Depois de uma noite cansativa dentro de um avião, tudo que Miku, Teruki, Takuya, Yu-ki e Kanon queriam era muito Sol, muito sossego e muito tédio em um resort 5 estrelas que Red Cafe havia arranjado em San Diego. Era do que eles precisavam, um pouco de tédio. Um intervalo da turnê, umas férias repentinas que tomassem, no mínimo, uma semana de trabalho. Ou falta de trabalho.

Exaustos da viagem, descansavam em um ônibus customizado que os levaria até o hotel; um ônibus bem-planejado e atraente demais pra quem não queria ser reconhecido: mais um trailer com cama, armário de salgados e uma pintura esdrúxula pra quem o via do lado de fora, do que realmente um ônibus. Mas aquilo era o de menos. Logo, estariam dentro de uma piscina gelada, com direito a água de coco e o que mais quisessem.

-Red Cafe, você sabe qual era a proposta da viagem? — Yu-ki perguntou, enquanto aproximava mais o rosto da janela. — Não chamarmos a atenção. Não acho que esse ônibus tenha sido boa idéia — acrescentou, reparando como todos na rua olhavam assustados por onde quer que eles passassem.

Mas o empresário não respondia, estava ocupado demais cancelando todo o resto da programação que tinha feito para aquela semana. Tantos dias calculando o tempo que demorariam de uma cidade do Japão pra outra, e de repente, tudo estragado. Simplesmente não conseguia desligar o telefone por um segundo; depois, ainda haveria gente reclamando por ele não estar curtindo como deveria.

Ao invés de ouvir uma resposta do empresário, Yu-ki acabou ouvindo de Miku.

-Shhh — este disse, quase em um grito. — Yu-ki, cala a boca, presta atenção. Essa aqui é nova.

Yu-ki virou-se pra Miku, a fim de ver a novidade — mesmo o interesse não sendo muito. O vocalista tinha se instalado no chão do ônibus, e espalhado umas cartas por lá. Terminando de juntá-las, estendeu-as pra Teruki, que parecia o mais interessado — batendo palmas e gritando o tempo todo. Quanto aos outros, não mantinham-se muito diferentes de Yu-ki — Takuya observava a mágica por não ter nada melhor pra fazer, e Kanon continuava no fundo do ônibus, olhando desinteressado pela janela; já fazia algum tempo, ele não mostrava interesse em nada.

Teruki bateu mais algumas palmas e, empolgado, puxou uma carta da mão de Miku que, grato pelo pequeno público que havia conquistado, embaralhou mais o resto, chachoalhando-o de um lado para o outro.

-Tã, tã, tã, qual será a carta, tã, tã, tã? — riu, enquanto embaralhava mais.

O outro riu também, e deu de ombros.

-Qual é, Miku? — perguntou empolgado, forçando a carta secreta contra o peito, como se aquilo fosse de grande importância.

Logo depois, o fabuloso mágico tirou uma carta do seu próprio baralho, idêntica à de Teruki.

-É essa?

Ecoaram mais gritos e palmas de Teruki pelo ônibus. Não era de agora que os outros integrantes — exceto Miku — achavam desnecessária aquela animação. Vendo que apenas o vocalista fazia reverências agradecendo, e que os outros não se moviam, o garoto tornou-se ainda mais persistente.

-Vocês deviam se divertir também — protestou, estreitando os olhos. — É folga! — então, arregalou-os. — Sete dias inteiros sem fazer nada! N-a-d-a! Vamos, Yu-ki — sentou-se do lado do tecladista. — Por que você não abre um sorrisinho? — abriu um sorriso estreito, como que mostrando como o amigo deveria fazê-lo.

-Eu não dormi à noite, não escovei os dentes, e me pé inchou — foi a resposta mal-humorada. Como se já não fosse o suficiente, ele levantou um dos pés descalços, que aparentava cinco vezes maior que o tamanho normal, conseqüência de muito tempo dentro de um avião.

-Você pode dormir agora, escovar os dentes no banheiro lá atrás, e passar uma pomada no pé. Pronto, resolvi tudo — Teruki continuou, levantando-se e dando dois passos em direção ao fundo do ônibus, onde Kanon se encontrava, melancólico. Entretanto, percebendo que logo seria perturbado, tirou sua mochila do chão e largou em cima da cadeira do lado, impedindo que o amigo se sentasse lá. Teruki não se abalou; voltou-se para Takuya. — E você, Takuya? — sentou-se no assento, ao seu lado. — Qual o problema, hm?

O guitarrista, como sempre evitando chamar a atenção e causar problemas, apenas sorriu na hora de responder.

-Nada, Teruki. Pra mim, tudo vai bem.

Yu-ki revirou os olhos nas órbitas; Miku não ouviu, estava dispersando a atenção do motorista, falando ao seu lado, sem parar; Kanon ignorou-o completamente; já Teruki, satisfeito com a resposta, passou um dos braços por trás do pescoço do amigo, puxando-o pra um abraço.

-É assim que se fala, Takuya! É o meu Takuya — acrescentou, socando-lhe de leve o ombro, em um ato de companheirismo.

Logo em seguida saiu rindo, a fim de perturbar o motorista junto com Miku, que agora havia aberto seu imenso mapa bem na frente do mesmo, impedindo-o de enxergar a rua. Hajime estava entrando em desespero, quando Takuya voltou a olhar para a janela, frustrado. Era muito fácil manter a boca fechada, continuar dizendo que para ele tudo estava bem; difícil mesmo era sentir o bem de que tanto falava. Sentia suas risadas tristes, os sorrisos falsos: não se sentia feliz por muito tempo.

E tudo aquilo por quê? Um só motivo. Aquele garoto calado e irritado, que havia sentado na última fileira de assentos do ônibus, e que não tinha aberto a boca desde o começo da viagem. Desde o começo da viagem? Não, não. Kanon nunca havia conversado com Takuya de verdade, e este sentia na pele a aflição de ser ignorado por alguém que tanto admirava. Também, não podia forçar uma amizade; sabia bem o motivo de Kanon desprezar tanto sua presença. O que era ainda pior, não podia fazer nada, não tinha como consertar aquilo...mas tentaria. Tentaria, tentaria. Faria de tudo pra conquistar a amizade de Kanon, não importava o preço. Não importava o preço, ele faria qualquer coisa pra tapar o vazio que Bou havia deixado dentro do baixista ao sair da banda. Daria o melhor de si.

Notas finais
Comentem, e os próximos capítulos aparecerão naturalmente.