Welcome to badlands
35 Capítulo Trinta e Quatro: aniversário do Tristan.
Em março Tristan começou suas aulas de direito na faculdade e percebeu que não aguentaria pedalar ida e volta todas as tardes e sabia que teria aulas que voltaria após as sete horas da noite, então começou a não se importar quando Osmar dormia lá, porque ganhava carona. Após a primeira semana aquilo virou parte da rotina deles e ele já não ia mais ao apartamento dos garotos por causa dos seus horários cheios.
As coisas se encaminhavam aos poucos e do jeito que ele esperava. Toda a semana ficava cada vez mais fácil se consultar com a psicóloga e ele até percebia sua melhora. Daisy também reparou porque ele já não se afastava quando sentia que alguém iria tocá-lo.
Em um sábado ele estava trabalhando na piscina, varrendo o chão em frente ao bar, quando percebeu que havia uma garota se afogando na piscina. Estava cheio naquele fim de semana, Tristan largou a vassoura e procurou pelos salva-vidas, mas não achava ninguém e gritava "aquela garota tá se afogando", mas ninguém parecia o escutar.
A piscina não era funda, mas ele sabia como o medo poderia sabotar na hora do perigo. Quando acontecia algo de perigoso com Tristan, ele sentia o cérebro desligar, para não sobrecarregar. Mas naquele dia ele foi determinado a salvar a garota. Não se importou com mais nada quando pulou na piscina e a levou até a escada. Ele simplesmente repetiu o que os vira fazer no treinamento enquanto a garota estava deitada na borda, as amigas esperando e algumas pessoas apenas observando.
Tristan estava pronto para tentar mais uma vez quando a primeira respiração boca a boca não deu certo. Sentiu alguém tocar seu ombro e olhou para trás, o sol incomodando seus olhos por uns segundos enquanto observava o salva-vidas daquele horário o encarar de cara feia. Ele apenas revirou os olhos e prosseguiu o que estava fazendo.
Após forçar o tórax com as duas mãos, percebeu que a água começou a sair da boca da garota, que levantou assustada depois de dois segundos.
Tristan a encarou enquanto ela se afastava e ia para perto das amigas, mas uma mulher mais velha se aproximou e o encarou.
— Eu vi o que você fez... — ela tirou a franja da frente dos olhos — Obrigada. — ela tocou o ombro de Tristan e se afastou.
Mas atrás dela, com a cara ainda emburrada, estava o salva-vidas.
— Achei que você era da limpeza — ele olhou Tristan dos pés à cabeça, que só lembrou-se naquele instante que estava com a roupa inteira encharcada, mas estava se sentindo estranhamente bem. Não foi algo difícil como ele pensou que seria, mas ficou assustado quando a garota não abriu os olhos a princípio.
— Ninguém viu que a garota estava se afogando.
— Ah, pelo amor de Deus — o garoto riu — ninguém se afoga nessa piscina. Esse trabalho é uma piada.
— E o que acabou de acontecer? — Tristan arregalou os olhos para ele — Você estava ocupado demais para ver que a garota estava se debatendo, até sumir. — ele sentia sua voz elevando, mas não se importava. — Era sua responsabilidade e você não foi capaz, eu tive de fazer algo — ele deu de ombros.
— Eu estava no banheiro... — o garoto começou a dizer, mas percebeu que não precisava dar uma explicação a Tristan.
— Olha, não importa — Tristan pegou a camiseta encharcada no corpo e a torceu, fungou duas vezes e retirou os cabelos da frente do rosto. — Já tá tudo bem, né? — ele tombou no ombro do garoto quando se afastou.
Karen encarava o que acontecia com os braços cruzados a frente do corpo e o queixo erguido. Tristan passou ao seu lado, indo em direção ao banheiro, quando ela segurou seu braço.
— Escuta, não gostei de você levantar a voz para seu colega de trabalho — ela sussurrou. Estavam parados em frente ao bar, ela conversava com ele, mas seu olhar era focado na piscina à sua frente. — Mas você fez certo em deixar seu trabalho para salvar a garotinha.
— Tudo bem... — ele murmurou, incerto. Não estava confortável com Karen falando com ele sem o olhar.
— Quero que você mude de cargo amanhã.
— Eu? — Tristan franziu o cenho e Karen desviou os olhos da piscina para encará-lo, mas por apenas alguns segundos.
— Amanhã você será meu supervisor e salva-vidas.
Tristan queria perguntar como aquilo funcionaria, mas ela deixou claro que a conversa havia sido encerrada, então ele foi até o banheiro para tentar se secar. Pegou uma toalha no caminho e se fechou no banheiro dos funcionários.
Karen já tinha uma supervisora, que ficava com ela o tempo inteiro, então Tristan não sabia bem o que ela planejava.
*
Aiden passava a maior parte do seu tempo livre com Sawyer, quando ele não trabalhava com Seth. Sabia que ficariam longe por alguns dias e não queria perder nenhum segundo ao seu lado. E quando não podiam se ver à noite, se falavam pelo telefone e aquilo bastava às vezes. Nunca pareciam cansar de conversar, arranjar assuntos. A maior parte coisas que não teriam coragem de falar um na frente do outro.
Nunca falavam 'eu te amo', mas era como se dissessem aquilo em cada respiração quando o silêncio pairava no ar.
Aiden já havia perdido a coragem de lhe dizer o que sentia, mesmo quando o momento pedia uma declaração, ele não conseguia falar. Foi mais fácil quando Sawyer estava dormindo, sem escutar nada.
Muitas vezes Sawyer era interrompido por Seth, que o mandava "parar de ser tão viadinho e trabalhar". Aiden escutava tudo, mas apenas esperava por Sawyer dizer a mesma coisa sempre: preciso ir, meu irmão tá chamando.
Eles nunca falavam sobre isso. Aiden não suportaria, mas ficava deitado na cama, imaginando o que Sawyer poderia estar fazendo. Temendo por sua vida e sua liberdade. Mas tudo ficava bem quando ele voltava, já quase perto de amanhecer e mandava uma mensagem "estou aqui".
*
Ingrid estava cada vez mais ansiosa com a consulta para descobrirem o sexo biológico da criança e estava sempre por perto. Às vezes na lanchonete enquanto mostrava a Keith diversos berços e carrinhos. Ou em seu apartamento, enquanto tirava medidas e dizia "o berço ficará aqui" em um espaço onde Keith reservava para seus CDs. Ele apenas assentia, porque era o principal culpado em estar naquela situação.
Mas à noite, enquanto pensava sobre seu dia e via Ingrid pairando em todos os cenários, ele suspirou, sentindo-se derrotado. Onde estava com a cabeça quando resolveu se meter naquela encrenca? Ele tinha certeza que, se houvesse algum juiz de paternidade, nunca deixaria uma criança nas mãos de Keith.
Mas não existia isso e ele não tinha saída alguma.
Estava tão obcecado com aquilo que em um dia quente e vazio no trabalho passou quase duas horas falando com Aiden sobre um berço que viu com Ingrid na Costa Rica.
Sabia que grande parte do seu salário não seria para seus gostos exagerados em tênis ou bebidas, mas em fralda e tudo que Ingrid achasse que ele deveria arcar.
E era isso que Keith deveria ser dali em diante: tudo que seu pai não foi.
*
Três dias antes de Sawyer ir ao alojamento, era aniversário do Tristan. Osmar e Daisy arrumavam os preparativos enquanto ele estava na faculdade. Os três garotos estavam ocupados com seus trabalhos, mas quando Sawyer voltou de uma entrega com Seth, ele foi direto para a casa de Tristan ajudar nos preparativos.
A sala estava cheia de balões e "Feliz aniversário" em letras coloridas de papelão na parede, atrás da mesa com um bolo de chocolate. Os garotos já comemoraram diversos aniversários juntos, mas aquele foi o mais perto de uma festa que Sawyer presenciava.
Encheu diversos balões até Daisy dizer que era o suficiente. Ela estava radiante em ter a chance de organizar o aniversário dele. Mas a sua maior felicidade era de que não era um simples aniversário, ele estava fazendo dezoito anos.
Balões dourados em formatos de números – 1 e 8 — estavam grudados na parede, abaixo da faixa de feliz aniversário.
— Não acredito que daqui a pouco todos nós seremos maiores de idade — Sawyer riu, pensando em todas as coisas que fizeram em todos aqueles anos. Lembranças que ele carregava consigo e que fez os quatro se tornarem inseparáveis.
— Só vai melhorar agora — Osmar sorriu para Sawyer.
Sawyer não era acostumado a gostar de outras pessoas, ele era um garoto exigente, às vezes não gostava do Keith, por exemplo, mas eles eram amigos e isso que importava. Mas Osmar transmitia algo bom para Sawyer, ele quase podia enxergar o pai que ele gostaria de ter tido. Se ele não estivesse namorando Daisy, daria um jeito de colocar Mary no seu caminho.
Ele riu do pensamento, mas não deixou a ideia ir embora.
Até perceber que ele não era mais um adolescente que queria os pais perto. Osmar seria muito mais feliz com Daisy – falsa -, do que com sua mãe – drogada -.
*
O plano de Aiden e Keith era fingir que haviam esquecido o aniversário do amigo, mas quando Tristan colocou os pés na lanchonete naquela tarde – o corpo curvado com o peso da sua mochila – Aiden quase o parabenizou, mas fechou a boca antes que saísse as palavras apressadas.
Keith, esquecido e fofoqueiro do jeito que era, teve de morder a língua para não começar a cantar parabéns e abraçar Tristan.
— E ai — Tristan jogou a mochila ao seu lado no banco giratório em frente ao balcão. Estava cansado e com dor de cabeça, mas sabia que era fome.
— Tudo certo? — Keith ergueu o queixo, tentando o encarar de um jeito indiferente, mas Tristan nem reparava nos amigos, estava olhando para o cardápio.
— Você vai comer? — Aiden franziu o cenho — Eles odeiam quando pedem lanche após às seis. — ele apontou para a cozinha e Keith franziu o cenho.
— Eles aceitam, sim — murmurou, mas Aiden pisou no seu pé, o que fez Keith gritar de susto e dor. Tristan os encarou, desconfiado.
Demorou uns segundos até Keith perceber que Aiden estava tentando fazer com que Tristan não comesse, porque a pizza os esperava na casa dele.
— Não entendi. Posso pedir ou não? — Tristan bufou, afastando o cardápio e encarando os garotos. Ele os conhecia o suficiente para saber que estavam mentindo, mas não entendia o porquê.
— É que a gente já quer ir embora — Aiden tentou mentir e ele sabia que era um péssimo mentiroso, então desviou seus olhos para as manchas de gordura na parede para não encarar Tristan. — Tá vazio — A única presença era das moscas inconvenientes.
— Ah, agora tá explicado — Tristan revirou os olhos. — Eu tô com fome, eu só almocei.
— Não tem comida na sua faculdade chique? — Keith desdenhou — Quer pão? — ele ofereceu, apontando para o mostruário com um pão restante, que já estava duro. Tristan recusou balançando levemente a cabeça.
— Da onde você tirou que é chique? — Tristan riu — Vocês deveriam ir lá conhecer, talvez tenham vontade de fazer o vestibular e... Estudar lá — ele desanimou de continuar sua sugestão quando percebeu o semblante de tédio que Keith o encarava.
— Acho que nada vai me fazer querer estudar, sinto muito — Keith riu.
— Talvez se fosse algo que você gostasse... — Tristan começou e Keith ergueu a mão para ele, o interrompendo.
— Você tá tentando me convencer a fazer faculdade? Como aquelas pessoas que querem falar sobre Jesus Cristo?
— Seu cérebro funciona de uma forma diferente — Aiden encarou Keith, que apenas o ignorou e continuou encarando Tristan.
— Você pode fazer o que quiser da sua vida — Tristan deu de ombros — só acho que talvez o tempo esteja passando muito rápido...
Aiden parou de escuta-lo porque apesar daquilo ser dito para Keith, ele se identificou. Não sabia se tinha o necessário para passar em uma faculdade pública como Tristan, mas queria estudar.
— E tem outra forma de estudar... Sem ser faculdade? — Aiden encarou Tristan, interrompendo o monólogo de Keith sobre só querer trabalhar.
— Claro — Tristan assentiu — Cursos técnicos, por exemplo. E são mais curtos.
Aiden considerou aquilo por alguns segundos, até Keith bufar e murmurar que havia cansado daquela conversa.
— Olha só a hora — Keith fingiu surpresa e encarou o relógio na lanchonete. — Vocês estão liberados — ele bateu na pequena janela da cozinha e tirou seu uniforme. Aiden seguiu seus passos.
Os três saíram da lanchonete e Tristan estava pronto para se despedir quando Keith jogou o braço por seus ombros e o virou em direção ao bairro.
— Nós vamos à sua casa, queremos ver Zion — ele disse enquanto Aiden trancava a lanchonete.
*
Sawyer gostava de escutar as histórias de Osmar, como se estivesse o preparando para os seus dias como um soldado. Ele não queria se animar e bater de cara no chão, mas sentia-se seguro enquanto Osmar certificava-o de que não havia equivoco e que não havia com o que se preocupar. Já estava dentro da aeronáutica.
Mas Sawyer sabia que Osmar era o responsável por sua entrada no quartel, só não sabia por que não fez o mesmo por Tristan, seu enteado. Ou por Keith, que estava animado em fazer parte daquilo. Não conseguia entender sua vontade por trás. E talvez simplesmente não houvesse, mas Sawyer não estava acostumado com notícias boas e finais felizes. E odiava sentir que devia algo a alguém.
Daisy não parecia confortável com a aproximação dos dois. Sawyer podia sentir seu incômodo no ar, era palpável. Mas ele não se importou. Sawyer se importava apenas com três coisas na sua vida, e Daisy e sua opinião sobre ele não estavam nessa lista.
Mas Daisy gostava da atenção que Osmar lhe dava, então sentou ao lado dele no sofá, com os pés em cima das suas pernas e o decote se insinuando para o homem, que logo se esqueceu do que estava falando com Sawyer.
Ele não queria assistir àquela cena, então seguiu para o quarto de Tristan atrás de Zion e ficou por lá, imerso no lugar.
Quando Eleanor morava lá os garotos não iam à casa de Tristan. No início, quando não sabiam o que acontecia, não entendiam por que Tristan não gostava da própria casa, mas quando descobriram... tudo fez sentido. Sawyer encarou o quarto, que apesar de ser pequeno e limpo, sem muitas informações, era como se estivesse vendo Tristan.
As paredes eram brancas e sem manchas, a cama estava arrumada com um lençol azul claro e o travesseiro estrategicamente posicionado no centro da cama de solteiro. Ao lado havia uma mesinha de cabeceira com alguns livros da faculdade em cima. O guarda-roupa de madeira escura ocupava toda a parede em frente à cama. Tudo parecia em seu devido lugar.
Zion, percebendo que não estava sozinho no quarto, levantou da sua cama ao lado da porta e se aproximou de Sawyer abanando o rabo.
— Ele é muito querido — Daisy comentou, sua voz ecoando pelo quarto. Sawyer mordeu a parte de dentro da bochecha por ter se assustado, sentia-se vulnerável.
— É. — Sawyer pigarreou e a encarou, escorada na porta. — Eu só vim vê-lo — ele tentou se explicar. Conhecia aquele olhar. Para os outros, Sawyer não passava de um marginal.
— Fique a vontade — sua voz dizia aquilo, mas seu rosto com sorriso falso lhe dizia a verdade. Ele se afastou de Zion, que logo levantou para segui-lo e passou raspando ao lado dela, que não se moveu um centímetro para Sawyer sair do quarto.
Sawyer já não se sentia a vontade naquela casa, mas fazia por Tristian. E quando escutaram o barulho da fechadura, se posicionaram na entrada da casa, "para ser a primeira coisa que ele vê quando abrir a porta", Daisy estava à frente. Zion ficou no chão, parado com eles, à espera do que aconteceria. Achando que iria passear, talvez.
Ela apagou todas as luzes, mas a cortina era um tecido fino e branco e a luz alaranjada do fim do dia iluminava a sala.
Tristan abriu a porta, sua cabeça abaixada enquanto encarava a maçaneta, mas quando ergueu a cabeça viu os três o encarando e sorrindo enquanto cantavam "parabéns". Zion correu para os pés de Tristan, querendo atenção.
Tristan não esperava aquilo. Assustou-se a princípio, estava distraído, mas então quando entendeu... Ele queria segurar o choro, não gostava de chorar na frente de ninguém. Apenas de Geovana, que via seus piores lados e não se surpreendia, era como se o entendesse.
— Então vocês lembraram que era meu aniversário — ele olhou para Keith e Aiden atrás dele, que apenas assentiram e se aproximaram para um abraço constrangedor entre os três. Sawyer viu e correu para participar.
— Você achou que esqueceríamos mesmo? — Aiden foi o primeiro a se afastar para conseguir olhar para Tristan. Daisy estava ansiosa, queria se aproximar do filho, mas os garotos não o deixavam em paz.
Apesar do café da manhã especial que ela havia feito, queria fazer mais por seu filho no seu dia. Queria que ele apreciasse o que ela fez, uma festa para tentar recompensar todos os anos longe dele. Um bolo de chocolate não ajudaria, mas ela estava ali, afinal de contas.
— Mãe — Tristan se aproximou sorrindo — Obrigado.
— Feliz aniversário, meu filho — ela segurou seu rosto com as duas mãos e lhe deu um beijo demorado na bochecha. Ele a abraçou, sentindo-se reconfortado em seu abraço. Seus braços o envolvendo enquanto ela dizia "tá tudo bem, filho" e só então ele notou que estava chorando.
Pela primeira vez em toda a sua vida, ele estava feliz, finalmente.
Tristan secou as lágrimas timidamente enquanto fungava.
— Meu presente é simples — Osmar suspirou, lhe entregando um papel. Ele não entendeu muito bem, além das suas vistas estarem embaçadas, sua concentração ficou do lado de fora por alguns segundos. — Aulas para você conseguir sua habilitação — ele sorriu para Tristan, que arregalou os olhos, sentindo-se vitorioso. — Só estou te dando isto porque você aprendeu rápido e sei que será responsável com um carro. — Osmar percebeu o olhar de Sawyer, já imaginando que o homem havia lhe dado um carro de presente. Osmar riu — Se você passar na prova teórica e na prática... Aí conversaremos sobre um carro — ele se inclinou para falar no ouvido de Tristan, como se fosse um segredo, mas falou em voz alta para todos escutarem.
Tristan continuou com os olhos arregalados, impressionado com a facilidade que era conseguir as coisas enquanto Osmar estava ali. Era egoísmo de sua parte querer que sua mãe continuasse com ele, mesmo sabendo que ele poderia ser machista com ela? Não sabia da relação dos dois. Quase sempre ele dormia lá, mas sua mãe nunca dormia no apartamento dele, o que Tristan sabia que era porque não queria deixa-lo sozinho em casa. Mas sua mãe quase não ria quando estava com ele, mesmo quando ele contava piadas engraçadas. E sempre parecia pronta para servi-lo. "Uma cerveja? Chegando, geladinha!".
Mas a verdade, para Tristan, era que ele não conhecia a vida, amor ou as pessoas. Então ele não queria se meter, ou questioná-la. Ele também estava a conhecendo, de alguma forma.
*
As pizzas, que esfriaram enquanto aconteciam as felicitações, foram devoradas em alguns minutos pelos garotos. Todos famintos e mal educados, mas Daisy tentou não se importar, porque Tristan estava feliz e aquilo bastava.
Cantaram parabéns de forma exagerada e escandalosa – Keith, principalmente – e Tristan não conseguia parar de sorrir. E mesmo feliz, não sentiu que algo ruim aconteceria. Apenas aproveitou aquele momento com todas as pessoas importantes da sua vida. Porque elas também estavam felizes. Naqueles segundos enquanto cantavam não existia mais nenhum problema nas vidas deles. Traumas, culpa e inseguranças não pertenciam àquela noite.
Beberam com Osmar na cozinha enquanto ele falava sobre Tristan na direção. Sua concentração, focada na rua à sua frente e a rapidez com que aprendeu as marchas. Mas era cauteloso demais. Deixava os outros passarem na sua frente e não se esquecia de agradecer quando deixavam ele ultrapassar.
— É seguro andar com ele? — Sawyer perguntou, risonho, já não sentindo-se tão desconfortável na casa, mesmo Daisy os encarando com raiva enquanto falava com Tristan.
— Sim. Acredite em mim, acho que ele dirige melhor que eu.
— Isso não é difícil — Sawyer riu, porque estava bêbado e Osmar não se incomodou e riu também, porque era verdade.
Osmar dirigia devagar, mas porque dizia temer acelerar e entrar em algum acidente. "eu sou velho", ele disse "preciso me preservar".
— Porque vocês não saem? — Osmar ergueu a sobrancelha e encarou os garotos.
Tristan estava sentado no sofá com sua mãe e encarou Osmar, confuso.
— Você acabou de fazer dezoito anos — Osmar virou-se para Tristan no sofá e se aproximou dele — pretendem ficar aqui? — ele riu, mas se estivesse na rua, cuspiria. — Vão se divertir, vocês são jovens! E me deixem com a minha florzinha aqui — ele se aproximou de Daisy, que forçava um sorriso enquanto Osmar aproximava-se e passava o braço por seu ombro.
Tristan fez uma careta e revirou os olhos, pronto para argumentar.
Não havia lugar para onde ir em um dia de semana – e os lugares não eram bem frequentados na noite -. Mas Osmar revirou os olhos e bufou.
— Pra onde vamos, senhor? — Keith o encarou, e até faria uma continência, mas achou exagerado.
— Vocês que sabem, eu não conheço essa espelunca de bairro — Osmar fez uma careta. Cuspiria novamente se pudesse.
Enquanto pensavam em algum lugar, Tristan levantou-se rapidamente do sofá e encarou Osmar, decidido.
— Posso pegar seu carro emprestado?
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