What Goes Around, Comes Around...
8 Love devastation, suicide blonde...
Notas iniciais
"You want to make her, suicide blonde
Love devastation, suicide blonde..."
– Ah, mas que música depressiva, hein? Loira suicida...
– Não, Charlô, suicide blonde é um tom de loiro, o que a moça tratada na música pinta o cabelo depois do problema. Tipo Harlow Gold.
– Harlow Gold eu gosto.
– Mas hoje você vai sair daqui Suicide Blonde!
– Não quero me matar!
– Mas aposto que quer matar alguém, e matar do melhor jeito que a palavra concebe!
– Isso sim...
– E de quebra você vai matar dois — a cabeleireira girou a cadeira de Charlô levemente para que ela se visse refletida no espelho — coelhos numa cajadada só. O seu pretendente e o sr. Otávio!
– Mas o Otávio por que, meu Deus?
– Porque já passou da hora dele tomar uns sustos e virar homem.
– Mas você está sabida demais das coisas, hein?
– Eu e toda são Paulo, minha Charlô querida...
A dama se encarou no espelho. Ela continuava linda, como quando jovem. Uma beleza agora com linhas, rugas, flacidez, mas ainda assim linda. E até autocrítica ela enxergava aquilo. Aquele banho de esteticista tinha reavivado sua pele, melhorado sua aparência cansada, e de quebra seu cabelo ganhara um tom mais claro e provocante. O tal Suicide Blonde.
– Vai durar até sábado?
– Vai sim, rs, não fiz quase nada de intervenção externa que saia com água.
– Muito obrigada. — Charlô deu um beijo no rosto da jovem.
– Charlô, você não precisa disso para conseguir o que precisa e o que deseja, só de um pouco mais de atitude.
– Minha filha, o que eu mais tive na vida foi atitude...
– Mas talvez não as necessárias para ser completamente feliz amorosamente. O amor pode estar ao seu lado e você não se deu conta. — ela sorriu e Charlô se retirou antes de cair no pranto novamente.
Era tão ridículo... Charlô, tão vivida, tantas viagens, sonhos realizados, com um bom e intenso emprego, emocional por causa de um biltre idiota que só sabia incomodá-la. Só queria vê-la apunhalada pelas costas. Mas é sempre assim: quando o alicerce das coisas não fica bem fundado, bem enterrado, sólido, um dia as coisas caem, as paredes cedem, e o coração também desmorona.
A boa parte de desmoronar era que do caos se faz possível o reerguimento, a reconstrução. Das pedras surgiram as maiores fortalezas que já se viu sobre a Terra. E Charlô era assim: uma fortaleza.
***
Sexta-feira, 19h. Charlô se permitiu entrar em casa e jogar a bolsa no sofá, se jogando na poltrona ao lado em seguida. Trabalhou 12 horas seguidas; chegara antes da loja abrir para verificar a quantas andava a tal aposta que fizera com o primo. Era uma supervisora voraz e não descansaria até ganhar. Ganhar nem tanto, mas ao menos provar a Otávio do que era capaz. Estava exausta. Por outro lado, um lado mais bom que ruim, não tivera sinal do biltre desde que voltara do salão no dia anterior. Nem em casa, nem na loja. Como se ele tivesse se desmaterializado. Olívia lhe assegurara que não estava morto em nenhum canto da enorme mansão, de forma a só ser descoberto ao começar a cheirar mal, logo ela supunha que deveria estar na farra com Nando, o motorista.
Vânia também tirara o dia de folga: seria possível terem começado a orgia mais cedo que o habitual?
Lutou para sair do sofá, e levando a bolsa se dirigiu ao quarto. Pediu à Olívia que preparasse a jacuzzi, bem cheia e quente, porque ela queria derreter. Quase uma loira suicida. Ela só queria derreter.
Tomou seu banho, bem demorado, bem revigorante, vestiu o pijama e voltou pra sala. Tinham alguns DVDs lá, provavelmente deixados por Juliana ou Analu, e ela colocou qualquer um deles para rodas. "Muito bem acompanhada" era o nome do filme, ela se lembra de ter visto os créditos iniciais apontando. Depois não viu mais nada.
***
A loira não suicida abriu os olhos, não sabia onde estava. Pegou o celular, embolado no meio das almofadas. 22:45. Ela apagara, era hora de se deitar propriamente em sua cama, descansar, pois o sábado prometia ser longo. E muito bom. Foi quando sentiu alguma coisa quente em seu pé. Outro pé. Virou-se, e viu Otávio adormecido ao seu lado.
– BILTREEEEEEEEE!!!
Otávio se levantou de um salto, no solavanco. Não sabia onde estava, olhava para todos os lados, assustado. Quando percebeu que era só Charlô berrando, ficou vermelho, roxo, cinza, verde de raiva.
– SUA MALUCA, que berros foram esses?
– SEU DEMENTE, quem lhe deu permissão de se deitar aqui comigo? Já ouviu falar de pri-va-ci-da-de?
– A casa, que eu saiba, não é só sua, e eu estava vendo o filme.
– Sentasse na outra poltrona, já que aqui estava ocupado! Espere, que horas você chegou? Você não deveria estar num encontro com a Vânia?
– Enc- Quem é que te falou isso, Charlô?
– Tenho meus contatos e toda São Paulo também, ela lhe deu um pé no traseiro, foi?
– Não houve encontro algum, pare de viajar na maionese.
– Mas teria. O que aconteceu?
– Nada, Cumbuqueta.
– NÃO ME CHAME DE CUMBUQUETA!
– ENTÃO POUPE-ME DAS SUAS PERGUNTAS!
Se encaravam com ódio os dois primos, e Charlô saiu do sofá. Subia as escadas, mas não sem antes desferir:
– No lugar dela eu teria feito o mesmo.
– Você fez pior, não se esqueça.
– Fiz o quê? Foi um término mútuo, nenhum de nós queria se casar obrigado pelos tios!
– Você não queria, Charlô. Que eu me lembre, minha opinião não foi perguntada.
Ela parou no meio da escada e olhou para Otávio. Um olhar de dor. Toda a dor que ela tentava afastar ou fingir não ver estes anos todos.
– Mas...
– E se você não se lembra, eles falaram que faziam aquilo para sobretudo me verem felizes, porque você era forte e independente e eu não. Isso não lhe diz nada?
– Diz o quão egoísta você é e sempre foi.
– Diz o quanto eu pude querer uma coisa, que todo mundo podia ver e eu não podia fazer mais do que fiz. Os prismas mudam quando muda a pessoa.
Aquelas últimas palavras derrubaram Charlô de vez. Porque, afinal, era mais fácil acreditar que o amor impossível dos dois era assim por ele ser um grosso, estúpido, fraco, interesseiro. Mas pensar que ela poderia ter contribuído e muito pra situação complicada que também a atingia era cruel; verdadeiro, mas cruel.
– É tarde demais, Otávio.
– Se você diz... — ele apenas encarava a televisão ligada.
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