When You Came To Me
14 Calor do Ambiente
Finn sabia que uma pessoa tão ocupada quanto ele dificilmente tinha tempo para se dedicar a paixões. Como sua mesa de trabalho sempre estava cheia de processos para conferir ou iniciar, não eram raras as vezes em que ele tinha que levar papeladas para casa a fim de fazer hora extra, na maioria dos casos com um copo de cerveja em uma das mãos. Mas a mesma lógica não se aplicava a paixões arrebatadoras. Essas exigiam sacrifícios, e Finn estava mais do que disposto a se sacrificar por Rachel Berry, se fosse mesmo necessário.
Por essa razão, na sexta-feira à noite, convidara a moça novamente até a sua casa. Não sabia se a constrangia fazer esse tipo de coisa ou se ela achava que não havia problema nenhum em ir à casa do chefe depois do expediente para uma noite de sexo e amor, mas torcia que estivesse tudo bem para ela. Conhecia os boatos que cercavam a relação de uma secretária e um chefe, e Rachel não devia ser uma mulher tão tola a ponto de ignorá-los, mas se ambos continuassem a fazer de conta que nada de mais estava acontecendo, bem, ele não via por que impedir-se de continuar a ver aquela mulher. Era algo que o fazia bem e o deixava feliz. Rachel não parecia se sentir muito diferente antes, durante e depois de fazerem amor.
Não era como se Finn sentisse fetiche por secretárias; o que sentia era fetiche por mulheres bonitas e atraentes, algo inerente a homens comuns e com desejos sexuais como os dele. A maneira como Rachel o fitava o fazia sentir vontade de beijá-la o tempo inteiro. O modo como mordia o lábio quando se sentia desconcertada o fazia querer tocar seu corpo nu por inteiro, sentindo a textura de sua pele em cada um dos dedos.
Experiência que ele voltou a presenciar na noite de sexta-feira.
Terminou o sexo com Rachel e jogou-se de lado, nu, contemplando o teto e apreciando aquela sensação boa de dever cumprido, de felicidade iminente. Havia um sorriso bobo em seus lábios e ele suspeitava que ele estivesse ali porque conseguia ouvir Rachel se mexer ao seu lado, o que trazia um tom de realidade ao momento, apesar de ele ter tudo para se parecer com um sonho. Por alguma razão, ela queria se cobrir antes de dormir, o que Finn considerava uma tolice, uma vez que tinha visto aquela mulher nua e por todos os ângulos possíveis nas últimas horas. Estava pensando nesse tipo de coisa quando adormeceu.
Despertou sentindo um calor diferente. Abriu os olhos e percebeu a claridade da manhã, vinda de uma janela escancarada do seu quarto, banhando seu corpo descoberto. Novamente, sentiu-se feliz. Por puro instinto, virou-se para o lado a fim de verificar Rachel. Gostava da imagem que era belas mulheres dormindo, mergulhadas em sonhos, e ainda não tivera esse deleite com Rachel.
Franziu o cenho, desconfiado, ao se dar conta de que a mulher não estava lá.
– Rachel! – chamou em voz baixa, torcendo para que ela tivesse apenas ido ao banheiro. Como não houve qualquer resposta, Finn se convenceu de que ela não estava lá.
Levantou-se num pulo e vestiu um jeans qualquer que encontrou em um cabideiro. Na primeira gaveta de sua cômoda, apanhou uma camisa branca comum e vestiu-a com um movimento rápido. Calçou um par de tênis esportivo, que geralmente ficava escondido por baixo de sua cama, e correu as escadas até a entrada da casa.
Tanto desespero por conta do desaparecimento de Rachel era alimentado pela certeza de Finn de que, quando uma noite de amor era boa, a pessoa não ia embora assim que ela terminava, a menos que a pessoa com quem dividira a cama não fosse alguém tão importante. Finn suspeitava que Rachel o encarasse com a mesma admiração que ele a encarava, mas se ela fora mesmo embora na calada da noite, isso significava que suas suposições estavam enganadas. Rachel não estava apaixonada por ele, afinal – pelo menos não tanto quanto ele estava apaixonado por ela.
O aroma de café recém-preparado, vindo da cozinha, talvez contestasse tais suposições. Finn adentrou o recinto, o corpo cheio de esperança, e finalmente encontrou a mulher que tanto procurava. Sentiu tanto amor por ela que por pouco não a agarrou pelo quadril para penetrá-la ali mesmo de uma forma não muito diferente da feita na noite passada. Foi o olhar assustado dela que o impediu de ir adiante.
– Eu deixei um bilhete na mesa de criado-mudo, naquela que fica do meu lado na cama – disse Rachel, uma mão, segurando uma jarra com água quente, parada no ar, a meio caminho de transformar o pó em uma cafeteira em um bule de café propriamente dito. – Deixei inclusive uma estrela como assinatura para você saber que fui eu que escrevi. – Apertou os olhos e sacudiu a cabeça, rindo. – Na verdade, agora que penso nisso, acho que a estrela não faria o menor sentido pra você. Esse é um costume que eu carrego desde o colegial. É a minha marca registrada.
Finn permaneceu em silêncio. Rachel aproveitou esse intervalo para despejar a água quente na cafeteira. O aroma do café no lugar ficou ainda mais intenso e delicioso.
– Não coloquei o meu nome no bilhete porque, bem, não sei ao certo o que estamos fazendo – ela prosseguiu. – Talvez você não quisesse uma evidência de que eu estive aqui em algum momento, então a falta de um nome permitiria que você amassasse e jogasse o bilhete fora sem nenhum remorso. E se alguma outra mulher o encontrasse... – Rachel apoiou as mãos na mesa e encarou Finn com aqueles olhos penetrantes e belos. – Bem, você poderia atribui-lo a qualquer pessoa. A estrela é um costume bem infantil, tenho plena consciência disso, então você poderia dizer que o bilhete era o de uma sobrinha que lhe fizera uma visita em algum dia desses. – Por um momento, pareceu confusa. – Você tem irmãos?
Finn sacudiu a cabeça em negativa.
– Entendo – Rachel sussurrou. – Duvido que seus pais conseguissem acertar da mesma forma se tivessem que fazer novamente. Ou talvez acertassem, se é que você me entende... – Corou ao se dar conta do que acabara de dizer. – Sinto muito.
– Não por isso – disse Finn e puxou uma cadeira para se sentar à mesa. Havia torradas recém-preparadas, geleia, queijo e duas xícaras grandes para o café que era preparado sobre ela.
– Não sei se você tem problemas com isso, quero dizer, eu invadi a sua cozinha e tomei conta de todos os seus talheres e louças... – Rachel fez uma pausa, durante a qual o único som ouvido vinha da cafeteira a trabalhar. – Eu odiaria se você fizesse isso na minha casa, porque sou bem metódica no que diz respeito a louças e horários certos para usá-las.
As pausas de Rachel incomodavam Finn pelo simples fato de que ele adorava ouvi-la falar. Sua voz, estranhamente ritmada e afinada, era como música para os seus ouvidos. No momento, sentia como se pudesse ouvi-la falar pelo restante da vida e então não precisaria de mais nada.
– O que estamos fazendo, Finn? – ela perguntou, por fim.
– Estamos nos divertindo.
Rachel hesitou um instante antes de dizer:
– Foi o que pensei.
O café, a essa altura da conversa, estava pronto. Rachel serviu a si própria e então serviu Finn. Os dois comeram e beberam em silêncio, mas era incrível como a constante troca de olhares que acontecia parecia falar por si só.
Tanto que foi nesse momento que Finn percebeu que Rachel, mesmo sem dizer nada, não estava tão satisfeita quanto aparentava. Será que fora alguma coisa do que ele dissera?
~//~
Quinn e Sam já haviam acordado há boas horas, mas foi precisa apenas uma troca de olhares para que começassem a fazer amor novamente, mesmo que já fosse dez horas da manhã. Quinn não sentia fome de mais nada, além do corpo de Sam, e como a companhia daquele homem a satisfazia mais do que qualquer outra coisa no mundo, ela se deparou pensando que poderia gastar o fim de semana inteiro daquela forma, naquele lugar, ainda que não houvesse nada de produtivo no que fazia.
– Acho que me cansei um pouco – Sam sussurrou ao seu lado.
– É, eu também.
Quinn sentia o corpo nu suado. A temperatura não estava tão quente quanto aparentava, mas Sam, querendo ou não, sabia como esquentar um ambiente, portanto, foi a ele que Quinn relacionou tanto suor. Não fizera uma má escolha ao atribuir um alvo àquele homem, era do que estava certa agora.
– Preciso tomar um banho! – anunciou e jogou para o lado qualquer rastro dos inúmeros lençóis que cobriam a cama. – Há um dia inteiro pela frente, e não quero sair daqui assim.
– Você parece linda para mim.
– Pareço? Eu achei que fosse linda de natureza – Quinn retrucou, embora fizesse um esforço tamanho para afastar da mente a imagem de Lucy Caboosey ao dizer a frase.
– Você me entendeu.
– Estou torcendo por isso.
Levantou-se e caminhou até a frente de um dos inúmeros espelhos que rodeavam o aposento. Queria ajeitar os cabelos e conferir a maquiagem. Estava verificando o próprio reflexo quando se deu conta do olhar admirável de Sam na sua direção.
– Acho que temos um assunto para tratar agora, não temos? – Quinn lhe perguntou, ainda passando os dedos pelas madeixas loiras.
– Temos?
– Ah, temos. Prometemos que faríamos amor a noite inteira e que, quando acordássemos hoje, decidiríamos o que sentíamos um pelo outro.
– Lembro-me de uma conversa parecida...
– Sim, essa conversa aconteceu.
– Mas não me lembro de ter dormido essa noite. Nós dormimos?
– Essa é a sua forma de me dizer que não quer falar sobre esse assunto?
Sam não tornou a responder tão rápido quanto antes. Quinn o surpreendera com aquela pergunta, mas ele não podia dizer que não a esperava em algum momento, já que, horas atrás, concordara em levar aquela conversa adiante. Mulheres dificilmente esqueciam promessas, e isso era algo que Sam devia saber, portanto, se não queria falar sobre sentimentos, devia ter informado Quinn antes de tê-la penetrado.
– Aqueles camarões me deixaram com algum problema no estômago – foi o que Sam disse de repente.
– Não culpe o camarão. Conheço o tipo de homem que você é.
Quinn girou nos calcanhares, apoiou as mãos na cintura e fitou Sam com um olhar que ela considerou pesado o bastante. Queria intimidá-lo enquanto dizia as palavras que tinha em mente.
– Loiro, malhado, másculo e introvertido. Você rouba os corações das mulheres, vai embora depois de fazer amor com elas e então afirma para os amigos que tem problemas de relacionamento, que nunca conhece a mulher certa, que teme ficar sozinho, já que as mulheres com as quais se relaciona parecem ter uma espécie de fetiche por sua aparência, e não por quem você é e pelo que tem a oferecer.
Sam arregalou os olhos ao ouvir aquilo.
– Que mulheres assim aparecem aos montes na sua porta eu não duvido nada, mas a condição em que você se colocou provoca isso. Confesso, que quando te vi pela primeira vez, o que senti foi tesão, e não amor à primeira vista. Que mulher no mundo não gostaria de vê-lo do jeito que estou vendo agora? Mas a noite passada e tudo pelo que passamos ultimamente fez com que eu sentisse algo mais por você.
– Você vai dizer que me ama? Isso seria algo inédito.
– Não seja tolo, Sr. Evans. Eu estou apaixonada por você, é só isso.
Quinn caminhou até a mesa de cabeceira e apanhou os brincos que retirara na noite passada.
– Quer dizer – ela prosseguiu –, há momentos em que penso em você como o homem da minha vida, mas isso não quer dizer que o amo, não é mesmo? Claro que não. Grande parte das desilusões amorosas que nos forçamos a sofrer vem de impulsos que não conseguimos controlar, e você deve ter percebido que impulsos tomam conta de mim com mais frequência do que o normal. Desde quando eu era uma colegial, inclusive.
– O que quer dizer com isso?
– Essa é uma história que vai ter que ficar para outra hora.
A claridade que banhava o quarto naquele instante era acolhedora e calma, quase que exercia influência sobre as pessoas naquele ambiente.
– Estou apaixonada por você, mas tenho medo de me decepcionar. Por conta de tudo que já vivi, sabe?
– Sei. Entendo bem o que quer dizer.
– Entende?
– Já passei por diversas situações parecidas. As cicatrizes que ganhei com experiências como essas ainda são sentidas por mim.
Quinn deu de ombros.
– Você está apaixonado por mim, Sam?
– Estou. Tenho pensado em você o tempo inteiro, então, é, acho que estou apaixonado por você também.
– Acho que isso é suficiente pra mim.
– Suficiente? Como assim?
– Para eu concluir que vai ser muito legal sair com você nos próximos dias sem termos um compromisso sério. É o certo a se fazer em casos como esse, você não acha?
Se concordava, Sam não deixou isso muito claro com o silêncio que concedeu como resposta.
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