Whatever
7 O Corvo Branco
Notas iniciais
A névoa ficava mais densa a cada segundo, já não era possível enxergar muito à frente, não fosse por fracas luzes distantes no horizonte gelado, seria impossível dizer para onde Mohat estava indo. Em pé sobre a canoa de madeira rígida e escura, o velho segurava o remo e o deslizava com calma na água. Muitos segredos se escondiam abaixo da superfície do grande Rio Escarlate e o sábio Mohat não gostaria de chamar a atenção de visitantes indesejáveis.
Mohat era alto, magro e careca. Sua enorme barba descia até a altura da cintura em uma trança de fios brancos, atadas no final por um delicado elo de ouro. Vestia uma túnica negra como a noite, de tecido macio e delgado, um capuz completava a veste e cobria-lhe a cabeça. A outra margem do rio estava bem próxima agora, mas o velho não se apressou.
Não se via muita coisa em volta, além da escuridão noturna, uma imensidão de água e a névoa gélida e cortante do Vale do Corvo. A canoa deslizou mais um pouco e o velho parou de remar de repente, então um grande paredão rochoso fez-se visível à sua frente e ele se pôs a escutar a noite.
Quem está aí? A voz pareceu emanar de todos os cantos, ecoando para longe. O som saiu como um sussurro, como se o próprio vento o assobiasse, sereno e limpo. Na canoa Mohat continuava quieto e parado, fitando o fenômeno a sua volta.
Pequenos pontos de luz azulada surgiam em volta do velho sábio e dançavam no ar, circundando o homem como se estivesse a observa-lo. A luz era intensa e ofuscante, Mohat cobriu os olhos para se proteger e anunciou seu nome em alto e bom som.
— Mohat Grandera, o guardião do Vale do Corvo.
O que desejas guardião? O sussurro adentrou a noite fria e as luzes pulsaram, ficando ainda mais intensas.
— Trago informações valiosas, Lady Ádria há de me ouvir, pelo bem do vale.
Um à um os pontinhos brilhantes foram sumindo, enquanto a encosta rochosa trepidava e ruía, formando um estreito túnel na pedra, por onde o rio entrou e invadiu a caverna, para que Mohat continuasse a guiar sua canoa feita de ébano.
O caminho era iluminado por archotes e o fogo conferia um aspecto fantasmagórico, combinado com as disformes estalactites do teto da caverna. Mohat navegou por alguns minutos pela galeria até chegar a um grande salão alagado, o lugar de aparência assustadora tinha um atracadouro onde foi possível deixar a canoa. Para todos os lados que olhasse viam-se entradas escuras e misteriosas, qualquer um poderia se perder facilmente entre o labirinto de galerias da Fortaleza Pena Negra, mas Mohat não era qualquer um.
Lady Ádria Crow estava afundada em sua banheira, totalmente imersa em suas águas de banho, perfumadas com flores silvestres colhidas no próprio vale. Completamente nua, emergiu calmamente e sentou-se encostada à lateral da grande banheira esculpida em pedra opala, manteve os olhos fechados e apoiou a cabeça na pedra para descansar. Askarã a observava de perto, era seu fiel lacaio, a sombra mais confiável e prestativa que já esteve ao lado da senhora do Vale.
A mulher era formosa e pálida, seu corpo era esguio e bem formado, e seus cabelos eram tão negros quanto as penas do corvo em seu brasão. Com voz suave cuspiu uma ordem à sua sombra e o lacaio logo se enfiou numa galeria ao redor da sala de banho, ávido por cumprir o comando imediatamente.
Askarã tinha aparência grotesca e esquelética, seus dedos eram compridos e ossudos e sua face bastante carrancuda. Vestia-se com um sobretudo negro, feito em tecido fino e leve, que fazia com que ele parecesse flutuar ao caminhar. Era quase careca, não fosse pelos ralos fios brancos que saltavam do seu couro cabeludo. Depois de vagar por extensos corredores lúgubres e vazios, chegou ao seu destino final, a grande galeria onde o velho Mohat terminava de atar os nós para prender a canoa ao ancoradouro.
— Lady Ádria o espera em seus aposentos – sibilou Askarã ao guardião do vale.
Mohat apanhou o remo, fazendo-o se transformar num grande cajado, logo em seguida acompanhou a sombra pelas galerias. Os dois seguiram lado a lado por um dos túneis da fortaleza, mantendo o silêncio que o guardião tanto presava. O lugar parecia deserto e de fato estava, todavia bastaria apenas um sinal da senhora do vale para que aquelas galerias se abarrotassem de guardas de mantos alvos, ostentando a imagem do corvo em suas vestes e escudos. As Terras estavam em paz a longos anos e Lady Ádria desejava mantê-las assim. Ela era sinônimo de soberania e poder, qualquer ser vivo pensaria duas vezes antes de desafia-la.
O guardião do vale e Askarã pararam diante da maciça porta de bronze do aposento de Lady Ádria. A sombra abriu a porta e depois desapareceu pelas galerias, deixando Mohat a sós com a senhora do Vale.
— O que o traz aqui, Grandera?
— Trago notícias de Além-Terra, senhora.
— Além-Terra? O que houve? Por que você haveria de me perturbar com notícias de fora do vale?
— Temo pela paz das Terras, Lady. Um pombo chegou esta manhã, trazendo notícias do norte.
— Norte? – Ela levantou uma sobrancelha.
Lady Ádria estava em pé de frente para o grande espelho do aposento, vestida com um vestido longo e cinza debruado de pedrinhas brilhantes, a barra da vestimenta beijava o chão, alongando-se sobre ele em uma cauda ornada por pequenas penas negras. Através do espelho era possível ver Mohat, poucos metros atrás da mulher.
— O que o Norte fala? Vamos, diga logo!
— Três aves foram vistas sobrevoando as casas da Vila do Fogo, as três aves da profecia. Sim, eram elas. Assim como a mensagem antiga: três aves sobrevoarão o fogo, uma ao lado da outra, aquela de penas tão brancas como a neve estará entre a escuridão. Como aviso deixarão suas relíquias e assim toda Terra saberá que o verdadeiro herdeiro do trono nasceu.
— Acredita nessas histórias, guardião? A profecia é apenas uma lenda boba, um conto antigo passado de geração à geração.
— Os sussurros de que um dia todas as Terras seriam dominadas por um só senhor precedem tudo que conhecemos. Não sei se o que diz é verdade, Lady. Não são histórias, são profecias.
Mohat caminhou para mais perto. As paredes daquele lugar tinham ouvidos e ele não queria que suas palavras fossem para longe dos aposentos da senhora do Vale.
— Ouça – disse num sussurro – as aves foram vistas na vila, duas eram negras e a do meio era tão alva quanto o leite que usas para o banho. Sobrevoaram cada archote da praça central e deixaram suas relíquias aos pés da árvore sagrada. As aves negras carregavam nos bicos pontas de duas lanças e a terceira não levava nada, no entanto, foi a única a morrer. Sua relíquia era a vida, senhora e sabe o que me intriga?
Mohat fez uma pausa, Ádria virou-se sobre os seus calcanhares e o olhou nos olhos, estes eram cerrados e cinzas.
— O que ti intriga, guardião?
— A ave que morreu aos pés da árvore sagrada era um corvo, um corvo branco cujos olhos ardiam como brasas. O corvo é símbolo de sua casa! Não percebe que isto é um sinal?
A senhora do vale prendeu a respiração por um momento. Mohat tocou suas mãos e notou que elas estavam frias e tensas, então a mulher disparou as palavras como um trovão.
— Onde quer chegar com esse falatório, velho? Acredita mesmo que um conto antigo irá me amedrontar? Eu sou a líder do conselho, sou eu quem dito a palavra final. As Terras estão em paz, não estão? Graças a mim. Agora vem você com essa conversa tola de profecia. Não existe um herdeiro do trono, entendeu? E negro é o corvo que representa minha casa.
O sábio guardião já esperava aquela reação, era de se esperar que Lady Ádria ficaria em fúria quando o ouvisse, mas era preciso abrir os olhos da mulher para o que estava por vir, as profecias nunca erram.
— Minha senhora, não estou aqui para contestar o seu poder, pelo contrário, assumo a responsabilidade de alertar-lhe sobre os acontecimentos. Marque uma reunião com o conselho, chame à todos. Lorde Roxell, Lady Versa e o repugnante Lorde Stwin. A paz pode não ser tão firme quanto pensas.
— Ouça bem guardião, não criarei nenhuma forma de alarde sobre uma lenda qualquer, na Terra Média não há trono, nem rei. O conselho é a representação máxima dessa sociedade.
— Não minta para se mesma. Você é a representação máxima, sua casa assume as rédeas da Terra Média desde que o mundo é mundo.
— Minha casa conquistou este lugar, é justo que tenhamos mais controle sobre ele, guardião.
— Os antigos alertavam para o dia que está próximo, senhora. Existe um rei e ele já se encontra entre nós. E acredito estar olhando para o corvo branco neste exato momento.
Lady Ádria se encheu de fúria, seu rosto estava vermelho como um tomate, a mulher ergueu as mãos em direção ao velho guardião e delas esticaram-se raízes repletas de espinhos, Mohat estava parado poucos metros adiante, encarando a líder do conselho com uma expressão de indignação. Quando as raízes estavam quase tocando o velho Ádria cessou o ataque.
— Sabia que escolheria a opção certa. Acalme-se, amanhã retornarei para vê-la, espero que já tenha refletido sobre as coisas que falei. Preciso retornar ao portal, nunca se sabe o que pode acontecer.
Mohat se virou e saiu. Ele devia obediência à Ádria, mas como guardião do vale cabia a ele tomar todas as precauções para que o Vale do Corvo sempre estivesse protegido. Seu jeito sempre calmo irritava a líder do conselho, mas ela sabia que ele estava certo. Por mais que dissesse não acreditar no que os antigos diziam, eram aquelas coisas que lhe tiravam o sono noite após noite.
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