Whatever
5 O Inferno de Lisbeth
Notas iniciais
Era 23h50, a festa estava bem animada, o som alto e as pessoas dançavam uma contra as outras, mas eu não queria estar ali. A Boate Scream sempre fora muito movimentada, mas naquela específica noite parecia que todos os jovens da cidade lutavam por um espaço entre as paredes acústicas do lugar.
Discretamente me coloquei entre os corpos dançantes e saí sem me despedir. Uma estranha agonia pulsava em mim, não queria nem mesmo ter ido à balada, mas como sempre os meus amigos eram insistentes demais. Quando estava quase alcançando a saída dos fundos o Victor me alcançou.
— Não vai ficar até o final da farra?
— Não estou me sentindo bem – menti – te vejo amanhã.
Ele pôs um olhar desconfiado em cima de mim.
— Quer que eu te leve até sua casa?
— Victor, eu sei me cuidar!
— Você sabe que me preocupo com você, Lisbeth.
Sorri para ele e escapuli entre duas garotas bêbadas que se beijavam, acho que elas não gostaram de ser interrompidas, mas enfim, lá estava eu diante da porta de saída.
A porta dos fundos da Scream levava até uma viela suja e quase deserta, não fossem os ratos que ali passeavam, no chacoalhar frenético de lixeiras derrubadas. A noite seguia esfriando, recolhi o casaco da bolsa e o vesti, meu corpo estava arrepiado e sentia um sopro frígido na nuca. Apertei o passo para poder sair logo daquela rua estreita e escura, enquanto ouvia um leve chiado vindo de dentro da boate, um som disforme e trêmulo.
A poucos metros da saída da ruela distingui uma silhueta humanoide, parada e quieta. Não conseguia ver o seu corpo perfeitamente, muito menos o seu rosto, mas notei que era forte e que carregava algo nas mãos. De repente parei de andar e por um momento não soube o que fazer. Olhei desesperadamente ao meu redor procurando uma saída e a princípio tudo que vi foi o caminho por onde havia passado. O ser à minha frente se pôs a andar numa marcha lenta e cheia de suspense, meu coração batia tão rapidamente que pensei que abriria um rasgo em meu peito e saltaria para fora. Observei novamente a viela, agora com mais atenção, meu instinto de sobrevivência gritava por uma solução rápida e a única que encontrei talvez não me levasse a lugar algum.
Poucos metros atrás de mim uma escada de incêndio subia uns 15 metros até o topo de um pequeno prédio de apartamentos. Não pensei duas vezes antes de começar a escalada e quando lancei o olhar de volta para o estranho, o vi correndo ao meu encontro. Tentei subir o mais rápido que pude, por vezes pulando os degraus de dois em dois, em total pavor. O que mais me angustiava era o medo do desconhecido, por não saber como aquela situação terminaria. Pela primeira vez naquela noite desejei estar dentro daquela maldita boate.
Um agonizante raspar de metal contra metal ressoava vindo lá de baixo, chegando cada vez mais perto. Entre a fraca iluminação da rua consegui ver o cintilar apavorante da lâmina de uma faca. As lágrimas vieram aos olhos num instante, escorrendo quentes sobre a minha pele pálida de terror. O indivíduo forte e ágil não emitia nenhum som vocal e esse seu silêncio me enlouquecia.
Cheguei ao fim da escadaria e encontrei um terraço amplo e vazio. Em seu centro quatro paredes se fechavam entre si e uma porta fechada era o único meio de acessar o interior da edificação. Corri para lá e tentei abri-la, mas nada aconteceu, então virei o corpo na direção que tinha vindo e vi o monstro se erguer das escadas de incêndio. Ali, onde a luz da lua cheia iluminava a noite sombria, pude ver o seu rosto, numa expressão irada, repleta de um ódio desconhecido e lunático. Era um homem de mais ou menos 30 anos, cuja barba estava por fazer e os cabelos longos e negros pingavam de suor. Tive a impressão de que não seria a primeira a morrer naquela noite fria e assustadora.
Sua voz emergiu de dentro do seu corpo musculoso como o trepidar de uma fogueira.
— Lisbeth.
Estremeci. Como ele sabia o meu nome?
— Quem é você? – Minha voz saiu engasgada de medo.
— O que faz na rua a essa hora, Lisbeth?
Não respondi, apenas fiquei em silêncio, enquanto o medo me tirava cada vez mais as forças.
— Venha até mim garota e prometo não ser cruel com você.
O vento assobiou em algum canto e um calafrio me subiu pela espinha, dei um passo para trás.
— Venha até mim! – Gritou o homem apontando a faca na minha direção.
— Diga o que você quer e te darei, mas não me mate.
— O que eu quero você não me pode me dar sem a morte, eu preciso da sua alma.
Meu corpo gelou.
Frio.
Medo.
Vi-me perdida, sem escapatória e subitamente a coisa mais estranha aconteceu. Uma força sobrenatural puxou as minhas pernas e eu tombei, senti a dor do aperto nos calcanhares, olhei para os meus pés e não vi ninguém. Estou louca? Perguntei a mim mesmo, todavia minha visão não parecia mentir quando fitou um par de asas negras brotando das costas do homem.
Anjo da Morte.
Continuei sendo arrastada, me pus de bruços e tentei me agarrar a algo. Cravei as unhas no chão ao passo que a esperança de escapar rastejava para longe, meus dedos sangravam e eu gritava tão alto quanto achei que fosse capaz. Minha voz ecoou no meio da madrugada silenciosa e tudo parou de repente. Fiquei de frente para a besta alada, seus olhos eram de um vermelho intenso e mortífero, o anjo pairou sobre mim, encarando-me de perto.
— Poupe-me!
— Não posso. A morte nunca erra e ela escolheu você.
Ele deslizou a ponta afiada da faca pela minha bochecha, um fio de sangue escorreu e uma língua descomunal e grotesca saiu de sua boca, lambendo o sangue em minha face. Eu gemi de medo, virando o rosto enojada.
— Vamos acabar com isso, Lisbeth – o som era gutural.
Rastejei até a barra de ferro e quando finalmente a peguei, arremessei-a no anjo e ele a parou no ar, desintegrando-a em seguida. No momento seguinte tudo que vi foi um clarão e junto com ele veio uma dor lancinante, que pareceu sugar minha alma para fora do corpo, quando dei por mim me vi no meu pior pesadelo, sendo fadada a ser consumida por um triturador de madeira pelo resto da minha morte. Gritando, partindo-se, esfarelando, sangrando e se regenerando em um ciclo sem fim. Aquele era o meu inferno.
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