Welcome to badlands

27 Capítulo Vinte e Seis: futuro advogado.


Uns dias depois de Eleanor ser presa, uma mulher mais velha bateu à porta da casa de Tristan. Seu olhar percorria a casa atrás dele e seu rosto, o semblante incomodado. Era cedo e Tristan correu para atender a porta porque pensava que era o correio.

— O responsável está?

— A minha mãe está tomando banho – ele respondeu e encarou a mulher – O que você precisa?

— Meu nome é Francisca Torres, sou do conselho tutelar.

Tristan sentiu seu coração acelerar em seu peito. Ele tinha certeza que aquela velha o tiraria daquela casa e o mandaria para um orfanato, longe de sua mãe. Ele paralisou na porta até escutar a voz da sua mãe do outro lado da casa, no banheiro, enquanto fechava o chuveiro:

— Quem está aí, Tris?

— Conselho tutelar – ele gritou de volta, mas considerou que aquela não havia sido a melhor decisão. – Me desculpe, senhora. Entre – ele abriu mais a porta. A mulher não o encarou, parecia inabalável a qualquer situação.

Francisca sentou no sofá, seu semblante era sério e a postura ereta, aguardando. Analisou a casa inteira, encarou o cachorro, deitado no tapete da sala encarando a mulher desconhecida com a cabeça inclinada para o lado.

— Você está bem, Tristan? – ela ergueu os olhos para ele, sentado na poltrona ao seu lado. Zion fez menção de pular em seu colo, mas ele o repreendeu antes, o que fez o cachorro voltar para o seu lugar com o rabinho entre as pernas.

— Eu estou, senhora – ele tentou soar sério, mas estava com medo. Não queria ir embora. Cogitou levantar e implorar que não o tirasse da sua mãe, mas aquilo o faria parecer uma criança de cinco anos, não ajudaria nada.

— Você considera sua mãe capaz de cuidá-lo? – sua pergunta soava inocente, mas sua expressão denunciava o que as palavras não conseguiam: sua sobrancelha direita estava erguida, a cabeça inclinada para Tristan, o encarando. Sua boca era uma linha reta com rugas.

— Claro – Tristan deu de ombros, tentando tirar a seriedade do ar, mas a mulher permaneceu com o olhar focado em cima dele.

— Você está fazendo terapia?

— Terapia é para gente rica – Tristan riu e a mulher franziu o cenho e balançou a cabeça.

— Você tem direito a atendimento psicossocial.

Daisy saiu do banheiro enquanto Francisca explicava a Tristan sobre o atendimento. Ele não parecia confortável falando sobre aquilo, Daisy reparou na sua cara de dor enquanto ouvia as palavras da mulher.

— Oi, bom dia – Daisy se aproximou da mulher e apertou sua mão. Francisca olhou para Daisy dos pés à cabeça, reparando na calça e na camiseta de mangas longas apesar do calor.

— Eu estou aqui para avaliar a situação de Tristan. Percebi que a senhora não o encaminhou para o atendimento, como a aconselhei há alguns dias por telefone – Francisca pegou sua bolsa pequena de couro. A abriu e tirou um cartão lá de dentro. – Ligue e marque uma consulta – ela entregou o papel a Daisy, que pegou e o encarou por alguns segundos.

— Tudo bem, vou marcar! – Daisy se encaminhou para a porta, mas percebeu que Francisca continuou sentada.

— Poderia me explicar o porquê do seu filho estar com a tia e não com a mãe? – ela franziu o cenho para Daisy, que sentou ao seu lado, sentindo o coração acelerado.

Tristan agarrou os braços da poltrona, sabendo que naquele momento seria órfão.

— Eu não estava em condições de cuidá-lo – Daisy pigarreou – Nunca imaginei que sua tia faria algo assim. – ela passou a mão pelo rosto, frustrada. Francisca permaneceu a encarando com o cenho franzido. – Eu estou aqui agora. Sei que é tarde, mas o que eu puder fazer para ajuda-lo, eu vou.

— Espero que você não volte a abandoná-lo. Só queremos o bem do Tristan, certo?

Francisca continuou ali por mais alguns minutos, apenas analisando tudo e vez ou outra mencionando o quanto a doutora Aurora era incrível e o Tristan ficaria bem. Mas Tristan não se sentia bem. Não por causa da consulta, mas pelo jeito que sua mãe estava se comportando. As costas curvadas para a frente e o rosto concentrado encarando Francisca. Tristan não sabia há quanto tempo estava raspando os braços da poltrona com as unhas, mas quando tirou as mãos dali, sentiu o estofado rasgado.

Colocou as mãos no colo enquanto balançava seu pé direito no chão em um ritmo contínuo. Para cima, para baixo. Francisca levantou-se graciosamente do sofá e se despediu, murmurando "nos vemos em breve".

Tristan ainda não estava acostumado com a arrumação da sua mãe na casa inteira e não facilitava quando ela decidia mudar tudo de novo. Ela estava tão que pediu a Osmar para busca-la e irem comprar móveis. Daisy convidou Tristan, mas ele negou porque em breve receberia o resultado da sua prova. Ele checava os e-mails no celular que ganhou do padrasto, mas seu olhar era atento na rua, à espera do correio.

Morar com Daisy estava sendo melhor do que Tristan considerou. Ele não tinha medo de ir pra cama dormir, não tinha medo de tomar banho de porta aberta e nem de sentar ao lado da sua mãe na mesa na hora do café, que Daisy preparava para os dois todas as manhãs.

Ela acordava todos os dias antes das oito, caminhava pelo bairro para conhecê-lo e voltava para preparar café da manhã e acordar Tristan. Era sua rotina.

Tomavam café juntos e depois Tristan saía com Zion — que começou a demolir algumas coisas da casa, mas por sorte a Daisy nunca reclamava — para procurar emprego pela vizinhança, sempre checando o seu e-mail no celular. Voltava para casa perto da hora do almoço e à tarde ficava em casa ou ia à lanchonete, sempre reclamando que o tempo parecia não passar. Quando voltava para a casa, à noite, Zion corria para a caminha ao lado da cama de Tristan no quarto e dormia a noite toda enquanto Tristan e Daisy assistiam algum filme ou programa de televisão e se conheciam um pouco mais a cada dia. Essa era a rotina deles.

Nas noites que Osmar dormia lá, Tristan fugia para o apartamento de Keith e Aiden com Zion a tiracolo.

As noites e madrugadas no apartamento deles se resumiam em bebedeiras e conversas até Sawyer precisar ir embora ou até alguém reclamar do barulho, embora o clube de strip-tease fosse o culpado pelos vizinhos não conseguirem dormir.

— É legal ter o próprio teto, né – Sawyer encarava a janela em uma dessas noites, antes de precisar sair para trabalhar com o Seth.

O trabalho em questão muitas vezes não envolvia drogas, mas outra paixão de Seth: armas. No começo, os olhos de Sawyer brilhavam enquanto encarava o objeto letal, o considerava bonito. Era o poder que aquilo carregava. Seth o ensinou a usar a arma quando tinha onze anos. Lembrava-se de segurar, sentindo o peso dela e depois a erguendo, para testar. Seth o encarava admirado, como se Sawyer fosse seu pequeno projeto.

Em nenhum momento temeu que seu irmão se tornasse igual a ele. Àquela altura Seth já estava tão acostumado com sua realidade e suas escolhas que tinha certeza que não existiam outras possibilidades para garotos como eles.

— Talvez a gente consiga fazer vocês dois morarem aqui também – Keith começou – Aiden e eu andamos conversando...

— Ah, o que? – Tristan parou de servir água para Zion no pequeno pote que ficava no apartamento e encarou os garotos em volta do sofá. – Minha mãe finalmente volta e pede pra morar com ela e você espera que eu venha pra cá? Poderia ter aparecido com essa oportunidade há alguns meses, né? – Tristan riu e suspirou – ia ser legal morar com vocês.

— Bom, minha situação não é muito diferente – Sawyer pigarreou e desviou os olhos da janela – eu não posso sair de lá. Agora que minha mãe está bem e eu preciso arranjar um emprego – ele murmurou, porque sempre dizia aquilo. Aiden revirou os olhos, porque sabia que ele já trabalhava, só tinha vergonha de admitir para os amigos.

— Tanto faz — Keith deu de ombros, como se aquilo não importasse e pegou seu copo com cerveja. Fazia calor no apartamento, mesmo com a janela aberta.

— Você tá chateado, eu sei – Tristan sentou no chão em frente ao Keith, com as pernas cruzadas – mas não é porque não queremos, é porque realmente não podemos...

— Tá bom – Keith revirou os olhos e bebeu a cerveja – mas eu estou legal. Moro em um apartamento e não dependo do meu velho. Vou ser pai – ele bebeu o restante da cerveja e sorriu, sua boca com espuma – Até vale a pena voltar pra casa fedendo à fritura.

— Nunca conseguiria imaginar você assim – Aiden o encarou – feliz que vai ser pai.

— Ele tá bêbado – Tristan riu, levantou do chão e olhou para o relógio. – Acho que vou tomar banho para deitar, vocês se importam? – Ele largou Zion no chão, que começou a segui-lo pelo apartamento. Keith apenas deu de ombros enquanto acendia um cigarro.

— E eu preciso ir – Sawyer bufou, querendo ficar naquele apartamento. Aquele lado do bairro parecia melhor, mas para ele qualquer coisa era melhor que o lugar onde morava.

— Já? – Aiden o encarou triste – são dez horas ainda. Você costuma sumir as onze – ele riu, mas parecia chateado.

— Hoje vou mais cedo – ele respondeu simplesmente enquanto encaminhava-se para a porta. Keith acenou brevemente e ficou encarando Aiden enquanto ele observava Sawyer se afastar.

— Você me acha um irresponsável? – Keith perguntou, largando a caneca de cerveja.

— Não – Aiden franziu o cenho – você mesmo disse, está melhor do que nunca – ele sorriu, sentando ao lado de Keith – não fica preocupado.

— Ingrid não conta comigo pra nada. Meus amigos não levam fé em mim... – ele suspirou, lembrando-se de como Tristan desdenhou dele.

— Ei, levamos sim – ele revirou os olhos e socou o ombro de Keith – só não estamos acostumados com você assim.

— É porque a gente precisa crescer, né? Meu pai tá feliz que estou aqui, todos os dias ele leva uma mulher diferente lá pra casa. Ingrid adorou o apartamento, mas quer fazer várias mudanças por causa da criança. Aquele trabalho não vai me dar nenhum futuro, mas é fácil! E é melhor do que mexer com coisa errada, né? – os dois pensaram em Sawyer, mas não havia o que pudessem fazer àquela altura.

— Você está indo no caminho certo, Keith – Aiden tocou no seu braço.

Aiden estava se acostumando a viver com Keith. Apesar de o garoto ser complicado, eles se entendiam.

Todas as manhãs acordavam cedo e saíam para o trabalho, almoçavam no apartamento e voltavam à lanchonete às duas horas para ficarem até às sete da noite. Eles viviam cansados, mas quando os amigos apareciam, esqueciam as dores nas pernas e o sono.

Quando os garotos não apareciam, o que era raro, ficavam assistindo televisão até adormecerem no sofá e depois começar tudo novamente. Essa era a rotina deles.

Sawyer caminhava com o corpo inclinado para frente e as mãos no fundo dos bolsos. Ele percorreu todo o caminho até o beco pensando em Aiden e Keith e na vida que eles levavam. Sawyer queria um trabalho normal e uma vida normal, mas ele devia à Seth. Mikael nunca mais apareceu e Sawyer desconfiava que ele foi atrás da mãe, ou simplesmente se mudou. Nunca teve chance de contar o que ele fez, mas quanto menos pessoas soubessem, melhor.

Algumas pessoas ficavam na rua e ele ia despachando com a mão enquanto se aproximavam para pedir esmola. Sawyer não carregava dinheiro, apenas seu canivete, ensinamentos do seu irmão.

Seth estava sentado no chão do beco e encarou Sawyer, admirado.

— Eu gosto da sua pontualidade.

— Só quero acabar com isso logo.

— Infelizmente, isso não tem fim – Seth riu e Sawyer fez uma careta.

Naquela noite, Seth e Sawyer ficaram sentados no beco à espera de uma mercadoria para Seth. Aparentemente todos seus capangas estavam ocupados naquela sexta. Apenas Sawyer, o devedor, precisava ficar ali. Precisava ver seu irmão pegar aquela caixa de um homem todo tatuado e sem sobrancelhas. Tinha de ajuda-lo a carregar porque de repente não era apenas uma caixa suspeita. Sawyer sentia o peso de todas as coisas ilegais que Seth poderia fazer e que o tornava cúmplice, mesmo ele não sabendo da metade. Seth já tentou explicar, mas ele acreditava no simples fato de que quanto menos ele soubesse, melhor.

Sawyer passava dias e noites se odiando. Acordava odiando sua vida e com saudades de Aiden ao seu lado. Descia para tomar café com sua mãe cada vez se tornando mais distante novamente. Passava a tarde trabalhando para Seth e à noite, quando tinha sossego, corria para Keith e Aiden.

Nunca tinha tempo a sós com Aiden, mas os olhares por cima dos copos de cerveja permaneciam. Algumas vezes conseguiam trocar alguns beijos enquanto se encontravam às escondidas pelo apartamento. De repente Sawyer arrependeu-se de todo o momento que perdeu ao lado de Aiden e não soube aproveitar. Mas havia tanta preocupação em sua mente.

Todas as noites sonhava com aquele policial que Seth matou. As viaturas permaneciam passando pela rua, mas Sawyer nunca olhava mais de duas vezes porque tinha medo de ser o cara. Sawyer ainda sentia-se mal a respeito de Jonas e Mikael e o quanto ele deveria ter feito e não conseguiu. Ele acordava assustado de madrugada e por alguns segundos sentia que Aiden ainda estava lá, mas se jogava na cama novamente, frustrado, ao perceber que só existia a ausência. Essa era a sua rotina.

Na manhã seguinte, Tristan voltou para a casa quando Keith e Aiden foram trabalhar. Osmar estava sentado tomando café com sua mãe.

— Bom dia – eles cumprimentaram Tristan e Zion quando entraram em casa.

— Quer tomar café? – sua mãe perguntou, pronta para lhe servir uma xícara.

— Não, vou pegar a bicicleta e sair daqui a pouco – ele respondeu enquanto seguia para o quarto. O cachorro o seguindo, correndo.

Tristan ainda não se sentia seguro para dormir em casa com Osmar, apesar de não existir perigo naquela casa desde que sua tia foi presa, ele ainda tinha receio em confiar nas pessoas.

Ele saiu de casa à tarde pedalando sua bicicleta enquanto segurava a guia de Zion e ele corria junto, acompanhando Tristan. Eles costumavam manter-se nas redondezas e percebeu que fazia tempo não ia até a piscina pública da cidade, então ele decidiu que aquele seria o destino dos dois naquele dia.

Quando Tristan percebia que Zion estava cansado, parava para tomarem água e descansar uns segundos.

Ao chegar à piscina pública, quase não a reconheceu. Fazia muito tempo que não chegava perto daquele lugar e surpreendeu-se quando percebeu como estava mais vívido desde que se lembrava. Algumas espreguiçadeiras brancas cercavam a piscina e havia uma cadeira branca com degraus, onde o salva-vidas deveria ficar.

Havia um aviso na grade anunciando que estavam contratando para salva-vidas e ajudantes porque a piscina abriria no fim de semana. Tristan sentiu que aquele era o sinal que ele estava esperando, que finalmente ele havia encontrado. Só restava a resposta da faculdade e tudo ficaria bem.

— Posso ajudar? – Uma mulher saiu de uma sala à frente da piscina, ela usava boné vermelho e camiseta "funcionária" escrito em vermelho na parte da frente. Encarou Tristan e o cachorro com o semblante confuso.

— Gostaria de me candidatar a alguma vaga – ele apontou para o aviso, estava nervoso.

— Ah – ela sorriu – estou entrevistando alguém agora. Posso pegar seu telefone?

— Se quiser eu espero aqui – ele deu de ombros – não tenho para onde ir no momento.

— Bom, tudo bem. – a garota sorriu. Tristan percebeu que ela parecia ter uns vinte anos, seu rosto era bochechudo e seu cabelo era loiro claro. O sorriso dela mostrava os dentes levemente tortos e amarelados. Parecia simpática. Abriu a tranca da grade e Tristan entrou. Por alguns segundos pensou que ela mandaria o cachorro sair, mas se agachou e acariciou Zion.

— Zion, o nome dele – Tristan sorriu e ela assentiu, tocando a coleira do cachorro.

— Consegui ver aqui – ela virou a coleira em formato de osso com o nome de Zion e percebeu o número de telefone de quatro pessoas – ele tem tantos donos?

— É, mais ou menos – Tristan riu, sem graça – meus amigos acharam uma boa ideia colocar o número de todos.

A garota olhou para Tristan mais uma vez, mas de forma interessada. O bairro era pequeno, ela conhecia os garotos.

— Você é amigo do irmão do Seth? – ela torceu a boca. Seth era seu colega antes e ele não era muito legal. – o Sawyer – ela tentou pronunciar seu nome enquanto lia na coleira.

— Sim – ele pigarreou, confuso com o rumo que a conversa estava tomando.

— Bom – ela levantou e sorriu – seu cachorro é fofo e você é adorável! Vamos te entrevistar em dois minutos, pode ser? – ela ergueu as sobrancelhas, seu semblante todo demonstrava animação exagerada e Tristan apenas assentiu, concordando.

— Podem esperar por aqui – ela apontou para a piscina, mostrando as espreguiçadeiras e cadeiras.

Tristan sentou-se e Zion deitou nos seus pés, descansando. A garota entrou novamente na sala e olhou para trás, encarando Tristan, que olhava para a piscina.

Ele não tinha certeza se era daquele tamanho antes, mas a piscina parecia maior. O ambiente todo parecia maior. Além de onde a garota entrou, Tristan percebeu que ao lado haviam criado um pequeno bar.

Um garoto que ela entrevistava saiu da pequena peça e acenou para Tristan.

— Está pronto? – a garota sorridente saiu e se aproximou dele. Tristan levantou e apontou para Zion.

— Onde posso deixa-lo?

— Eu vou fechar, não tem como ele fugir – ela se aproximou para fechar a grade e sorriu para Tristran, o chamando – e além do mais, ele tem quatro donos. Vão encontra-lo logo.

Tristan percebeu que ela tentou ser simpática, mas ficou receoso em deixar seu cachorro sozinho. Porém seguiu com ela para dentro da salinha de madeira com dois cômodos. Tristan sentou-se em uma cadeira de plástico e ela na mesa.

— Meu nome é Karen. Eu serei a responsável pela escolha dos trabalhadores da nossa piscina. Ela voltará a funcionar no sábado. Até lá, eu preciso de profissionais. Você conseguiria salvar uma pessoa caso ela se afogue?

— Não – Tristan admitiu. Porque sabia que precisava tocar no lábio da pessoa e ele não queria fazer nada com ninguém sem que a pessoa soubesse, mesmo dependendo da vida dela. Mas ele não conseguiria dizer aquilo a ela.

— O que faz de você uma pessoa qualificada para trabalhar aqui? – ela ergueu a sobrancelha para ele, de repente não soando tão simpática quanto antes.

— Eu corro rápido. Posso salvar uma pessoa se afogando e tirá-la da piscina a tempo. Costumava vir aqui quando criança, então conheço bem o lugar. Sou um bom nadador.

— Mas não conseguiria salvar uma pessoa caso ela se afogasse?

— Se não dependesse apenas da respiração boca a boca – ele começou, mas Karen ergueu a mão e desdenhou rapidamente.

— Entendi o seu problema! – ela riu e balançou a cabeça – a respiração boca a boca não é igual beijar, ok? – Karen balançou a cabeça, se divertindo com a situação e Tristan começou a sentir-se ridículo. – Bom, eu te ligo.

Tristan anotou o telefone na folha que ela pediu, mas seu semblante era angustiado. Ele sabia que não havia conseguido.

Às vezes o cheiro não era a pior coisa naquela lanchonete. Aiden era obrigado a escutar cada conversa enquanto servia as mesas. Ele sentia que daquela forma acabava conhecendo as pessoas de verdade, quando elas acham que ninguém está prestando atenção. Conhecia os clientes porque normalmente eram pessoas daquele bairro, que ele convivia desde criança.

Algumas eram como ele e Keith, amadurecidas, mas amarguradas. Outras eram como Sawyer, sempre buscando o caminho mais fácil e destrutivo. Haviam poucas pessoas como Tristan, porque normalmente elas conseguiam sair daquele bairro e de todas as coisas ruins que o cercavam. Muitos falavam sobre as maldições que existiam pela região deles e porque havia tanta desgraça, mas Aiden não queria ouvir, elas normalmente saíam de bocas fingidas.

— Eu pedi o duplo – um garoto pigarreou enquanto Aiden distribuía os pedidos na mesa. Eram adolescentes e pareciam querer fazer a vida de alguém um inferno e infelizmente Aiden seria aquela pessoa.

— Desculpe, vou providenciar – Aiden se inclinou na mesa para pegar o lanche do garoto de volta, mas ele o segurou com força e encarou Aiden.

— Acho que você pode deixar esse aqui e me trazer um duplo, pelo inconveniente – o garoto ergueu a sobrancelha e Aiden pegou o lanche da sua mão, lhe dando um empurrão.

— Não, acho que não. – ele pegou o hambúrguer e estava indo em direção à cozinha quando sentiu o copo de papel lhe atingindo nas costas e a Coca-Cola gelada molhar seu uniforme.

Ele pensou em virar para trás, mas sabia que encarar aqueles adolescentes seria muita humilhação. Aiden estava se sentindo péssimo naquela tarde e para piorar estava sozinho na lanchonete porque Keith havia saído com Ingrid. Os adolescentes da escola entravam e pediam diversos números para confundir Aiden. O copo permaneceu no chão e Aiden teria de limpá-lo após irem embora, mas não queria se humilhar mais àquela altura.

Ele se dirigiu à janela da cozinha e gritou: um hambúrguer duplo pro playboy platinado.

O garoto escutou e Aiden queria que escutasse. Mas o olhar na direção de Aiden era de puro ódio.

— Você acha isso uma graça ou não? – Ingrid segurou o macacão de bebê e colocou em frente à sua barriga. Keith sorriu, emocionado. Ele nem estava se reconhecendo.

— Achei lindo, mas pensei que você não quisesse minha opinião em nada – Keith bufou e Ingrid apenas revirou os olhos, escolhendo ignorá-lo. Largou o macacão e foi em busca de outra roupa.

Keith não sabia por que ela quis fazer compras se ainda não sabiam o sexo do bebê, mas não discutiu e apenas foi com ela até o lado da cidade que ele nunca havia ido antes.

As lojas eram maiores e havia uma loja só para bebês. Roupas, brinquedos, carrinho. Keith estava apavorado com o preço de tudo aquilo, mas Ingrid seguia tranquilamente pelos corredores.

Ele não havia levado dinheiro o suficiente para uma peça de roupa naquela loja. Quando saíram do carro, Ingrid parecia tão feliz que Keith não percebeu que estavam na Costa Rica.

— Ingrid – Keith a cutucou e ela o encarou enquanto pegava um chapéu xadrez, que Keith achou encantador, mas fez ela o largar. – Eu não tenho dinheiro pra isso.

— Eu sei – ela riu – Não estamos aqui pra comprar – ela sussurrou e Keith franziu o cenho para ela, apavorado.

— Eu não roubo...

— Logo você? – Ingrid o encarou dos pés à cabeça – essa bolsa tá vazia justamente por isso – ela murmurou enquanto indicava a bolsa apoiada em seu ombro – eu quero poucas coisas, eu juro. E você nem precisa me ajudar.

— É óbvio que eu não vou te ajudar. Não sabia que você era uma cleptomaníaca – Keith tentou se afastar, como se Ingrid tivesse alguma doença contagiosa.

— Eu não sou – Ingrid socou seu ombro – e agora precisamos ir embora, você chamou atenção demais. – ela olhou por cima do ombro deles, dois seguranças os encarando.

Saíram da loja e Keith estava estupefato.

— Você é maluca? – ele bufou, não conseguia controlar o tom de voz. Ingrid segurou seu ombro e o apertou. Ele parou.

— Eu quero muito que meu bebê tenha todas essas coisas incríveis – ela apontou para a loja atrás deles. Keith franziu a boca, sentindo-se mal. – Eu sei que não é o ideal, mas...

— Eu não vou deixar você fazer isso – Keith murmurou. Queria honrar aquelas coisas. Queria chegar à loja e comprar com seu dinheiro suado, seja limpando o chão ou os banheiros da lanchonete.

— Eu não sou ladra, tudo bem? – ela suspirou, sentindo sua bolsa pesada, apesar de vazia.

— Eu sei. Nós tomamos decisões estúpidas quando estamos desesperados – Keith tocou o ombro de Ingrid e pela primeira vez ela deixou que ele ficasse mais de cinco segundos com a mão nela.

— Só agradece, parceiro – Sawyer murmurou enquanto entregava duas pedrinhas de crack para o homem no carro preto e vidro fumê.

Ele já estava acostumado com aquela rotina, ele até preferia. Olheiro era uma responsabilidade que ele não era capaz de ter. Ele precisava ficar atento até nos policiais que poderiam estar disfarçados em algum carro, Jeff era especialista nisso. Mas Seth percebeu que Sawyer se dava melhor com o dinheiro, o passe e repasse discreto no vidro da janela e os esconderijos especiais que Sawyer achava no beco para esconder as drogas.

O beco estava tumultuado. Seth empinava pipa com alguns garotos da rua, crianças que provavelmente Seth recrutaria, porque ele precisava de menores de idade no trabalho.

Sawyer separou o dinheiro e guardou no pequeno cofre de Seth, escondido embaixo de uma pedra.

— Tô de olho em tu – Seth murmurou percebendo Sawyer sair de perto do cofre, mas ele apenas lhe mostrou o dedo do meio, sem paciência. – Quer tirar um dia de folga? – ele perguntou e Sawyer franziu o cenho, sem entender.

— Eu?

— Claro – ele deu de ombros e riu – aqui tá cheio. Vai ter gente de sobra pra vender. Vai lá brincar com teus amigos. Faz tempo que o Aiden não aparece lá.

— É, pode crer – Sawyer tossiu e cuspiu no chão, se afastando antes que Seth pudesse mudar de ideia.

Sawyer encontrou Tristan a caminho de casa, ele estava caminhando com Zion na praça.

— E ai? – Tristan o encarou, franzindo o cenho – surgiu da onde?

— Eu estava falando com meu irmão – ele murmurou, como se não fosse nada demais. Os dois seguiram silenciosamente até a rua deles enquanto Zion corria à frente, cheirando e urinando em diversos lugares.

— Sabe, eu me candidatei para um trabalho. Sei que você tá precisando, talvez queira...

— Onde? – Sawyer perguntou, rápido demais. Tristan riu.

— Vão reabrir a piscina e precisam de salva-vidas e ajudantes.

— E você foi contratado já? – Sawyer pegou um cigarro em seu bolso e o acendeu enquanto caminhavam.

— Não. Karen disse que vai me ligar, mas duvido – ele bufou, sem esperança.

— Ah, tá – Sawyer riu – se você acha que não foi o que resta pra mim? – ele tragou e segurou a fumaça por um tempo, pensativo – ah, se foda. Vou tentar.

— Mas precisa ir logo, vai abrir sábado.

— Vou ver isso amanhã – ele desdenhou, não estava tão preocupado assim.

Os garotos seguiram à lanchonete após Tristan largar Zion em casa com Daisy.

Aiden estava sozinho, segurando duas bandejas enquanto caminhava pelas mesas e largava os pedidos. Ele viu os amigos entrando, mas não conseguiu nem cumprimenta-los.

Sentarem-se nas banquetas em frente ao balcão enquanto Aiden terminava de despejar os pedidos. Ele se jogou no balcão, exausto.

— Parece que eles gostam de vir quando tem só uma pessoa aqui – ele bufou e encarou Sawyer e Tristan. – Vocês querem algo?

— Nah – Sawyer desdenhou – nós só viemos ver vocês. Cadê o Keith?

— Vocês precisam fazer algo, ficam o dia inteiro atoa por aí, né? – Aiden murmurou, mas eles não se importaram porque perceberam que ele não estava bem.

— Eu me candidatei na piscina.

— O que? – Aiden franziu o cenho para Tristan – e aquela bosta vai abrir?

— Vai! E está muito legal. Parece maior.

— Acho que um velho rico comprou – Sawyer lembrou-se. – Seth estava me falando.

Seth contou a ele que ficar pela piscina nos fins de semana pode ajudar no "lucro dos negócios" porque normalmente eram adolescentes aproveitando o fim de semana e Seth os considerava cabeça de vento e irresponsáveis, por isso sabia que sempre compravam droga.

— E seria bom você também tentar – Aiden ergueu o queixo para Sawyer, que apenas assentiu.

— Valeu pela preocupação, caro amigo. O Tristan já havia me convidado para esse evento sensacional.

As lojas no bairro não tinham tanta diversidade. Eram roupas genéricas e brinquedos básicos, mas era o que Keith podia pagar. Ingrid não parecia feliz, mas quando Keith mostrou as pequenas roupas, ela se alegrou. Compraram roupinhas básicas, com dizeres comuns como "neném do papai" e "chamego da mamãe".

— Ainda temos muito tempo para comprar as coisas – Keith a assegurou enquanto entravam no táxi – provavelmente vou tentar pegar o turno da noite.

— Não – Ingrid tocou no seu braço, apoiado na coxa dela. – Você já trabalha demais naquela espelunca – ela torceu o nariz – vai dar tudo certo.

Ingrid o encarou e sorriu. Keith havia percebido que as coisas entre eles estavam diferentes, mas não queria estragar o progresso que estavam tendo, então apenas ficou quieto encarando a janela enquanto se aproximavam da casa de Ingrid.

— Ei – ela o cutucou antes de descer – O que você acha do nome "Lara"? Minha mãe tá sentindo que é uma menina e ela geralmente está certa sobre tudo – ela ergueu a sobrancelha, aguardando a resposta dele, mas Keith apenas assentiu, emocionado enquanto ela saía do carro.

Quando Keith chegou à lanchonete, Sawyer e Tristan ainda estavam sentados conversando com Aiden e o estabelecimento estava menos cheio. Keith segurava uma sacola e sorria para Aiden.

— Comprei uma coisa pra nossa casa – ele pegou o telefone de dentro da sacola e sorriu, encarando os amigos.

— Você sabe que não é só instalar, né? – Tristan o questionou, mastigando batata frita.

— Eu não sou burro – Keith revirou os olhos – eu peço pro zelador, virou meu parceiro.

— Todo mundo que ele conversa por mais de cinco minutos, ele acha que virou amigo dele – Aiden riu e bufou – pra que telefone? Nós temos celular.

— Bom, mas às vezes não podemos contar com a tecnologia – ele deu de ombros e resolveu não falar mais nada – vou levar pro apartamento, depois eu volto.

Keith saiu sem esperar que Aiden respondesse algo.

— Acho que ele nem vai voltar hoje – Sawyer encarou o relógio enquanto bebia refrigerante.

O celular de Tristan começou a tocar no bolso e quando ele o pegou, percebeu que era sua mãe o ligando. Imediatamente ele só conseguia pensar em tragédia. Sua mãe nunca ligava. Pensou que Zion fugiu, que Eleanor fugiu.

— Oi – ele estava trêmulo. Sua mãe demorou alguns segundos para receber sua resposta e falou ao mesmo tempo que ele.

— Seu resultado chegou!

— O que? – ele perguntou, porque não conseguiu escutar direito e porque queria ter certeza se era aquilo que estava pensando.

— O resultado do vestibular! Vem aqui! – ela disse antes de desligar.

— Pessoal – Tristan enfiou o resto das batatas na boca e acenou uma despedida desajeitada, o que deixou Aiden e Sawyer sem entender muito bem, mas apenas encararam enquanto ele saía da lanchonete cambaleando na pressa.

— Sabe, eu sinto sua falta lá em casa – Sawyer murmurou porque ele queria falar aquilo há muito tempo e porque finalmente estavam sozinhos.

Aiden não disse nada a princípio, apenas encarou Sawyer. Ele queria dizer que também sentia falta, mas a situação estava melhor daquele jeito.

— Você pode dormir lá comigo quando quiser – Aiden sussurrou, temendo que alguém o escutasse. As poucas pessoas que restavam na lanchonete conversavam entre si com seus lixos em cima da mesa.

O copo de refrigerante que o garoto jogou permanecia no chão, ele ainda não havia tido tempo de limpar.

— Quem sabe – Sawyer sorriu, sem graça. – vou tentar trabalhar com Tristan – ele murmurou enquanto mexia no prato vazio de Tristan. Aiden olhou para ele, surpreso e sorriu.

— Fico feliz – ele não escondia o sorriso em seu rosto.

Sawyer sorriu de volta porque pela primeira vez aquele sorriso de Aiden parecia sincero.

Todas as noites de estudo compensaram, era só nisso que Tristan pensava enquanto pegava o papel da mão da sua mãe. Ela sorria, orgulhosa.

— Você ficou em terceiro lugar no curso que escolheu – seu olhar brilhava na direção do filho e ele sorria porque finalmente sua vida estava dando certo.

— Chamei o Osmar para comermos uma pizza aqui hoje. Chame seus amigos, que tal? Vamos comemorar do jeito certo! Meu filho, em breve um advogado! – ela cantarolou indo até a cozinha. Tristan balançou a cabeça e revirou os olhos, sabendo que demoraria até ser um advogado, mas ele estava pronto para a jornada.

Tristan enviou a mensagem para os amigos enquanto observava Zion comer sua ração, ele retirava alguns grãos do pote e colocava no chão para comer depois.

Alguns segundos depois, apenas Sawyer respondeu a mensagem dizendo que ele e Aiden iriam. Keith não respondeu, mas Tristan sabia que ele apareceria à noite na casa.

A mãe de Tristan não gostava de ficar parada, dificilmente ela sentava e descansava e quando isso acontecia, ela lembrava-se de algo para fazer e levantava, deixando de lado o descanso. Tristan permaneceu sentado no sofá, de costas para a janela na nova arrumação enquanto sua mãe estava na cozinha, o barulho de pratos e panelas era a única coisa que ele escutava. Prosseguiu encarando o papel em sua mão. A faculdade que ele havia se candidatado era pública e ficava longe de onde morava, mas iria de bicicleta até a aula se fosse preciso.

Ele queria trabalhar para ser o primeiro dos garotos a conseguir pagar por aulas de direção e pela habilitação. Apesar de Seth ter se oferecido milhares de vezes para ajuda-lo, Sawyer não lhe deu muita segurança quando disse que o irmão dirigia mal. Tristan sabia que, se falasse com sua mãe, ela daria um jeito de Osmar ajudar, mas ele não queria isso. Ele queria conseguir fazer tudo por si.

Ficou olhando o celular, esperando Karen ligar para dizer que havia sido selecionado para o trabalho, mas não havia notificações.

A caminhada até o apartamento sempre era cansativa, escutar Keith falando sobre diversos assuntos enquanto Aiden tentava concentrar-se no caminho escuro. Mas a caminhada naquela noite foi agradável enquanto Sawyer e Aiden caminhavam lado a lado, os dedos se tocando ocasionalmente. As mãos entrelaçando-se só para soltarem depois de ouvir alguém se aproximando.

— Que bom que você ficou de folga hoje – Aiden chutou uma caixinha de leite achocolatado enquanto caminhavam, sem conseguir olhar para Sawyer.

— Seth é maneiro quando quer – nem mesmo Sawyer acreditava naquelas palavras.

Sawyer não sabia por que Seth o deixou de folga logo naquele dia, mas não queria ocupar seus pensamentos enquanto conversava com Aiden.

— Talvez possa dormir aí hoje – ele ergueu o queixo para o apartamento – depois que voltarmos do Tristan...

— Pode ser – Sawyer deu de ombros, como se não fosse nada – Keith vai ficar de boa?

— Ele não vê a hora – Aiden riu – deve querer fazer uma festinha do pijama.

— Vamos comprar bebida e algumas coisas então – Sawyer dizia enquanto Aiden abria o portão para entrarem no prédio.

O porteiro, um homem de cabelo calvo e uniforme branco, os encarou desconfiado, mas reconheceu Aiden e acenou.

O prédio estava silencioso, apesar da gritaria na rua da frente. Sawyer apertou no botão do elevador e eles esperaram, quietos, enquanto o elevador descia para o térreo onde estavam.

Na volta do trabalho todas as noites, Aiden e Keith se escoravam à parede do elevador e esperavam até chegar ao terceiro andar, era o único momento que Keith parava de falar um pouco. Aiden sabia que com Sawyer ali dentro a dinâmica dentro do elevador era outra, mas ele não se atreveu a se mexer enquanto Saywer ajeitava-se ao seu lado, em frente a porta automática.

Sawyer fechou os punhos ao lado do corpo, tentando conter todas suas emoções enquanto a porta fechava vagarosamente. Ele pensou que teria de dizer algo para o silencio constrangedor passar, mas Aiden parou à sua frente e tocou no seu rosto. Ele olhava para Sawyer com um semblante de dor, preocupação. Mas seu sorriso apareceu alguns segundos antes dele aproximar a boca da dele.

Aiden pegou no seu pescoço e aproximou seu rosto do de Saywer. O encarou por alguns segundos, seus olhos sérios e confusos. Seu cabelo raspado e cheio de falhas. Sua boca entreaberta enquanto ele aguardava. Quando ele tocou seus lábios, Sawyer sentiu todo seu corpo derreter em seus braços enquanto era beijado. Começou a retribuir quando percebeu que Aiden se afastava.

Sawyer o segurou pelas costas e o aproximou, chocando as bocas um no outro, mas eles sorriram porque finalmente conseguiam sentir algo além de raiva.

Ele havia esquecido como o beijo de Aiden era demorado e delicado, como se estivesse aproveitando cada segundo sem saber quando seria o próximo. Pegou nos cabelos de Aiden e ignorou o cheiro de fritura. Sawyer estava pronto para jogá-lo na parede quando a porta do elevador abriu e eles ficaram daquele jeito, envergonhados.

Aiden saiu primeiro, porque Sawyer paralisou na sua frente.

A primeira coisa que ele percebeu quando abriu a porta do apartamento foi que Keith não estava ali, a segunda foi que o novo telefone estava tocando em cima da mesa de centro da sala. Aiden revirou os olhos.

— E não é que ele realmente instalou o telefone? – Aiden riu e balançou a cabeça e Sawyer estava pronto para jogá-lo no sofá quando percebeu que estavam sozinhos. Sawyer se aproximou depois de fechar a porta e empurrou Aiden no sofá, que o encarou confuso.

— Preciso atender – ele apontava para o telefone enquanto ria, mas Sawyer estava pronto para sentar no seu colo quando escutaram algum barulho no apartamento.

Sawyer se afastou, alarmado e Keith saiu por entre a penumbra do apartamento, rindo.

— Viu? Eu fiz o telefone funcionar.

A campainha tocou três vezes, porque Tristan estava limpando o que Zion fez, Osmar foi buscar a pizza e Daisy estava tomando banho. Quando Sawyer estava preparado para apertar novamente, Tristan apareceu em frente a eles, segurando um saco de plástico.

— To com fome, foi mal – Sawyer riu e se jogou no sofá enquanto Tristan colocava o pequeno saco plástico no lixo. Aiden e Keith entraram, mas ficaram em pé.

— Cadê a pizza? – Keith perguntou, olhando ao redor.

— Osmar foi buscar.

— Ele não sabe que aqui já existe entrega em domicílio? – Aiden sentou ao lado de Sawyer porque percebeu que demorariam a comer. Zion subiu no colo de Keith, que havia sentado na poltrona.

— Ele prefere as pizzas do outro lado – ele revirou os olhos – disse que aqui eles não usam queijo.

— Ele não deixa de estar certo – Keith assentiu enquanto fazia carinho na barriga de Zion e encarou os garotos – Mas a costa rica não é pra pessoas como nós.

— O que isso quer dizer? – Aiden franziu o cenho. Tristan sentou no sofá com os garotos e encarou Keith, à espera.

— Ingrid quis ir até as lojas da Costa Rica e percebi que meu salário não conseguiria pagar um conjunto de roupa de bebê com aqueles preços.

— Bom, ainda bem que você pode comprar coisas aqui – Tristan deu de ombros – lá é só pra quem já vive lá.

— Ou seja, pra onde fodidos como nós vão? – Keith bufou, de repente considerando como a vida era injusta. Ele também queria coisas boas, experimentar comidas diferentes, mas eles estavam presos naquele lugar e não havia jeito de sair.

— Não – Tristan deu de ombros – A gente é novo ainda pra pensar nisso.

— Daqui a pouco você faz 18. E depois o Sawyer. E depois eu – Keith jogou a cabeça no encosto da poltrona – e parece que só tem ladeira abaixo a partir de agora.

— Que caras são essas? – Daisy franziu o cenho para os garotos, encarando o carpete.

— Estamos decepcionados com a vida – Tristan bufou – mas acho que principalmente estamos com fome.

— Então melhorem essas caras porque hoje é nossa comemoração – Daisy tocou no rosto de Tristan e os garotos franziram o cenho, encarando a cena. – Não contou a eles?

— Esqueci – ele deu de ombros e olhou para os garotos confusos no sofá – eu passei no vestibular.

— Ah, mas isso já era de se esperar – Sawyer riu – passou pra que?

— Direito – ele murmurou e Keith bateu palmas.

— Bom que temos um advogado caso precisarmos.

Tristan estava pronto para avisá-lo que ainda demoraria a isso acontecer e que era bom ele não se meter em problemas, mas Osmar abriu a porta com três caixas de pizza na mão e qualquer coisa que estavam conversando foi esquecida enquanto pegavam as caixas e distribuíam pela mesa da cozinha.

Os garotos, sem modos e com pressa, pegaram um pedaço cada e começaram a comer com a mão. Osmar e Daisy riram, mas fizeram o mesmo.

A noite foi agradável naquela residência que não era acostumada a escutar tanta conversa acalorada. Ou tanta risada. Pela primeira vez em toda sua vida, Tristan finalmente sentia-se em casa.