Westwood

2 Hell's Dance


Notas iniciais
Sugestões de trilha sonora: Cold - Sad happy Rage Against The Machine - Killing in the name

Ela empurrou novamente o indicador até o fundo de sua garganta forçando assim um jato de vômito mais fraco e azedo que os anteriores. Usando calças propositalmente rasgadas, que faziam seus joelhos tocarem o chão imundo do banheiro da boate Hell's Dance, Lisa levantou cambaleante se apoiando nas paredes rabiscadas do cubículo, limpou a boca e deu descarga saindo ainda tonta em direção a pia, jogou água no rosto fazendo boa parte da sua maquiagem escorrer pelas bochechas, ela respirou fundo e deu um tapa forte na própria cara, uma tentativa desesperada de manter-se alerta que deixou muita marca e pouco resultado. Secou o rosto com algumas toalhas de papel, tirou um kit da bolsa e refez a maquiagem em poucos minutos, com a habilidade que tinha ficava fácil. Olhou-se no espelho fazendo um beicinho e piscando para seu reflexo que piscou de volta ao mesmo tempo, estava novinha em folha. Lisa recolocou as coisas na bolsa e pegou seu meio maço de Marlboro Light, estava pronta para sair do banheiro quando captou na visão periférica do espelho um vulto negro de quase dois metros se estendendo atrás da porta como se fosse devorá-la, Lisa girou a cabeça imediatamente apenas para se deparar com a o vazio da parede pichada de boate vagabunda, apressada a garota respirou fundo e saiu do banheiro mergulhando de volta na multidão barulhenta e agitada. Enquanto desviada dos corpos e ascendia o cigarro sentiu um puxão firme em seu braço direito.

— Onde diabos você estava? – Era seu irmão num sussurro preocupado que quase a matou de susto. Ele a segurou mais perto e eles seguiram juntos em direção ao bar, assim que se sentaram ele pediu ao barman uma garrafa de água mineral.

O lugar estava lotado naquela noite, a banda no palco gritava e parecia ter saído direto de uma tempestade de tão ensopados. A boate cheirava a suor, cigarros, fumaça artificial, e isso era só o que dava pra distinguir entre odores múltiplos e tão peculiares. O garoto que era um pouco mais esguio e alto que a irmã abriu a garrafa de água e empurrou em direção a Lisa, que a recebeu com uma resposta grosseira e direta

— Não quero isso – A garota encarou o irmão, suspirou fundo como fizera no banheiro, para Lisa aquela noite estava sendo um verdadeiro pé no saco.

— Qual é Monalisa, não tente bancar uma de durona agora ok?

Demovida pela insistência gentil e inalterada do irmão ela assentiu dando um gole longo na água mirando-o de rabo de olho como quem diz “Assim está bom pra você?”. Assim que chegou a metade Lisa devolveu a garrafa se escorando em seguida no balcão apoiando uma das mãos na testa e o cotovelo na poça de água formada pelo suor das bebidas.

— Satisfeito Ângelo? – Disse ela enquanto forçava um sorriso exagerado entre os lábios de batom cor rouge.

— Vá se foder, eu já disse que não é pra me chamar assim.

Seus nomes — Monalisa e Michelangelo — eram uma homenagem dada por seus pais extremamente pedantes, o que no fundo fazia com que nenhum dos dois filhos gostasse da referência. O irmão pediu ao barman uma dose de qualquer coisa que Lisa não entendeu muito bem, o local estava barulhento e a ideia de que aquele vulto no banheiro poderia ser sua mente sinalizando uma nova recaída a fez ficar ainda mais tensa em sua resposta.

— E eu não gosto que me você chame pelo nome também, já disse que é Lisa! Se me chamar assim na frente de alguém que eu conheça irei te chamar de Ângelo quando e o quanto eu bem quiser entendeu? Maninho. – Seu tom era de total deboche.

— Ótimo. — Ele bufou e virou o drink de uma só vez, batendo de volta com o copo na mesa. — Agora esquece isso e vê se não sai daí e se sair pelo menos atende essa merda de celular porque eu te liguei umas trezentas vezes.

Antes de sair ele se despediu da irmã com um tapinha no ombro e um beijo rápido na testa. Apesar das brigas Lisa e Mitch aprenderam cedo que só podiam contar um com o outro. Após vê-lo sumir na multidão não muito colorida, a não ser pelas luzes do strobo, Lisa deslizou a mão pra dentro da bolsa e puxou o celular: "5 chamas perdidas, Mich Bobão" pediu uma cerveja ao garçom e resolveu ficar sentada ali por mais algum tempo até ficar bêbada de novo, ou pegar no sono.

...

Raesy até gostava de frequentar esses lugares agitados como a Hell’s, e antes de ficar bêbada o seu prazer particular era o de observar ao máximo o cenário hedonístico proporcionado por aquele local, e assim ela ia tentando adivinhar coisas sobre a vida pessoal de quem mais lhe chamasse a atenção.

Naquela noite Reasy percorria os olhos pela multidão, que se debatia frenética no meio da pista de dança, ao som de algum punk rock, até notar que do outro lado do balcão havia uma garota tão sozinha quanto ela. Diferentemente de Raesy a menina parecia entediada e profundamente indiferente ao barulho estridente da banda que berrava, parecia indiferente até mesmo a presença de todas aquelas pessoas. Não fosse pelo seu histórico desastroso em fazer amizade com pessoas do mesmo sexo Rae sem dúvidas teria se aproximado daquela menina para conversar. Antes de imaginar sobre como aquela menina seria e de onde viria Raesy voltou seu olhar pra mesa alta onde estava seu namorado, rodeado por grupo de amigos, concluiu com uma pontinha de inveja que para Sebastian parecia tão simples fazer amizade com as pessoas. Rae se imaginou sendo assim por um instante. Na sua visão ela estava rodeada de garotas sorridentes em alguma mesa da boate, aquela menina de cabelos pretos do outro lado do balcão estava lá e com uma fisionomia muito melhor. Raesy buscou na multidão outras pessoas que pudessem figurar seu grupo de amigas. De rosto em rosto reparou o quanto as meninas na boate eram bonitas e atraentes, usavam decotes, meia-calça, brincos enormes, cabelos esvoaçantes, e até uma ruiva que dançava e transpirava no meio da pista parecia artificialmente saída de um comercial de TV. Raesy sentiu-se ridícula por se imaginar com aquelas garotas, tanta terapia não havia melhorado em nada seu complexo de inferioridade, ela apenas fingia que estava bem pra evitar o olhar de pena das pessoas. Afastando a ideia com um sorriso de autopiedade Reasy voltou logo a observar o namorado.

Ele e os amigos eram bem parecidos, usavam o mesmo corte de cabelo, rente ao estilo militar. Sempre vestiam de camiseta regata branca ou cinza e calça djeans surradas. Sebastian era um cara bonito, chamava atenção pelo seu cabelo curto num tom loiro acinzentado bem claro, os olhos verdes muito sutis e a tranquilidade que passava na voz e nas atitudes, ele quase não sorria, mas quando o fazia Raesy achava apaixonante. Também aparentava ser mais velho que a idade que tinha e às vezes era bem arrogante, mas com ela sempre foi sincero e gentil, ela sabia que nas festas o namorado a tratava diferente, ficava distante e se metia com coisas que ela não fazia a menor questão de saber ou entender, Raesy só era capaz de enxergar o cara que ele era quando estavam a sós.

A garota permanecia tão absorta em seus pensamentos sobre o namorado, que foi surpreendida por Pierre, sussurando com uma voz grave ao pé do seu ouvido.

— Não adianta ficar olhando Raesy, eu não estou lá.

Por conta do susto Rae quase entornou a cerveja no próprio vestido, ela tossiu um pouco, em seguida limpou do queixo parte da bebida que havia escorrido pelo seu nariz, tentando responder ao comentário desagradável que acabara de ouvir do melhor amigo de Sebastian.

— Não seja nojento Pierre!

Ficava mais que furiosa quando Pierre se aproximava dela daquele jeito, ela fugia das investidas do garoto desde que tinha começado a sair com Sebastian, pensou em contar ao namorado sobre as segundas intenções do rapaz diversas vezes, mas eles eram como unha em carne embora para ela Pierre parecesse mais um parasita que vivia às sombras de Sebastian desde o jardim de infância.

— Nossa, eu adoro quando você banca a difícil Raesy! — Ele sorria como se presenciasse um espetáculo de circo burlesco, parecia realmente excitado com o desconcerto da garota.

— Sabe o que eu acho? Que você morre de tesão nele, é isso sim, você é louco pelo seu melhor amigo, e por isso é incapaz de vê-lo com alguém que não seja você!

Pierre sorriu como se não desse a mínima para a ofensa da menina, ele se debruçou sobre o balcão e pediu uma dose de uísque. Mesmo que quisesse Raesy não podia dizer o que pensava ao namorado — ela ensaiou aquela frase na cabeça várias vezes e Pierre nem havia se irritado ao ouvi-la — talvez Sebastian não entendesse bem a situação caso ela lhe contasse tudo. Rae tinha noção de que o namorado não era muito tolerante com certos limites, sabia das possíveis consequências em deixá-lo irritado, algo irreparável poderia acontecer.

— Ele pediu, para que eu ficasse de olho em você. – Ele falava tão próximo ao rosto de Rae que era possível sentir seu hálito de Jack Daniel e alguma outra coisa fétida.

As palavras do garoto tinham um tom exagerado, Raesy cruzou os braços e segurou sua bolsa virando-se de costas para ele, Pierre olhou em direção a mesa onde o grupo de amigos se reunira em tempo de vê-los sair, sabia aonde iam e aproveitou a oportunidade, segurou a Raesy pelo braço.

— Vamos, o Seb foi resolver um assunto com os garotos pediu pra encontrarmos com ele logo depois que terminasse.

Reasy não tinha objeções. Olhou a mesa vazia onde o grupo de rapazes se juntara há alguns minutos atrás e desceu do banco com um salto suave dando uma última olhada pra garota solitária do outro lado do bar, que já não estava mais tão solitária, havia com ela uma garota loira com dread's azuis e lentes brancas nos olhos, sua aparência era no mínimo exótica, mas Raesy não tinha mais tempo de observá-las, Pierre já a estava puxando pelo meio da multidão que não parava de se debater ao som da música punk.