What changed your mind
10 Comfort
Notas iniciais
Não sabiam dizer com exatidão o tempo que passaram na estrada. Partiram cedo, era disso que sabiam, e o céu já ganhava uma coloração alaranjada, indicando que a tarde estava alcançando seu fim e que a noite logo viria. Logo teriam de estacionar os veículos em algum lugar e ao menos debater sobre o que fariam durante a noite – mais precisamente sobre onde ficariam para, na manhã seguinte, recomeçarem a jornada a caminho de Washington, DC.
Beth dormira durante boa parte da viagem de carro e nem mesmo percebera que Vincent havia substituído Michonne na direção. Ao abrir os olhos, após algumas horas, notou que, pela primeira vez após semanas, não tinha tido nenhum tipo de pesadelo, o que ela considerava uma vitória. Entretanto, ao acordar, lembrou-se das vidas que haviam acabado há pouco tempo, no acampamento. Tentou, de qualquer forma, manter a positividade em seus pensamentos. Foi logo distraída pelo ronco em seu estômago.
– Algum de vocês tem comida? – perguntou, de forma direta.
Alguns olhares foram postos nela; olhares até mesmo de censura.
— Estamos guardando comida o máximo possível – disse Michonne. – A situação não está fácil. Mesmo que temos o que aparenta ser um grande estoque, o grupo é grande. Por isso é melhor continuarmos guardando.
Beth suspirou, assentindo. Mesmo que, no hospital, sofresse de abusos psicológicos e, nos seus últimos momentos lá, físicos, nunca lhe faltou comida. Pensou que estivesse mal acostumada, e por isso se desculpou, mesmo que apenas mentalmente.
Michonne percebeu que foi um pouco dura.
— Mas não se preocupe. Quando nos estabelecermos em algum lugar, comeremos alguma coisa. Mesmo que em pouca quantidade.
Beth sorriu.
O coração de Daryl palpitou ao observá-la.
Alguns minutos depois, o motorista do veículo da frente acendeu o pisca alerta. Vincent, que dirigia o veículo no qual eles se encontravam, fez o mesmo, a fim de que o último veículo, que vinha atrás, soubesse que estavam parando. Aquele era o sinal para “é, pessoal, agora precisamos decidir o que fazer”. Todos estacionaram os carros do lado da estrada e alguns dos membros dos grupos saltaram, tendo suas armas em mãos no caso de haver qualquer ameaça no local – desde errantes até maus humanos. O restante ficou dentro dos veículos, aguardando notícias dos que haviam saído deles para definir os rumos que aquela noite fria tomaria.
Daryl saiu sozinho do carro em que se locomovia com Michonne, Beth, Vincent e Tara. Juntou-se ao aglomerado que se formava no meio da estrada, constituído por Carol, Rick, Abraham, Maggie, Glenn e Gareth.
— Então – começou Abraham. – De acordo com o mapa que estamos seguindo, estamos chegando a uma área residencial conhecida que é afastada dos centros comerciais da região. Acredito que não encontraríamos muitas das criaturas lá. Além do mais, a noite está gelada pra cacete. É melhor encontrarmos um lugar coberto para dormirmos entre quatro paredes, só para variar.
Rick assentiu.
— Tudo bem. É uma boa ideia. – Dirigiu-se aos demais participantes da conversa: – Estão todos de acordo?
Ninguém mostrou resistência.
Dessa maneira, cada um voltando aos seus devidos veículos, trataram de explicar o que pretendiam fazer. Abraham, conduzindo o veículo da frente, guiou o restante do grupo pela estrada até entrar no que aparentava ser uma pista local, e, posteriormente, em ruas cujas laterais eram ocupadas por grandes e belas casas, pouquíssimo deterioradas pelo tempo e, aparentemente, também por errantes ou pessoas. Com certeza pertenciam a pessoas ricas, em posição social bastante elevada – e essa era apenas a conclusão que se tinha ao observá-las do lado de fora. Muitos imaginavam como estariam seus interiores.
O primeiro carro seguiu até o fim de uma dessas ruas de grandes casas, que era, na verdade, uma rua sem saída de um condomínio de residências; um grande muro separava o condomínio de uma floresta, da qual só souberam porque conseguiam visualizar somente o topo das grandes árvores. Todos entenderam a lógica de imediato: se houvesse alguma ameaça durante a noite que ali passariam, ela apenas viria de um sentido, uma vez que o muro impossibilitava a entrada de errantes e de pessoas que poderiam vir da floresta. Além do mais, era menos provável que qualquer ameaça se locomovesse até o fim do condomínio, que era bastante distante das principais ruas.
Estacionaram por ali de qualquer jeito, ainda atentos e procurando fazer o mínimo de tumulto possível. Abraham sinalizou com as mãos, também falando baixo para quem estivesse ao seu redor ouvir:
— Esperem aqui fora. Vou checar o interior desta casa – e apontou para a residência, adentrando poucos segundos depois.
Todos esperavam ansiosos do lado de fora. Após dois minutos, Abraham saiu, gesticulando com os braços e convidando todos a entrar. Não puderam evitar o tumulto, neste momento, afinal, um grupo de aproximadamente vinte pessoas apressava-se para entrar em uma casa que, apesar de enorme, deveria suportar numa sala de estar todas aquelas pessoas. Pela porta, além disso, só passava um de cada vez. Dessa maneira, demoraram mais dois minutos para que todos estivessem dentro, acomodando-se em sofás, observando a sala ou pondo-se em pé em qualquer canto.
— Então – começou Rick, pondo-se no meio do grupo para que todos pudessem vê-lo. – O ideal seria se todos ficassem em uma só casa, embora as vizinhas também pareçam vazias. Esta parece bem grande.
— De fato – concordou Abraham, escorando-se em uma parede e fitando Rick. – Dei uma espiada no andar de cima, e a casa é, de fato, grande. Lembro-me de ter visto, no mínimo, cinco cômodos. A sala de estar pode abrigar as vítimas de insônia – se for suficientemente grande para tal.
Beth foi a única que soltou um riso breve, mas ninguém escutou.
Rick assentiu para Abraham.
— Então ficaremos todos aqui. Fiquem onde querem ficar, pela casa – e de repente hesitou: – Gareth. É preferível que você permaneça nesta sala com seus... Amigos.
Gareth adotou um sorriso traiçoeiro.
— Essa falta de confiança é realmente necessária, Rick?
Rick não mudou a expressão.
— Estritamente necessária – respondeu.
Beth não precisava ser muito observadora para saber que era impossível confiar em Gareth e em seu grupo. Em nenhum momento vira uma expressão séria em seus rostos, sempre dotados de risos sarcásticos e olhares visivelmente mal intencionados lançados a todos aqueles que Beth amava e em que confiava. Obviamente, Rick reconhecia o mesmo que ela, e provavelmente todo o restante de sua família. Enquanto pudesse manter o olho no grupo estranho, Beth pensou, ela manteria.
— Tudo bem – cedeu Gareth, erguendo as sobrancelhas sem se desfazer daquele sorriso. – Não há problemas.
Grande parte do grupo subiu para descansar, mas Beth não. Permaneceu na sala com Rick, Michonne, Glenn e o grupo de Gareth, tomando para si aquele turno para vigiar a casa e garantir a segurança de todos. Daryl insistiu, por vários minutos, para que também ficasse de guarda, mas Rick o convenceu a subir para repousar, uma vez que, como Beth ouviu na conversa entre ambos, Daryl não dormia uma noite inteira há semanas e talvez agora, finalmente, conseguisse pregar os olhos por algumas horas, “devido a acontecimentos recentes”. Beth não queria pensar no significado daquilo, mas imaginou que os acontecimentos recentes envolviam o teto sobre a cabeça e uma cama macia, somente. É realmente impossível dormir bem em um acampamento precário.
De qualquer maneira, sentiu-se um tanto egoísta ao perceber que desejara que Daryl ficasse ali, na sala, sem dormir. Ela tinha de admitir que, com ele, sentia-se mais segura e menos solitária; assim se sentia durante o tempo após a queda da prisão. A obrigação de permanecerem juntos no começo era terrível, ela reconheceu, sendo Daryl uma das pessoas mais complicadas que ela já havia encontrado. Entretanto, tal obrigação a permitiu conhecer maravilhosas coisas a respeito de Daryl, como sua sensibilidade e seu altruísmo. Sentira falta disso de forma tremenda enquanto estava no hospital. Por isso, queria que ele não dormisse. Queria sua voz, ainda que sombria, fazendo-a sentir-se segura.
Mas tentou afastar aqueles pensamentos e focar na sua tarefa: proteger a todos. Mantinha um olho na porta da sala, outro no grupo de Gareth. E, eventualmente, no tamanho de suas mordidas nas barras de cereal entregues por Michonne com um sorriso exausto. Beth não sentia sono depois de dormir por horas no carro. Sentia-se cansada, é claro, mas estava cansada desde que tudo começou, de forma que já considerava o cansaço como algo inerente a ela e completamente inafastável. Mas não importava, na verdade, porque ela se sentia completamente confortável. Não somente por estar em uma boa casa, comendo barra de cereal e, além disso, nos pés de uma lareira. Sentia conforto por estar ali, entre pessoas que, do fundo de sua alma, ela amava.
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