Whatever

8 Valentes Inglórios


Notas iniciais
Ainda sobre aquela estória que talvez (meio difícil) eu toque para frente!

O balofo Lorde Roxell Sunwinner tentava se manter confortável em sua cama. Era manhã e os raios de sol não conseguiam vencer o frio cortante daquele fim de inverno. O lorde rechonchudo sentou-se para tomar o café, o rosto estava amassado de sono, os cabelos grisalhos pareciam saltar para longe da cabeça de tão desgrenhados que estavam. Uma criada entrou no aposento carregando uma bandeja repleta de coisas. Leite de cabra, vinho, suco de tangerina para ajudar a descer garganta abaixo os pães, bolos e ovos da refeição. A mulher entregou-lhe a bandeja, ajeitou o guardanapo de tecido em seu peito e afastou-se esperando alguma ordem. O lorde não queria nada mais além de silêncio e solidão, com um gesto brusco das mãos pediu que a criada o deixasse em paz, a sós com sua refeição.

Lorde Roxell levou os dedos curtos e gordos à taça de leite de cabra e tomou o primeiro gole no mesmo instante que Avallun Gregor entrou em seus aposentos, sem ao menos pedir permissão. Avallun era o mestre de armas da casa Sunwinner e braço direito do lorde. Apesar da posição, não tinha um porte atlético e voraz, estava um pouco acima do peso, mas manuseava a espada como ninguém, parecia dançar com a lâmina enquanto rasgava a barriga dos seus inimigos expondo suas vísceras e seu sangue.

— O que faz aqui a essa hora, homem? – Quis saber o lorde.

— Lady Ádria exige que o conselho se reúna, senhor. Ainda hoje, o quanto antes ela disse.

— Há de estar louca. O que ela acha que é? O centro das atenções? Não posso nem tomar café em paz, que Àdria logo inventa suas reuniões. Se ao menos fossem coisas sérias, mas é sempre a mesma ladainha. “O povo está morrendo de fome Lorde Roxell”, “Os roubos estão aumentando em seus domínios” e blá-blá-blá – disse ele com voz aguda e enjoada.

— Não faço ideia do teor da reunião, milorde, todavia Lady Ádria afirma ser importante.

— Para ela sempre é.

Lorde Roxell dizia com desdém, como se aquelas reuniões de nada importassem. Era um homem perverso e egocêntrico, seus domínios estavam cheios de camponeses famintos e miseráveis e ele não fazia nada para mudar isso. Apenas os grandes senhores das Planícies do Sol levavam a boa vida, prestando vassalagem a família Sunwinner e protegendo os domínios do lorde.

— Há sussurros de que a criança nasceu...

— Criança? – Lorde Roxell encarou o empregado com expressão carregada de dúvida.

— Sim, a criança das profecias!

O gorducho se entalou com o vinho, esguichando o líquido para frente, sujando toda a roupa de cama. Avallun correu para socorrê-lo, dando tapas de leve em suas costas, mas Lorde Roxell voltou ao normal, limpando a boca com o guardanapo que estava agarrado ao seu peito.

— Quem te disse essa baboseira? Mande cortar a cabeça de todos que estão contando mentiras.

— Então presumo que devo decapitar todos os senhores das planícies, na Terra Média não se fala em outra coisa.

— Será que a reunião se trata disso?

— Penso que sim, milorde.

O velho rechonchudo estava hesitante e furioso, meneando a cabeça em sinal de reprovação.

— Diga a Jaden Redwood que prepare os cavalos, desejo chegar ao Vale do Corvo antes do fim da tarde. Prepare alguns homens da guarda, sairemos em uma hora.

Os cavalos estavam bem selados e os homens dentro de suas roupas grossas e aquecidas. Camadas de peles de ursos revestidas com cota de malha para proteção em algum confronto entre espadas. Alguns guardas portavam lanças, outros espadas, ainda outros tinham arcos, mas todos possuíam escudos. Lorde Roxell viajava no meio da cavalaria, sua montaria era branca, forte e imensa, o mais belo cavalo entre todos os outros do grupo. A frente da cavalaria dois porta estandartes carregavam as bandeiras da casa Sunwinner, um sol dourado e coroado tremulava estampado nos tecidos. O grupo seguiu em direção ao Vale do Corvo em moderada velocidade.

A estrada entre os dois lugares atravessava uma serra chamada de Serra dos Espetos, assim conhecida por possuir íngremes picos e despenhadeiros que se assemelhavam a ponta dos espetos de carne, a serra dividia os limites entre as planícies e o vale. Mais ao sul podia-se chegar a uma grande depressão onde residia a família de Lady Versa Smallbasin, suserana da Terra Baixa e ao norte encontrava-se as Falhas do Fogo, domínio do Lorde Stwin Firetail. A Serra dos Espetos era o centro da Terra Média, um território dividido em quatro partes, cada um governado por um lorde ou uma lady, que juntos formavam o Conselho, órgão que comandava a Terra Média e seus cidadãos. Não havia um rei, pelo menos por enquanto.

As escarpas e montanhas da serra escondiam segredos, era imprescindível que se tomasse o devido cuidado de ter uma guarda experiente ao cruzar os caminhos íngremes e rochosos do lugar. Por lá se escondiam saqueadores, viajantes solitários e sociedades “livres”, que diziam não ser comandadas pelo Conselho, outros perigos podiam ser facilmente encontrados no caminho e Lorde Roxell sabia muito bem do que se tratava. Com sorte ninguém morreria naquela viagem, mas a sorte já não era vista há algum tempo.

A comitiva continuava a trafegar entre as montanhas, ao lado dos penhascos, exposta a todo perigo oferecido por aquele ambiente hostil, desde um desmoronamento de rochas até a morte súbita por flechas misteriosas de ladrões vorazes e sanguinários. De repente Avallun ouviu algo vindo de não muito distante, era o trepidar de cascos e rochas, sons de cavalos que não os pertencia.

— Em posição rapazes – disse fazendo sinal para que todos parassem e assumissem uma postura defensiva.

Estavam num cruzamento, no fim de uma descida e encontro de duas montanhas, era o ponto onde a entrada Norte-Sul cruzava a Leste-Oeste, demarcando o limite entre as quatro regiões da Terra Média. Os cavalos trotavam mais rápidos e aos poucos ficou visível os estandartes da casa Smallbasin – estampados com o dragão branco cuspindo fogo em labaredas bordô –, era óbvio que Lady Versa estava atendendo ao chamado da líder do Conselho.

— Parece desesperada, Lady Smallbasin – comentou Lorde Roxell com um misto de ironia e desdém.

— Engraçado, estava prestes a dizer o mesmo de ti.

A mulher tinha traços finos e delicados, os fios ruivos desciam em cascata sobre os ombros cobrindo-lhe o busto, o rosto era bem rosado e com algumas pintinhas. Era linda. Esbelta, de estatura mediana, e olhos de um tom castanho que tinham o poder de chamar a atenção, muito provavelmente por causa da composição geral da obra.

As duas comitivas se juntaram prosseguindo rumo ao oeste, os cavalos de Lady Versa e Lorde Roxell estavam lado a lado.

— Sabe para que foi convocada esta reunião repentina?

— Não faço a mínima ideia.

— As conversas sobre a profecia não chegaram à Terra Baixa?

— Profecia? Estão falando por aí que a criança nasceu?

Lorde Roxell meneou a cabeça em afirmação.

— Vê-se que a Terra Baixa é distante demais para qualquer notícia.

— Estivemos um pouco isolados nos últimos dias. A ponte entre Vila Areal e Encosta Furada ruiu com o mal tempo, estávamos incomunicáveis, exceto pelas aves que chegavam, mas nenhuma falava sobre a profecia.

— Vejo que infelizmente a ponte foi reconstruída, do contrário não estaríamos tendo essa conversa.

Lady Versa não deu ouvidos, Roxell estava apenas exalando sua habitual arrogância. O homem gordo era amargo demais ela dizia.

Inesperadamente algo zumbiu no ar e um guarda Smallbasin caiu do cavalo, atingido no dorso por uma flecha, o animal saiu em disparada, fugindo sem rumo, enquanto os outros observavam em volta.

— Desça mulher, se esconda – gritou Roxell a senhora da Terra Baixa.

A mulher desmontou e buscou abrigo atrás de uma pedra próxima. De dentro de inúmeras aberturas nos paredões rochosos das montanhas saíram saqueadores armados com arcos e lanças velhas, escorregando pelas encostas e cercando a comitiva dos senhores do Conselho.

— Ora, ora – começou um grandalhão careca, extremamente musculoso – quem temos aqui?

— Abram caminho!

Berrou Avallun Gregor, o mestre de armas.

— Acho que são do Conselho – disse uma voz próxima, era um magro e baixo jovem vestido em trapos, que veio a correr do conflito assim que a situação tornou-se fatal.

— Se são do Conselho merecem tratamento especial – disse o rapaz musculoso sorrindo – que tal a morte?

— Com o poder da justiça do Conselho condeno estes famintos miseráveis a morte! – Gritou Lorde Roxell com os pulmões inflados de escárnio.

O grandalhão riu alto e toda sua trupe também, como se o que o velho gordo disse fosse a mais engraçada de todas as piadas.

— O Conselho não tem poder sobre o povo das montanhas!

Os outros sujos e esfarrapados saqueadores gritaram em coro uma vaia, mantendo as posições de ataque.

— Diga o que tem de valor e talvez pouparemos suas vidas, vossa insignificância – o tom era de troça.

Lorde Roxell apertou firmemente o punho da espada e a brandiu com vigor, riscando o ar com o metal.

— Matem a todos, mas deixem esse monte de trapos comigo.

O velho podia ser gordo como um porco, todavia era voraz e experiente e tinha a ajuda da sua insana capacidade mental de se pôr acima de todos os outros, seu egocentrismo gritava. Ao ser ridicularizado pelo musculoso ladrão, sua disputa tornou-se pessoal.

De ambos os lados partiram homens erguendo suas armas à frente do corpo, prontos para matar ou morrer. De longe a senhora Smallbasin observou o revoar das flechas, o som de metal contra metal, a dança de espadas e o sangue que explodia no ar, uma chuva carmesim que empapava os mantos dos guardas e os farrapos dos ladrões. Lorde Roxell lutava bravamente, mas devido a sua grande pança estava muito mais suscetível a um rasgo do que o seu adversário. O grande saqueador investiu um golpe à direita, depois a esquerda, para baixo e direita novamente, o velho parou todos os ataques, pressionando os dentes em sinal de cansaço. Gotas de suor escorreram de ambos os guerreiros e a luta não parou. Em volta jaziam moribundos guardas fiéis aos senhores do Conselho e homens “livres”, por sorte as casas Sunwinner e Smallbasin estavam protegidas por grande número, a luta foi quase desleal a julgar pela vantagem que tinham os guerreiros de mantos estampados com sois e dragões e sem falar na fuga de alguns bandoleiros quando o clima esquentou mais um pouco.

— Luta como menininha! – Berrou Lorde Sunwinner.

— E você como um porco! – Retorquiu o outro.

Os homens da guarda tentaram intervir mas foram repreendidos pelo senhor do Concelho. Seu orgulho era maior que a própria vida. Os dois homens estavam visivelmente cansados, mas o grandalhão era mais jovens e atlético, apresentava mais vigor, num golpe violento tombou o velho rechonchudo e apontou-lhe a lâmina. Lorde Roxell franziu o cenho, mas não aparentou desespero. Os soldados das duas casas se aproximaram empunhando espadas e lanças, apontando as bestas e endireitando a mira, enquanto o saqueador afastava-se lentamente.

— Retiro o que eu disse, ladrão. Você não luta como menininha. Agora suma daqui antes que o meu acesso de bondade acabe.

O gigante encarou o velho ainda sem saber se falava com seriedade, depois pôs-se a correr para longe, escalando os paredões rochosos, desaparecendo dentro das cavernas misteriosas e sinistras da Serra dos Espetos.

— Por que o deixou livre seu bobalhão? – Interrogou Lady Versa distanciando-se do abrigo.

— Há de reconhecer que o homem é um bom lutador, além de que a minha gentileza pode evitar um novo confronto numa próxima viagem pelas montanhas. Desejo-lhe sorte!

Versa Smallbasin deu de ombros.

— E os mortos? – Perguntou Avallun em tom incerto.

— Esquece-te dos costumes, soldado?

— De forma alguma, milady.

Então foi feito como mandava o costume. Homens bravos que morriam em luta pelos seus senhores deveriam ser honrados. Versa subiu em seu cavalo com a ajuda de um de seus soldados, pondo a montaria em marcha rumo ao vale, no lombo dos possantes animais foram carregados os corpos dos soldados, para serem devidamente enterrados numa cerimônia regida por um mestre de oração. Quanto aos outros moribundos, filhos e netos de ladrões, estes foram deixados a qualquer sorte no meio da estrada, para que os abutres se encarregassem de digerir suas vísceras.

Notas finais
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