bom dia, Blaine.
– Passou a noite inteira fora. Isso é inédito. Se divertiu pelo menos?
– Saí com aquela mulher de quem te falei.
– Isso responde a maioria das perguntas que eu ia fazer a seguir.
– Que perguntas?
– Se vocês saíram pra jantar, se rolou alguma química, se vocês transaram no fim da noite. – Blaine ouviu o apito do micro-ondas e avançou em direção a ele como se o seu alimento fosse explodir se ficasse um segundo mais preso naquele compartimento. Era um copo de plástico grande, com um rótulo colorido ao seu redor que, a Sam, por ora, não significava nada (dormira pouco e, por conta disso, sua dislexia ficara mais evidente. Nem com muito esforço conseguiria ler o que estava escrito na embalagem). – Fico feliz por você, amigo. Temos que fazer aquilo que nos dá vontade, ainda mais em um lugar como esse.
– Nova Iorque?
– Nova Iorque... – Blaine confirmou com um ar sonhador. Voltou-se na direção de Sam, ainda sorrindo com o olhar, e demonstrou súbita preocupação ao encontrar o olhar do amigo. – Falei algo ofensivo?
– Não, por que a pergunta?
– A sua cara. Você é um homem bonito, Sam, mas nem a simetria do seu rosto consegue esconder a sua decepção quando você se sente decepcionado.
Sam deu de ombros antes de dizer:
– Estou morto de fome e pensei que você estivesse preparando um desses macarrões tradicionais, sabe?, com molho, uma salada para acompanhar...
– Sei. Estamos em Nova Iorque, Sam, e alimentos assim são um luxo que só os restaurantes mais caros podem oferecer. – Blaine apertou os olhos na direção do amigo. – Tem certeza de que a decepção é por causa do macarrão? Se for por isso, eu tenho um Cup Noodles igualzinho a esse na geladeira ainda. Escondi atrás dos aspargos porque sei que você não dá a mínima para eles e nunca iria encontrá-los.
Sam não sabia responder a pergunta de Blaine. Estava confuso com tudo o que acontecera naquela manhã e também na madrugada. Talvez depois de algumas horas de sono...
– O encontro foi ruim? – Blaine tornou a perguntar.
– Foi muito bom. A Quinn é gostosa, beija bem, tem peitos que cabem nas minhas mãos, como se tivessem nascido para elas...
Blaine franziu o cenho. Sam achou que estivesse falando demais.
– Me desculpa, cara.
– Não há nada do que se desculpar, estou só te ouvindo – disse o rapaz com aquele seu ar consolador de sempre.
Sam afastou os aspargos na geladeira e encontrou o tal Cup Noodles sabor carne que Blaine andara escondendo. Não era e nem estava próximo de ser parecido com o macarrão que seus pais preparavam, mas ele estava com tanta fome que, no momento, aquele pareceu o macarrão mais saboroso já encontrado em todos os Estados Unidos. Levou-o ao micro-ondas e ajustou o timer. O aroma que tomava conta da cozinha tornou-se mais intenso e levou água à boca do rapaz.
– O que você acha de amor à... – Sam teve que fazer uma conta mental antes de dizer: – Amor à terceira vista?
– Você acha que ama a tal da Quinn Fabray?
– Não, não! – Sam respondeu de forma automática. – Quer dizer, não sei ao certo. Amei poucas pessoas na minha vida, além dos meus pais e dos meus irmãos.
– É um amor bem diferente, Sam.
– Você tem razão. – Sam fez uma pausa para consultar o micro-ondas. Ainda faltava tanto tempo para o macarrão ficar pronto... – O que acha de paixão ao primeiro encontro?
– Você está apaixonado pela tal da Quinn Fabray, Sam Evans? – Blaine perguntou, agora com um tom mais divertido. Devia achar graça do que estava ouvindo.
– Talvez. Ela é perfeita demais para mim, mas ouso dizer, sim, que estou apaixonado por ela.
– Então você devia lutar por ela!
– Mas acho que o sentimento não é recíproco.
Houve um instante de silêncio. O timer do micro-ondas não parecia querer cooperar com a fome de Sam.
– Paixão súbita e recíproca é coisa de livro para adolescentes na época da puberdade – Blaine afirmou. – Se apaixonar por alguém é o começo do processo. Fazer com que essa pessoa se apaixone por você também é apenas outra etapa do processo, e pode ser uma etapa bem interessante, cheia de emoções fortes e...
Nenhuma das palavras de Blaine era capaz de animar Sam. Não que fosse essa a intenção do amigo.
– O que está acontecendo, afinal? – Blaine perguntou, por fim.
– Que mulheres se interessem pelo meu corpo e queiram que eu vá para a cama com elas em um motel barato qualquer eu já estou acostumado.
– OK...
– Mas a Quinn não é assim. Quer dizer, a princípio, imaginei que ela fosse como qualquer outra, afinal, mulheres bonitas não se apaixonam tão facilmente, não? Mas a maneira como ela insistiu em querer se encontrar comigo... Bem, ela foi valente. Lutou pelo que queria. Fez com que eu me apaixonasse por ela.
– Tudo o que você diz parece perfeito pra mim.
– Mas ela não está apaixonada por mim. Pelo menos não como eu preferiria. A sensação que eu tive enquanto fazia amor com ela... Me senti como se quisesse ter aquela mulher para mim pelo resto da vida. Tive vergonha de revelar isso...
– Você ainda pode revelar isso.
–... mas ela não teve vergonha nenhuma de revelar pra mim que até tem vontade de se encontrar comigo, mas sem nenhum compromisso sério.
Blaine suspirou longamente.
– É o que todo homem no mundo daria tudo para ouvir de uma mulher gostosa – disse.
– Não é o que eu sinto pela Quinn. Quero conhecê-la e fazer parte da sua vida, e não só dividir camas com ela.
– Ela precisa saber disso. Mulheres não conseguem resistir a palavras tão bonitas vindas de um homem apaixonado...
– Você faz tudo parecer uma infantilidade, uma babaquice, Blaine.
– Mas se apaixonar é agir com infantilidade e ser um babaca ao mesmo tempo, não é? Quem tem medo disso não consegue se apaixonar por ninguém.
O micro-ondas apitou. Sam foi até ele com passos lentos e desolados, desanimado por conta da conversa.
– Lute por isso, Sam. Lutar pela paixão te torna vencedor de um jeito ou de outro.
Blaine levou o macarrão à boca e sugou uma grande quantidade enquanto contemplava o rosto de Sam. Se esperava uma resposta, teria que aguardar um instante. Sam estava esfomeado demais para conseguir pensar em uma à altura do discurso do amigo.
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Rachel chegou em casa pouco depois de ter tomado café da manhã com Finn. Só fora embora depois de lavar as louças, ajeitar a mesa e as os itens usados em seus respectivos lugares e garantir que qualquer rastro da sua estadia na casa do chefe tivesse sumido. Subira até o quarto novamente, a contragosto, e verificara cada mesa, lençol e canto em busca de algo que pudesse ter esquecido, por mais que uma verificação rápida em sua bolsa garantisse que ela não esquecia nada. Despediu-se de Finn um beijo demorado e sem língua, apenas lábios pressionados e olhos fechados. Ele ofereceu uma carona, mas Rachel negou a oferta com um sacudir de mão – chamara um táxi há pouco tempo e as chances de ele já estar na rua eram grandes.
Descalçou os sapatos e caminhou descalça pelo apartamento. Largou bolsa, casaco e brincos sobre o sofá e caminhou até o quarto. Fechou a porta e tirou a blusa, prestes a tomar um banho.
Escondeu o rosto atrás das mãos e chorou.
Seu pai uma vez lhe alertara para os males de ter que dormir na casa de um homem que mal conhecia. Dissera, e implorara, que o melhor era conhecer um homem a fundo para só então dividir uma cama com ele, mesmo que para uma noite de sexo casual. Homens não pensavam como as mulheres, que costumavam encarar o interesse amoroso como um interesse amoroso propriamente dito. Homens viam a parceira como um pedaço de carne a ser comido, mesmo os gays. Rachel sempre achara esse um ponto de vista um tanto rude e radical demais.
Quando se sentou na própria cama foi que comprovou que o pai nunca estivera tão certo.
Rachel pensava se não entrara para a estatística de mulheres que saíam com o chefe fora do expediente, que se deitavam em sua cama, que ofereciam o seu corpo e que ainda preparava um café da manhã para ele no dia seguinte – só preparara o café porque outro de seus pais, certa vez, dissera que um café bem feito é o selo de um bom encontro. Mas será que, nessa mesma estatística, a porcentagem de mulheres que se apaixonavam pelo chefe em questão era tão grande quanto?
Era natural de uma mulher imaginar que todo homem que a beijava estivesse apaixonado por ela. Talvez fosse esse o traço que a tornava mulher. Mas Rachel achava que devia ter sido mais esperta, afinal, quantas mulheres que conhecia tinham sido bem sucedidas ao engatar um relacionamento mais sério com algum colega de trabalho? O número era significativo, é claro, mas quantas dessas mulheres haviam se interessado e engatado um romance com o próprio chefe?
Rachel conhecia mais histórias de desilusão amorosa do que de casais perfeitos com esse roteiro.
Não devia ter ido à casa de Finn pela primeira vez, portanto, não devia ter ido na segunda tampouco. Finn tinha uma lábia incrível que o permitia usar palavras e formular frases, com aquela sua boca fina e perfeita, que conseguiam conquistar qualquer mulher desavisada ou desprevenida. Soava tão convincente e promissor com seus flertes que Rachel não conseguia nem pensar na hipótese de resistir às suas investidas. Sendo uma mulher, não sair com ele parecia um sinal de heresia. Fazer amor com ele era como caminhar nas nuvens, atingir a paz de espírito.
Uma pena que sensações como essas só seriam proporcionadas novamente se ela continuasse a se sujeitar ao papel de secretária do Vice Presidente da empresa e escrava sexual nas horas vagas.
E era por isso que Rachel chorava. Não conseguia aguentar tanta humilhação.
Finn não dissera nada à mesa de café da manhã, mas até seu silêncio fora capaz de falar por ele. Rachel pensara que estaria lhe fazendo um favor e lhe prestando uma verdadeira prova de admiração ao preparar o seu café da manhã, mas a maneira como Finn se sentou à mesa, como ficou em silêncio diante de cada uma das idiotices que ela falava, como não negou nenhuma das vezes em que ela afirmara que ele não queria que ela fosse descoberta por outras mulheres que levava para o quarto só deram a entender que, na verdade, ele não a admirava tanto quanto ela o admirava.
Rachel estava apaixonada por um homem que só sentia atração sexual por ela.
Entrara para a estatística das secretárias assediadas pelos chefes de tão bom grado que chegava a espantar, ao se tratar de uma mulher que pensara a vida inteira que não teria que se submeter a algo mais humilhante do que ter que atuar em uma peça famosa da Broadway como parte do coro, e não como estrela.
Rachel não sabia o que faria na segunda-feira, quando tivesse que voltar a trabalhar. Incrível como a sensação era tremendamente diferente da mesma que sentira dias atrás, ao receber um buquê de flores daquele conquistador.
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