What if?
9 What is love?
Notas iniciais
“Você disse que se lembrava! Lembrava do quê? De pescar? Acampar conosco? Como? Você mentiu pra mim. Eu deixei meu pai entrar de novo na minha vida… na minha casa. Eu deixei ele ficar perto do Sawyer! Ele a matou. E eu o deixei voltar por sua causa. Então vire-se, fique de joelhos, e coloque as mãos sobre a cabeça. Eu não vou pedir novamente
[...]
Jane Doe, você está presa.”
Os pesadelos a acordaram antes do despertador. Seu coração martelava ao peito e seus olhos lacrimejavam. A simples lembrança daquele dia era tão pesada ao ponto de parecer sufocá-la e dificultar sua respiração.
Kurt ainda dormia quando levantou-se da cama. A simples movimentação em seu peito conforme respirava fora o suficiente para acalmá-la. Inclinou-se em sua direção e beijou sua cabeça de leve. Ele sequer se moveu.
As roupas jogadas sobre o chão a levaram de volta a noite anterior. Cada toque, cada som, cada olhar… tudo estava presente em sua mente e corpo. Ainda podia sentir suas mãos firmes passeando sobre sua pele a cada troca de carícia vivenciada por ambos.
Recolheu sua camisa e a vestiu, sentindo seu cheiro exalar pelo tecido.
Sentia-se leve como nunca.
Ligou a tv no menor volume possível enquanto bocejando, abriu as cortinas da sala.
— Jane…
— Eu não vou deixá-lo aqui!
Seus olhos instintivamente percorreram sobre todo cômodo. A vidraça a sua frente estava nova em folha; se não tivesse presenciado o ocorrido, jamais diria que dias atrás estava em pedaços sobre o chão. Tudo parecia bem, finalmente.
Quando afastou-se em direção a cozinha, o envelope largado ao canto da porta lhe chamou a atenção. Lembrou-se de avistar o objeto em suas mãos ao adentrar o apartamento na noite anterior, mas nem sequer teve tempo de lhe perguntar sobre o conteúdo.
Provavelmente evidências de algum caso. Talvez o seu caso? Ela ficou um bom tempo desacordada, definitivamente havia perdido o andar da carruagem.
Resolveu se aproximar. Era um invólucro um tanto quanto grosso e sem identificação alguma. Ao segurar, não fora capaz de sentir seu conteúdo. Certamente uma pilha de papéis de algum relatório.
“Passo”.
Se fosse importante, ele provavelmente teria lhe mostrado.
…
Ela não estava lá quando Kurt acordou.
Mas dessa vez, só não estava na cama.
A encontrou tomando seu café no cômodo ao lado. As cortinas estavam entre-abertas e o fraco sol da manhã nova iorquina invadia o ambiente lhe proporcionando uma das melhores visões que já havia tido: Jane estava envolta pela camisa que horas antes ele trajava, e uma pequena fresta desabotoada insinuava toda beleza que se escondia por debaixo daquele tecido. As pernas nuas repousando sobre a pequena mesa em frente a tv enquanto suas mãos seguravam firmemente a xícara próxima aos lábios. Seus cabelos levemente jogados para trás da orelha permitiam que seu rosto ficasse totalmente exposto a pouca claridade que contrastava com o verde de seus olhos, fixos sobre o televisor a sua frente. Ela estava… genuinamente perfeita.
— Bom dia... — fora tudo que ousou dizer ao se aproximar. Um sorriso torto foi inevitável em seu rosto e ele coçou a própria nuca. Ele estava nervoso. — Você está linda.
— Bom dia… Já conseguiu me levar para cama, pode parar com esse charme.
— Droga, fiquei um bom tempo acordado ontem a noite ensaiando o que diria pela manhã.
Ela riu com isso, levantando-se do sofá. — Nós dois sabemos que o motivo para ficar acordado foi outro.
Enquanto servia-o do café que havia feito, ele apenas riu e acomodou-se na cadeira ao seu lado. Suas costas estavam doloridas, e a leve ardência em sua nuca o lembrava de seu verdadeiro motivo para passar a noite em claro.
“Jane… o que estamos fazendo?”
Alguns muros haviam se derrubado.
Seus gemidos ainda era vividos em seus ouvidos, assim como seus toques, seus beijos… a forma como seu corpo aninhou-se ao seu antes de sucumbir ao cansaço. Ela nunca estivera tão viva em sua mente.
Ficaram ali por minutos, apenas trocando carícias, flertes e sorrisos. Não ousaram sequer um comentário sobre o que aconteceu. Não precisavam. Tinham plena consciência de tudo que haviam feito, e nenhum dos dois parecia necessitar e um diálogo.
Estava tudo bem?
Acreditavam que sim, e Jane estava convicta sobre seu pensamento até algo despertar sua curiosidade. O envelope grosso de cor bege sobre a mesa de canto.
Vez ou outra, o flagrava desviando suas atenções até o objeto. Deveria ter bisbilhotando quando teve a chance…
— Vou tomar um banho. – Ela levantou-se da mesa.
Sua atenção imediatamente voltou para os botões abertos de sua camisa. A cobra contornando o lado direito de seu peito descendo até o vão entre seus seios indo de encontro com a rosa em chamas, nunca pareceu tão provocativa.
— Isso é um convite?
— Não.
— Ah…
— Estamos quase atrasados.
— Eu consigo ser rápido.
— Por mais tentador que seja, Diretor-Assistente Weller, meu chefe é nem rígido com horários.
— Tecnicamente, eu não sou seu chefe…
— Mas é de alguém. Nada de dar mau exemplo.
— Você me pegou em cheio, droga.
Ela riu, se inclinando para limpar o farelo do canto de sua boca e aproveitar para selar os lábios aos seus. — Mais tarde você retribui.
Convencido, apenas a observou seguir corredor a fora. Ele com certeza retribuiria.
…
Acordar. Se arrumar, tomar café e correr para o escritório.
Quando as portas do elevador se fecharam, Jane momentaneamente sentiu-se claustrofóbica. A ansiedade de percorrer todo o trajeto até o edifício, imaginando o que fariam, onde iriam, quem encontrariam… Desde que acordada pela manhã esteve se preparando para esse momento, como se o mesmo ainda fizesse parte de sua rotina.
Mas não fazia. Não era mais uma agente ativa e não poderia se dar ao luxo de acostumar-se com o local novamente. Sua mente a alertava de que em breve, quando toda poeira abaixasse, teria outra decisão a fazer.
— Jane?
— Sim?!
— Você não vem?
A rápida piscada de olhos que se iniciou ao adentrar o cubículo acabou por tornar-se mais longa do que pudera perceber. As portas se abriram novamente e sequer notará, até ouvi-lo chamar por seu nome. Ele estava parado com o braço esticado, impedindo que os metais se fechassem.
A sala pareceu maior do que se recordava. E mais barulhenta.
Ordenou que seus pés se movessem, mas seu cérebro pareceu relutante a obedecer seus comandos. Apoiou uma das mãos sobre a parede metálica e tentou respirar fundo; Novamente, o ar parecia insuficiente para seus pulmões.
De olhos fechados, sentiu suas mãos tocarem seus ombros. — Jane…
Mas era incapaz de se mover. O mundo parecia ter dado pausa a sua volta.
— Quando vi que não estava respirando e o antídoto parecia não funcionar… eu achei que tivesse te perdido.
— Eu não consigo…
Ela estava em pânico.
Preocupado, Kurt pressionou o botão do elevador para impedir que o mesmo saísse do andar após fechar as portas. Tomou sua mão e a colocou sobre o peito.
Podia ver o suor escorrendo pela lateral de seu rosto enquanto seu corpo todo parecia ser atingido por uma onda de tremedeira.
— Eu estou aqui, apenas mantenha a calma e respire fundo, ok? Você passou por muita coisa nos últimos dias, mas está tudo bem agora. – sua voz soava serena a seus ouvidos e só então percebeu quão próximos estavam. Seus batimentos pulsavam sobre a palma de sua mão lembrando-a qual era a sensação de se estar vivo. — Você está segura aqui.
Segurando seu rosto, depositou um beijo suave em seus lábios e testa. — Você vai ficar bem, Jane, eu prometo. Apenas respire.
Receosa, deixou que seus olhos se abrissem, se perdendo na imensidão daquele oceano azul que a encarava de perto. Kurt sentiu um nó se formar em sua garganta ao imaginar quantas vezes nos últimos meses ela havia passado por momentos como aquele, e ele não estava ao seu lado para acalmá-la.
— Kurt… — Em certo ponto, ela deixou-se aninhar a seu peito em um abraço apertado. Tudo parecia certo quando estava em seus braços. Alguns minutos se passaram e eles se mantiveram ali, parados rente ao outro. Suas respirações soavam em um só ritmo.
As batidas contra a porta metálica os dispersaram de seu transe. Ainda estavam parados dentro do elevador. Ela não conteve o riso ao ouvir Rich gritar do outro lado. — Tem alguém aí dentro? Está tudo bem?
O loiro apenas revirou os olhos frustrado, pressionando o botão para liberar o acesso.
— Achei que não fossem vir, já estava mandando um dos agentes para o seu apartamento.
Rich, Patterson, Reade e Zapata se encontravam de prontidão. Um olhar curioso fora lançado a eles quando finalmente caminharam para fora do cubículo, com Weller ainda segurando sua mão. Mas o agente da cia acompanhando o grupo fez com que dispensassem qualquer comentário.
— Keaton?
— Jane; Weller.
— Sabem de uma? Estou começando a me acostumar com a presença de vocês por aqui. — Rich, observando o agente da cia lançar seu olhar sobre ele. — Óbvio que uma das duas me agrada mais que a outra…
— Estávamos esperando por vocês. — sabendo que aquele assunto não daria em nada, Tasha interrompeu o colega meio a seu discurso . — Os testes da Jane chegaram hoje de manhã e até agora, não conseguimos identificar ao certo o que aconteceu.
— Pedi para a minha equipe analisar algumas substâncias encontradas no seu sistema sanguíneo, mas enquanto isso, acho que devemos focar em algo mais promissor.
— Promissor como…?
Prontamente, Patterson aproximou-se do casal. O tablet em suas mãos estava carregado por diversos arquivos, dos quais não se deram o trabalho de tentar entender. Ela suspirou ao notar a confusão em suas faces.— Alguém nos enviou isso por e-mail hoje de manhã.
A tela de escureceu após alguns de seus toques, e um pequeno quebra cabeça surgiu meio ao fundo preto. Eram figuras desconexas de cores chamativas, que acendiam conforme pressionava os dedos sobre o aparelho.
— O que é isso?
— Ainda não sabemos. Estamos tentando formular alguma imagem concreta e rastrear quem nos enviou, mas até agora, é um beco sem saída.
— E é por isso que estou aqui. — Explicou Keaton.
— Devemos agradecer a honra da vez?! — O hacker brincou, mas não arrancou sequer um riso dos colegas. Elaestranhou a seriedade.
Notou quando o mesmo desviou sua atenção para Kurt, que por sua vez parecia desconfortável com a situação.
Estavam escondendo algo.
— Não tinha nada no e-mail além do arquivo? — desconfiada, resolveu arriscar.
— Apenas uma foto. — Rapidamente, William projetou as imagens sobre o televisor ao adentrarem laboratório. Jane estava tão distraída que sequer notou que haviam se locomovido até o local.
Agora, as figuras pareciam ainda mais confusas e aleatórias em um tamanho maior. A pequena foto surgiu ao canto, revelando uma simples pilha de controle comum em um fundo branco. Não entendeu a ligação.
— Uma pilha?
— Também não entendemos. Achamos que alguém está tentando nos dar alguma pista. Tentei alguns anagramas ou conexões entre as figuras e o símbolo da marca da pilha, mas até agora, são duas coisas totalmente distintas.
Prontamente, a página de internet carregou-se sobre seus olhos revelando a figura de um animal cor de rosa com nariz vermelho, conhecido por todos.
Um coelho.
“As coisas estão prestes a mudar rápido por aqui. Não posso salvá-la uma segunda vez. Então se não puder acordar a velha Remi sozinha, eu vou achar o seu coelho e eu o farei sangrar.”
O clima mudou totalmente dentro da sala. Deveria ser apenas uma coincidência.
— Se juntarmos esses fragmentos com as fotos, já nos dão um bom ponto de partida. Agora que temos isso, podemos nos organizar e...
— Me desculpe, o que disse?
A voz de Patterson parecia tão distante de seus ouvidos, mesmo ao lado da mulher. Seus pensamentos estavam desnorteados.
— As fotos que a Nas enviou. Keaton nos mostrou hoje pela manhã pouco antes de vocês chegarem.
— Quais fotos?
Seus colegas pareceram mais arredios diante sua pergunta, e até Dotcom assumiu uma postura totalmente contrária a seu normal: ele estava sério.
Confusa, Patterson virou-se para Kurt antes de responder. Mas já era tarde. Ele sabia que agora não teria mais a oportunidade de conversar e se explicar para Jane.
Derrotado, apenas consentiu com seu olhar para que prosseguisse. — Mostre para ela.
— Okay… essas fotos.
De repente, uma série de fotografias se projetaram sobre a mesa eletrônica. As imagens não eram exatamente nítidas, e Jane deduziu que foram capturadas de alguma câmera de vigilância. Olhou confusa para os colegas sem entender ao certo a relevância daquilo, até sua mente começar a se familiarizar com os cenários.
California.
Reconheceu imediatamente a cafeteria central e edifício do FBI local aos fundos. O parque em que costumava correr todas as manhãs. O estúdio de tatuagem e a escola de artes marciais em que trabalhava.
Notou o mesmo homem presente em todas as fotos. Na maioria, sozinho. O mesmo boné e óculos escuros disfarçavam sua aparência, mas Jane não precisava de mais clareza para reconhecer aqueles traços.
Os fios loiros de sua barba eram inconfundíveis.
Roman.
Todos esses meses ele esteve bem embaixo de seu nariz.
Sua mente imediatamente vagou ao passado. Como isso era possível? Teria o visto? Falado com ele? Não conseguia encontrá-lo em suas memórias.
Sentiu-se sufocada pela possibilidade. Precisou respirar fundo e apoiar as mãos sobre a mesa para não se desequilibrar e deixar que o pânico a atacasse outra vez. Mas eram muitas informações ao mesmo tempo.
Conseguia ouvir a voz de Keaton ao fundo, mas não estava prestando atenção em suas palavras. Seu foco estava sobre a tela, onde as milhares de fotos estavam dispostas à sua vista. Ousou aproximar seus dedos trêmulos e clicar sobre cursor para contabilizar a totalidade dos arquivos, e assim tomou ciência das datas. Recentes, não mais do que algumas semanas
Algumas outras fotos surgiram conforme deslizava seus dedos para baixo, e Jane reconhecia todos aqueles locais, pois fizeram parte de sua nova rotina. Sentiu os fatos se jogarem contra seu peito de forma violenta ao analisar os últimos arquivos digitais. Lá estava ela e Clem, dias atrás.
Seus momentos na cafeteria durante os intervalos das aulas, as poucas vezes em que se encontraram para combinar alguns resgates... outras fotos individuais… tudo acontecendo como imaginava.
Estavam investigando sua pequena vida californiana.
— Você sabia sobre isso? – ela virou-se em sua direção. Perguntava-se desde quando estavam agindo por trás de seus olhos, já que Kurt Havia se calado desde o momento em que as imagens foram lançadas sobre o projetor.
— Sobre o quê?
— Sobre as fotos?! Sobre o fato de que a Nas e o Keaton estavam investigando a minha vida?!
Receoso, sabia que não haveria para onde fugir. Continuar mentindo e se esquivando de suas perguntas só pioraria as coisas. Apenas balançou a cabeça afirmativamente. — Fui eu quem pedi isso à eles… e sobre as fotos, descobri ontem pela manhã, pouco antes de você acordar. Nós não sabíamos o que estava acontecendo e nem com quem estávamos lidando, só queria ter certeza das coisas.
— Por que não me disse?
— Jane… você passou por apuros, achei que seria melhor ter certeza das coisas antes de te envolver nisso.
— Me envolver?! Ele é meu irmão, Kurt! Eu estou sempre envolvida!
— Eu sei, mas você precisa entender as circunstâncias aqui. Precisávamos ter certeza das coisas.
— Você ainda tinha dúvidas de que eu estava o ajudando a fugir?!
A pergunta o atingira em cheio.
— Não! Por Deus, isso nunca passou pela minha mente. Mas o seu amigo, eu não o conheço e não confio nele. E agora tenho razões para acreditar que estava certo sobre isso.
— O que encontraram?
— Nada concreto por enquanto. – Jake soou aos fundos, mas sequer desviaram suas atenções ao agente. — Meu pessoal está procurando possíveis conexões entre Roman e Clem, mas até agora, a única informação que temos é que Roman frequentou a mesma cafeteria que vocês algumas vezes, em horários bem próximos ao que estiveram por lá.
— Acham que Clem esteve ajudando o Roman esse tempo todo?
— Não sabemos, mas é uma hipótese. Aquela história de que ele te encontrou com a ajuda de um amigo policial não foi convincente...
— Algumas semanas antes de atacarem minha casa, eu sofri um acidente em um dos nossos trabalhos. Fiquei inconsciente por dias, assim como dessa vez. Vocês acham que ele de alguma forma foi o responsável pelos meus atentados? Por que?! Não faz sentido. Se esteve mesmo me vigiando e me quisesse morta, eu já estaria!
— Você não nos disse sobre o acidente.
— Não somos os melhores em contar as coisas um para o outro.
Suspirou exasperado. Kurt não tinha disposição para continuar aquela discussão. Já sentia-se mal por não ter tido a oportunidade de contar-lhe sobre as descobertas de forma amena. Odiava que lhe jogassem as informações, pois sabia o peso em que elas se transformariam e ela as carregaria sobre as costas.
— Mesmo se Clem estiver trabalhando com o Roman… — Zapata cortou o clima tenso que se formou. – Ainda não sabemos para quê.
— Nós.
— "Nós"? — até o momento, Reade os observava em silêncio — assim como os outros presentes.
— Sim. Roman sabia que se algo acontecesse à Jane, nós iríamos atrás dela.
Todos sabiam que ele estava certo. Poderiam se passar meses, até mesmo anos; Eles estariam ali para ela, assim como sabiam que ela faria o mesmo por eles.
Jane se afastou. Parecia prestes a dizer algo, mas um som sequer ecoou de sua boca. Apenas seguiu em direção a porta sem olhar para trás.
Kurt tentou chamá-la, mas ela não parou. Os outros apenas a observaram, ainda atordoados pela possibilidade levantada. Com tudo que acontecera nos últimos dias e meses atrás, estavam atônitos tentando imaginar como tudo aquilo se encaixava e quais seriam suas razões.
...
Suas mãos tremeram ao abrir a porta do vestiário. Já era tarde, e sabia que ela estaria lá pois já havia a procurado em todos os lugares desde que sairá do laboratório ignorando seus chamados horas atrás.
Quando acordou pela manhã, não imaginava que seu dia terminaria desse jeito: com receio de ir para casa. Não depois da madrugada anterior.
Podia ouvir o barulho de seu armário se fechando e aproximou-se, a avistando sentada sobre um dos bancos. A cabeça encostada sobre a parede de marmore enquanto suas mãos repousavam em seu colo, aparentando uma exaustão tão grande quanto a sua.
— Podemos conversar? — arriscou.
— Agora você quer conversar? – Jane retrucou friamente. Sequer moveu-se ou levantou seu olhar a ele. — É um pouco tarde para isso.
— Eu estava esperando o momento certo para poder falar sobre isso. Você tinha acabado de sair do hospital, Jane! Precisava saber que estava tudo bem com você antes de jogar esse balde de água fria, mas acabei não tendo essa chance.
— Hoje pela manhã você teve a chance de me contar. — o interrompeu. – Eu notei você olhando para aquele envelope de fotos diversas vezes. — ela abriu os olhos e o encarou. Haviam lágrimas de cansaço em seu olhar. — Por que não me contou?
Não soube o que lhe responder. Sabia que estava errado e não se surpreendeu com o fato dela notar seu comportamento. Jane tinha o dom de perceber as coisas antes mesmo de acontecerem.
— Você disse que ele era seu único amigo. Eu vi naquelas fotos o jeito como parecia feliz, relaxa… e não queria desfazer a imagem que construiu da única pessoa que deixou se aproximar quando foi embora.
Ali. Sabia que ele usaria esse argumento contra ela.
— É melhor irmos para casa, já está tarde. Um bom banho e uma noite bem dormida vão ajudar a entender melhor tudo que está acontecendo.
— Eu não vou com você.
— O quê? – Ela se levantou, só então deixando a sua vista a pequena bolsa ao seu lado. Kurt não havia a notado. — Por que?
— Acho que já excedemos nossa cota de invasão pessoal.
Engoliu seco. Suas mãos estavam firmes sobre a alça do acessório, e sequer conseguia manter contato visual. — Se isso for pelo que aconteceu ontem a noite…
— Kurt, para. – não o deixou terminar. A simples chance de ouvi-lo duvidar ou questionar suas escolhas quanto ao que aconteceu entre eles machucava seu peito. Ela o queria, não havia mentido sobre isso, e não se arrependia de nenhum segundo sequer dos momentos que passaram juntos. Jamais deixaria que duvidasse disso. — Não é.
— Você não precisa ir para um hotel.
— Mas eu quero.
Enquanto o time trabalhava para decifrar as diversas imagens e seus possíveis códigos obscuros, Kurt dedicou parte de seu tempo para tentar ver a situação sobre seus olhos. O ataque de pânico que havia tido mais cedo no elevador apenas confirmou seus pensamentos de que tudo isso estava a sufocando.
Jane nunca esteve em paz desde que saiu daquela mala; e agora, havia descoberto que os únicos meses de sua vida que pareciam realmente ter lhe pertencia poderiam ser apenas uma mera manipulação, feita por seu próprio irmão.
— Tudo bem. – Era incapaz de entender como deveria se sentir, mas já vira isso antes com Shepherd. Ela nunca esteve em controle de sua vida, sem que outros interferissem em seu caminho. — Sabe onde me encontrar caso precise. Boa noite, Jane.
— Boa noite, Kurt.
Mas a noite estava longe de ser boa.
Sua maior vontade era ter ido para casa com ele. Jogar suas roupas ao chão e saciar seus desejos até o cansaço os derrubarem para dormir abraçados novamente. Acordar pela manhã e sentir o peso e o calor de seu braço sobre seu corpo… Era tudo que mais queria.
As imagens não saiam de sua mente. Cada uma delas a lembrando do tenebroso fardo que carregava antes mesmo de se tornar Jane Doe.
“Atire!”
Roman era seu fardo. Sabia que muitos de seus atos eram consequências de coisas que ela havia o ensinado. Como era possível amar tanto e odiar alguém só mesmo tempo?
Aquele quarto de hotel parecia mais vazio do que já esperava, o que apenas deu ainda mais espaço para que as vozes vagassem por sua mente, assombrando-a.
Acostumou-se a estar sempre acompanhada desde que voltara, e agora, relembrou-se o quão solitária e angustiante algumas escolhas podem se tornar.
Novamente… escolhas.
Ele escolheu mentir e não confiar nela; Ela escolheu não ouvir suas explicações.
Agora, estava sozinha novamente. Tão sozinha quanto antes.
...
O copo de whisky parecia pesar toneladas em suas mãos não muito longe dali. Kurt estava cansado.
Há dias não sabia o que era deitar-se sobre a cama e ter uma boa noite de sono. Talvez até mesmo meses…
Sentia-se exausto.
As madrugadas em claro naquele sofá de hospital já começaram a mostrar resultado, aparecendo em uma dor nada agradável em suas costas. Apenas ignorou.
"Você ainda tinha dúvidas de que eu estava o ajudando a fugir?!"
Como ela teve coragem de duvidar de si após a noite que tiveram?
Mesmo com todas as circunstâncias, ele nunca duvidou ou desconfiou de Jane. Sempre a defendeu de todas as acusações sem fundamento que surgiram quando ela escolheu ir embora.
Novamente, ela e suas escolhas.
— Se isso for pelo que aconteceu ontem a noite…
Kurt não pode deixar de perguntar-se ela realmente não se arrependia. Tudo parecia bem pela manhã, e se não fosse aquelas malditas fotos — que pareciam rir de sua cara espalhadas pela mesa da sala — a noite poderia terminar como a anterior. Com Jane em seus braços.
Amargurou-se por não ter lhe mostrado antes, virando o último gole daquele líquido amargo. Estava prestes a reabastecer seu copo quando avistou a tela de seu celular acender por baixo dos papéis.
Não queria atender. Não queria falar com ninguém naquele momento.
Mas a pessoa insistiu. As vibrações do aparelho o arrastaram para beirada do móvel amadeirado, e parecia prestes a pender para o chão. Sentir-se tentado a deixar, mas culparia-se pela manhã se deixasse de atender à algum chamado do escritório.
Ou até mesmo dela.
Sequer percebeu, mas a possibilidade de que Jane estivesse do outro lado teimando em incomodá-lo a essa hora o fez se aproximar rapidamente para pegar o telefone.
Intimamente, queria que fosse ela.
Queria ouvir sua voz dizendo que assim como ele, não conseguiria dormir pois sua mente vagava entre as lembranças do que fora sua última noite juntos.
Queria presenciar seu silêncio ao admitir o quanto gostaria de estar deitada em seus braços, para que pudesse corresponder às angústia que era deixar que os segredos os afastassem novamente. Queria muitas coisas com ela.
Mas Infelizmente, o nome indicado na tela estava longe de ser o seu. Para ser mais exato, sequer havia uma identificação para a chamada. Apenas alguns números aleatórios que acompanhavam o prefixo de outro estado.
Colorado.
Allison.
Atendeu imediatamente.
— Alô?
[...]
— Eu já estou indo.
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