When You Came To Me
13 Camarão Com Molho Tártaro
A van da UPS fazia um barulho que Sam odiava. Um fusca dos anos setenta e aquele furgão não tinham diferença nenhuma em uma rodovia, pois causavam o mesmo tipo de incômodo. Naquela noite de sexta-feira, usá-lo para ir até a casa de Quinn para buscá-la parecia um erro – um tremendo de um erro, aquele que poderia acabar com todo o encontro –, mas oferecê-la uma viagem de ônibus parecia ainda pior. Com sorte, a temperatura daquela noite, que estava levemente fresca, pudesse acalmar os ânimos do motor e fazê-lo um pouco mais silencioso. De vez em quando, esse tipo de coisa acontecia.
Quinn surgiu na saída do prédio, caminhando rápido como se estivesse apressada. Não estava atrasada – pelo menos não para os padrões com os quais Sam estava acostumado –, mas estava bonita. Usava um vestido escuro, de um estilo não muito comum, e botinas pesadas que quebravam a aparência de boneca que o vestido causaria. Havia um casaco de couro pequeno cobrindo seus braços e seus cabelos, claros e reluzentes sob o olhar dos postes de luz, balançavam com o vento. Não esperou que Sam deixasse a van para abrir a porta; agarrou o puxador da porta do carona com rapidez e puxou-a de uma vez. Entrou sem nem se dar o trabalho de oferecer uma boa noite.
– Demorei? – perguntou e usou o espelho retrovisor para verificar se a franja estava bem posicionada sobre a testa.
– Não – Sam respondeu, e mesmo se ela tivesse demorado ele não diria o contrário. Não queria que aquela mulher tão austera tivesse motivos para deixar o carro e desistir do encontro.
Chegaram ao tal bairro em que o encontro aconteceria e avistaram o painel luminoso do restaurante Seafull. O camarão continuava lá, devorando os seus irmãos camarões com uma insanidade explícita no olhar, algo que poderia facilmente denunciá-lo como um assassino. Sam estacionou a van e guiou Quinn com uma mão para dentro do local. O ambiente era bem iluminado demais para o gosto de Sam, um lugar que definitivamente não servia para gastar boas horas. Não que tivesse vontade de ficar tanto tempo por ali, e ele esperava que Quinn estivesse preparada para ir a outro lugar o mais cedo possível também.
– Camarões, camarões, camarões – Sam disse e sorriu na direção da parceira enquanto folheava o cardápio.
Quinn não sorriu de volta. Estava tão séria que intimidava.
– Pensa em pedir o quê? – Sam perguntou, agora agindo com mais seriedade. Quinn nunca demonstrou ter um bom senso de humor de qualquer forma, então por que fazer piadas com ela?
– Camarão – foi a única palavra que ela disse.
– Ah, claro! – disse Sam e riu. Achava que fosse uma piada. – Uma porção de camarão para nós dois, então?
– Não, eu quero uma salada de camarão.
– Salada de camarão...? – Sam repetiu. Seria possível mesmo que houvesse uma salada de camarão? Camarão não era um vegetal, era? – Vou pedir o mesmo.
– Sem bebida.
– Sem bebida.
Sam odiou a salada de camarão. Nem gostava do camarão propriamente dito, só tinha escolhido aquele lugar porque diziam que os motéis ao redor eram os mais badalados e interessantes. Nem pensara na parte em que teria que comer. Quinn, por outro lado, parecia bastante satisfeita com sua salada de camarão, e comia em silêncio. Não dissera muita coisa desde que o encontro começara, e a impressão que Sam tinha era a de que, na verdade, ela não estava com vontade nenhuma de conversar. Mas não fora ela mesma que insistira por aquele encontro?
– Molho tártaro – ele disse quando uma quantidade de molho alaranjado sujou um de seus dedos. Levou-o à boca para lamber a mancha. Aquela, sem dúvida, era a melhor parte da salada.
Encontrou o olhar de Quinn por acaso enquanto mantinha o indicador dentro da boca. Ela o olhava com uma atenção redobrada agora, tanto que seu garfo, cheio de folhas verdes e fios dourados de pimentão, estava parado no ar. Se estivesse falando alguma coisa, Sam até entenderia o porquê de ela de repente ter parado de comer para olhá-lo daquela forma, mas ele não estava.
Só precisou de alguns segundos fitando o brilho dos olhos da mulher para entender que ela não estava olhando necessariamente para ele, mas para o indicador que ele mantinha dentro da boca.
Será que ela está..., Sam começou a pensar e arregalou os olhos. Será que ela está avaliando o tamanho da minha mão?
Isso explicava muita coisa. Quinn não estava a fim de jantar, de conversar ou de curtir um bom passeio por Nova Iorque. Ela queria algo mais, estava com pressa de deixar aquele estabelecimento e ir a outro lugar, estava empolgada com o que poderia acontecer naquela noite assim que deixassem o Seafull. Sustentava grandes expectativas.
A sorte era que Sam sustentava as mesmas grandes expectativas também.
Quinn levou o garfo à boca e retirou-o muito vagarosamente, não como se saboreasse o alimento com uma atenção a mais, mas como se considerasse aquele um gesto sexy. Sam observou esse gesto em silêncio, a boca enorme levemente aberta, imaginando o que mais poderia fazer os lábios de Quinn se comportarem daquela forma se fosse colocado em sua boca.
Quando abaixou o garfo, ela uniu os braços sobre a mesa de uma maneira não muito comum. Sam reparara que Quinn usava um decote naquele dia, mas quando ela apertou os braços daquele jeito, seus seios entraram em evidência como nunca entraram até então. Sam, com um rápido olhar, conseguiu detalhar onde começava o seio esquerdo e onde começava o direito. Não era uma pena que houvesse uma fina camada de tecido cobrindo aquela parte do seu corpo?
– Você não quer sobremesa, quer? – Sam perguntou de repente.
– Não, estou muito mais do que satisfeita.
– Muito mais do que satisfeita?
Quinn revirou os olhos e pousou-os em Sam no que ele julgou ser a primeira vez desde que o encontro começara.
– Com o alimento, sim – ela respondeu, deixando intrínseco que havia ainda outra coisa com a qual não estava satisfeita.
– Vou pedir a conta.
– Por favor.
E Sam pediu. Pagou tudo com uma nota de cinquenta dólares, sem nem se dar ao trabalho de verificar o valor da conta. Deixou tudo sobre a mesa e, com o olhar, pediu a Quinn que o seguisse, e ela o seguiu sem hesitar. Não demorou muito e estavam de volta à van.
– Escolha um bom lugar – disse Quinn em um murmúrio.
Aquele definitivamente era um sinal de que, para ela, a noite não terminara ainda. Para Sam ainda não terminara também, mas ele sempre tivera a ideia de que essa era uma impressão masculina, que mulheres geralmente gostavam de ir para casa cedo. Não era o caso de Quinn, pelo que ele podia observar.
A van se aproximou de um motel com luzes de neon vermelhas, cor-de-rosa, lilás, um lugar que remetia aos tempos de cabaré. Não era um motel ao qual Sam gostaria de ir, mas imaginava que Quinn, com toda a sua feminilidade, fosse gostar de um motel que fosse temático.
Desacelerou um pouco enquanto se aproximava da entrada do motel, porque, se Quinn quisesse desistir daquele encontro, ou se quisesse fazer um escândalo a fim de fazê-lo entender que ele entendera tudo errado, Sam queria ter tempo e espaço para fazer o retorno na mesma rua. Estava já falando com a atendente do lugar e Quinn ainda não mostrara objeção nenhuma. Parou o carro em frente ao quarto oferecido pela atendente e Quinn se mantivera a mesma, sem dizer palavra nenhuma sobre o que estava prestes a fazer.
Quando Sam deixou o carro, Quinn providenciou sua retirada também. Enquanto ele abria a fechadura, ela permanecia às suas costas, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, sentindo frio, apresar do frescor da noite. Sam ensaiou oferecer a ela que entrasse primeiro – Primeiro as damas! –, mas imaginou que isso fosse soar ofensivo a ela. Entrou e esperou que ela entrasse também para trancar a porta.
Deixaram os casacos em um cabideiro e Quinn e Sam, nessa ordem, se sentaram lado a lado na cama.
– Gostei do encontro – disse Quinn, quebrando o silêncio. – Gosto de salada de camarão.
– Ah, claro, a salada. – Sam levou a mão aos cabelos e os bagunçou em um sinal de desconserto. – É, eu também gostei – mentiu.
E lá estavam os olhos de Quinn, pousados e focados em seu bíceps contraído.
– A gente não precisa atrasar isso por mais tempo, precisa? – ela perguntou enquanto descalçava as botinas.
– Atrasar o qu...
Antes que pudesse terminar a frase, Quinn pousou uma mão em seu peito e o apertou por sobre a camisa. Sam subitamente sentiu uma ereção apertar-se contra suas pernas, e foi motivado por ela que levou uma mão ao seio esquerdo de Quinn. Encheu a mão e o apertou também. Quinn soltou um suspiro longo, como se tivesse esvaziado completamente o pulmão.
– Eu gosto de você – ela disse, rouca.
– Eu também gostei de você.
– Gosto do seu corpo e da sua voz.
– Gosto do seu olhar, das suas pernas e da maneira como você me provoca.
– Gosto de sentir seus músculos na minha mão.
– Gosto a maneira como posso sentir seu coração acelerado enquanto seguro o seu peito.
– Eu também gosto disso em você.
Sam estava com a respiração desregulada. Alguma mulher já o fizera se sentir assim antes?
– Eu achava que o que eu sentia por você era só tesão, mas... – Quinn fez uma pausa e correu o corpo de Sam com o olhar dos pés à cabeça. – Esse batimento acelerado... Isso não é excitamento.
– É paixão – Sam deparou-se dizendo.
– É... – Quinn confirmou, assentindo também com a cabeça. – Parece paixão, mesmo.
Assim que terminou a frase, abaixou a mão para a ereção de Sam. O formigamento nas pernas do homem só aumentou. Ela tentou enfiar a mão por dentro de sua calça, mas o cinto que Sam usava estava muito bem preso, o que ele considerou uma pena e um contratempo terrível. Devia ter pensado nisso antes.
– Só há um jeito de descobrir se isso é paixão ou não – ele sussurrou.
– É mesmo? – Quinn questionou, a voz soando aguda como a de uma criança.
Sam deslizou a mão pelos seios da mulher, pela barriga e encontrou as pernas de Quinn. Levantou-lhe o vestido e arrastou a mesma mão para o vão entre as suas pernas. Quinn usava uma calcinha apertada, mas nada que um bom empurrão com o indicador não pudesse resolver. Quando encontrou a entrada de sua vagina, ela estava úmida e pronta para o sexo.
– É – Sam confirmou finalmente. Quinn desafivelava o seu cinto com pressa. – A gente faz amor nessa noite...
– A gente faz amor nessa noite...? – Quinn repetiu, a voz trêmula enquanto o dedo médio de Sam explorava o interior de sua vagina.
– Isso, e assim que terminar... – Sam levantou-se da cama e dobrou-se sobre Quinn, que se jogou sobre o lençol avermelhado da cama. – Se algum de nós ainda quiser se ver... – Quinn conseguira desafivelar seu cinto e descobrira o seu pênis. Segurou-o com uma mão gelada, um olhar falsamente triste. – Isso significa que é paixão...
– Apenas ao final dessa noite.
– Apenas ao final dessa noite.
Sam encostou a cabeça do pênis na entrada da vagina de Quinn, depois de levantar-lhe o vestido, e a mulher sentia como se, na verdade, já tivesse sido penetrada. Os suspiros que soltava, entrecortados e rápidos, tocavam o peito de Sam, deixando-o arrepiado.
Quinn de repente o agarrou pela camisa e o puxou para sobre si. Beijou-o com fúria, massageando os lábios grandes de Sam quase como se tivesse como fome dele, os suspiros surgindo com mais frequência. Quando Sam novamente agarrou um dos seus seios, a mulher abriu demais a boca e soltou um suspiro mais longo. Revirou os olhos e pousou-os em Sam.
– Há alguma chance de essa paixão que estamos supondo sentir seja, na verdade, um sinal de amor? – ela perguntou, as palavras entrecortadas, quase sem sentido.
– É muito cedo para dizer – Sam sussurrou para o interior de sua boca.
– Você acha?
– Vamos fazer dessa forma... – Sam penetrou Quinn e a mulher o agarrou com mais força do que nunca. Ergueu a cabeça e beijou-o com ternura, dessa vez, mordendo-lhe o lábio inferior. – A gente dorme aqui hoje. Amanhã de manhã, seremos capazes de dizer o que sentimos.
– E-Eu espero que você sinta o que eu sinto, porque, no momento, tenho a impressão de que poderia viver com você pelo resto da vida.
– Não é muito diferente do que sinto agora.
Quinn riu.
Sam riu também.
Colaram os lábios uma vez mais e os corpos, dessa forma, uniram-se em uma relação que deu início a uma noite longa. Muito longa.
Notas finais
Vergonha de mim ou vergonha de mim? rs
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