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36 Capítulo Trinta e Cinco: penhasco.


Osmar confiava no Tristan com seu carro, mas os garotos nunca haviam andado de carro com ele e Sawyer encarava Tristan em frente ao volante com os olhos arregalados. Temeu por sua vida por alguns segundos.

— Tô vendo essa cara assustada aí — Tristan olhou para ele pelo retrovisor. Sawyer e Aiden estavam no banco de trás e Keith mexia no painel e porta-luvas do carro no banco do carona.

— Desculpa, ainda tenho amor pela minha vida — Sawyer pigarreou e riu.

— Você não tinha medo de apanhar do Seth, de enfrentar um trem e socar pessoas e tem medo de andar de carro comigo? Um garoto responsável e de dezoito anos? — ele arqueou a sobrancelha para Sawyer, que apenas deu de ombros, aceitando.

— Então, para onde vai nos levar? Sabe que não pode ir muito além, né? Você ainda não tem habilitação... — Aiden parou de falar quando percebeu com quem estava falando aquelas coisas. Tristan nunca agiria contra a lei.

— Relaxa. É perto, mas não tão perto para irmos a pé — Tristan colocou o cinto e pediu que Keith colocasse também e só deu partida no carro quando ele se ajeitou bufando e revirando os olhos, sentindo o cinto muito apertado.

A faculdade do Tristan ficava a alguns quilômetros de onde estavam, mas os garotos ficaram desconfiados por alguns segundos porque Tristan havia estacionado o carro em um penhasco após passar em uma loja de conveniência na estrada.

— Beleza — Keith engoliu em seco enquanto descia da camionete. O céu era estrelado ao redor deles. Não havia nada. Não havia barulho, luz, pessoas. Apenas os quatro garotos. Três com os cenhos franzidos enquanto Tristan ia até o porta-malas.

— Eu trouxe as bebidas — ele apontou para a sacola com latinhas de cerveja — Foi o que eu consegui, o homem não acreditou na minha identidade — Tristan revirou os olhos.

Keith desmanchou a careta confusa e pegou a sacola das mãos de Tristan. Ainda estavam geladas.

— Ao Tristan — ele ergueu a latinha enquanto os garotos se inclinavam para pegar. Sawyer sorria enquanto abria a sua e Aiden balançava a cabeça, incrédulo com o lugar que Tristan havia os levado.

— Mas... e esse lugar? — ele perguntou, encarando Tristan enquanto bebia um gole da sua cerveja.

— Vim aqui com Osmar quando ele estava me ensinando a dirigir — ele riu — Foi tenso porque ele me obrigou a ir até ali — ele apontou para a ponta do penhasco e caminhou até lá, esperando os amigos o seguirem. O que eles fizeram, mas calmamente para não caírem, mesmo longe.

— E você conseguiu tudo isso? — Keith estava admirado, mal conseguia olhar para baixo. Não apenas por causa do medo, mas porque não conseguiam ver nada lá embaixo, embora ele soubesse que era água por causa do cheiro e do barulho.

Não havia iluminação o suficiente, apenas a lua à distância e as estrelas. Os garotos, apesar das pernas bambas, sentaram-se na beira do penhasco. Sentindo o vento nas pernas enquanto tentavam se equilibrar com as latinhas.

Tristan parecia em paz.

— Vocês já pararam para pensar em tudo que a gente passou? — ele perguntou, interrompendo o silêncio das respirações pesadas e dos dedos de Sawyer apertando a lata. Seu joelho encostando-se ao de Aiden, que parecia com medo demais para perceber Sawyer bem ali, pronto para segurá-lo se necessário.

— É só o que eu penso — Keith pigarreou ao seu lado, sua voz era baixa, como se tivesse medo que qualquer respiração pudesse o trair, o fazendo cair.

— Por quê? — Aiden perguntou, fechando os olhos para não encarar a altura — Porque ficam pensando nisso? Vamos só pensar no que tá acontecendo agora.

— É essa terapia dele — Sawyer desdenhou e bebeu a cerveja. Tristan bem sabia que uma terapia colocaria a família de Sawyer nos eixos.

— Pode ser —Tristan deu de ombros, indiferente — a gente era criança demais pra tudo que tava acontecendo — ele largou a latinha ao seu lado, que caiu por causa do vento. Mas não havia liquido algum.

— Não quero deixar meu filho passar por nada que eu passei — Keith fungou. Não estava chorando, mas o vento em seu rosto era desconfortável.

— Não vai. Você não é seu pai e Ingrid não é sua mãe — Aiden bufou.

— Você não sabe — Sawyer soava indiferente enquanto encarava o céu à sua frente. A latinha de cerveja apoiada na boca — As pessoas são imprevisíveis demais.

— Acho que não será igual — Tristan encarou Keith, tentando o tranquilizar de alguma forma. — Porque nunca conversamos sobre as coisas importantes? — ele encarou os garotos. Sentia-se bem, apesar do medo de cair.

— Porque vocês são a parte boa da minha vida — Sawyer deu de ombros — Não queria estragar as coisas boas envolvendo as ruins.

— Mas agora é diferente — Tristan suspirou. — A gente deveria falar sobre as coisas importantes, mesmo que sejam ruins — ele ergueu o queixo e Aiden percebeu que era um pedido — Minha tia abusava de mim quando eu era pequeno, todos nós sabíamos mas nunca teríamos coragem de fazer nada e finalmente alguém fez e ela agora tá longe, sabe — ele riu, aliviado — ela estragou quase toda minha infância. Só não estragou minha vida porque eu continuo aqui.

Aiden pensou em dizer algo, mas Tristan balançou a cabeça.

— Vamos só falar o que está nos incomodando ou o que queremos compartilhar. Não é necessário dizer nada.

— Eu estou apavorado em ser pai, mas ao mesmo tempo estou feliz. Gostaria de chamar a Ingrid pra sair, mas não sei se seria bom... — Keith suspirou e bebeu um gole generoso da cerveja antes de jogá-la na imensidão escura à frente deles. Não ouviram a latinha atingir a água. Escutavam apenas o barulho do vento sibilando ao redor deles, pronto para os empurrar.

Sawyer já estava confortável, sentindo-se invencível após terminar de beber sua latinha e a amassar.

— Eu não aguento mais ter de trabalhar para o Seth — a voz de Sawyer era um sussurro, quase inaudível, mas os garotos viraram vagarosamente a cabeça para ele.

Pensavam que ele elaboraria, mas ele ficou quieto encarando o nada à sua frente. Não era surpresa para nenhum deles, embora Sawyer pensasse que sim. Aiden engoliu em seco porque nunca ouviu Sawyer falar daquela forma e, sem pensar, pousou sua mão na perna dele, que não demonstrou sequer uma reação.

— E porque você não para? — Keith perguntou, invadindo o silêncio que se instalou por alguns segundos. Sawyer virou a cabeça lentamente para encarar Keith e considerou contar a verdade e eles. Contar o porquê estar preso ao seu irmão, mas quando percebeu o silêncio e a atenção excessiva em cima dele, desistiu.

Não faria bem a ninguém ele contar a verdade. Veria decepção no olhar de Aiden. Veria confusão no semblante magro de Keith e sabia que Tristan nunca mais olharia para Sawyer da mesma maneira. Pelo menos era isso que Sawyer pensava. Ele preferia lidar com tudo sozinho.

— Osmar ficaria decepcionado — Keith se afastou da beirada se arrastando com a bunda no chão e levantou quando estava longe o suficiente da possível queda. Se dirigiu à sacola aberta e pegou outra cerveja — Deveríamos aproveitar seu aniversário, não lamentar. — ele encarou Tristan, que sorriu e assentiu.

— Você tem razão — ele levantou, sem todo o cuidado que Keith teve e se aproximou do carro, ligou o rádio e os faróis.

A vista a frente deles não mudou muito, mas finalmente podiam ver melhor uns aos outros. Todos tremiam de frio, não haviam levado sequer um casaco, mas não pareciam incomodados ou com vontade de ir embora. Sawyer sabia que em breve ficaria longe deles e queria aproveitar aquele momento. Tristan estava feliz e sentiu vontade de beber mais, mas não podia porque estava dirigindo.

Percebeu Keith tentando acender um cigarro e o encarou, interessado. Lembrava-se vagamente da sensação do cigarro em sua boca e da fumaça entrando suavemente. Lembrava-se da tontura chata, mas que parecia irresistível naquela noite.

— Posso? — ele perguntou, apontando, porque não conseguiria dizer "posso dar uma tragada?" ou "posso experimentar de novo?".

Keith franziu o cenho, confuso, mas deu de ombros e lhe entregou depois que conseguiu acendê-lo.

Tristan pegou o cigarro fino em seus dedos e o encarou antes de fumá-lo. Não sabia exatamente o porquê daquilo parecer atrativo para ele, sempre abominou o cheiro, mas quando encostou o filtro nos lábios, sentiu o gosto de canela e tragou, lambendo os lábios após tirá-lo da sua boca.

Sentiu a fumaça e a segurou por alguns segundos. Quando a soltou, parecia fina e frágil.

A tontura lhe traiu alguns segundos, mas agradeceu por estar longe da beira do penhasco, onde Sawyer levantava, era o único ali, sentindo o vento em seu corpo, puxando sua camiseta. Ele estava a centímetros da queda.

Aiden, Tristan e Keith estavam atrás, observando. Sawyer não estava bêbado, mas seu equilíbrio não era o mesmo e isso só foi percebido pelos garotos, que o observavam vacilar e não sabiam se era o vento ou as pernas fracas de cerveja. Mas Sawyer não percebeu. Os olhos fechados, puxando todo o ar que conseguia e expirando em seguida de um jeito prolongado. Quando abriu os olhos e encarou o que havia abaixo dos seus pés, não sentiu medo. Por alguns segundos sua mente o instigou.

Se ele pulasse, acabaria tudo. Não precisaria mais trabalhar para o Seth. Não veria a decepção nos olhos dos seus amigos. Não veria mais Aiden...

Ele olhou para trás quando sentiu seus pés vacilarem. Encarou Aiden. Seu olhar era atento em todos os movimentos de Sawyer e estava pronto para correr em sua direção caso se desequilibrasse, mas Sawyer nunca cairia. Nem pularia.

Ele se afastou lentamente da beira, ainda encarando o infinito de escuridão que se estendia. Andou de costas, até não enxergar mais nada além da cor acinzentada da rocha. Sawyer virou para seus amigos, que o encaravam com os olhos levemente arregalados e os dentes batendo de frio.

— Você deve ser muito masoquista pra se divertir fazendo isso — Keith balançou a cabeça — e se você caísse? O vento tava te fazendo cambalear.

— Estou aqui, não estou? — Sawyer revirou os olhos enquanto pegava uma cerveja. Tristan abriu a porta do carro e sentou no banco do motorista, para se aquecer.

E para se acalmar, de alguma forma. Não foi apenas Keith que se preocupou com a possível queda de Sawyer. Ele havia ido àquele lugar de dia e ele viu o que havia lá embaixo. Quase não era possível enxergar a água por causa das rochas ao redor. Era perigoso e começou a se arrepender de levar os amigos ali.

Havia tantos lugares, porque levar a um tão perto da morte? Seu coração estava acelerado, mas tentava se acalmar enquanto encarava Sawyer. Vivo e bem.

— Mas e se, Sawyer? — Aiden aproveitou que não era o único preocupado e se exaltou.

— Vocês estavam aqui. Me ajudariam. — Sawyer deu de ombros após beber a cerveja quente e fazer uma careta.

— Você não sabe — Aiden murmurou, fazendo questão de encarar Sawyer com o cenho franzido e as narinas dilatadas. Sawyer suspirou, rendendo-se.

— Beleza, desculpa. — Sawyer prosseguiu bebendo a cerveja porque não queria dizer mais nada. Eles ficaram calados por alguns segundos e o único som disponível era o do carro, uma melodia suave, acalmando os ânimos enquanto Tristan sentia o coração normalizar e Aiden respirava fundo, despachando a raiva por alguns segundos.

— Acho melhor irmos embora — Keith engoliu em seco, surpreendendo os garotos. — Amanhã precisamos acordar cedo — ele olhou para Aiden, que assentiu, mas ainda encarava Sawyer.

A ida até a casa do Tristan foi silenciosa e ele aproveitou para ligar o som. A música era calma e Keith encostou a cabeça na janela, sentindo os olhos pesados. Aiden encorou-se no braço de Sawyer e pousou a cabeça no seu ombro. Tristan observou a cena pelo retrovisor, mas já havia visto aquela aproximação tantas vezes que nunca notou nada além do que era para notar: dois melhores amigos. Mas depois do que ele viu, sabia que havia algo a mais na aproximação dos dois.

— Então — ele pigarreou, despertando Keith e Aiden em um susto. — O que eu queria falar enquanto estávamos lá — ele encarou os três rapidamente enquanto dirigia. A estrada estava escura, mas o farol o guiava. Sua mão segurava o volante com força, ainda não estava 100% seguro em dirigir à noite. — É que acho que já está na hora de pararmos de ignorar alguns assuntos só porque não queremos falar sobre eles. Somos amigos e amigos se apoiam, não importa o que. — seu olhar encontrou o de Aiden no retrovisor, foram segundos, mas que fizeram Aiden franzir o cenho, confuso. "Por que ele está falando aquilo olhando diretamente para mim?", ele se perguntava.

— Beleza — Sawyer deu de ombros, sua atenção permanecia na janela, os pensamentos distantes. Tristan tinha razão, mas ele não sabia se era aquele tipo de pessoa.

— Só porque fez dezoito tá todo amadurecido, né? — Keith riu e o cheiro de cerveja invadiu o carro por alguns segundos, até Tristan abrir as janelas da frente.

— Pode ser — Tristan assentiu — mas também porque a Geovanna me disse que eu deveria conversar com meus amigos, porque falei que nos conhecemos há uns sete anos...

— E quem é Geovanna? — Keith franziu o cenho, confuso.

— A terapeuta dele — Aiden revirou os olhos.

— E eu acho que ela tem razão — Tristan prosseguiu, provando o que estava dizendo — Tem coisas que eu só contaria para vocês — ele continuou olhando pelo retrovisor, mas Aiden estava encarando a janela à frente e não percebeu.

— O que por exemplo? — Keith semicerrou os olhos e Tristan o encarou de soslaio.

— Por exemplo... — Tristan mordeu o lábio enquanto parava em um sinal vermelho, já próximos do bairro. — Não sinto vontade de ficar com nenhuma garota. Ou garoto — ele pigarreou e Keith virou o rosto para ele rapidamente.

— O que diabos isso quer dizer?

— Também não sei — Tristan já não sabia o que fazer para Aiden e Sawyer falarem algo, mas percebeu que eles estavam quietos e encarando a janela. — Perguntei para a doutora se era normal eu não sentir atração por ninguém e ela disse que pode ser meu mecanismo de defesa — ele engoliu em seco — mas que se eu não sentir atração não quer dizer que tem algo de errado comigo, isso é normal.

Keith franziu o cenho, tentando compreender.

— Mas e a amiga da Vanny? — Keith perguntou, sem tirar os olhos de Tristan.

— Nunca fizemos nada — Tristan apertou o volante e sentiu o pé pesado no acelerador.

— E você não sentia nada por ela? — Keith estava interessado, mas Tristan não queria conversar sobre aquilo. Ele sentia que o plano de tentar puxar Aiden e Sawyer para a conversa não daria certo com Keith junto.

— Acho ela linda, mas não sei se gostaria de transar com ela... — Até a palavra "transar" costumava causar arrepios em Tristan, mas ele estava começando a encarar a palavra como apenas uma palavra, sem associar traumas nela.

Keith pensou naquilo por alguns segundos e assentiu, mesmo não entendendo. Keith nunca recusaria uma transa com uma garota bonita, aquilo estava longe da sua realidade, mas queria tentar entender o amigo. Tristan não sabia se algum dia superaria o trauma a ponto de conseguir se relacionar com alguém, mas queria deixar claro que não sabia se a atração seria apenas com garotas. Afinal, ele nunca havia pensado naquilo antes, sua tia o fez odiar qualquer toque. Mas, acima de tudo, queria mostrar ao Aiden e ao Sawyer que estava tudo bem se eles contassem a verdade.

Se eles perceberam algo, não demonstraram. O silêncio prosseguiu e Tristan desistiu daquele assunto.

O combinado daquela noite era os quatro garotos dormirem na casa de Tristan e quando eles chegaram, tentando não fazer barulho, foram recebidos por Zion, que latia e girava enquanto abanava o rabo. Tristan tentou fazê-lo ficar quieto, mas aquilo fazia ele latir mais alto. Sawyer o pegou no colo e correu para o quarto, Aiden e Keith o seguiram enquanto Tristan trancava a porta.

Enquanto Tristan caminhava pelo corredor para ir ao seu quarto, sua mãe abriu a porta do dela, o que o fez pular de susto enquanto caminhava na ponta dos pés com todas as luzes da casa apagadas.

— Achei que alguém estava tentando nos roubar — Daisy estava com o rosto inchado e os cabelos bagunçados, a porta estava entreaberta enquanto ela encarava o filho.

— Você precisa entender que ninguém aqui assalta quem mora aqui — Tristan revirou os olhos, mesmo sabendo que ela não conseguia ver por causa da escuridão.

— Não sei — ela murmurou. Ela não conseguia gostar daquele bairro e a única razão por ainda deixar Zion dentro de casa é porque ele morderia a pessoa estranha tentando entrar — Vocês se divertiram? — ela perguntou, o semblante mais tranquilo e cruzou os braços em frente ao corpo ao escorar-se na porta.

— Sim — ele pigarreou — Estamos indo dormir já — ele apontou para seu quarto e sua mãe sorriu, tocou seu rosto e alisou sua bochecha. Se Tristan pudesse ver, notaria o orgulho em seu olhar.

— Feliz aniversário. Eu estou orgulhosa de você. — ela sorriu e ele murmurou "obrigado, mãe. Boa noite" e seguiu para o quarto. Daisy só voltou para a cama quando Tristan entrou no seu quarto e fechou a porta. Considerou que no dia seguinte conversaria com ele sobre o álcool – principalmente ao dirigir -.