Welcome to badlands

34 Capítulo Trinta e Três: sussurros de madrugada.


Após saírem do quartel Keith estava pronto para pedir a Osmar que os deixassem na piscina e mandar as coordenadas a Aiden quando viu ao longe, no caminho que eles faziam para voltar para casa, o céu nublado e um raio o iluminando. Ele fez uma careta, deixando de lado a sugestão.

Tristan e Keith precisaram pedir permissão aos seus chefes para ir ao quartel naquele dia, mas o chefe do Sawyer era o único que não sabia onde ele estava e a consequência disso eram as incontáveis ligações perdidas de Seth. Ele permaneceu com o celular no silencioso, o enxergando acender pelo tecido da calça que estava usando, mas não o tirou do bolso. Conhecendo o irmão, ele sabia que tinha mensagem de texto, de voz e provavelmente foi à lanchonete atrás dele.

Mas nem mesmo Seth arruinaria seu humor.

Osmar deixou Keith na lanchonete e Tristan desceu junto, Sawyer ficou no carro sem dizer nada.

— Poderia me deixar em casa, Osmar? — ele perguntou quando o homem deu partida no carro. Sawyer olhou para trás, encarando os dois amigos na entrada da lanchonete.

*

— Parece que a piscina babou, não é? — Aiden deu risada da cara de Keith quando eles entraram na lanchonete. Olhou para trás da cabeça de Tristan e Keith, à procura de Sawyer.

— Como assim? — Tristan encarou os dois. Não havia ninguém na lanchonete, apenas pegadas molhadas do Aiden no chão de quando ele saiu para pegar a placa anunciando o combo especial do dia e a colocou para dentro, ao lado da porta.

— Keith queria ir à piscina — Aiden revirou os olhos, tentando segurar a curiosidade enquanto conversava normalmente com eles e passava pano – desnecessariamente – no balcão.

— Deve ter fechado cedo. Karen já sabia que hoje ia cair uma chuva — Tristan fez uma careta — e o dia tava bonito. Como ela sabia?

— As mulheres sabem das coisas — Keith balançou a cabeça, assentindo freneticamente. Ele nem se deu ao trabalho de pular para dentro do balcão, ficou sentado ao lado de Tristan em uma das banquetas giratórias, que fazia muito barulho se girasse demais.

— Deve ser porque ela viu a previsão do tempo — Aiden revirou os olhos e bufou — e ai, vão me contar o que aconteceu ou vão ficar agindo como se nada tivesse acontecido pra vocês nessa manhã?

— Dia inteiro, né — Keith suspirou, sentindo-se cansado — Cara, achei que ele ia te contar, mas já que não tá aqui — ele deu de ombros e levantou, a banqueta fez um barulho arranhado e girou sozinha por uns segundos — Sawyer foi o único que entrou.

— Eu sabia — Aiden sorriu e por alguns segundos esqueceu-se de esconder a felicidade dentro de si. Ele sabia desde o início que Sawyer conseguiria.

Tristan percebeu, enquanto encarava Aiden sorrindo, que ele estava enganado. Osmar não era a única pessoa que olhou para Sawyer com orgulho.

*

O encontro com Seth não foi agradável, mas não existiram perguntas ou suposições da parte dele, apenas alguns socos "pra aprender a não me fazer de trouxa" e uma cuspida no coturno, que Sawyer nem se incomodou em limpar. O castigo dele, no entanto, foi dobrar os serviços de Sawyer, que precisou fazer coisas que nunca havia feito antes e com certeza, se fosse pego, ele seria preso. Por alguns segundos até considerou que seu irmão armaria uma emboscada pela demora e as ligações perdidas.

Mas Seth não faria isso com seu irmão. Ao menos era o que ele falava: família em primeiro lugar.

Ele retornou cansado, sentindo seus braços doerem de carregar caixas e mochilas. Não havia movimento algum na casa, sabia que Seth e sua mãe estavam dormindo e tentou não fazer barulho.

A primeira coisa que ele fez foi tirar sua jaqueta molhada da chuva e a jogou em uma cadeira de plástico ao lado da sua cômoda. Pegou seu celular no bolso. Duas chamadas perdidas de Aiden e uma mensagem "Parabéns". Ele estava decepcionado, mas ligou para Aiden, ignorando o horário e o bom senso.

— Alô? — a voz dele era rouca e Sawyer quase podia vê-lo no escuro, segurando o telefone e se perguntando quem diabos ligaria essa hora. Mas ele sabia que era o Sawyer, claro que sabia.

— Desculpa ligar essa hora — Sawyer tentou sussurrar enquanto tirava o coturno e o jogava no canto do quarto, onde colocava toda sua bagunça. — Só tive folga agora.

— Seth consumiu seu tempo hoje né. — Aiden soava amargurado, sua voz elevando o som, mas prosseguiu, antes de Sawyer reclamar — parabéns por ter passado na seleção...

— Obrigado — Sawyer sorriu, mesmo que Aiden não pudesse ver, ele sabia. Sawyer retirou a calça e deitou na cama, se enfiando embaixo do lençol, ignorando que estava sujo e precisava de um banho, só queria deitar e conversar com Aiden.

— Eu vou ficar um tempo fora.., Mês que vem. — Sawyer segurava o celular perto da boca para não fazer muito barulho.

— Por quê? — a voz de Aiden soava indiferente.

— Pra ver se estou mesmo apto para servir — Sawyer deu de ombros e bufou — enfim, só sei que preciso ficar com um monte de garotos desconhecidos e carecas pra sofrer nas mãos dos superiores — ele riu — vai ser tranquilo.

— Você vai dar conta — Aiden riu — Vai ser bom ficar um tempo longe de algumas coisas... — ele tentou falar baixo porque sabia que Keith estava dormindo, mas não escutou Sawyer responder nada e então falou mais alto — mas eu vou sentir falta de você...

— Eu sei, eu também vou. O ruim vai ser ficar tanto tempo longe, nunca fiquei.

*

A bexiga de Keith quase o enganou e por pouco, uns segundos e ele não fez xixi na cama. Correu para o banheiro sem acender nenhuma luz, porque já havia decorado o apartamento, mas quando estava saindo do banheiro e passou pelo quarto de Aiden, escutou sua voz e parou. Keith pensou que talvez ele estivesse falando sozinho ou falando enquanto dormia. A porta estava fechada e Keith não conseguiu entender exatamente, mas percebeu, depois de continuar em frente à porta por mais um tempo, que na realidade ele estava respondendo alguém.

Pensou em abrir a porta e surpreender sua companhia misteriosa, mas quando olhou pela fechadura, mesmo o quarto escuro, ele percebeu que Aiden estava sozinho e falando no celular.

Ele foi para o seu quarto, com essa pergunta pairando no ar. Com quem Aiden estava conversando? Keith sabia que Aiden era paquerado por diversas garotas na lanchonete, mas nunca o viu lhes perguntar nada além de "qual seu pedido hoje?". O mistério da companhia de Aiden manteve os olhos de Keith abertos por mais tempo do que ele esperava.

*

Aiden não sabia se era o horário ou se era Sawyer e sua voz rouca, se recusando a desligar mesmo morrendo de sono do outro lado, mas sentiu vontade de se abrir com ele.

— Lembra quando eu tive que ir pra cozinha na lanchonete? — Aiden perguntou e Sawyer murmurou "uhum" para Aiden prosseguir. — Eu gostei de fazer... Quer dizer, não o lanche... Mas — as palavras fugiram, começou a se sentir ridículo falando sobre aquilo.

— Eu fico feliz que você tenha descoberto o que gosta de fazer — Sawyer riu baixinho e Aiden sorriu, porque não precisava dizer mais nada.

Ele já tinha dezoito anos e não enxergava possibilidades à sua frente. Sabia que a lanchonete ocupava seu tempo, mas ele precisava do dinheiro para se manter. Descobriu, com o tempo morando com Keith, que era difícil administrar uma casa, muito mais quando você está criando um filho adolescente que não é seu.

Aiden estava irritadiço e sabia que era porque ele era o único dos garotos sem objetivos. Keith tinha diversas ideias e sabia que ele era capaz de executar todas, porque o conhecia o suficiente. Tristan estudando para ser advogado e Sawyer em breve se juntaria às forças armadas.

— Mas não fique só pensando nisso — Sawyer cortou o silêncio. — Às vezes a gente precisa ir atrás do que quer...

— Igual você veio atrás de mim? —Aiden perguntou sentindo o rosto corar logo em seguida, mas queria mudar de assunto. Escutou a risada do Sawyer, um pouco mais alta.

— Não sei disso que você tá falando. Só lembro de alguém batendo na minha porta de madrugada pra dormir — ele não conseguia segurar o sorriso enquanto falava e Aiden sabia disso porque estava do mesmo jeito.

— Agora nem posso fazer isso... — Aiden murmurou quando o silêncio pairou por alguns segundos, o espaço que ficava para a saudade de estar a centímetros de distância e não precisar se esconder.

— Eu sinto falta de dormir com você — a frase ecoou nos pensamentos de Aiden e ele sentiu o coração acelerado. Então era aquilo que significava estar apaixonado.

— Sawyer... — Aiden pigarreou, querendo falar o que sentia, mas não conseguia formar uma frase coerente. "Estou apaixonado" não parecia o suficiente.

— Eu vou aí agora, se quiser. — ele respondeu, sem esperar que Aiden continuasse. Seu coração batia acelerado e ele podia jurar que Sawyer o escutava do outro lado.

— Melhor não — Aiden sabia que geraria muitas perguntas de Keith e ele não estava pronto.

— Eu sei, acho que é o sono falando — Sawyer riu e bocejou — vamos dormir? Com o celular ligado?

— Tudo que você quiser — ele sussurrou, como se falasse com Sawyer ali na cama, atrás dele.

Ele não sabe se demorou a dormir, mas escutou quando Sawyer finalmente pegou no sono e desejava que seus celulares fossem bons o suficiente para conseguirem conversar por chamada de vídeo, porque Aiden sentia falta de olhar para Sawyer. Os cílios longos, as sobrancelhas grossas. Sentia falta das pequenas pintas que ele tinha nas mãos e dos dedos longos, que tinha mania de estalar.

Aiden fechou os olhos e bufou, frustrado. Queria falar o que sentia. E então segurou o celular e o encarou. Como se pudesse ver o Sawyer deitado, mas ele só conseguia escutar sua respiração tranquila e às vezes o ronco alto característico e sabia que ele estava dormindo de barriga para cima.

Sabia que em algum momento teria de dizer a verdade a Sawyer, expor seus sentimentos, mesmo que ele dissesse "sentimento é pra fracotes".

— Eu estou apaixonado por você — ele sussurrou, porque não queria que ninguém escutasse, mas porque queria treinar. E saiu fácil, porque era o sentimento mais real que ele sentia. Sawyer continuou dormindo, Aiden escutava sua movimentação na cama e sua respiração.

Até enfim conseguir dormir.