Notas iniciais
Primeiro capítulo, YAY, espero que gostem :3

Eu nunca tive problemas para colocar minhas ideias em dia, quer dizer, eu sabia o que eu queria e quando queria. Mas, agora, olhando as ruas brancas de neve, minha própria respiração quase sólida no ar, encarando aquela pintura do outro lado da rua, eu me senti vazia, pela primeira vez desde que me conheço por gente. Não era uma coisa que me acontecia sempre, mas eu tinha vontade de entrar naquela parede, que todos os dias parecia estar de uma cor diferente, às vezes azul clara com rosa clara, cor de algodão doce, às vezes de tons mais vibrantes, mas sempre ali, me encarando, me esperando. Havia histórias sobre aquela pintura, histórias que eu sempre ouvi, sempre me falavam que aquele era o retrato de um lugar que só alguns conseguiam ir, um lugar onde tudo era possível, uma cidade dentro dos seus sonhos, onde tudo que você sempre quis estaria lá, te esperando... mas claro, tinha um porém, não era o que você dizia querer, superficialmente, era o que seu subconsciente sempre desejou, o que seus pensamentos mais profundos ansiavam, o que você não tem controle. Bem, eu nunca acreditei nisso, quer dizer, era uma coisa que minha vó e minha mãe me contavam quando eu era criança, antes de eu ir dormir, tinha dias, como hoje, que eu vinha aqui, e sentava na calçada só pra olhar as cores das montanhas, do céu, das águas dessa pintura, elas me acalmavam, me davam segurança.

Hoje era um dos dias mais frios do ano, minha mãe e o marido dela estavam brigando de novo, então resolvi que sair pela janela do meu quarto e fugir pelo dia não era uma ideia ruim. Andei por Chicago inteira até chegar aqui, uma avenida perto da faculdade, bem longe de casa, bem longe de South Side. Meu estômago estava roncando fazia meia hora já, mas eu sabia que se colocasse a mão no bolso não ia ter mais que dois dólares, então apenas suspirei e levantei do chão congelante, mesmo sem olhas pra trás eu sabia que ele estava lá:

— Como você sempre me acha? – Perguntei olhando na direção do meu melhor amigo, Ian Jackson, eu não ia sobreviver um dia sem esse menino, ele era minha outra metade, meu irmão de outra mãe. Não, eu não gosto dele “daquele” jeito, até porque ele tinha rolo com um amigo nosso, o Jack.

— Você está sempre no mesmo lugar, sempre olhando essa pintura, você já chegou perto dela? Por acaso? – Ele perguntou apagando o cigarro na parede, seus olhos verdes brilhavam em contraste com sua pele pálida e suas sardas clarinhas, o cabelo de um ruivo laranja brilhava sob o fraco sol de inverno.

— Não, nunca tive a oportunidade, quer ir ver? – Perguntei mordendo o lábio inferior, o provocando a correr comigo. Ele sorriu de um jeito travesso e veio atrás de mim, atravessamos a avenida como um raio, chegando ofegante na frente da parede que tanto nos interessava, olhei pra ele com ansiedade e chegamos mais perto, a cada segundo eu me sentia mais hipnotizada pelas cores, ele parecia sentir o mesmo, porque estava com cara de fascinado também, estendi a mão e encostei na parede, o mundo pareceu girar mais devagar quando a pele fria da minha mão encostou no cimento quente, sim, quente, da parede, luzes neon brilhavam ao lado da minha cabeça, fiquei imóvel, não conseguia respirar, falar, apenas senti como se o vazio dentro de mim fosse preenchido vagarosamente, me esquentando, um vento primaveril sobrou em meus cabelos, jogando as mechas azul elétricas e cinzas na frente dos meus olhos, me deixando tranquila e feliz, espera, meu cabelo é castanho, mas o que...? Foi quando eu senti, uma dor dilacerante que vinha do meu peito, até as pontas dos meus dedos, fazendo eu fechar os olhos com força e tirar a mão da parede e me encolher. Abri os olhos novamente e senti o frio em volta de mim me tomando novamente, olhei do meu lado e Ian estava levantando do chão, segurando a mão que estava na parede na outra:

— Você sentiu isso? Caralho, queimei minha mão, merda. – Eu estava tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer, não tinha passado nem dez segundos.

— Espera, você queimou a mão? Sentiu mais alguma coisa, dor no peito? – Perguntei olhando a mão dele, realmente estava vermelha e quente.

— Não, por quê? Você sentiu? Você tá bem? – Ele pareceu preocupado, fiquei quieta por um momento, examinando a mão dele, que estava voltando ao normal, tirando pela cicatriz de triângulo que se formava no centro de sua palma. – Mary Liz? – Ele me chamou mais uma vez.

— Eu to bem, só, que estranho. – Fiz uma careta pra parede, aproximando minha mão mais uma vez, fui interrompida por uma voz familiar chamando a gente.

— LARANJINHA, FANTASMINHA! O que o casal mais lindo de South Side está fazendo aqui? – Jack chamou a gente e veio sorrindo em nossa direção, debochando, Ian corou automaticamente, o que acontecia quando o Jack estava por perto.

— Primeiro: eu não sou tão branca, o cabelo dele não da pra defender e o que você ta fazendo aqui? Carro de quem veio roubar? Segundo: vai a merda, Jack. – eu me defendi com um sorriso no rosto.

— Roubar? Eu? Sou um moço educado, além do mais, vim tomar conta de vocês, que somem sem mais nem menos, e aí, vocês tão bem? – Ele disse olhando com luxuria pro Ian, que sustentava o olhar de seu querido amante secreto, meu deus, se comam ali no beco, ninguém vai ligar. Ri da situação e os puxei pelo braço, andando de volta pra casa.

— Vamos, seus merdas, preciso voltar pra casa pra garantir que minha mãe não matou o Henri, e almoçar. – Pegamos o metrô duas quadras mais pra frente e fomos pra casa, bom, eu fui pra casa, eles... não sei. Garanti que não havia nenhuma morte em casa, almocei e fui pro quarto, já estava sem toda aquela roupa de frio que era necessário nessa bela cidade que eu habito, me encarei um pouco no espelho, o Jack tinha razão, eu era muito branca, se eu platinasse o cabelo e encostasse em uma parede branca eu sumia. Meus cabelos castanho avermelhados caiam em cachos leves a largos até o cós da calça, meus olhos castanhos estavam cansados de não dormir na noite passada (culpa da minha mãe, que ficava brigando com o marido até as cinco da manhã), me preparava pra ir trabalhar quando minha mãe me chamou da porta do quarto:

— Mary Liz? Aquele menino, o Michael, veio aqui te procurar, vocês estão juntos? – Ela perguntou, me olhando curiosa.

— Eu e o Mike? Não, provavelmente era alguma coisa do trabalho. – Respondi rápido, sinceramente, eu não sabia o que rolava entre a gente, a gente sempre ficava, mas os dois gostavam de ficar sozinhos, sem compromisso, até que virou essa bagunça que a gente é hoje, isso já faz dois anos. Ela sorriu derrotada e saiu, tirei a camiseta para colocar o uniforme da loja, Charlie’s Mercearia, que eu trabalhava, quando me virei pro espelho, ainda só de sutiã, notei algo que antes não estava lá antes: a cicatriz de triângulo.

Notas finais
Comentários são bem-vindos. Amu vuxes já :p