Westwood
5 Fim de festa
Notas iniciais
Enquanto isso na Hell’s...
Era o segundo garoto que Ari puxava pela gola da camisa, e este usava lentes vermelha. O rapaz parecia gostar de escarnificações, pois possuía marcas espalhadas por todo o corpo, definitivamente não fazia do tipo da ruiva e ela logo o devolveu à multidão com um solavanco. Virou uma dose de tequila no balcão e esperou o próximo cara passar, mergulhou a mão na pista de dança segurou alguém pela gola da camisa e foi puxando para si com vontade, porém, desta vez, Ariane foi surpreendida por uma mão firme agarrando sobre a sua, como que protestando ao puxão que levara.
Quando topou com o rapaz notou que não havia nada de especial nele, sem tatuagens aparentes, nada de piercings ou lentes de contato extravagantes. Sem anéis, cordões, ou mesmo dentes de ouro. Nada além uma camiseta branca de algodão entre os dedos esguios e apertados da mão gélida de Ariane, o rapaz que a vestia era tão singular quanto uma camiseta de algodão pode ser, ao menos foi o que Ari pensou.
Os dois se encaravam agora. O apertão do garoto em sua mão não se afrouxou nem por um instante. A camisa branca virara um cabo de guerra. Ari sentia seus dedos doerem sob o apertão do garoto, mas isso só a fez segurar ainda mais forte. No olhar do rapaz havia uma mistura de raiva e qualquer outra coisa que Ari não era capaz de decifrar.
Os amigos de Martin notaram a movimentação estranha entre os dois e se embrenharam na multidão indo em direção a eles. Ari puxou o garoto para mais perto de si, seu plano estava funcionando, logo Martin se arrependeria de tê-la entediado. Infelizmente e para ela, isso ainda não era o bastante. Antes que um dos seguranças puxasse o rapaz do aperto de Ari num ato extremo ela levou a mão livre até a nuca do rapaz, trazendo-o na direção de um beijo fulgurante. Só então sentiu a mão dele afrouxar na sua. O gosto na boca era de bebida e algo que adormecia os lábios, Ari sentiu o sabor de sangue e logo em seguia já não sentia nada. Arrancado dela pelos dois braços, o garoto se debatia conforme o arrastavam entre as pessoas na pista de dança, causando alvoroço e uma cena desagradável.
De volta ao balcão do bar Ari retocava o batom. Notou quando poucos minutos após a cena Martin se aproximou, com um grupo de rapazes em volta. Ariane girou no banco, ficando de frente para o namorado, inclinou a cabeça docemente com um sorriso sarcástico nos lábios recém-pintados.
Sabia que o tal garoto havia levado uma bela surra, mas não havia motivos para sentir medo de Martin. Ele a tocou no rosto e Ari ronronou como uma gatinha, aninhando-se na palma da mão no namorado. Martin mandou fechar a boate, disse que a festa havia acabado e que não era pra deixar sobrar ninguém ali, repetiu em voz alta mais uma vez “Ninguém”.
***
Conforme Pierre se afastava indo em direção a Hell’s, Dave se aproximava do beco. No bolso do casaco levava a minúscula bolsa de Raesy. Quando a viu, apoiada sobre uma pilha de caixas completamente atordoada ficou em dúvidas sobre se aproximar ou não, afinal não queria assustá-la. Respirou fundo e perguntou o mais manso que pôde se a garota queria ajuda.
Raesy se estremilicou dos pés à cabeça. Notou que a voz não era a de Pierre e ergueu os olhos tanto quanto pôde para vislumbrar a pessoa que se aproximava. Dave agora estava de joelhos, tão próximo a ela quanto Pierre estivera antes, porém seus olhos não transmitiam aquele misto de excitação e horror que os de Pie. Havia algo neles que deixou Rae intrigada. As pupilas estavam dilatadas, mas apesar disso ele parecia gentil e inofensivo. Ficaram se encarando por uns minutos até Raesy acenar com a cabeça positivamente.
“Eu peguei a sua bolsa”. Dave removeu a caixinha brilhante do bolso e a estendeu em direção a Raesy. “Está tudo aí dentro”.
“Obrigada”. Respondeu ela, precariamente.
“Meu nome é David, David Runner”.
“Raesy Richards” Ela esticou a mão gentilmente, mas algo que disse parece ter divertido David de alguma forma. “Qual a graça?”
“Nada, é que isso é tipo Peter Parker, Bruce Banner, Reed Richards, Matthew Michael...”. Dave fazia sinais de aspas com os dedos no ar enquanto citava os nomes, e até ergueu a sobrancelha no Richards, mas percebeu que Raesy não fazia ideia de sobre o quê ele falava. Dave sabia que poucas garotas tinha gosto por hq's, cumprimentou-a fracamente. Ainda tentando disfarçar seu divertimento pessoal fez uma pergunta mais séria.
“Namorado difícil?”
Raesy sorriu com sarcasmo em resposta à pergunta de Dave. Ainda constrangido ele não vira graça alguma naquela situação toda. A menina caminhava com dificuldade e provavelmente ficaria com hematomas. Notando o espanto do garoto com sua reação, Raesy resolveu apresentar uma justificativa, afinal ele a ajudara, merecia um esclarecimento mínimo que fosse.
“Me desculpa,” disse ela arfando enquanto caminhavam pela rua “É que... Aquele babaca não é meu namorado”.
“Você pretende fazer algo à respeito? Não acho que você se livrará se um próximo encontro com ele.”
Irritado com tamanha passividade, Dave pensou que aquela menina só poderia ser estúpida, sorte a dele não ter aparecido antes, caso contrário poderia apanhar por motivo algum, e se chegasse em casa esmurrado outra vez seus pais não deixariam passar batido.
“Tem algum lugar pra ir? Eu posso te acompanhar se precisar de carona, prometo que não estou mal intencionado, apenas acho que... Você não está bem pra andar por aí sozinha.”
Rae agradeceu a gentileza, explicou a Dave em poucas palavras que não estava sozinha, que viera com o namorado, um caso complicado no qual ele não precisava se meter. Ela agradeceu novamente a ajuda, disse que ele a havia ajudado muito e se distanciou do abraço de Dave que a estava ajudando a se equilibrar desde que saíram do beco.
“A caminhonete do meu namorado está logo ali na frente, ele não deve estar longe. Segura pra mim?”
Com as mãos frias, Dave pegou a bolsinha aberta das mãos quentes de Raesy. De lá ela tirou um estojinho reluzente. Eles estavam parados na curva antes da rua da boate. Raesy se aproximou da vitrine de uma loja fechada e retocou a maquiagem borrada. Esticou mais a roupa. Retirou os resquícios de lixo de si. Agitou os cabelos, rearrumando em seguida, pondo algumas mechas atrás da orelha. Seus olhos continuavam tristes. Ela se virou de frente para Dave. Deu o sorriso mais simpático que pôde.
“Que tal?”
De início Dave não soube o que responder, pois ela não parecia bem. Apesar disso sabia exatamente que deveria dizer: aquilo ela desejava ouvir. Pensou consigo “Céus, essa garota definitivamente precisa de ajuda”.
“Tá ótima!” Disse ele fazendo um sinal de ok com a mão livre “Tanto que nem parece que acabou de sair do lixo.”
Tão logo disse aquelas palavras, Dave notou a besteira que havia feito. O sorriso falso no rosto de Raesy havia se dissipado completamente. Ela arrebatara a bolsa das mãos de Dave e dera as costas saindo apressada.
Após a curva na esquina da boate Dave ainda a seguia em seus calcanhares, se manteve em silêncio por alguns segundos, até que tomou coragem para se desculpar.
“Saiu sem querer Richards, me desculpe! Eu estava nervoso, o que queria que eu dissesse? Olha só tudo isso que acabou de acontecer contigo, e você nem gritou, não parece estar nervosa, você... Você está aí andando na companhia de um estranho como se nada tivesse te acontecido, o que há de errado com você afinal?”
Parada na calçada Rae puxava e soltava o ar com força.
“Ok então David Runner, você é um estranho que me salvou, poderia ter me largado lá, levado minha bolsa, chamado a polícia e me deixado sozinha para me explicar, mas... Enfim, eu não te devo explicações de nada”.
A voz de Raesy era trêmula, de fato ela não havia chorado até agora, mas não sabia se poderia aguentar mais. Só queria agir como se nada daquilo tivesse acontecido. Esse era o seu jeito de lidar com as coisas, ignorando. E isso não dizia respeito a mais ninguém.
“Obrigada pela ajuda, mas daqui eu já posso me virar sozinha.”
De onde estava Raesy já podia ver a caminhonete de Sebastian, olhou com um pouco mais de atenção até avistá-lo estirado na calçada ao lado do veículo. Raesy apressava os passos até que começou a correr. Alcançou Seb em quest segundos. Notou Dave em suas costas, arfando pela corrida e atordoado com a situação, mas aquilo não importava, para ela só o que importava era Sebatian. Raesy se ajoelhou na calçada e puxou a cabeça do namorado para seu colo, verificou que ele ainda respirava. O rosto estava coberto por escoriações, o olho direito inchava rápido como uma ameixa esmagada, do canto da boca uma bala com filetes de sangue escorria.
Em volta, na calçada, o movimento estava fraco. Ninguém se importou com o choro de Raesy, que agora havia rompido de vez, quase que desproporcional a situação. Do outro lado da calçada a menina entediada que Raesy havia visto no balcão saia abraçada com uma garota loira e um rapaz que se parecia muito a ela, com a vista turvada pelas lágrimas, Raesy não sabia se o que estava vendo era real, um vulto negro e esquio, de quase dois metros, acompanhava os três bem de perto, até que entraram no Mercedes, estacionado do outro lado da rua.
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