What Goes Around, Comes Around...
9 Avec moi.
Eram 19:30 quando o carro de Edward estacionou na garagem da mansão. Charlô ouvira o barulho de dentro do quarto e ficara nervosa, como se aquele fosse seu primeiro encontro. Não, não era, e muito menos nos últimos meses. Mas ela estava nervosa e não sabia o porquê. Esperou que a campainha tocasse, para se levantar do divã e retocar os últimos detalhes para a noite.
Olívia batera à porta, e a abrira.
– Dona Charlô, o senhor Edward já a espera na sala.
– Vou descer, obrigada.
– Mas a senhora está... fabulosa.
– Verdade? – Charlô virou-se para encarar a amiga, e mostrava agora também a parte da frente de sua produção. Não era nada de mais. Mas a cor do vestido a valorizara. Era um vestido longo, de tom marsala (vinho puxando para o marrom), com detalhes em dourado. Aquela cor simplesmente deixava Charlô parecendo algum tipo de atriz famosa ou alguém muito bonito e chique. A sandália também era dourada. Os cabelos estavam mais cheios e ondulados nas pontas, a maquiagem leve, mas cobrindo bem as linhas de expressão e ruguinhas, realçando os olhos marcantes. O batom também era marsala, mas aberto e avermelhado. Não a envelhecera, pelo contrário, valorizara seu rosto. Os brincos dourados se fundiam ao seu cabelo, que estava em um tom de loiro mais claro e aberto que o usual, e a bolsa de mão combinava com o calçado.
E só.
Mas parecia que aquele só era o diferencial. Mesmo vestida de maneira simples, Charlô parecia brilhar mais que em qualquer dia.
– Sim, fabulosa. Tem certeza que acertou o pretendente para usar a produção?
– Tenho, ué. Com quem mais eu usaria?
– O Sr. Otávio, por exemplo que provavelmente pouco a viu assim.
– Vamos parar de falar besteira e colocar essa casa para circular, certo? – Charlô pegou a bolsa apressada e saiu marchando pelo quarto – E não precisa me esperar, Olívia. Não sei que horas volto. Levarei minha chave.
– Tudo bem, patroa.
Charlô desceu as escadas que a levariam à sala, e viu Edward de costas, olhando o jardim pela janela. O cabelo dele estava bem grisalho, mas continuava liso e cheio, como quando ela se lembrava. Ele usava terno, calça e sapatos na cor preta, o porte alto e bem formado parecia não ter se alterado muito. Claro, ela estava sem o óculos naquele momento, mas pedia internamente para que não estivesse muito errada.
– Edward. Pontual como sempre.
E então ele se virou.
Meu Santo Deus, foi o que Charlô pensou.
Existem homens que ficam ainda melhores com a idade, assim como o vinho, mas Edward estava abusando desta característica. O rosto, de traços fortes e nariz fino, havia envelhecido, mas de um jeito bom. Ele perdera as maçãs do rosto salientes que o afeminavam quando jovem. Os olhos, verdes, realçados pelas sobrancelhas cerradas que ainda permaneciam pretas. O cabelo fazia um topete bonito na frente, e estando grisalho o tornava ainda mais atraente.Ele usava uma camisa escura por baixo do terno, sem gravata e com os dois primeiros botões abertos, dando um ar seguro e delicioso ao homem.
E Charlô não poderia deixar de pensar em quanto ela não queria mais voltar para casa naquela noite, que além de fresca estava linda.
Não queria mesmo.
– Charlotte de Alcântara Barreto... E eu pensei que as lendas que as pessoas dizem sobre sua beleza eram falsas, depois de tantos anos... Não estou exagerando se disser que está ainda mais bonita. – Ele se aproximou do fim da escada para pegar a mão de Charlô e ajudá-la a descer os últimos degraus. Então beijou a pele delicada de seus dedos, sem quebrar com ela o contato visual.
– Encantada com a gentileza, em pleno século XXI.
– Século no qual vivemos, mas do qual não fazemos inteiramente parte...
A resposta deliciara Charlô. Alguém que tinha o mesmo humor sagaz que ela própria possuía.
– Acredito que mudaremos os planos, você está simplesmente deslumbrante, um pequeno jantar não é digno de tudo isso, Charlô.
– Você me conhece, Edward, e sabe que não existe esse tipo de mesura na minha vida, nunca houve. Da forma que eu estiver eu posso ir a qualquer lugar – e ao pronunciar essas palavras, ainda sem quebrar o contato visual, Charlô caminhou na frente dele, sem soltar sua mão, como que o conduzindo para fora da casa — , qualquer lugar.
Edward entendeu o recado implícito no gesto e palavras da loira. Eles haviam conversado pelo telefone todos os dias, desde o dia em que ele a convidou para sair, e já haviam construído um certo grau de intimidade, pelo menos em relação aos assuntos corriqueiros. E a noite prometia, para os dois, ser bem interessante.
– Até mais, Olívia. Boa sorte com seu patrão – Charlô piscou para a governanta e saiu com Edward.
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