Notas iniciais
Sugestão de trilha sonora: P.O.D - Alive Papa Roach - Getting away with murder

Na calçada lateral da Hell’s um grupo, de quase dez jovens, formavam uma rodinha entusiasmada. Eles gritavam em coro incentivando David a beber um longo gole da garrafa compartilhada de Jack Daniel’s, uma das muitas que o grupo já havia terminado naquela noite. Dave sentia-se tão realizado por estar com seus amigos de sempre, como se nunca tivesse se mudado, que ignorou completamente o fato de que voltaria para casa sozinho e pilotando uma moto naquela noite. Agora, era a vez da menina ao seu lado dar goladas contínuas no gargalo da garrafa de vidro, ao som do coro incessante de incentivos.

Entre seus amigos da infância, Dave finalmente se sentia em casa desde a mudança, fazia as mesmas piadas bobas de sempre e era o centro das atenções. Não era o tipo de cara que chegava até as garotas, elas eram espontaneamente apresentadas a ele pelos amigos ou amigas com quem ele já tinha saído, fazia o “tímido” e isso combinava com ele. Seu relacionamento mais duradouro com certeza foi uma pegação, no banco traseiro de um dos carros de seu pai, onde depois de muitas posições inusitadas, ele e a garota pegaram no sono. Foram longas quatro horas dormindo juntos, um relacionamento tranquilo na concepção dele, exatamente como deveriam ser as relações. Seus pais estavam juntos havia muito tempo e eles só brigavam, Dave achava que esse era o maior problema convivência demais, assim quanto menos tempo passasse com uma garota, melhor seriam as suas lembranças dela, sem manchas, sem ressentimentos.

Depois de beber tanto ele se entregou ao desejo cambaleante de suas pernas, sentou-se sobre o capô de uma caminhonete que estava estacionada na rua. Vislumbrou a moto do seu pai do outro lado da calçada e respirou fundo, pensou que o caminho de volta não seria dos melhores, ele já sentia sua cabeça pesar por conta do uísque. Piscou os olhos devagar várias vezes em tempo de ver um garoto de camisa de flanela, sair sorrateiramente, de um beco lateral e se juntar a um grupo de cinco rapazes iguais a ele, o grupo trocou algumas palavras e seguiu em direção a outra rua deserta. Dave olhou de volta para o beco avistando outros dois garotos, que claramente não faziam parte daquele grupo, suas roupas e cabelo deixavam isso bem claro. Eles estavam encostados displicentemente na parede sebenta que dava para o fundo da boate, onde a festa continuava por um terreno longo e sujo. Dave sabia o que aqueles caras faziam ali. Os dois rapazes de cabelo comprido entraram por uma porta lateral da boate. Aproveitando a distração de seus amigos com uma conversa entusiasmante sobre qual era o melhor racker de todos os tempos, Dave saiu sem fazer alarde, seguiu em direção a porta suspeita no beco, bateu e aguardou até ouvir uma voz seca.

— Senha.

Ele pensou alguns minutos...

— Shot. (Tiro em inglês)

A voz o mandou aguardar no canto, logo os dois garotos reapareceram abrindo a grande porta que tinha um ferrolho barulhento. Um deles tinha o cabelo mais curto que o do outro, e era mais baixo, como uma cópia mal feita de algo original que não corresponde em tamanho nem qualidade, mas tenta. O rapaz mais alto, a versão original, se endireitou olhando em direção ao Dave e estreitando os olhos como se estivesse esperando, de maneira tediosa, que lhe dissesse alguma coisa, enquanto isso o rapaz mais baixo estava grudado à porta, olhando de um lado para o outro como se suspeitasse de algo. Dave percebeu que precisava falar algo.

— Hm, er... me manda qualquer coisa pra me manter acordado.

O garoto alto que levava o cabelo preto, longo e liso, preso num rabo de cavalo, abriu sua jaqueta de fivelas, com zíper transversal, e tirou de bolso um saquinho com dois comprimidos minúsculos, balançou no ar para Dave com um sorriso malicioso.

— Pelo visto o caminho vai ser longo, hein? — O cara de jaqueta falou pela primeira vez, parecia arrogante e muito seguro de si, seguro até demais. — Setenta é o melhor preço que posso fazer pra você, fui a com a tua cara.

— Valeu — respondeu Dave sem graça com o elogio — E o que eles são exatamente? Esses comprimidos.

— Você disse que quer ficar acordado não é? — A pergunta era retórica mas Dave assentiu enquanto o rapaz punha a mão em seu ombro antes de empurrar o saquinho em sua mão — Então eles são exatamente para isso, te manter acordado. Vai querer ou não?

Dave não ficou muito satisfeito com a resposta arrogante do garoto, mas setenta era mesmo uma bagatela. Tirou algumas notas emboladas do bolso e esticou para o rapaz, ele se quer conferiu a grana, apenas passou o dinheiro para sua versão genérica, que ainda vigiava o movimento sem dar um pio, talvez fosse mudo, pensou Dave antes de lembrar que foi ele quem lhe pediu a senha.

— Vê se não vai dar mole por aí, arrume um lugar tranquilo e tome isso com algum energético, deve fazer efeito mais rápido assim. De um jeito ou de outro vai levar uns 20min ainda ou mais, dependendo do seu organismo, e se quiser ficar mesmo ligado toma o segundo meia hora depois.

David assentiu afastando a franja do rosto, o cara parecia bem inteligente e gentil, se daria bem na vida se não fosse um traficante, embora talvez ser traficante fosse algo que ele considerasse bom pra uma vida.

— Faça bom proveito. – Foram as últimas palavras do rapaz mais alto, logo seu semblante voltou a ser de tédio total, e seu comparsa correu com a porta de metal cinza, encerrando eles dois na parte de dentro e Dave no beco encardido.

***

— Pirre eu estou cansada de andar por essas ruas, onde eles foram afinal?

Raesy e Pierre tinham se afastado consideravelmente da quadra onde ficava a Hell's, havia outras boates pelo caminho, boates melhores até, mas que só se entrava conhecendo alguém que conhecesse alguém que fosse realmente importante no lugar, e se o segurança não cismasse com a sua cara. Os clubes emitiam um barulho abafado, era possível ter uma leve noção do que estava rolando lá dentro, mas o bairro em si estava deserto.

— Nossa Rae, às vezes eu não acredito nessa sua ingenuidade. — Pierre divertiu-se com o comentário parando em frente Raesy na calçada, fazendo com que seus corpos trombassem bruscamente, a garota deu dois passos pequenos para trás.

— Sério mesmo Pierre? — Ela pareceu ainda mais incrédula que ele, mas seu tom de voz era irritado — O que você acha que vai acontecer? Que vou resolver beijar você porque o Sebastian não está por perto? Aconteceu uma vez, uma única vez e você sabe muito bem o motivo.

— Mas você gostou não gostou? — Ele sorriu ardiloso e vil como sempre. Pierre guardava cada minuto daquele dia na memória.

Em outra festa, aonde tudo ia além da conta, Raesy havia apagado depois de várias doses de tequila, Sebastian achou melhor deixá-la dormir na caminhonete e mais tarde pediu que Pierre tirasse o carro da rua e levasse até um lugar mais tranquilo, assim a namorada dormiria sem expectadores. Seb só não podia imaginar que estava entregando-a na boca do lobo. Não rolou nada além de beijos e alguns amassos, afinal Raesy estava muito ruim para corresponder a qualquer carícia, e a demora de Pierre levantaria muitas suspeitas. Mas, cruel que era, o garoto fez questão de gravar tudo no celular, Raesy não negava que tivesse participado daquilo e dizer que ela jurava ser seu namorado voltando para vê-la pareceria uma desculpa óbvia e esfarrapada, Sebastian jamais toleraria aquilo, ela então decidiu que era melhor não tocar no assunto e embora Pierre fizesse muitas ameaças de mostrar o vídeo ao amigo o que no começo a deixaram maluca, Rae percebeu que embora Pierre não valesse nada, de alguma forma estranha, ele gostava de Sebastian, gostava de um jeito doentio demais para mostrar aquele maldito vídeo, afinal Pierre sabia que também não seria perdoado.

— Você me dá nojo Pierre!

Raesy puxou o escarro mais fundo da garganta e cuspiu em direção a Pierre acertando-o exatamente no queixo, fazendo-o fechar os olhos e susto. Ela soltou um riso alto e deu as costas para ele, ia caminhando de volta em direção a Hell's quando foi surpreendida por uma risada histérica mais alta que a sua, fazendo eco em suas costas. Raesy pensou em correr, mas não agiu rápido o bastante, antes que pudesse se distanciar Pierre a havia envolvido pela cintura com os braços colando o corpo dela ao seu e a mão tampando a boca e quase o nariz de Raesy. Ele a levantava do chão sem dificuldades sempre que ela forçava o corpo para baixo, e assim a levava de volta ao beco ao mais rápido possível, para bem longe da rua principal. Raesy agitava pernas e braços para se soltar, seus saltos arrastavam pela calçada enquanto ela se debatia presa ao abraço de Pierre e tentando se livrar da mão que mal deixava o ar entrar em seus pulmões, ele era incrivelmente mais forte, o braço forçava contra o abdômen de Raesy que a essa altura estava perto de sufocar, mais um pouco e desmaiaria. Raesy ainda não tinha assimilado a situação "Isso não pode estar acontecendo."Ela fechava e abria os olhos sentindo-se cada vez mais tonta, eles já estavam em uma rua completamente escura quando Pierre finalmente a libertou do abraço de urso, deixando-a cair sobre alguns sacos de lona recostados em uma parede fétida e escorregadia. Raesy apoiou as mãos na parede retomando o fôlego e se arrependeu no mesmo instante em que sentiu o cheiro horrível de urina, bebida e ratos. Ela se ergueu, tentando retomar o fôlego, ainda de costas para Pierre, que agora tentava ajudá-la a se levantar erguendo-a por um dos braços.

— Me larga! — Raesy puxou o braço do aperto com violência e virou-se finalmente de frente para Pierre, enquanto massageava o abdômen dolorido. — Você já está passando dos limites.

— Limites? — Ele parecia tão plácido diante de tudo aquilo. — Nós não temos limites Rae!

Pierre mostrou um sorrio tão largo e penetrante que não fosse pela situação seria até sedutor, o que fez Raesy estremecer. Não havia pra onde ir naquela beco, ela pensou, apenas de volta à rua. A garota deu alguns passos cambaleantes em direção a Pierre e a saída da viela, mas ele imediatamente se interpôs no caminho empurrando-a com uma força desnecessária de volta em direção a parede, Raesy, que ainda não havia se recuperado do brutalidade do abraço de Pierre, desequilibrou-se atingindo o chão e os sacos de lixo de onde saíra a pouco. Assim que recuperou-se do tombo começou a tatear pelo chão para pegar a pequena bolsa que havia deixado cair, Pierre a observava com uma tranquilidade mortal e foi muito mais rápido que a garota. Pegou a caixinha pequena e brilhante do chão antes que Raesy pudesse pegá-la e atirou para trás em direção a rua, a bolsa quicou várias vezes e parou no meio da pista, foi um presente caro e ela jamais poderia justificar tamanho estrago, apesar da eminência da situação ela só conseguia pensar na bolsa, e no quanto jamais poderia recuperá-la ou justificar o que havia acontecido, tinha um valor sentimental naquele presente, e agora estava completamente estragado. Ela olhava de forma fixa e apática para o objeto no meio da pista de piche quando foi arrancada de seu transe pelo comentário ácido de Pierre.

— Não se faça de difícil Raesy.

Ele deu dois passos em direção a ela, agora eles se encaravam de perto. Assim era até possível ver as semelhanças entre ele e Sebastian. Raesy não moveu um único músculo, apenas seu olhar percorria o de Pierre e se pudesse ela o devoraria e estraçalharia ali mesmo. Diante do silêncio dela, ele resolveu se manifestar.

— O seu namoradinho já está drogado demais pra procurar por você, e eu prometi ao meu amigo que manteria você a salvo, E você sabe que sim.

Ele se abaixou o bastante para encará-la de perto, pondo uma das mãos no joelho e usando a outra para tocá-la na bochecha, com uma delicadeza que contrastava com seu jeito de olhar tão aterrador, balbuciando para ela a frase “você sabe que sim”, como se esperasse alguma confirmação de Rae.