When I'm Gone
5 Sozinha
Notas iniciais
Acordou alguns poucos minutos depois, a cabeça latejava e ela sabia pela umidade na nuca que ali estava aberta mais uma catarata de sangue.
Praguejou um pouco tentando lembrar quantas vezes já expelira o liquido vermelho de seu corpo em poucas horas.
Olhou ao redor, mas tudo que conseguiu ver era um belo e gordo nada. A maldita escuridão cercava por todos os lados, como um cobertor.
Virou com dificuldade o pescoço e percebeu o porque de não sentir suas perna esquerda: sua inseparável amiga estava em cima desta. Chutou a moto com a perna livre e conseguiu livrar-se dela. Seu corpo inteiro doeu como nunca.
Ergueu os olhos vendo o buraco de luz, até razoavelmente pequeno por onde caíra, alto demais para iluminar o ambiente o meu redor. Teve a vaga impressão de ter visto uma sombra humana recortar-se contra a luz, mas não sabia se estava sã com toda aquela falta de sangue
– Olá? — chamou, ouvindo sua voz ecooar milhares de vezes. Perguntou-se se alguem já pensara em se aproveitar do eco quando se tratava de canto "Foco, Mahiko-baka" — Tem alguém aí?
Ouviu passos, se afastando, leves porém orgulhosos.
– Espera! Não me deixa aqui! — gritou, os passos tornaram-se hesitantes mas não retornaram — Ah, merda. Ele foi embora... Aff... — expirou o ar e bagunçou o cabelo, irritada — Acho que não tenho muita escolha.
***
Abriu os olhos inúmeras vezes até finalmente conseguir mantê-los abertos.
Sem disposição para se movimentar, continuou parada olhando para cima, encarando o contorno disforme do buraco que fizera naquele lugar. Estava acordando de um cochilo. Ótimo. Nota para sí: não meditar depois de cair numa caverna e jorrar sangue.
Aproximou-se da moto e abriu o compartimento de carga, remexendo nas coisas separadas para a viagem, concentrando-se ao máximo para não pensar em seus pais.
Encontrou o “super kit de primeiros socorros” e ,sozinha, cuidou dos próprios ferimentos. Curativos precários, mas suficientes para estancar o sangue e disfarçar a dor.
Olhou o vestido negro e os sapatos de salto, e decidiu-se que trocar de roupa não seria uma idéia tão ruim. Puxou uma muda qualquer de roupa e se trocou do melhor jeito que pode.
Levantou-se finalmente, com um pouco de dificuldade, escorando-se em uma parede que quase cortou sua mão. Levantou a moto e iluminou o local, estava em uma espécie de corredor feito de pedra maciça.
– Quem constrói uma coisa deste tamanho em cima de uma caverna?
Sem alternativas, voltou a caminhar, em uma subida íngreme, sentia vento à sua frente e estava pronta para montar em sua moto e subir correndo para fugir dali, mas o som de outro uivo a fez voltar desesperada para onde estava.
– E agora? Eu não trouxe o celular, não tenho como chamar ninguém...
Algo se movia em seu braço esquerdo em direção á sua mão, aquela sensação desagradável que apenas um inseto grande pode lhe proporcionar quando pousa em você e resolve passear por sua pele. Em uma atitude de raiva, frustração e nojo, balançou com força a mão, jogando o animal no chão e pisando-o com toda a força que seu corpo permitia.
Pisava o inseto, os culpados pelo acidente de seus pais, os motoqueiros e várias pessoas que vinham em sua mente. Abriu os olhos, deixando uma lágrima escapar e aliviou a tensão que exercia sobre o pé, retirando-o lentamente da posição.
Olhou o animal esmagado no chão, que não se tratava de uma barata como imaginara ao ouvir o som de seu exosqueleto se quebrar, mas sim um vaga-lume.
– Mas... Não existem vaga-lumes em cavernas... – desligou o farol da moto e levantou o olhar. Haviam vários outros nas paredes da caverna, quanto mais profunda, maior a quantidade de animais – Só pode ser outra saída!
Ignorando tudo o que aprendera sobre acampamento e vida ao ar livre com o pai, correu com sua moto para as entranhas da caverna, sendo envolta pela escuridão e um enxame de vaga-lumes.
No final havia uma parede de pedra relativamente lisa, em que uma figura feminina segurava uma faca com uma mão e repousava a outra sobre a cabeça de um tigre. Um trabalho perfeito e bem-trabalhado, provavelmente esculpido manualmente. Havia um buraco no olho direito do tigre, por onde os vagalumes saiam e a brisa fresca soprava folhas verdes.
Arfou, porém, ao ver o rosto desfigurado por marcas profundas de garras animalescas, deixando-o irreconhecível. Ainda puxando a moto, se aproximou instantaneamente e por impulso para tocar a pedra.
Assim que o fez, o olho do tigre iluminou-se em dourado forte, espalhando o brilho por todas as linhas da figura esculpida até que foi necessário cobrir seus olhos.
Quando abriu os olhos de novo, não sabia onde estava.
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