What changed your mind
9 Under a tree
Notas iniciais
Dentro da barraca, a primeira coisa que se notava era um pequeno corpo imóvel e pálido deitado com a face contra o chão. Uma poça de sangue formava-se ao redor da cabeça e havia uma faca cravada na têmpora direita.
Era Kevin. O pequeno menino não era mais ele mesmo quando teve seu crânio perfurado. Havia se transformado numa daquelas criaturas sedentas, insaciáveis, como denunciavam seus olhos ainda abertos. Ao seu lado, estava sua mãe.
Susan permanecia imóvel. Olhava para o menino sem nenhuma expressão especial, embora tivesse seus olhos arregalados. O que chamava a atenção na mulher, porém, não era a passividade com que agia sobre o ocorrido; era a pequena marca de arcada dentária em seu braço.
Beth e Daryl, os primeiros a chegarem ali, olhavam incrédulos para a cena. Alguns outros correram para ver o que ocorria e se acumularam atrás deles.
Beth levou as mãos à boca, contendo um soluço assustado.
– Susan...
Pela primeira vez, a mulher ergueu a vista. Atônita, olhou para Beth.
– Ele foi arranhado. Ele foi arranhado e não me disse.
Beth arriscou-se dando dois passos curtos dentro da pequena barraca.
Era verdade. O menino tinha um corte perto da nuca, que, possivelmente, só fora percebido quando Susan lutava contra ele em seu ataque. A camisa fora rasgada. Devia ter sido arranhado enquanto Beth e seu grupo fugiam do hospital, seguidos por dezenas e mais dezenas de errantes ansiosos por carne humana.
– Susan... Eu... Sinto muito.
Daryl, parado na entrada, olhava para a mulher. As pessoas do acampamento que se acumularam atrás dele perguntavam o que estava acontecendo.
– Ele não me disse – Susan repetiu. – Ele não me disse que estava arranhado.
E então olhou para o próprio braço, pelo qual o sangue escorria. Beth acompanhou seu olhar.
– Nós podemos... Podemos... – Beth tentou.
– Não quero cortar meu braço, Beth – Susan falou, parecendo calma.
– Você tem certeza? – Beth tentou de novo. – Você sabe, dá tempo de...
– Beth. – Susan a lançou um olhar duro. Não chorava, não parecia mais assustada, pelo contrário: mantinha a completa calma. Até mesmo adotara uma expressão pacífica no rosto. – Não quero. Se aconteceu assim, era para acontecer.
– Mas, Susan...
– Não. Está tudo bem. Não vou ficar aqui sem meu filho. Não vou ficar aqui, de toda forma. Eu viraria um deles.
Beth engoliu em seco. As lágrimas começavam a cair de seus olhos, incrédulas, incontroláveis. Ela buscou a ajuda de Daryl numa troca de olhares, e o rapaz assentiu, como se tentasse passar confiança para ela.
– Tudo bem, Susan – respondeu Beth, finalmente, limpando as lágrimas de maneira discreta e ajoelhando-se ao lado da mulher. – O que você quer fazer?
– Tire meu sofrimento – disse Susan. – Só... Acerte minha cabeça.
Fez menção à pistola presa no cinto de Beth. A loira não precisou olhar para baixo para saber a que Susan se referia. Com a ponta dos dedos, tocou a arma; embora o metal estivesse gelado, parecia fogo ao seu tato, já que ela sabia o que precisaria ser feito com aquele objeto.
– Tudo bem. – Beth tentou ser firme, ainda que guardasse certo tremor na voz.
Daryl tocou o ombro nu de Beth rapidamente.
– Tem certeza de que quer fazer isso? – perguntou a ela.
Erguendo a vista, pôs a boca em linha reta, piscando lentamente para o homem.
– Não tenho escolha.
Daryl tratou de tirar todos dali de perto. Teve, infelizmente, de considerar que o tiro que pouparia o sofrimento de Susan também os traria perigo: o barulho seria eco na floresta e atrairia errantes. Logo distribuiu pessoas para guardar o perímetro do acampamento.
– Beth... Obrigada. Obrigada por pensar em mim quando quis sair do hospital.
Os olhos trêmulos de Beth a encararam.
– Obrigada por vir. Sinto muito por ter sido em vão.
Susan, mesmo sabendo qual era o seu destino, sorriu.
– Não foi em vão, querida – respondeu. – Pelo menos sei que ainda há pessoas boas. Certo?
Beth retribuiu seu sorriso.
– Nunca duvidei disso.
Do lado de fora da barraca, todos já sabiam o que estava prestes a acontecer. Esperavam nervosas pelo disparo, algumas rezando, outras tentando ignorar e as restantes apenas caladas, tentando entender o porquê de o mundo ter se transformado tão terrivelmente em uma chacina constante.
De repente, o angustiante barulho. Embora fosse noite, o piado dos pássaros recomeçou; assustados, escapavam de galhos de árvores próximas e, em bando, se espalhavam pela floresta. Judith começara a chorar, mas logo foi acalmada pelo pai. As pessoas, angustiadas, caminhavam de volta às suas barracas e camas improvisadas; Vincent, Michonne, Maggie e Daryl esperaram por Beth.
Poucos minutos depois, Beth saiu da barraca na qual havia dois mortos. Havia sangue respingado em seu braço. Seu rosto estava inchado e úmido, denunciando que passara um bom tempo a chorar após ter de tirar dolorosamente uma vida que já não era mais vida.
Maggie abraçou a irmã.
– Você é corajosa.
Beth assentiu, enterrando o rosto no ombro de Maggie.
– Faço o possível.
Era triste o fato de o grupo carregar consigo uma pá. As mortes eram imprevisíveis, mas nada raras, então era necessário prevenir. Era com essa pá que, perto do amanhecer do dia, Beth repunha terra sobre a cova do pequeno Kevin. Ele e sua mãe jaziam sob as folhas de uma árvore alta, antiga, de aparência acolhedora.
Vincent, Daryl e Maggie permaneceram ao lado da loira durante todo o tempo em que enterrava os corpos, ajudando-a no processo. Assim que terminaram, Vincent dirigiu-se a Beth.
– Susan era boa – disse. – Recebeu-me bem assim que cheguei ao hospital, meses antes de você. Pouco nos falávamos, mas, apesar disso... Era boa.
Beth tentou um sorriso, o que a fez parecer mais triste.
– Era. Pelo menos não precisa mais sofrer. Está em paz.
–---------
O tempo era curto. Queriam aproveitar as horas para chegarem o mais cedo possível a Washington, DC. Guardando barracas, mochilas, alimentos, distribuíram-se nos três veículos que haviam encontrado nos dias anteriores.
Michonne dirigia o menor carro. Ao seu lado, no banco da carona, ia Vincent. Na traseira, Beth, Tara e Daryl dividiam o espaço.
– Vocês tem mesmo certeza de que o tal de Eugene vai conseguir curar essa confusão? – perguntou Vincent a qualquer um que aceitasse lhe responder.
– Acredito que sim – a resposta veio de Tara. – Não iria tão longe por nada. O Abraham confia nele, a Rosita confia nele... E eu confio na sobrevivência. Não há escolhas, cara.
– Não o conheço, assim como você também não, Vincent – disse Beth, inclinando-se e apoiando os cotovelos nas pernas. – Mas gosto de acreditar. É verdade que não iríamos tão longe sem ter a certeza de que há algo que possa ser feito.
Vincent assentiu, mas desconfiava.
Daryl olhou para a moça, que aproximara seu rosto ao do outro rapaz pelo vão entre os dois bancos frontais.
– Bem... Ele é só um cientista – continuou Vincent. – Vocês não acham que se alguém encontrasse a cura seria o governo ou alguém especial? E se houvesse, realmente, uma cura, já não teriam...
Daryl também se inclinou, aproximando-se de Beth e Vincent, com os olhos estreitados.
– Garoto... Qual é mesmo seu nome?
Vincent olhou para Daryl com o canto dos olhos.
– Vincent.
Daryl assentiu.
– Ok, garoto. Qual sua idade?
– Tenho 22 – respondeu.
Beth olhava de um para outro, tentando presumir o que diria Daryl naquela conversa.
– Você não acha que sabe demais para um garoto de 22 anos? – Daryl, mal humorado, pôs a mão no queixo, coçando a barba como se pensasse profundamente sobre o assunto.
– Não, eu só acho que a cura...
– Veja, garoto – Daryl interrompeu. – Você está em um grupo porque a Beth o trouxe. Deveria ser mais agradecido porque, sem um grupo, você não seria nada.
Vincent abriu a boca, como se pretendesse falar algo, logo retornando a fechá-la, mas depois de alguns segundos, se desculpou com ingenuidade. Daryl recostou-se no banco, um tanto quanto satisfeito.
Beth, irritada, lançou a Daryl um olhar de censura. Ele deu de ombros.
Tara tentou ignorar a ligeira discussão, enquanto Michonne olhava de um rosto para outro dentro do carro, logo pensando em algo a dizer:
– Está calor? Devo abrir mais as janelas?
– É, acho que sim – respondeu Tara, olhando fixamente pela janela.
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