What if?
10 Bruises
Notas iniciais
Suas mãos passeavam por todo seu corpo enquanto seus lábios vagarosamente marcavam seu pescoço, queimando sua pele. Podia sentir sua respiração quente soprar propositalmente ao pé de seu ouvido lhe causando arrepios em lugares impróprios de se dizer. Weller conhecia seu ponto fraco.
Tratou de livrar-se de sua camisa e aproveitar a interrupção de seu ato apenas para juntar os lábios aos seus novamente. Não aguentaria passar mais um segundo sequer sem beijá-lo. Estava viciada em seu gosto.
Ele estava ali com ela, segurando-a em seu colo a carregando para o quarto, assim como naquela noite.
— Kurt… eu quero você.
Pela primeira vez em meses, ela sonhou. Não aqueles pensamentos ruins que as pessoas costumeiramente chamam de "pesadelos". Ela sonhou coisas boas. Sobre ele.
Acordou com o irritante toque de seu despertador, interrompendo o que poderia ser a mistura das lembranças e a vontade de tê-lo ao seu lado naquela cama de hotel.
A luz fraca já invadia a cortina que esquecerá aberta na noite anterior, e o quarto vazio e frio assombrava sua visão logo pela manhã. Ele não estava ali.
“Mel… e limão”
Checou suas mensagens apenas para afastar a ilusão de que teria lhe contatado. Mas nada. Nem sequer uma única resposta à mensagem que havia lhe enviado antes de dormir — que por sinal, sentia-se estúpida por isso — apenas para informar que estava tudo bem… fisicamente.
“Sabe onde me encontrar caso precise.”
Largou o telefone decepcionada.
As últimas horas haviam sido uma completa montanha russa de emoções. Na manhã anterior, tudo parecia tão bem… havia acordado com a crença de que finalmente acertariam as coisas entre eles. Estava pronta à isso.
Mas então… ele estava mentindo para, desde o momento em que chegou. Nunca confiou totalmente no que dissera. De alguma forma, Jane sentia-se traída por isso. Como não havia percebido antes?!
Estava atrasada demais para uma corrida matinal. Havia perdido as três primeiras tentativas de seu despertador, e agora precisava correr contra o tempo para chegar ao escritório antes dele. Não queria correr o risco de dividir o elevador novamente.
“Por que eu estou fazendo isso? Por que estou indo até lá? Posso simplesmente deixar que lidem com a bagunça que eles mesmos procuraram… isso não me pertence mais.”
Estava certa.
Agora que estava finalmente livre, não precisava mais fazer isso. Não precisava correr para o laboratório a cada nova pista encontrada por Patterson, vestir o colete a prova de balas sempre que fosse sair, e muito menos injetar substâncias desconhecidas em seu próprio corpo e sujeitar-se a se colocar em uma mala novamente. Poderia simplesmente escolher outro lugar e ir embora. Longe de Kurt, Nova Iorque, FBI, Nas, Keaton, Mentiras, Clem, Roman, Califórnia… longe de tudo.
Nada daquilo era mais sua obrigação. Haviam deixado de ser há meses.
Agora, debaixo daquele jato quente que saia do pequeno chuveiro, perguntava a si mesma:
“O que ainda faz aqui, Jane?”
…
— Bom dia.
O laboratório já estava movimentado quando finalmente chegou. Levou mais tempo do que esperava para conseguir sair daquele quarto. Por sorte, dos presentes apenas Patterson e Rich eram conhecidos. O resto do pessoal pareceu preferir ignorar sua saudação e continuar o trabalho.
— Bom dia! Achamos que não fosse vir hoje…
— Fiquei tentada à isso. Alguma novidade?
— Ainda não, estamos procurando algumas possíveis ligações com os lugares que você costumava frequentar na Califórnia. mas até agora é um beco sem saída. Tirando a cafeteria, Roman foi bem cuidadoso para não ser visto.
— Certo. – Olhando em volta, lembrou-se de ver a cortina de sua sala fechada quando passou pelo hall do escritório. Kurt não estava lá. — Cadê o Weller e o resto do time?
— Você não sabe? Kurt não virá hoje. Surgiu uma emergência no Colorado e ele precisou pegar o primeiro voo na madrugada. Zapata e Reade estão cuidando de outro caso.
Foi por isso que ele não lhe respondeu ontem a noite. Provavelmente sequer viu sua mensagem.
— Colorado? Está tudo bem com a Allie?
— Ele não nos disse. Achei que estivesse junto, aliás. Ele não te acordou quando saiu?
Sabia que não era sua intenção, mas a pergunta da Patterson lhe incomodou mais do que deveria. Como poderia esperar que estivessem juntos depois do que aconteceu?
De repente, perguntou-se se havia sido dura demais com ele.
— Não, eu… preferi ficar em um hotel. Já estava há tempo demais no apartamento dele.
— Ah… certo. – A loira pareceu notar seu desconforto, já que, após pigarrear a garganta, permaneceu em silêncio sem saber o que dizer.
Como sempre, Rich sabia exatamente o que fazer em situações constrangedoras. Bateu as mãos e as esfregou levemente, apoiando-as sobre a imensa tela às vezes utilizada como mesa. — Bom, já que está aqui e obviamente três cérebros pensam melhor do que dois, que tal nos ajudar com o trabalho?
Colorado.
Diferente de NY, o sol brilhava sobre o céu e o calor era insuportável quando o avião aterrissou pela manhã. Kurt sequer pregou os olhos durante as mais de 8 horas de viagem.
— Kurt? É o Conor. Houve um acidente, a Allie se desequilibriou e caiu da escada… estou levando ela para o hospital. Você precisa vir para cá agora.
Seu corpo havia entrado em um completo estado de choque de adrenalina desde aquela ligação. Não conseguia se lembrar de como chegou até ali. Apenas sabia que na correria, havia esquecido o carregador novamente.
Já estava virando hábito.
Com muito esforço conseguiu recordar o nome que o rapaz havia lhe informado, e após algumas voltas no aeroporto, finalmente estava dentro do táxi a caminho do hospital.
Entre um pensamento e outro, Kurt se perdia pensando nela.
Era estranho, mas por diversas vezes se imaginou percorrendo esse caminho com Jane ao seu lado. Acordar com aquela ligação e correr para comprar suas passagens. Sentir sua mão repousar sobre sua perna que balança incessantemente de nervoso, tentando acalmá-lo. Ver aquele sorriso esperançoso o lembrando de que tudo ocorreria bem...
Gostaria de tê-la ao seu lado naquele momento.
O pequeno retângulo preto em seu bolso parecia inútil agora. Pouco antes de descarregar, apenas o deu tempo de enviar uma mensagem à Patterson, se adiantando sobre a ausência que ocorreria no dia seguinte. Mas apenas isso. Não deu-lhe a chance de telefoná-la.
O pequeno tapa sobre o banco o fez despertar de que havia chegado em seu destino final. Pagou o motorista e saltou para fora carregando nada mais que sua carteira em mãos. Sequer havia lembrado se arrumar uma mochila. Estava realmente quente, e as roupas de inverno que havia trajado quando embarcou naquela noite fria agora pareciam prestes a sufocá-lo. Teve de segurar a jaqueta nos braços.
— Quantos minutos já se passaram?
— 3 minutos e 27 segundos.
A sirene das ambulâncias que entravam e saíam da plataforma de emergência o atordoaram ao se aproximar. Lembrou-se de quando dias atrás, carregou seu corpo pré-falecido para dentro de um daqueles veículos. Teve de respirar fundo para afastar tal recordação.
Não havia tempo para pensar nela agora.
Caminhou apressado até a recepção, se identificou e informou por quem procurava: Allison Knight. Aos 9 meses de gestação, deu entrada às 2:47am da madrugada anterior com sangramento e fortes dores após uma queda na escada de casa, e precisou ser levada às pressas para o centro cirúrgico. Acompanhada apenas do namorado.
Sentiu um nó se formar em sua garganta ao ouvir isso. Kurt havia planejado estar ao seu lado quando o momento chegasse, mas jamais havia imaginado que um imprevisto desse tipo iria acontecer.
Deveria, considerando todas as reviravoltas que sua vida dera nas últimas semanas…
— Weller!
A voz masculina o despertou de seu transe. Ao final do corredor avistou Conor caminhando em sua direção. A camisa clara com leves manchas de sangue e as olheiras em seus olhos indicavam o terror que deveria ter sido as últimas horas. Mas diante de tudo isso, o rapaz parecia carregar um leve sorriso no rosto.
— Vim o mais rápido que pude! O que aconteceu?
— Você conhece a Allie, ela consegue ser extremamente teimosa quando quer… estávamos nos preparando para dormir, eu me virei para fechar a janela da sala e ela insistiu que poderia subir as escadas sozinha, mas tropeçou quando chegou no 5° degrau. Só tive tempo de te ligar quando já estava no meio do caminho para cá.
Sentiu o peso daquelas palavras caírem sobre seus ombros. Mesmo com todo teor de cada uma delas, uma pontada cômica o fez rir mentalmente: ela era realmente teimosa.
— Como ela está?
— Ela está bem agora. As duas estão. Allie já está no quarto, me pediu para vir até aqui ver se já havia chegado. Tentamos te ligar para avisar que estava tudo bem e não precisava vir até aqui, mas caiu direto na caixa postal.
— Acabei esquecendo o carregador em casa, mas teria vindo de toda forma. Sinto muito não estar aqui para ajudá-lo.
O rapaz balançou a cabeça em sua direção, acenando para que o acompanhasse na caminhada. — Você está aqui agora, ela ficará feliz em vê-lo. Vem comigo.
O caminho entre o hall e o elevador pareceu mais longo do que imaginava para seus pés. Ou talvez, seus passos estivessem mais lentos do que o normal.
Precisou lavar as mãos duas vezes antes de seguir até o quarto, apenas para ter certeza de que estavam bem limpas. Conor riu.
— É esse aqui. – algumas batidas foram dadas à porta antes de abri-la, apenas para alertá-la de que tinham companhia. — Achei ele perdido na recepção.
Quarto 317. A mesma numeração do quarto em que dormira por dias esperando que ela acordasse…
— Feche a porta, ela acabou de dormir.
Ao contrário daquela gélida e mórbida acomodação de UTI, o quarto da vez tinha mais vida em suas cores. Tons claros e alguns desenhos enfeitavam suas paredes.
Nada de flores ou balões decorativos. Apenas uma bolsa sobre o sofá-cama padrão.
— Vou aproveitar que está aqui e buscar algumas coisas em casa. Cuide bem delas, Weller. – a voz do rapaz soou ao fundo antes de deixar um beijo sobre o topo da cabeça da mulher. Kurt sorriu internamente com a cena; era bom saber que Allie estava bem acompanhada.
A porta do quarto se fechou segundos depois, e ele se aproximou receoso. O pequeno berço ao lado da cama batia na altura de sua cintura, permitindo que tivesse uma perfeita visão do que estava em seu interior.
O pequeno embrulho branco protegido pelas laterais de vidro se mexia minimamente. Apenas o suficiente para avisar que havia vida ali dentro.
O rostinho redondo e rosado era a única coisa visível meio àquele amotoado de tecidos, que para ele, pareciam sufocantes.
Era sua filha ali.
— Você pode segurar ela...
— Posso?
Ela riu. Kurt estava petrificado, sequer parecia respirar. Allie teve de se esforçar para estender o braço e puxa-lo até a beirada da cama, ajeitando o frágil bebê em seus braços. Ele não se mexeu. Temia que qualquer movimentação fosse acordar o pequeno ser em seus braços. — Ela é…
— Linda?!
Não. Era mais do que isso. A pele levemente corada e pintadinha como a dele, os pequenos e ralos fios loiros escapando pela touca, e o nariz pequenino e redondinho como o dela. Ela era perfeita. Jamais seria capaz de mensurar sua gratidão e felicidade em palavras.
Ousou envolver o indicador próximo a pequena mãozinha, e não soube explicar a sensação que lhe tomou quando sentiu seus dedinhos o agarrarem. Um aperto forte, que se seguiu de um murmuro mal humorado da bebê ainda sonolenta.
— Então… você vai me contar o que está acontecendo ou eu terei de perguntar? – Allie o despertou de seu transe, recebendo um olhar confuso de volta. Estava tão distraído que havia se esquecido de sua presença no quarto. — Não adianta me olhar com essa cara. Eu te conheço, Kurt. Tem alguma coisa acontecendo.
“Sempre achei que seria um ótimo pai.”
“Obrigada. Eu queria ter essa confiança.”
“Não pode ser tão difícil.”
Como se um gatilho houvesse disparado dentro de si, lá estava Jane em seus pensamentos. Era loucura, mas tudo parecia o levar para ela.
— Jane está de volta.
Mesmo contra vontade, ele lhe contou toda história. Desde o ataque à sua casa na Califórnia, até a noite anterior quando se recusou a ir para casa com ele. Não precisava se esconder para Allie. Ela fora uma das únicas pessoas que o apoiou quando estava decidido a procurar por ela, e até mesmo o ajudou quando pudera. Era mais do que a mãe de sua filha. Era sua amiga.
— Isso é muita coisa para processar… Jane deve estar se sentindo atolada. Eu estaria.
— E está. Desde que chegou ela não para um segundo.
— O que aconteceu entre vocês? Eu me lembro dos olhares e das conversas silenciosas que tinham… pareciam certos um para o outro. O que mudou de lá para cá?
— Ela se foi, Allie. E agora que está de volta, eu não sei como fazer isso. Ser o homem que ela precisa…
— Kurt, para. — Ela mantinha suas palavras em um tom baixo, ninando a filha em seu colo. – Jane já é uma mulher crescida e muito bem capaz de se virar sozinha, ela não precisa que você seja “o homem”. Apenas que seja "a pessoa". A pessoa que estará lá para ela. Sem mentiras, desconfianças ou impedimentos. Ela precisa de algo real agora, porque tudo que a Jane tem vivido desde que saiu daquela mala tem sido uma mentira. E pelo pouco que eu presenciei, sei que você é mais do que capaz disso. Olha, nos conhecemos há anos, não só estivemos juntos como nos vimos com outras pessoas. Você mudou depois que essa mulher entrou na sua vida. E para melhor. Olhe só para você, voou para o outro lado do país no meio da madrugada apenas para estar aqui conosco. O antigo Kurt Weller que eu conhecia teria esperado até alguma notícia concreta para sequer pensar em pegar um avião, e eu sei que parte disso tem reflexos por causa dela porque você fez o mesmo dias atrás quando ela precisou. Ela te fez mais sensível… humano. Ela mudou você, para o melhor.
“Você a reconhece?”
“Não… eu nunca vi essa mulher em toda minha vida.”
“Então por que seu nome está tatuado nas costas dela?”
— Ela é o meu ponto cego, Allie.
As palavras saíram involuntariamente de sua boca. Ele admitiu para si mesmo algo que sempre soube. Desde o exato momento em que a viu naquela ala hospital sem a mínima ideia de quem era e o que queria, rodeada por pessoas desconhecidas que despiam suas costas revelando o imenso quebra cabeças com seu nome entitulado sobre suas costas; ele soube.
— E você é o dela.
Mel… e limão.
Assim como horas atrás, a mensagem continuava lhe julgando sobre a tela do celular. Sem resposta.
As paredes brancas e frias daquela sala se contrastavam com a mobília mórbida, porém extremamente acolhedora. Estava no antigo consultório do Dr. Borden. Seu lugar preferido desde sempre para se esconder dos problemas.
Sim, estava se escondendo. A simples possibilidade de sentir seu mundo desmoronar novamente a assustava, e ali, sentia como se fosse capaz de que, mesmo por alguns minutos, estar no controle de suas emoções.
— Colorado…
Engano seu.
Sua mente navegou de volta para aquele apartamento, ou, mais especificamente, para o sexo avassalador que fizeram naquela noite. Aqueles arranhões e tapas que os fizeram entender de um modo longínquamente sadomasoquista como a dor física e o prazer podem sim se misturar e transformar-se em algo extremamente agradável. Sua pele ainda ardia em certos pontos, a fazendo fechar os olhos e se recordar de cada uma das sensações que sua língua e mãos à proporcionaram em atos que jamais dirá em voz alta.
Era incrível como a maré sempre parecia os jogar em direções contrárias…
— Hey, Jane!
Estava tão distraída com seus pensamentos, sequer havia quando a porta se abriu e o rapaz entrou calado, a observando. Levou um susto.
— Jesus, Rich! Oi…
— Desculpe interromper seu momento reflexivo, achei que fosse te encontrar por aqui. Não que eu estivesse te espionando para saber onde estaria ou nada do tipo, até porque para que eu faria isso, mas… é, okay, talvez eu estivesse; mas enfim, achei que pudesse estar com fome.
Com um sorriso amigável no rosto, tirou uma das mãos que estava escondida atrás de suas costas e se aproximou, lhe entregando uma caixa de rosquinhas com um copo de café em cima. Seu estômago roncou, e imediatamente se ajeitou sobre a poltrona cinzenta e o recebeu com agrado.
— Obrigada, não precisava se preocupar...
Ele apenas acenou em contrário, vagando os olhos sobre o tapete também monótono que dava uma mínima vida ao ambiente. — Alguma notícia do Kurt?
— Não, mas tenho certeza de que está tudo bem. Saberíamos se não estivesse.
— Certo… e como você está? Digo, com tudo que tem acontecido… como você está lidando?
— Bem. Eu estou bem.
Mas ele não convenceu-se de sua resposta. Quando ela notou, o rapaz já havia se sentado na cadeira à sua frente, com as pernas cruzadas e a postura ereta. Quem passasse do lado de fora e não os conhecesse, pensaria tratar-se de mais uma sessão terapêutica como qualquer outra.
— Jane, eu sei que não somos exatamente próximos, e eu talvez, mas só talvez, tenha me insinuado uma ou duas vezes, todas obviamente brincadeiras com um pouco de verdade… foco Rich. O que estou querendo dizer, é que você pode conversar comigo.
Jane suspirou ao dar a primeira mordida no pequeno bolo doce em suas mãos, refletindo sobre sua própria resposta. Ambos sabiam que estava mentindo.
— Eu não… sei bem como me sentir. Parece que estou presa dentro daquela mala novamente, sem controle algum do que acontece em minha volta. Às vezes fico me perguntando se o melhor a se fazer é deixar tudo isso para trás e…
— Você está pensando em ir embora? — sua interrupção pareceu surpresa, assim como seu olhar. — De volta para Califórnia?
— Isso tudo parece loucura, não?!
— Bom, se pararmos para pensar, ficar também parece uma grande loucura… é tudo uma questão de perspectiva.
Perspectiva. Exatamente a palavra que usaria para entender a confusão que se formava em sua mente. É tudo uma questão de perspectiva...
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro, eu sou um livro aberto. E já deixo avisado que algumas páginas são mais picantes do que as outras.
— Certo… você já sentiu como se tudo que tivesse vivido fosse uma mentira?
— Oh eu sei exatamente o que é se sentir assim. Sabe, teve aquela uma vez em que… — ele parou de falar quando notou as lágrimas se formando em seus olhos. Sentiu um nó se formar em sua garganta. Jane estava a um fio de desmoronar em sua frente. — Deixa pra lá, você estava dizendo…? O que parece mentira para você?
— Tudo. Minha vida no FBI era uma mentira, e eu achei que indo embora para Califórnia e ficando longe de tudo isso conseguiria mudar esse tormento, talvez construir algo real… mas agora, sinto que todos aqueles meses não passaram de outra farsa, talvez muito pior do que a anterior. Eu nunca fui Olívia Dawson, e agora, me sinto como uma estranha, sequer capaz de ser Jane Doe novamente. Tudo não passa de uma mentira. Eu sou uma fraude.
Ela rapidamente secou a lágrima insistente que se derramou pelo canto de seu rosto. As mãos segurando firmemente o copo de café que aos poucos se esfriava, enquanto os olhos sequer eram capazes de olhar em qualquer outra direção se não para a pequena poça escura que se formou sobre a tampa de sua bebida, decorrente de algumas gotas que escaparam de seu gole anterior.
— Jane, você não é uma fraude. E aliás, para esclarecimentos, acho que Jane Doe é um nome muito melhor do que Olívia. É misterioso, único… como você é. Eu sei que tudo parece uma grande mentira, e talvez até seja… mas tem algo verdadeiro em tudo isso. Sabe, quando eu cheguei aqui esse time parecia um grande... quebra cabeça desmontado, peças aqui, ali… e quando reagrupados, era notório a falta de uma peça principal, bem no meio. Eu tentei ser essa peça, claro, mas acontece que eu sou grande e brilhoso demais para isso. – brincou, arrancando-lhe um riso fraco e abafado. — Mas mesmo com todas as circunstâncias que vieram junto, desde que você chegou, o jogo finalmente ficou completo. Você era a peça que faltava. No dia em que Weller recebeu aquela ligação sobre o seu ataque, eu achei que estivesse sonhando acordado. Toda agitação, ansiedade, euforia… eu nunca tinha os visto daquele jeito, e olha que estou aqui há meses. E era tudo por você. Nenhum deles hesitou em entrar naquele avião para ir te ajudar, e até eu estava pronto para me juntar a eles e todos sabemos que isso não daria certo já que o FBI jamais me daria uma arma, então eu provavelmente seria morto… Confesso que fiquei aliviado quando a Hirst mandou que eu e a Patt ficassem os para ajudar… mas enfim, o que eu estou tentando dizer é que se tem algo de mais puro e verdadeiro na sua vida, são essas pessoas e seus sentimentos por você, Jane.
Seus olhos se levantaram em sua direção. Estava surpresa… não esperava por aquilo. Sequer imaginou que Rich fosse capaz de tamanha sensibilidade.
— Você acha?
— Tenho certeza. E eu não sei exatamente o que aconteceu entre você e o Kurt… — Ele levou uma de suas mãos até o pescoço de forma brincalhona, gesticulando com o olhar. Ela corou imediatamente. Nem mesmo todas aquelas tatuagens foram suficientes para disfarçar e esconder as marcas que ele havia deixado sobre sua pele naquela noite. — Mas de uma coisa tenho certeza e sei que você também: Não foi uma mentira. Então se estiver pensando em ir embora, acho que deveria considerar do que estará abrindo mão… muitas pessoas não recebem uma segunda chance. Eu tive a minha aqui, e você também teve a sua com todo esse lance de zip… e bom, agora considere que está tendo uma segunda chance da segunda chance.
“Perspectivas…”
— Agora se me der licença, infelizmente "sessões terapêuticas para amigos" não se enquadra como "atividade reabilitadora" no meu acordo com o FBI, então… vou voltar ao trabalho.
Do mesmo jeito imperceptível que entrara, ele saiu. A caixa de rosquinhas parecia encara-la sobre a mesa, fazendo seu estômago que antes roncava de fome, agora revirar de enjoo. Quando teve forças para respondê-lo, Rich já havia deixado a sala há minutos. — Estou logo atrás de você…
Mesmo sabendo que ele estava malditamente certo sobre o que disse, não conseguia convencer a si mesma sobre o que era certo a se fazer.
Nenhum deles hesitou… e esse era seu maior medo.
Quando optou por ir embora pela primeira vez, não estava apenas se guiando pela vontade de um recomeço. Estava pensando na segurança deles. Sim, haviam escolhido arriscar suas vidas diariamente quando decidiram suas profissões; mas não imaginaram que algo como ela entraria em seus caminhos. Agora, não se arriscavam apenas por si. Se arriscavam por ela.
— Eu estava com tanto medo. Quando vi que não estava respirando e o antídoto parecia não funcionar… eu achei que tivesse te perdido.
Ele se arriscava por ela.
A memória de seu corpo caído aos seus braços meses atrás quando disse que lhe amava, se misturava com a recente lembrança de alguns dias quando a situação se repetiu no chão de seu apartamento. Ele estava mesmo disposto a morrer por ela?!
“Você é meu ponto de partida, Kurt.”
Não aguentava o fardo daquela resposta.
Sequer era capaz de imaginar como seria se aquela afirmativa se concretizasse. Não gostaria de viver em uma realidade onde ele se sacrificaria por ela. Não poderia...
Ele era seu ponto cego.
Como um alarme soando em meio ao deserto, o vibrar de seu celular a fez dar um pequeno salto de volta a realidade. Uma nova mensagem havia chegado.
Seu coração saltou ao peito. “Por favor, seja ele…”
Clem.
“Precisamos conversar. Podemos nos encontrar?”
O nome que surgiu sobre a tela lhe arrancou um suspiro frustrado. Não estava com cabeça para ele no momento. Pensou em ignorá-lo por hora, mas algo em seu interior a alertou sobre as possíveis respostas que o encontro traria. Teria a oportunidade de olhar em seus olhos e responder às dúvidas que haviam levantado à ela.
“Estarei pronta em 20min”, ela enviou, recebendo um endereço como resposta. Para sua surpresa, era o endereço do aeroporto.
“Meu vôo sai em 40min.”
Corra.
Pontualmente, cumpriu com o prometido. Alguns depois estava cruzando o imenso hall repleto de passageiros, indo em direção a cafeteria ao leste do lugar, como havia lhe dito. O homem estava sentado a observando de longe, com uma xícara praticamente vazia a sua frente, e uma mochila preta ao seu lado.
— E aqui estamos… uma cafeteria barata, assim como tudo começou.
Algo lhe dizia que ele estava ali há muito mais tempo do que imaginava.
— Por que isso me soa como uma despedida? – Ela sorriu, sentando-se ao lugar vazio à sua frente. Sua expressão era calma, brincalhona… quase a distraindo de seu olhar cabisbaixo. Algo estava errado com ele. — Você está indo embora?!
— Nada passa despercebido dos seus olhos.
— California?
— Inicialmente, sim. Mas não vejo muitos motivos para continuar vivendo por lá… você sabe, com o meu trabalho, manter-se em um lugar só por muito tempo é levantar brechas ao perigo.
— Acredite, eu sei.
“Vocês acham que o Clem esteve ajudando o Roman esse tempo todo?”
— Olívia, digo... — Ele riu, negando com um aceno. — Jane. Ainda é um pouco estranho para mim te chamar assim.
— Tudo bem, me chame pelo que preferir.
— Certo. Liv, eu estive pensando, desde que você apareceu na minha vida, não consigo parar de planejar desculpas para ter você do meu lado. As aulas de luta, as corridas matinais mesmo naquele calor insuportável, a desculpa de que meu parceiro estava doente… eu atravessei o país só pra te ver, e faria isso quanta vezes fossem necessárias só para poder compartilhar esse café com você novamente...
Ela se mantinha em silêncio ouvindo suas palavras.
— … você se tornou importante pra mim desde o momento em que te conheci. Eu não sei o que aconteceu quando você vivia aqui, mas eu sei que tudo o que aconteceu lá na Califórnia foi crucial pra mim. E eu não poderia ir embora sem dizer que eu espero, e desejo, que mais momentos como os que tivemos por lá se repitam. A vida era sem graça sem você por lá, e eu não quero mais isso. Eu quero mais com você. Mais S&R, mais corridas pelo parque, mais cafés durante os seus intervalos… mais de nós.
Um nó se formou em sua garganta enquanto o ouvia. — Clem… você não me conhece.
— Você está errada. Cheguei a pensar que realmente não a conhecia. Mas olhando pra você agora eu nunca tive tanta certeza na vida. Você é Olívia Dawson, minha Olívia, não importa por quais outros nomes te chamem. Você não é uma agente do FBI, isso não pertence a você, sabe disso tanto quanto eu. Já deve ter percebido que aqui não é o seu lugar.
— E onde seria o meu lugar? Na Califórnia, com você?
— Onde você quiser que seja… e se puder, comigo.
A voz feminina ecoou por seus ouvidos anunciando o fechamento dos portões de embarque em poucos minutos, e um alívio jogou-se sobre seus ombros. Sentia-se incapaz de manter contato visual naquela conversa. Estava exposta e desconfortável ali, sentindo cada uma de suas palavras atingirem seu estômago vazio a golpeando sem dó ou piedade.
Não havia mais tempo para nenhuma palavra sequer, e ela nem chegou a tocar a xícara de café que havia sido posta à sua frente minutos atrás. Queria correr para longe dali o mais rápido que pudesse. Mas seus pés se moveram em direção contrária à saída. Eles se moviam sobre setor de embarque.
— Você tem certeza sobre o que está fazendo?
— Tenho. É melhor desse jeito. Ninguém mais se machucaram por minha causa.
— Eu não teria tanta certeza disso, Jane.
Sua mente a levou para quando fizera aquele mesmo trajeto, meses atrás… com Keaton ao seu lado. A mesma fita amarela sobre o chão que os separava daquela vez, fora a mesma que limitou seu caminho agora. Era o seu limiteentre ir em frente, ou voltar para aquilo que mais temia e desejava.
— Espero que isso não seja um adeus. Você merece mais do que essa cidade tem para te oferecer. — pode ouvir sua fala quando o abraçou, encarando o vazio por cima de seus ombros. Não lhe disse mais nada. Sua mente cruzava um paralelo entre passado e presente, e tudo que conseguia fazer era sentir-se enojada, suja; Estava ali em seus braços, mas a única coisa que se passava em sua mente era ele, assim como meses atrás quando vivenciara a mesma situação, o mesmo abraço, mas com pessoas diferentes.
Era nos braços dele que ela queria estar.
Sentir seus membros envolverem sua cintura em um abraço apertado e aconchegante; Dar leves tapas em seus ombros em meio às risos quando roçasse sua barba por-fazer em seu pescoço, como sempre fizera. Daria o mundo para estar com ele.
— Faça uma boa viagem. – Se esforçou para um sorriso mínimo, desvencilhando-se de seus braços da melhor forma possível sem querer parecer rude.
— Pense no que conversamos, tudo bem? – Ele notou sua distância, mas não comentou sobre isso, já que sequer teve tempo. Estava na hora de partir. — Estarei esperando por você na Califórnia, Liv.
…
— Está ficando tarde, você precisa descansar e eu preciso ir… infelizmente, licença paternidade não se aplica ao diretor assistente do FBI.
O casaco que antes estava jogado sobre o sofá, agora caia sobre seus ombros. Rapidamente o dia havia se tornado noite, e sequer havia notado a mudança de iluminação. Kurt passou as últimas horas sem sair daquele quarto, revezando-se entre uma conversa e outra para segurar a filha em seus braços. Agora, a pequena dormia tranquilamente de volta no berço, agarrada no pequeno urso que havia lhe dado, desde o primeiro momento que o sentira.
— Mesmo que esse fosse o caso, você tem coisas para resolver. E algo me diz que seu tempo está cada vez mais curto, Kurt.
— Eu não sei o que fazer.
— Mas irá. Quando olhá-la diretamente nos olhos, saberá o que fazer.
— Obrigada, Allie. Por tudo.
Afagou suas costas durante o abraço. Estava feliz de ter a oportunidade de ajudá-lo sobre algo que há diversos meses já estava mais do que claro para ela, desde que decidira dar um fim àquele relacionamento que mantinham: ele ama Jane. Todos sabiam disso.
— Não há de quê. E na próxima vez que vier nos visitar, espero que traga a Jane junto. É uma ordem, Kurt Weller.
Ele riu em resposta, deixando um beijo em sua testa. Com cuidado, curvou o corpo sobre o pequeno móvel ao seu lado, e fez o mesmo com a recém nascida. A pele macia e quente contra seus lábios o fez sorrir, imaginando o quão bom seria se acostumar com aquela sensação. — Nos vemos em breve… Bethany.
COLORADO > INDIANA > NOVA IORQUE
Sem que percebesse, aquilo o encheu de esperanças. Esperanças de que no final, as coisas se acertariam. Esperanças de que em um dia muito próximo, quando velejasse por esse caminho novamente, a teria ao seu lado. Com isso em mente, a carteira em mãos e a jaqueta — que exalava seu perfume adocicado o fazendo relembrar que horas atrás ela havia a vestido — sobre os ombros, pegou o primeiro avião de volta para casa. Não aguentaria ficar um segundo sequer longe dela, correndo o risco de que cada segundo a mais fizesse toda diferença. Queria tomá-la em seus braços e descobrir um jeito de resolverem seus problemas.
Juntos.
Do outro lado do país, ela encarava o telefone em suas mãos. O cursor acendendo e apagando incessantemente, a espera de que novas palavras fossem acrescentadas a tela. Mas não havia nada mais a se dizer.
Depois de horas refletindo, chegou à um veredicto final. Estava decidida.
O polegar fez um esforço maior do que imaginava para pressionar o botão de enviar, e antes que pudesse mudar de idéia, já era tarde. A mensagem havia se juntado à anterior, que até agora, permanecia sem resposta.
Quando deixou o eletrônico de lado e se permitiu fraquejar às lágrimas, a chuva caía violentamente do lado de fora, e o vento a jogava contra a janela daquele quarto de hotel fazendo um forte barulho enquanto as memórias invadiam sua mente, despejando todo seu peso sobre suas costas.
Não conseguiria dormir nessa noite.
“Eu estou indo embora. Não sei se estará aqui a tempo, mas eu só queria dizer adeus. E obrigada, Kurt…
... sentirei sua falta.”
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