What if?
2 Way down we go
Notas iniciais
— Visual maneiro, perneta! – Foi o que ouviu ao deixar o elevador. As palmas soaram aos fundos enquanto Reade recebia o amigo em seus braços, lhe dando as boas vindas. – Bom trabalho.
— Estávamos muito preocupados com você. — Dessa vez, Patterson quem o acolheu em um abraço. Era bom estar de volta após toda a confusão das horas anteriores.
— Não tão preocupados assim. – Ele riu. Mesmo machucada e com a corda no pescoço, Zapata não poderia perder a oportunidade do comentário.
As coisas pareciam finalmente estar caminhando de volta ao normal.
— É bom vê-los pessoal. Todos vocês... — Rondando os olhos sobre as pessoas presentes no escritório em ruínas, notou sua ausência. Já haviam se passado 24 horas desde a queda de Sandstorm, e todos os sobreviventes daquele ataque estavam de volta. “Todos menos ela”. Um nó se formou em sua garganta e infinitas possibilidades se formaram em sua mente para justificar sua ausência. Pelo pouco que se recorda, ela estava bem quando o levaram para ambulância. Alguns arranhões, mas nada sério.
“Nada sério... então por que ela não está aqui?”
— Cadê a Jane?
6 meses depois
Momentos.
Algumas pessoas acreditam que uma vez na vida, todos nós passamos por algum tipo de "momento divino". Aquele momento em que o ar falha em nossos pulmões, o coração erra uma batida, e o planeta fica fora de órbita. Todas as nossas escolhas parecem ter nos levado até ali.
Dar a luz e ter o prestígio de segurar seu filho nos braços pela primeira vez; Tomar um gole de café observando o sol se pôr ao fim da tarde; Abrir os olhos pela manhã e se deparar com aquele a quem ama; Assinar aquele contrato tão esperado. São diversas possibilidades, cada uma delas única e especial.
Eventos que ficarão marcadas em nossas memórias e influenciarão nossas decisões mais incertas.
Aquele momento.
Para Kurt, aquele momento foi há meses atrás, quando ela se foi.
Lembrava-se vividamente da euforia em seu peito ao esperar por ela em seu apartamento, a ansiedade por imaginar o rumo que as coisas tomariam após sua iniciativa; e a seguinte angústia e frustração decorrentes das horas, dias, semanas e meses que vieram e ela não se fez presente.
Jane havia ido embora. Assim, sem se preocupar em dizer adeus.
No começo ele procurou por informações. Keaton, Hirst, até mesmo Nas e Allie. Nenhum deles souberam lhe explicar sua decisão repentina.
Tentou ligar, mas o número estava fora de área. Tentou procurar em seus lugares preferidos, porém não havia nenhum sinal que indicasse seu paradeiro. Sua mente em determinado momento de desespero chegou a pensar em recorrer à Shepherd, mas seu juízo o colocou de volta ao lugar. Precisava aceitar.
Ela apenas… se foi.
— Weller? Tem uma ligação na espera. — Seus pensamentos foram interrompidos pela abertura brusca da porta, revelando a feição preocupada de Patterson. — Parecia ser urgente, achei melhor transferir pra cá.
Hoje, exatos 6 meses desde sua partida, já havia perdido as esperanças. Estava claro e óbvio que ela não queria contato. Se quisesse, teria ligado, ou dado um de seus jeitos ousados de se mostrar ali. Mas não. Estava ciente agora.
— Aqui é o diretor-assistente Kurt Weller falando. — Deu-lhe um pequeno aceno com o olhar indicando para que fechasse a porta, e ela o fez, mas não se retirou do ambiente. Mantendo o tablet em mãos e ouvidos atentos, se silenciou para a conversa. Dentre as diversas mudanças no time desde sua partida, essa era a mais notória. Sempre que podiam, os amigos se faziam presentes para Kurt, evitando deixá-lo sozinho quando não era extremamente necessário. Sabiam o quão difícil havia sido para ele se abrir e se permitir a determinados sentimentos, e temiam por seu afastamento e isolamento do time.
— Diretor-assistente Orlando White, FBI da Califórnia.
Califórnia.
Imediatamente, seu coração pulou uma batida e suas pupilas dilataram. “É só uma coincidência.”
— Em que posso ajudar? — Engolindo seco e notando a mudança comportamental da loira a sua frente, tentou manter o foco enquanto sua mente vagava pelos diversos rumos indesejáveis que essa conversa poderia tomar, torcendo para o contrário.
“Patterson me contou que está pensando em ir embora… devia ir para um lugar divertido.”
“Acha que eu devia ir?”
“Você não escolheu essa vida, Jane. Esse time irá sentir sua falta, mas não é justo mantê-la aqui.”
“Ouvi dizer que a Califórnia é bem legal.”
Foco.
— Serei direto. Temos razões para acreditar um grupo mercenário está estabelecendo base em nosso território. Eles já são conhecidos pela darkweb, e se estão por aqui, coisas boas não virão pela frente.
— Certo…. — Como de costume, coçou a nuca impacientemente. — Mas o que isso tem haver com a o escritório de em Nova York? Tráfico internacional? Terrorismo? Ataque ao nosso território?
— Eles estão aqui atrás de uma pessoa: Olívia Dawson. Precisamos que venham buscá-la. Temos informações internas suficientes para crer que essa mulher seja alvo de uma grande organização assassina que irá atacar em breve.
— Olivia Dawson? — Confusa, Patterson se aproximou do telefone, já procurando por informações na base de dados da inteligência. Nenhum dos dois via sentido naquela ligação.
— Sem querer parecer grosseiro, mas novamente, o que isso tem haver conosco? Tenho certeza que sua base juntamente a polícia local tem recursos e homens suficientes para lidar com a situação. Se essa mulher está em perigo, não vejo resistência quanto a sua tentativa de proteção, ent…
— Deixe-me ser mais claro, Diretor-assistente Weller. Jane Doe está em perigo.
E novamente, aquele momento.
O universo tende a lhe pregar uma peça, Kurt estava ciente disso.
Desde aquela mala abandonada no meio de uma multidão, ele entendeu isso. Sua rotina se tornou um caos ainda maior após esse dia. Terroristas, mercenários, pedófilos, traficantes internacionais… tudo estava incluso no pacote que arduamente lhe foi entregue com seu nome tatuado como lembrete diário do fardo que agora era parte de sua vida.
"Fardo que se foi há 6 meses.” pensou para si.
Antes que pudesse perceber, já estavam pousando o helicóptero ao oeste. "Califórnia". A correria foi grande após a tão aguardada menção de seu nome. Ligações foram feitas e decisões precisavam ser tomadas. "Ela está em perigo, e sozinha."
Uma página ativa e irrastreável na darweb estava pagando um preço alto por sua cabeça. Aparentemente, derrubar uma das maiores organizações terroristas do mundo acarretava em uma série de inimigos bem poderosos. Ao menos era disso que Kurt se lembrava; sua mente se perdeu diversas vezes durante as últimas horas.
Tentando manter o foco, ditou as coordenadas e ordens devidas, dignas de um chefe. — Iremos nos dividir. Parte do time irá até o local de trabalho, outra seguirá comigo até a residência da Jane… Olívia. — Um nó se formou em sua garganta e desceu à seu estômago pela fala.
“Finalmente te achei.”
Mas ele não foi o único.
Divididos, seguiram rumos diferentes. Segundo informações, Olívia estaria em casa se arrumando para as aulas. Weller, Zapata, Reade e surpreendente Keaton — que apareceu no último minuto — se juntaram a Orlando e o time local para a missão, enquanto Patterson e Rich os acompanhavam aflitos pelo comunicador direto de NY.
Sim, Rich Dotcom. Famoso hacker da darkweb que nos últimos meses vem ajudando o FBI em alguns casos em troca de sua liberdade, acordo do qual ele vividamente apelidou de "Protocolo Jane Doe". Ironicamente ou não, o ex criminoso mantinha um carinho especial pela ex agente. “Coisa de ex” ele dizia.
O plano era simples: chegar, se apresentar e levá-la em segurança. Simples, rápido e fácil.
“Fácil até demais para um plano Jane Doe…” sua mente o alertava. Algo estava errado e seus instintos o diziam isso.
Atento a qualquer anomalia pelo caminho, Kurt não pode deixar de pensar o que a levou a este lugar. O clima era agradável, admitia. Era agitado, mas não tanto quanto NYC. O sol era forte lá fora e o céu mais limpo do que seus olhos estavam acostumados. Realmente, estava certa em dizer que este parecia um lugar legal de se viver. Por instantes, tentou imaginar como seria sua vida aqui… sem ele. Keaton lhe disse que ela dava aulas para a comunidade e fazia alguns trabalhos voluntários. “Sempre dando um jeito de se meter na vida alheia”. Sorriu com o pensamento, e por breves segundo, se esqueceu de tudo a seu redor.
“Você tem o direito de ser feliz.”
“Nós dois temos.”
Mentiras.
Aquele telefonema pela manhã foi sua dúvida de que o universo concordava com isso, e o que veio a seguir só lhe comprovou sua tese.
Uma explosão.
Algumas vozes soavam alto pelo rádio comunicador, atordoando seu raciocínio. Estavam a poucas quadras do local indicado, mas com a ajuda de Patterson, tiveram acesso às câmeras de segurança próximas.
Fogo. Gritos.
— Eles chegaram lá primeiro! Todas as unidades, redirecionem suas rotas para o outro endereço, temos civis e atiradores no local. Repito: temos civis atiradores no local!
Em outra realidade, Kurt poderia jurar que todos ali ouviriam a forma como seu coração estava a ponto de explodir dentro do peito. Sua respiração estava alterada e seus músculos cada vez mais tensionados a medida que o trajeto se tornava cada vez menor. Com colete sobre o corpo e a arma em punhos, estava pronto para pular para fora o veículo e agir assim que chegasse o momento. Reade, Zapata, Keaton e o resto do time o daria cobertura, tinha convicção disso.
— Ahm pessoal, temos um problema. — A voz de Rich soou como um alerta em seus ouvidos, e todos congelaram por instantes enquanto Patterson continuava o diálogo.
— Jane não está dentro da casa. Eu chequei as imagens de segurança e ela saiu mais cedo mas não retornou ainda. Telefonei para o local de trabalho mas ela não tinha aulas pela manhã. Estou tentando uma localização mas temos que pensar na possibilidade de terem a levado.
“Jane… não vá para Califórnia. Fique aqui, comigo. Eu te amo, Jane. Eu te amo”
Quando seu cérebro processou a informação, já era tarde para questionamentos. A van do FBI estacionou no começo da rua e todos desceram, prontos para o ataque. A situação era cada vez mais delicada. Civis corriam pelas ruas buscando proteção, assustados com as chamas que rapidamente tomavam conta do imóvel. O cheiro químico era forte no local, o que explicaria a quantidade de chamas desproporcional para o tão curto espaço de tempo. Kurt imediatamente designou parte dos agentes para o auxílio, e não perdeu tempo. Foi direto para a fogueira. — Reade, Tasha, me deem cobertura e mantenham olhos abertos. Keaton, fique com Orlando.
Antes que qualquer um pudesse obedecer às instruções, eles ouviram.
Tiros.
Um, dois, três e o quarto, seguido de um grito.
— Jane… — Olhando em volta atordoado por não reconhecer a direção dos sons, Weller engoliu seco imaginando e temendo pelo pio. — Jane!
— Kurt?
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