Westwood

4 Escarlate


Notas iniciais
Velvet Revolver - Fall To Pieces Alice in Chains - Your Decision

— Achei que viríamos aqui para nos divertir, mas pelo visto você vai ficar nessa aí a noite inteira né? — Perguntou a garota ruiva e alta que estava sentada em um velho sofá de couro preto enquanto brincava com as franjas de seu vestido decotado.

Martin revirou os olhos ignorando o protesto da namorada. Aquelas festas eram a melhor forma de passar toda aquela droga pra frente em uma única noite, ele estava fazendo fortuna naquele dia e não pretendia parar apenas por um capricho de Ariane, além do mais ele sabia que em breve aquele mau humor passaria, principalmente quando ele a comprasse algo bem caro de presente.

Ariane ela lindíssima, seus olhos nunca revelavam exatamente como estava se sentindo, havia um ar mistério e desprezo inquietantes neles, e isso enlouquecia Martin. Justo ele, que se abalava com pouquíssimas coisas. Quando julgava que havia decifrado os desejos e vontades da garota, ela se entediava com tudo e ele precisava se reinventar para voltar a agradá-la. Ari nunca o deixava entediado, não como a maioria das meninas.

As que ficavam com ele apenas para conseguir drogas, essas garotas costumavam fazer qualquer coisa que Martin as pedisse, e tudo apenas por umas gramas de maconha, crack, por alguns comprimidos ou por cocaína, qualquer porcaria dessas e elas comiam na mão dele, no chão, na latrina, no esgoto. Por um tempo Martin as humilhava apenas para diversão, chamava alguns amigos e sujeitava as garotas aos papeis mais ridículos. Seu ápice foi quando uma garota disse que deixaria ele espancá-la se ele quisesse. Nesse dia a menina chorava copiosamente e puxava Martin pelo braço com uma veemência desesperadora. Ela o havia seguido até o banheiro masculino da boate para suplicar por algumas pedras de crack, o que havia deixando Martin transtornado ao ponto de erguer a mão para esmurra-la, ela já havia lhe oferecido sexo e ele negou, afinal não se sentia tesão por alguém assim tão deplorável. No banheiro, ainda com a mão erguida, a garota dissera a Martin que tudo bem se ele a esmurrasse desde que em troca ele a deixa-se fumar “uma pedrinha”, dizia ela “uma pedrinha só, por favor”, “umazinha só”.

Com o tempo toda aquela humilhação perdeu a graça, Martin apenas sentia nojo daquelas garotas, às vezes até de si mesmo. Chegou a considerar a possibilidade de virar celibatário, pois suas lembranças de todo aquele sexo humilhante e sujo lhe causavam náuseas, ele jamais voltaria a fazer tais coisas. Martin conheceu Ariane poucos meses após o seu período de total abstinência sexual. Ela apareceu em uma noite comum de negócios, acompanhando um dos fornecedores de Martin. O cara a havia deixado esperando na calçada, enquanto eles acertavam os valores da compra. Martin, apesar de profissional, era incapaz de tirar os olhos daquela garota ruiva que fumava na calçada e brincava com uma mecha do cabelo rubro intenso.

Em vários momentos ao longo da transação Martin se perdia observando a brasa ficar mais intensa e esmorecer a cada tragada da menina, ele sentiu inveja até da marca de batom escuro que ela deixava na borda branca do cigarro. Antes que terminasse a transação ele impôs uma condição ao seu tratante, apresentá-lo àquela garota, e caso ela topasse ficar com ele Martin prometeu que os negócios prosperariam na maior paz e tranquilidade por muito tempo, trato feito.

Ari não era uma pessoa fácil de lidar, mas para o namorado ela valia cada esforço. Martin continuava na porta, atendendo aos clientes com a ajuda de Clint.

— Quer saber — Ari se levantou ajustando o vestido e o cabelo escarlate, foi até o um espelho próximo checar o make-up. De relance notou que Martin se quer olhara em sua direção — Já que você vai passar a noite inteira saciando esses viciados, eu vou dar uma volta por aí pra tentar sair desse tédio.

Ao ouvir a porta de madeira bater, firme e secamente, Martin deu ombros e continuou o processo de contagem e separação de notas em pequenos maços de 500. Essa atitude do namorado deixava Ari profundamente irritada. Sair com Martin era extremamente proveitoso, ele pagava por suas tatuagens e fazia outros mimos com os quais Ari sempre estivera acostumada até seus pais resolverem castigá-la por seu mau comportamento, bloqueando seus bens temporariamente e enviando-a para morar com a tia e o primo retardado, como forma de castigo. Ao menos era assim que ela se sentia, presa em uma cidade ruim com a parte ruim da família.

Desde que havia ido morar com seus tios teve a certeza quando conheceu Martin de que ele era o cara mais interessante que ela poderia encontrar naquele lugarzinho. Ele conhecia muita gente e conseguia muitas coisas com facilidade, além de tudo era esperto, diferente dos outros, que assim como seu primo não passavam de moleques. Era um porre morar de favor na casa dos outros, mas ainda era melhor que estudar em um colégio interno na Prússia, que era a segunda alternativa de castigo para suas atitudes.

Seus tios quase não ficavam em casa, eram os pais mais negligentes do mundo, e assim ela fazia tudo o que bem quisesse na maior parte do tempo. A pior parte mesmo era aturar o primo, o peste que não perdia uma oportunidade de infernizar sua vida, foi através dele que ela conheceu Martin, e a isso ela era inteiramente grata, embora ainda morresse de ódio quando achava cuecas sujas largadas no banheiro do quarto. Como bons primos eles brigavam constantemente deixando a atitude positiva e resignada para quando seus tios estivessem em casa.

No fluxo intenso da boate Ari se misturava aos corpos suados, não havia mais banda no palco, apenas uma música melodiosa ressoava nas caixas de som, e no volume máximo. Levada pela raiva que sentia de Martin naquele momento Ari procurava uma forma de se vingar. Sabia que nada deixava um cara mais irritado que ver sua garota com outro, agora ela só precisava escolher o tal outro.

***

Dave já havia tomado um dos comprimidos e fazia o caminho de volta pra boate, quando ouviu barulhos próximos, pensou que não passava de coisa da sua cabeça afinal não sabia que tipo de alucinação aquela substância poderia lhe causar, e ele se sentia mais agitado que nunca. Ao dobrar a esquina viu um troço voar e atingir o meio da pista. Dave parou e olhou para os lados embora soubesse que ninguém além dele havia visto aquilo. Observou de longe por alguns segundos, realmente havia um objeto no chão e não custava nada ir verificar, ele sentia todo o seu corpo agitado, e aquilo chamara a sua atenção. Há poucos passos do beco, de onde saíra o objeto voante, Dave pode ouviu vozes com clareza, e então teve certeza de que alguma coisa estava acontecendo, não sabia se devia seguir em frente ou esperar para saber do que se tratava aquilo, suas mãos se agitavam a ele sentiu a curiosidade ruminar em seu estômago, decidiu por esperar, aproximou-se mais da parede do beco e começou a ouvir:

— Você está maluco?

Era uma voz de garota, não era um choro apenas uma voz abalada, disso ele entendia bem, pois sua mãe vivia se lamentado pela casa. Não ouve resposta para ap pergunta da garota, apenas mais barulho.

— Você está muito errado se acha que vai acontecer alguma coisa Pierre, nem que eu tenha que cerrar os meus dentes em você, seu porco nojento!

— Você está louca pra me chupar Raesy, fala, pode falar! Não seja dissimulada, embora isso seja bem excitante.

— Não chegue perto de mim!

Raesy havia sido arrastada dos sacos de lixo até o outro lado do beco, estavam próximos a uma pilha de caixas de madeira e parcialmente escondidos por elas. Pierre, com a fivela do cinto desfeita, estava agora perto o bastante para forçar uma penetração indesejada. Raesy sabia que ele se divertia com o seu desespero e desprezo, mas já não era mais capaz de se manter a calma, o xingava e desferia tapas e arranhões. Pierre a segurava esmagando suas bochechas entre os dedos da mão, Raesy forçava a cabeça para o sentido contrário às investidas e beijos do garoto, foi assim que ela viu um braço se estender na rua alcançando sua bolsa estilhaçada e retirando-a da pista. Subitamente Rae arregalou e revirou os olhos de incredulidade. Sua reação fez com que Pierre se distraísse e aproveitando o momento Raesy o mordeu no lábio, usou força o bastante para arrancar um bocado de sangue, mas a mordida lhe rendeu um empurrão na cabeça, seu cocuruto se chocou contra a parede fazendo um barulho oco e deixando Raesy tonta, semidesmaiada.

Pierre afastou-se dela passando a mão pelo lábio ensanguentado, seus dedos ficaram estavam tomados por uma cor escarlate, o sangue era pegajoso e secava rápido. Ele observou o corpo de Raesy escorregar pela parede até ficar curvado no chão, lembrou-se do empurrão que dera nela. Pierre começou a xingar e chutar a pilha de caixas vazias, atacou também os sacos de lixo e em alguns momentos quase atingiu Rae com seu acesso de raiva. Ele se ajoelhou de frente para Rae. Murmurava pedidos de desculpa, pedidos repetidos e incessantes de desculpa misturados com “a culpa foi sua”.

Raesy não sabia se era a tontura ou se era real, Pierre estava chorando, ele pedia desculpas e a beijava no rosto, ela sentiu o gosto de sangue misturado com lágrimas, matinha seus olhos fechados. Assim que deixou de sentir os beijos de Pierre ouviu passos apressados em direção à rua, passos que se tornaram ecos e em seguida já não ouviu mais nada.