We're All Heroes
1 Biscoitos da sorte azarados
Notas iniciais
GIU
Eu não faço a menor ideia do por quê de eu estar nessa escola. Meu pai sabe que eu vou ser expulsa, como sempre. O fato é que, por mais que eu goste dos assuntos falados, simplesmente não consigo ficar quieta, principalmente quando você tenta se concentrar com as letras saltando da lousa, dificultando minha leitura.
– Alunos novos — uma voz feminina soou nos alto falantes do corredor — favor se dirigirem à sala da diretora. Bom dia.
OK. Eu era aluna nova e não fazia a menor ideia de onde era a diretoria. Muito esperto, esse recado. Ando timidamente pelos corredores e de relance vejo uma garota loura com algumas mechas, rindo com outras duas.
Por um momento penso em perguntar a elas onde era a diretoria, mas alguém me cutuca. Olho para trás.
–Oi! — um garoto estava parado ali, sorrindo — eu sou o Thomas. Você deve ser nova. Quer ajuda para chegar à diretoria, Giu?
Levanto uma sobrancelha.
– Como você sabe o meu nome?
Thomas hesitou, mas logo se recompôs, parecendo nervoso.
–Eu... eu ouvi seu pai se despedindo de você.
– Você estava me seguindo?
– Não! Não... — sua voz falhou — você quer que eu te acompanhe ou não?
–Tudo bem — eu provavelmente deveria estar desconfiada, mas ele parecia ser alguém em quem eu poderia confiar.
Thomas me guiou pelos corredores lotados até uma grande porta onde lia-se algo como "IDOTREIAR, ATBA NTESA ED NERTAR". O quê?
– "Diretoria, bata antes de entrar" — Thomas leu para mim. Eu deveria estar com uma cara bem confusa para ele perceber que eu não tinha entendido, mas ele me olhava como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. — Vou ter que ficar por aqui. Boa sorte.
– Boa sorte? — mas ele já estava longe. Respirei fundo e entrei na sala.
Lá dentro havia uma mesa com uma toalha branca cheia de doces e uma faixa que, mais tarde descobri, dizia "BEM VINDOS, NOVATOS". Meio brega demais, mas fofinho para uma diretoria. Lá haviam alguns sofás com alguns alunos sentados e só havia um lugar livre, ao lado de uma garota que dormia em cima dos joelhos dobrados junto ao corpo. Sentei com cuidado para não acordá-la, mas ela levantou a cabeça num pulo e olhou para mim.
– Hm... oi — disse eu, tentando parecer confiante.
Ela apenas me cumprimentou com um sorriso e se debruçou, pegando de sua mochila um livro. Sortuda. Ela pelo menos podia ler. Com a minha dislexia... eu não podia ler nada. Mas quando olhei a capa do livro me espantei ao ver que estava em grego.
– Hã... Você lê em grego?
– Sim — ela corou — eu... gosto.
E, por algum motivo consegui ler a capa do livro em grego perfeitamente, como se minha dislexia nunca existira.
ISA
–Biscoitos da sorte! — Gabi exclamou pegando uma caixinha em forma de um gatinho.
– Meu Deus, Gabi — disse eu — você só come isso! Por acaso assaltou algum restaurante chinês?
– Não! — ela abriu um — Minha sorte: Mais vale um amigo verdadeiro do que dez falsos!
– Fofo — Júlia disse ao meu lado, abrindo outro — a minha: Não se deixe enganar com falsas promessas.
– OK. — abri um — "Com um juramento poderão salvar os que foram interrompidos". O quê? Mas que tipo de sorte é essa?
As duas riram, mas senti que precisava guardar essa "sorte". Um garoto se aproximou de nossa mesa, com uma expressão preocupada, mas pareceu notar meu olhar e tratou de sorrir.
– Oi meninas. Eu sou o Thomas.
– Oi Thomas — Júlia disse distraída, ainda olhando seus números da sorte.
– Vocês se importam se duas amigas sentarem aqui?
– Não, tudo bem — Gabi sorriu, e apontou para as quatro cadeiras vazias do nosso lado. Parecia que ninguém queria sentar com as "esquisitas" na hora do intervalo. Uma companhia a mais não faria mal.
Duas garotas se aproximaram da mesa, uma loira parecendo desconfortável e a outra morena parecendo nem ao menos notar que estava ali. Seu olhar era distante. Embora estivessem andando lado a lado, não pareciam ser amigas, apesar de haver algo em comum entre as duas. Ou talvez sejam apenas devaneios meus.
– Oi. — a loira disse — eu sou a Giu.
– Oi Giu — eu disse comendo minha barrinha de cereais — Nova?
– Nós duas. — a morena disse, tranquilamente, como se estivesse dormindo, concentrada em seu livro.
– Ótimo. — Thomas parecia desconfortável — bem... essa é a Maria Fernanda.
– Mafê, por favor.
– Ei, que livro você tá lendo? — Gabi exclamou, tirando o livro das mãos de Mafê e olhando na capa. Fez uma careta — está em grego!
Thomas parecia cada vez mais nervoso. Olhei para Mafê e percebi que ela parecia irritada, como se o fato de Gabi ter tirado o livro de suas mãos fosse algo que ela devesse se envergonhar.
– Você pode, por favor, devolver meu livro? — disse, seus olhos faiscando.
– Hum, tá. — Gabi jogou para Mafê, que pareceu perturbada por um instante e deixou o livro cair, mas parecia mais tranquila. Incrível.
Volto minha atenção para os biscoitos, e lembro novamente da minha sorte. Talvez eu devesse ligar para a fábrica e avisá-los sobre essa sorte esquisita e perguntar que significado aquilo tinha. Pensando bem, aquilo seria meio idiota da minha parte.
– Acho melhor vocês guardarem isso. — uma garota loira disse, andando em direção de nossa mesa — biscoitos da sorte não trazem exatamente sorte.
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