What Comes With The Wind
15 14 - Acerto de contas
Notas iniciais
A grama continua confortável como sempre. Já que a frente fria aparentemente foi embora, o seu está azul, com poucas nuvens. A claridade penetra em minhas pálpebras fechadas. Eu suspiro.
– Onde você dorme lá em Nova York? No Central Park? — pergunta uma voz ao meu lado.
Eu sorrio, sem abrir os olhos. Nem preciso espiar para saber a quem a voz pertence.
– Eu tenho uma cama bem confortável, se você quer saber. Mas estou até pensando em me mudar para o jardim.
Peter ri e senta ao meu lado, cotovelos apoiados nos joelhos. Um silêncio agradável se instala. Por fim, ele se ajeita, ficando na mesma posição que eu.
– No que você está pensando? — ele pergunta.
– Nada importante...
Mas alguns minutos de silêncio se passam.
– Posso fazer uma pergunta? — ele diz finalmente.
– Você acabou de fazer uma.- brinco.
Ele ri um pouco.
– É sério.
– Eu sei. Vá em frente.
Peter hesita por mais uns segundos.
– Como é o temperamento do seu pai?
Eu pisco. Essa, sem dúvidas, seria a última pergunta em que eu teria pensado. Eu o fito com as sobrancelhas erguidas.
– Como é?
– Assim, eu gostaria de saber onde estou me metendo antes de fazer um pedido oficial. Sabe, eu ficaria feliz em saber que ele não viajaria até aqui para chutar meu traseiro assim que ouvisse a notícia.
Eu pisco mais uma vez, confusa. Apoio-me no meu cotovelo e o encaro.
– Do que você está falando? Que pedido é esse?
– Pedido de namoro, é claro. — ele responde me olhando de volta.
Sinto meu queixo caindo lentamente. Um pedido de... Uau! Eu nem sei o que dizer. Digo, isso nunca aconteceu comigo. Já tive alguns namorados antes, mas nada sério. Bom, pelo menos não tão sério a ponto de passar um por pedido oficial.
– Você está me pedindo em namoro? — ofego.
Peter franziu a testa.
– Não! Quero dizer, sim, claro! Mas não agora! Eu tinha planejado...
Eu o interrompo pressionando meus lábios contra os dele. Depois o olho com um sorriso enorme em meu rosto.
– Sim. — eu digo.
Ele pisca e um sorriso também vai aparecendo em seu rosto.
– Sério? Ia ser assim tão fácil?
Eu reviro os olhos.
– Que pergunta idiota. Você quer que eu diga não, ou "preciso de um tempo para pensar”?
– Não foi isso que eu quis dizer. Mas talvez você queira pensar sobre o assunto...
– Eu já pensei. — o interrompo. — E digo sim.
Peter me olha, seus olhos cheios de ternura. Ele ergue a mão e a pousa em meu rosto, acariciando levemente minha bochecha. Não consigo desviar meus olhos dos seus.
– Eu amo você. — ele diz com a voz baixa, suave.
Um nó cresce na minha garganta, quase ao mesmo tempo em que o sorriso volta ao meu rosto. Ele simplesmente... Ai meu deus! Ok, isso também nunca me aconteceu antes. Meu coração bate forte. Talvez seja cedo demais... Mas dane-se!
Eu o beijo novamente, desta vez me inclinando mais, deitando em cima dele. Peter abraça minha cintura.
– Isso é um "eu também"?
Eu rio.
– Você agora lê pensamentos? Além de romântico incorrigível você também é paranormal? Belo namorado que eu fui arranjar.
Peter levanta as sobrancelhas com sorriso divertido.
– Uau, tudo isso para não dizer um simples "eu também"?
– Eu sou uma garota difícil- digo empinando o nariz dramaticamente. — Não me pressione.
– Nossa. Que namorada que eu fui arranjar.
Eu ergo minhas sobrancelhas.
– O que foi, você terminar? Se for isso, nós acabamos agora mesmo...
Peter me olha com os olhos arregalados. Ah, eu estou adorando sua cara de medo. No consigo manter minha personagem de rainha do drama olhando para sua expressão e acabo rindo.
Peter suspira, parecendo aliviado.
– Deus, Melanie! Você é bipolar?
– Desculpe. — digo rindo. — Eu estou nervosa.
Ele me olha com uma sobra erguida.
– Nervosa, é? Algo a dizer?
Eu balanço a cabeça, mas aproximo meu rosto e sussurro:
– Eu também te amo.
– Eu não ouvi direito, desculpe.
– Ah, nem vem.
Peter ri, erguendo o pescoço para me beijar. Desta vez nos beijamos de verdade. Rolamos na grama até que ele esteja em cima de mim. Minha mão bagunça seu cabelo, enquanto a outra (ainda engessada) está em seu pescoço. Suas mãos apertam minha cintura. Por fim, nos afastamos, ambos arfando. Ele gruda sua testa na minha.
– Hmmm... — murmura. Eu rio.
Peter rola novamente, deitando na grama. Eu deito minha cabeça em seu ombro. Nós dois ficamos olhando para as nuvens brancas.
Depois de um tempo, eu quebro o silêncio.
– Ainda temos um problema.
– E qual seria?
– Você perguntou sobre o meu pai.
Peter respira fundo.
– Eu devo me preocupar?
– Na verdade não... A menos que você tenha más intenções comigo.
– Minhas intenções são as melhores possíveis.
– Então seu traseiro está á salvo.
Peter sorri.
– Ah, nossa, bom saber.
– Mas se você sair da linha, seu traseiro não vai ser o único prejuízo. Só avisando.
– Sobre isso você pode ficar tranquila. Eu sou um bom rapaz.
– Disso eu não tenho dúvida.
– Ah, não! De jeito nenhum, não! – exclamo.
Está fazendo um típico dia de verão. Não há uma nuvem no céu e o sol de meio dia brilha intensamente. O vento fraco que bate não é o suficiente para espantar o calor quase insuportável. Peter está tentando me convencer a irmos ao lago, mas eu ainda tinha pesadelos sobre a última vez que fomos lá.
– Ah, vamos, Melanie! Você não confia em mim?
Mordo o lábio inferior.
– Claro que confio. Eu só... Você sabe.
– O que eu sei é que você não pode passar sua vida inteira com medo. Vai ter que enfrentar isso mais cedo ou mais tarde.
– Escolho mais tarde, muito obrigada.
Peter se aproxima e estende uma mão para mim. E faz aquela carinha de cachorro que caiu da mudança. Eu me amaldiçoou por dentro por ser tão fraca.
– Por favor. Por mim?
Faço uma careta e me xingo por dentro. Relutante, seguro sua mão. Peter sorri, vitorioso, e me puxa. Travo ao entrar na floresta, e ele aperta minha mão, me encorajando. Respiro fundo e continuo andando. Peter me conduz até chegarmos à pedra. O lugar continua lindo como sempre. A água parece convidativa, até mesmo para mim.
– Mudando de ideia. – pergunta.
Eu franzo o nariz.
– Não. Aliás, não posso mergulhar com o gesso na mão.
Peter dá de ombros.
– Besteira. Não vai molhar se cobrirmos ele.
– Ah, claro. E você pretende fazer isso com o que, gênio. Uma folha? – eu bufo.
Peter revira os olhos. Então, para minha total surpresa, ele tira a camisa. Mordo meu lábio para que meu queixo não caia no chão. Que droga, então essa seria minha reação sempre que ele fizesse isso? Imagine quando... Opa! Pensamentos desapropriados, Melanie. Foco!
Ele se aproxima e amarra a camisa na minha mão, cobrindo todo o gesso. Fico olhando para ele durante todo o processo. Ele olha e me pega o encarando.
– O que foi? – ele ri. Eu dou de ombros. Peter balança a cabeça enquanto amarra a camisa. – Prontinho. Agora não tem desculpa.
– Você pula primeiro.
Peter revira os olhos e dá de ombros. Tira os sapatos e vai até a borda da pedra, mas antes que ele pule, eu digo:
– Espere!
Ele se vira para mim.
– O que foi?
– Você pode ficar parado um pouquinho? Estou admirando. – digo. Ele demora uns segundos para entender que eu estou o admirando.
Peter revira os olhos (ele tem que parar de fazer isso) e pula.
Eu corro para a borda só para ver ele afundando e de transformando em bolhas. Então ele submerge e sacode a cabeça, fazendo seu cabelo ficar todo arrepiado e bagunçado. Eu sorrio.
– E então? – ele grita para mim.
Chuto meus sapatos para fora do meu pé e me posiciono bem na borda da pedra. Respiro fundo, reunindo coragem. Então fecho os olhos e dou um passo á frente. Um grito escapa pela minha garganta até que sou engolida pelas bolhas. Por um segundo, o medo reaparece. Mas logo estou segura entre dois braços fortes, que me puxam para a superfície.
– Peguei você. – ele diz.
– Aaai meu Deus! Nunca mais me obrigue a fazer isso! – reclamo.
– Ah, pare de reclamar. Você está gostando.
– Não estou não! Eu podia ter morrido na queda ou...
Ele me interrompe me beijando. Seus braços abraçam minha cintura. Desisto de brigar e abraço seu pescoço. Aí eu esqueço o medo, o frio, meu gesso molhado. Nada mais importa. Somos só nos dois em nossa bolha.
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