-Estamos chegando?

A distância entre Chicago e Paradise city era de, mais ou menos, 4 horas de carro. A lua cheia brilhava no céu escuro do lado de fora das janelas. O carro ia trepidando pelo caminho, consequência do paralelepípedo. O ar estava frio e as nuvens estavam escuras, indicando que iria chover.

-Acho que estamos quase chegando. – respondeu Josh, que dirigia desde que havíamos saído de Chicago.

Tentei ligar o rádio e, novamente, só se escutava chiados.

-O que vocês acham de jogarmos um jogo? – sugeriu Lucy, sentada no banco traseiro do carro, entre Jake e Peter. – Não aguento mais esse silêncio.

-Que jogo?

Ela deu de ombros.

-Não sei, mas estou morrendo de tédio.

Insisti no rádio mais uma vez.

-Clare, você ainda não percebeu que não vai funcionar?

Revirei os olhos, mas, antes de conseguir desligar o rádio, ouvi algo parecido com uma música.

-Clare, da...

-Shh – botei os dedos nos lábios e aproximei a orelha da saída de som. Aquilo não era uma música, eram cochichos. Então ouvi uma risada, mas foi tão baixa que não tive certeza de ter escutado direito.

Estava afastando a orelha dali quando ouvi a risada novamente, mas agora mais alta do que antes. Desliguei rapidamente o rádio.

-Vocês ouviram isso?

-Ouviram o que? – perguntou Lucy com uma cara confusa.

-As risadas! – procurei, no rosto de cada um, indícios de que eles também haviam escutado.

-Acho melhor você descansar um pouco. – Falou Josh.

-Acho que alguém está com medo.

Encarei Jake.

-Eu não estou com medo!

-Entao – começou a falar com um sorriso malicioso nos lábios. – o que te da medo?

Virei-me para frente, irritada. Não ia falar os meus medos para ele.

-Essa é uma boa ideia. – observou Lucy. – Talvez se falarmos dos nossos medos tenhamos algo com o que nos distrair.

-Tudo bem. – falei olhando para Jake. – Eu tenho medo de brinquedos de parques de diversões.

Ele começou a rir. Senti minhas bochechas corarem.

-E do que você tem medo?

-Eu não tenho medo de nada, querida.

-Seu medo é admitir seu próprio medo. Que interessante. – provoquei.

-Tudo bem! Eu tenho medo de altura, satisfeita?

-Riu da Clare por temer parques, mas morre de medo de rodas gigantes. – caçoou Peter.

Jake lançou um olhar de ódio para Peter.

-Pelo menos eu não tenho medo de mulheres.

-Eu não tenho medo de mulheres! – questionou.

-Ah, certo, elas que tem medo de você.

Peter ignorou Jake e falou franzindo o cenho.

-Tenho medo de lugares apertados, acho.

Bati a cabeça contra o vidro quando Josh passou por um buraco.

-Desculpa.

-Eu tenho medo de bonecas. – falou Lucy um pouco animada demais. – E você, Josh?

-Água. – respondeu, batucando os dedos no volante. — No sétimo ano, quase me afoguei na piscina da escola e, depois disso, passei a ter medo de água.

Josh estacionou o carro em frente a uma antiga mansão, conferindo o endereço escrito em um papel amassado.

Um lago se estendia em frente à enorme casa. Através das janelas, apesar dos vidros sujos, era possível ver um brilho alaranjado e alguns vultos.

-Esta é a casa do Kevin?

-Esse foi o endereço que o Luke me passou. – falou, conferindo mais uma vez o endereço escrito no papel.

-Algum de vocês ao menos conhece o Kevin?

-Ninguém conhece, ele é novo em Chicago. Kevin se mudou para casa ao lado da de Luke e nos convidou para passar as férias aqui. – Jake falou olhando para a mansão. – Ele já deve ter chegado. Vamos.

Descemos do carro e, carregando as malas, fomos até a porta de entrada da mansão, que ficava no topo de uma escadaria. Jake usou a aldrava e a porta abriu-se no mesmo instante em que um raio cortou o céu escuro.

A mulher parada na entrada da mansão aparentava ter entre 50 e 60 anos. Ela usava uma blusa de veludo azul, saia e meia calça pretas. O cabelo acinzentado estava amarrado em um coque bem feito.

-Nós somos amigos do Kevin. Ele nos convidou para passar as férias aqui. –Peter esticou a mão para cumprimentar a mulher. –Eu sou Peter. Esses são Clare, Jake, Lucy e Josh.

A mulher olhou para a mão esticada do menino, sem responder ao gesto. Então, olhando para nós, falou:

-Sou Donna, servente dos Richards. – Disse enquanto Peter recolhia a mão. – Entrem. Eu estava esperando por vocês.

Notas finais
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