What Comes With The Wind

12 11 - Psicologia falha


Notas iniciais
Esse capítulo tomou um rumo que nem eu esperava... socorro.
Mas ficou legal, bem bonitinho.
Espero que gostem!

Eu podia ficar o dia inteiro deitada na grama, como agora. O sol não está tão forte, o vento é refrescante e a sensação das folhinhas verdes sob minha pele é calmante. De olhos fechados, quase sorrio diante do estado de paz em que me encontro.

— Esperando ser levada pelas formigas? É um jeito estranho de voltar para casa. — ouço um voz falar perto de mim.

Abro os olhos tempo suficiente para identificar Peter sentando ao meu lado. Volto a fechá-los.

— Se elas forem gentis e não me derrubarem no chão, talvez não seja uma má ideia.

Peter ri.

— Então o que exatamente você está fazendo?

Respiro fundo antes de responder. Não sinto necessidade de pressa, então o deixo esperando por mais alguns segundos.

— Só aproveitando o sol. Soube que ele vai nos deixar por um tempo. — faço uma careta.

— Não seja tão dramática. Não vai durar mais que uma semana.

Eu me apoio nos cotovelos e o encaro.

— Você sabe o que eu poderia fazer em uma semana de férias?

Peter pensa por um tempo. Depois franze a testa.

— Hum... Sendo você, tenho quase certeza que ficaria em casa, exatamente como vai acontecer.

Dou um tapa em seu braço.

— Vou ignorar a parte do "sendo você". — Me sento e limpo a grama presa nos meus braços, pernas e cabelo. — Mas olhe só para mim! Deitada na grama que nem uma hippie em plena... Que dia é hoje?

— Sexta-feira. — ele responde.

Jogo minhas mão para cima num gesto exasperado. Não que os dias da semana importem muito durante as férias, mas não posso perder a discussão. Peter também não está errado ao concluir que eu não faria nada de diferente se estivesse em casa. Provavelmente, ficaria o dia inteiro no sofá, assistindo qualquer filme interessante que passasse na televisão, talvez até alugando alguns.

— Sexta-feira! É um dia sagrado! — continuo defendendo meu ponto de vista.

Peter revira os olhos, sem acreditar em mim, mas preferindo não discutir.

— O que você fica fazendo o tempo todo aqui? Esse lugar é tão... parado.

Ele dá de ombros.

— Basicamente tudo. — ele me lança um olhar superior e um sorrisinho orgulhoso. — Sou o chefe dessa área.

Agora é a minha vez de revirar os olhos.

— Ah, com certeza. — digo sarcasticamente. — Sério, você não se cansa? Não se sente... preso?

Peter me encara com as sobrancelhas franzidas, sem entender onde eu queria chegar. Então seus olhos se arregalam e ele ri, finalmente entendendo.

— Eu não passo minha vida inteira aqui, Melanie. — ele ri novamente e balança a cabeça.

Eu pisco. Algo me fez pensar que Peter passa a vida ali. Talvez seja o fato dele cuidar de tudo por ali, ou parecer acostumado com trabalho pesado. Pensando bem, Peter não tem cara de "menino da roça". Ele é muito... bem cuidado.

— Então você não mora aqui?

Peter balança a cabeça.

— Claro que não! — ele, fingindo uma voz ofendida. — O que você acha que eu sou, um vagabundo?

Eu levanto uma sobrancelha.

— É para responder? — ele empurra meu ombro não tão de leve. — Ok, foi mal. Então por quê você tem um quarto aqui?

— Eu venho para cá todo o verão, desde os cinco anos. Acho que mereço um lugar decente para dormir.

Eu me sento virada para ela, desta vez verdadeiramente curiosa. Sinto necessidade de achar respostas de perguntas que nunca me interessei em perguntar.

— Está aí uma coisa que eu nunca soube. Como você veio parar aqui? — Peter revira os olhos e eu insisto. — Ah, por favor! Se a história for boa, prometo que escrevo um livro.

Ele ri e deita de costas na grama, posicionando um braço atrás da cabeça. Observo o jeito que o sol faz seu cabelo loiro brilhar, mas tento não me concentrar muito nos músculos do seu braço.

Peter pigarreia e começa a falar.

— Bom, meu pai nos deixou quando eu era um bebê, então minha mãe tinha que nos sustentar sozinha. Ela veio trabalhar aqui quando eu tinha uns dois anos. Sua avó nos acolheu como uma família. Enfim, ela é uma segunda mãe para mim. — Peter dá um sorrisinho. — Tive a melhor infância do mundo. Passava a manhã na escola e o resto do dia no campo. Tinha até uma amiga que vinha me visitar todo o verão.

Empurro seu braço de leve, rindo junto com ele.

— Continua!

Ele me olha com as sobrancelhas erguidas.

— De onde veio esse súbito interesse na minha vida?

Dou de ombros.

— Sei lá. Sua vida parece mais interessante que a minha.

— Isso não é verdade. Minha vida é tão normal que você pode adivinhar o final.

— Ok. — Bato o dedo indicador de leve em meus lábios enquanto penso. Tento dar meu melhor tiro. – Então... Você largou a escola e dedicou sua vida ao campo. Ah, não! Você disse que vem todo o verão... Nesse caso, não sei mais o que dizer.

Peter senta e me olha com os olhos divertidos, balançando a cabeça, incrédulo.

— Me machuca profundamente a idéia que você tem de mim. — ele balança a cabeça novamente. — Eu estou na faculdade, Melanie.

Eu pisco, sendo pega de surpresa. Não deveria saber que Peter é mais velho que eu? Quer dizer, eu tinha acabado de terminar o terceiro ano!

— Faculdade? — exclamo. — Quantos anos você tem?

— Dezoito. Quase dezenove, na verdade.

— Uau. — sussurro, surpresa. — Você faz o quê, Veterinária?

— Errada de novo. Faço Direito. Você é péssima na dedução, sabia?

Eu o empurro com mais força desta vez. Detesto estar errada, seja em que for. Mas a vida de Peter consegue ser completamente diferente do que eu pensava. E dois anos mais velho!

— E onde você mora, já que só vem no verão? — pergunto, querendo deixar de lado minha derrota.

— Divido um quarto com dois colegas na universidade.

— E sua mãe?

Ele desvia os olhos por um segundo, franzindo os lábios.

— Ela morreu quando eu tinha quinze. Câncer. — diz ele com a voz baixa.

Eu abro minha boca, mas acabo a fechando. Lembro-me vagamente de Carol, mãe de Peter, com seus cabelos loiros e cacheados, seu avental quadriculado e seu grande sorriso. Peter agora olha para baixo, apertando uma aliança dourada, presa num colar que nunca percebi que ele usava.

— Meu Deus, Peter, eu não. ..

— Está tudo bem. — ele me lança um sorriso fraco. — Faz muito tempo. Na verdade, hoje faz três anos.

— Sinto muito. — murmuro, pousando minha mão em seu antebraço.

Peter olha para minha mão, depois para mim. Não consigo ler o que há em seus olhos claros. Depois de alguns instantes, ele abaixa a cabeça e suspira.

— Bom, a sessão desabafo estava muito boa, mas tenho trabalho a fazer. Vejo você por aí. — Se levanta sai.

Fico mais um tempo sentada, pensando.Três anos deve ser o suficiente para alguém se acostumar com a ausência, mas mesmo assim... Era a mãe dele. Peter deve estar sentindo muito mais do que demonstra. Nunca perdi ninguém muito próximo, mas sei que deve haver uma tempestade em sua cabeça agora. Ninguém deveria ficar sozinho nesse momento.

Fico de pé, limpo a grama presa em minha pele e ando em direção ao estábulo.

— Peter? — chamo da porta. Ninguém responde. Entro e vejo que ele não está aqui.

Penso nos lugares onde ele poderia estar. Percebo que minha idéia não vai dar certo quando lembro que não conheço essa fazenda por inteiro. Então algo vem na minha mente.

"Vínhamos aqui quando crianças." Quando crianças. ..

Dou as costas para os cavalos e vou em direção a mata. Tento refazer todos os passos até a cachoeira. Depois de vinte minutos, começo a ficar preocupada. Demorou tanto assim da última vez?

Decido dar meia volta. Depois de alguns metros, tenho certeza que estou perdida. Não reconheço as árvores e a mata vai ficando mais densa a cada passo. Preocupada, olho para o céu: o sol começa a perder a intensidade, sinal de que a noite vem vindo. Decido apelar.

— Peter! — grito. Fico em silêncio por alguns segundos, esperando uma resposta. — Peter!

Depois de quase perder a voz de tanto berrar, me encontro andando a esmo, com lágrimas caindo em meu rosto. Sinto-me terrivelmente sozinha, meu estômago ronca e a temperatura começa a cair. Não posso parar de andar; não sem aceitar que estou completamente perdida. Soluços sobem pela minha garganta. Choro que nem uma criança.

Depois de o que parecem ser horas, já não enxergo quase nada. Os ruídos da noite começam. Olho para os lados, o medo me impedindo de soltar um som sequer. Não faz diferença: estou quase sem voz e minha garganta arde pela gritaria e pela sede. Com a última pontada de desespero, sento-me no chão. Acabo me deitando na terra coberta de folhas.

Vou morrer aqui.

Acho que acabo cochilando, porque um farfalhar perto de mim me faz abrir os olhos subitamente. Sento-me e fico parada, sem ousar respirar nem fazer nenhum barulho. Enquanto isso, me coração bate com força. Mais um farfalhar.

— Melanie! — ouço meu nome ser chamado.

Meus olhos se arregalam e fico em pé num pulo. Meu coração bate ainda mais rápido quando reconheço a voz. É Peter.

— Peter! — chamo de volta, mas minha voz não passa de um sussurro rouco. Pigarreio e consigo gritar. — Peter!

Enxergo um feixe de luz ao longe se virando em minha direção.

— Melanie? — ele chama novamente, o feixe ficando cada vez mais próximo e o farfalhar mais alto.

— Aqui! — grito de volta.

Mas alguns minutos e a luz atinge meu rosto e eu enxergo uma silhueta. Quando Peter me vê, deixa a lanterna cair no chão.

— Mel. — ele suspira, aliviado, vindo em minha direção em passos largos.

Também dou passos á frente para encurtar a distância. Passo meus braços em torno do seu pescoço enquanto ele passa seus braços fortes em torno de mim. Peter me abraça e meu peito se aperta de alívio. Logo as lágrimas voltam a queimar em meus olhos e estou soluçando. Peter me abraça com mais força e eu, tremendo, enterro meu rosto em seu peito.

— Nunca mais- ele sussurra em meu cabelo. — Nunca mais faça isso comigo, entendeu? Quase morri de preocupação.

— Me desculpe. — murmuro com a voz abafada por sua blusa.

— Está tudo bem agora. Eu te achei. Vai ficar tudo bem. — ele me acalma. Algo em sua voz me faz pensar que ele está tentando convencer a si mesmo.

— Quero ir para casa. — murmuro como uma criança mimada.

— Então vamos. — ele se afasta para pegar a lanterna no chão.

Quando me encontro longe do calor do seu abraço, o frio me faz tremer. Por isso não quero me afastar dele, não agora. Me aproximo mais, e Peter passa um braço pelos meus ombros. É o suficiente para fazer com que eu me sinta melhor. Pelo menos por agora.

Notas finais
Vocês estão zangadas comigo? Demorei com o outro, vocês não comentaram...
Enfim, esse é antes de viajar, mas vou escrever pelo celular.
Reviews pleeeease!