Welcome to badlands
12 Capítulo Onze: redenção.
Keith não sabia o que estava sentindo. Não era ciúme. Ele não sentia que Vanny era sua propriedade. Era algo violento. Uma raiva que ele não conseguiria cessar, nem se socasse a cara do outro sujeito. Keith respirou fundo. Suor escorrendo nas costas. As mãos fechadas em punhos. Ele não enxergava seus amigos, que estavam tentando falar com ele. Ele só enxergava Vanny com outro garoto. Um riquinho. Do tipo que eles zoavam quando estavam juntos. “Veja aquele mauricinho”, Vanny ria e apontava o garoto perto da escola. Keith ria e pensava “vou casar com essa mulher”. E agora ela estava com um deles. Keith estava desapontado.
Tristan olhou a hora no seu celular e suspirou fundo.
— Nenhuma notícia boa chega a essa hora — Keith não o escutava, entretanto. A voz deles estava distante, como se estivessem mais longe que Vanny.
— Keith — era Sawyer. Keith sentiu as mãos pesadas do amigo nos seus ombros e respirou fundo, aliviando o aperto das mãos. Ele encarou os garotos, que o olhavam apavorados. O mesmo jeito que ele mesmo encarava o pai quando agredia sua mãe. Keith balançou a cabeça, expulsando qualquer resquício de pensamento dali.
— Você vai dizer alguma coisa? — Aiden perguntou. Seus olhos estavam assustados e aquilo acabou com Keith. Ele era o que mais sofria com violência. Não faria nada na frente do pequeno Aiden. Keith sorriu.
— Não. Não somos namorados — foi o que Keith disse, dando as costas para aquela cena.
— Espera — Sawyer gritou. Estava atravessando a rua e olhando para trás, para as costas de Keith.
Sawyer fez de propósito. Gritou para chamar atenção de Vanny. Tudo que Sawyer fazia era friamente calculado.
Vanny olhou para trás notando os garotos só naquele momento.
— Keith — ela suspirou, saindo de cima do colo do garoto.
— Ei — Sawyer se aproximou de Vanny. Keith continuou andando, mas olhou para trás, parando quando notou Saywer do outro lado da rua. Aiden e Tristan continuaram no mesmo lugar, mas estavam alertas, caso precisassem fazer algo.
— Saw — Vanny disse, escondendo o rosto corado.
— Não me chama assim — Sawyer rosnou — por que você fez isso com ele? — Sawyer apontou para Keith, ainda incrivelmente longe da situação para se permitir pensar direito.
— Não temos nada sério, Sawyer — ela riu, balançando a cabeça.
— E quem é você? — Sawyer perguntou, erguendo o queixo, desafiador, para o garoto sentado.
— Não importa, maloqueiro — ele cuspiu perto dos pés de Sawyer.
Aquele garoto definitivamente não conhecia Sawyer.
Sawyer estava sedento por sangue. Sedento por vingança. Por que faziam tanta merda com seus amigos? Eles nunca faziam nada de errado. Sawyer adorava o sabor da justiça. Aquele sangue nos nós dos dedos. O garoto jogado no chão implorando para parar. Vanny tentando o segurar. Keith, ainda desnorteado, do outro lado da rua, apenas observando a cena. Aiden e Tristan tentando separar a briga unilateral.
— Sawyer! — Aiden gritou. Era assim. Aiden gritava, Sawyer encerrava tudo.
— Pronto — Sawyer limpou as palmas das mãos nas calças surradas. Os garotos não queriam olhar para o riquinho jogado no chão. Não queriam olhar para Vanny. Então olharam para Sawyer, que não era a melhor visão do mundo, mas estavam acostumados com aquele Sawyer justiceiro.
Keith se aproximou vagarosamente.
— Me desculpem — ele disse. Para Vanny. Para o garoto no chão. Para os seus amigos. Pegou a garrafa da mão de Tristan e foi até a parada de ônibus. Ainda iria até a piscina, ninguém o pararia.
O caminho todo até a piscina pública foi silencioso. O ônibus estava vazio. O motorista parecia com sono e o cobrador parecia bêbado. Keith ficou encarando Vanny pela janela. Até ela ficar tão pequena que já não era mais possível reconhecer sua silhueta. Ela tentou levantar o garoto caído umas três vezes. E cansou. Sentou no chão e segurou a cabeça com as duas mãos. Keith não estava feliz. Ele queria ter feito algo. Queria ter parado Sawyer. Queria ter feito como Sawyer.
Keith apoiou a cabeça na janela e respirou fundo. Era uma fraude. Um palhaço. Vanny provavelmente estava rindo dele.
— Tá doendo? — Aiden sussurrou, encarando a mão vermelha de Sawyer.
Eles estavam sentados no fundo, respirando aquele ar seco.
— Nah — Sawyer riu. Estava um pouco bêbado. E Aiden estava lindo. Sawyer lambeu os lábios e aproximou a boca da orelha de Aiden — você sabe que eu teria acabado com aquele panaca — Sawyer sorriu, erguendo as sobrancelhas.
Aiden tinha tanto medo. Por Sawyer. De Sawyer.
— Eu sei — Aiden balançou a cabeça e se afastou uns centímetros — eu sei — ele repetiu, mais baixo.
A piscina estava suja. Não era novidade. Parecia que um furacão tinha passado ali.
— Tá sujo — Tristan disse, apontando o óbvio. Keith balançou a cabeça e riu. Uma risada estranha e fora de hora, mas que fez os outros garotos rirem também.
De repente tudo que aconteceu no bairro deles já não fazia sentido. De repente o que importava eram apenas eles. Eles e aquela madrugada. Eles e aquela piscina suja.
Não falaram nada. Não era necessário. Apenas entraram na piscina, só de cueca, e aproveitaram aquela brisa fresca da madrugada.
— Vamos fugir um dia desses — Sawyer disse. De novo o mesmo assunto. Não foi uma pergunta. Foi uma afirmação. A única coisa que não saía da sua cabeça. Fora Aiden, claro.
— Vamos — Keith disse. Dessa vez ninguém disse mais nada. de alguma forma, parecia que todos estavam de acordo e que em breve isso aconteceria. Ao menos era o que parecia.
Ninguém mais comentou sobre Vanny e o garoto. Keith estava fervilhando de raiva ainda, mas não por Vanny. Estava com raiva de si mesmo. Do que ele pensou em fazer quando viu aquela cena. Da vontade de pôr um fim na vida de alguém.
“É assim. Isso é ser filho daquele desgraçado”. Era o único pensamento naquela madrugada, enquanto eles boiavam naquela piscina suja. Baganas de cigarro passavam em volta deles. Keith já nem sabia se elas estavam ali antes ou se os cigarros pertenciam a eles.
A noite pareceu passar tão vagarosamente que Keith, tolamente, considerou que o tempo ali não passava. Que por alguma estranha magia, eles estavam presos naquela madrugada. E não veriam o dia. Ficariam presos ali para sempre.
Keith olhou em volta. Sawyer estava competindo com Aiden para ver quem ficava mais tempo embaixo da água. Tristan estava boiando, um cigarro na sua boca e os olhos fechados. Talvez não seria tão ruim assim ficar preso naquele lugar. Seus dedos provavelmente ficariam enrugados e seu cabelo viveria com cheiro de cloro e sujeira, mas pelo menos ficariam os quatro juntos.
Longe das famílias problemáticas, do bairro barulhento e de não-namoradas infiéis.
— Ei, Sawyer — Keith chamou. Mesmo sabendo que Sawyer não ouviria. Ele queria falar. E sabia que alguém, sabe-se lá onde, escutaria — vamos fugir — ele suspirou fundo e olhou para cima. Um infinito de possibilidades se estendia naquele céu.
Eles poderiam ser tão felizes se simplesmente parassem de se adequar ao bairro onde moravam. Se simplesmente vivessem em outro lugar.
— Para onde você quer ir? — Tristan perguntou, depois de muito tempo. Sawyer e Aiden ainda estavam mergulhando.
— Pra longe, de preferência — Keith disse, estendendo a mão para pegar o cigarro de Tristan.
Depois daquela noite um acordo silencioso foi formado: eles fugiriam. Não denominaram datas, horários, lugares. Apenas pensavam a mesma coisa todos os dias. Não falavam disso, porém. Todos tinham suas razões para fugir. Desaparecer. Eles pensavam em futuros brilhantes longe daquele bairro. Os quatro garotos tinham visões diferentes sobre seus destinos, mas uma coisa era igual: eles permaneciam juntos.
Keith queria morar em uma casa grande. Era seu sonho, sempre foi. Sua mãe costumava contar histórias de guerreiros que moravam em mansões. De meninas bonitas concedendo danças e comida para esses homens grandes e festivos. Keith sempre pensava em como a mãe dele viajava contando isso, e aí lembrava do cheiro. O cheiro forte da bebida. Mesmo em um ato materno respeitoso, ela não largava a bebida. E nem o olho roxo. A luz do seu abajur sempre iluminava sua face, mostrando aquele machucado para Keith. Muitas vezes ele nem prestava atenção na conversa, mas sim naquele hematoma.
Mas apesar de tudo isso, Keith sempre sonhava em participar de verdade dessa história. Em ter mulheres ao seu redor dançando, em receber comida na boca. E os homens guerreiros nessa casa seriam os quatro: ele, Sawyer, Aiden e Tristan.
Tristan não queria muita coisa, seu maior sonho era escapar daquela casa e da sua tia, se ele fizesse isso, seria ótimo. Queria conseguir lidar com todo o problema que sua tia causou na sua cabeça e na sua possível vida sexual arruinada. Mas ele pensava em uma casa grande, de preferência com quatro quartos. E queria um banheiro para cada um dos garotos. Ele, mais do que ninguém, sabia como Sawyer e Keith eram nojentos. Tristan não tinha ambições, ele queria fazer faculdade e ser alguém na vida, mas com tão pouca competência na escola, ele dificilmente acreditava que entraria em uma boa universidade. Trabalharia em qualquer lugar pra ganhar dinheiro o suficiente.
Aiden imaginava um apartamento aconchegante. Mas na visão dele, seu quarto era muito semelhante com o seu atual. Tirando todas as manchas no papel de parede e os buracos nos móveis. Mas a cama naquele quarto era a cama de Sawyer. Ele sabia o quanto a cama dele era mais confortável. E o apartamento teria quatro quartos, uma sala enorme com vários jogos de videogame. A praça do apartamento com uma enorme quadra de futebol onde crianças como eles poderiam crescer longe de bairros como aquele que eles moravam, longe de grama fedorenta e suja. A grama daquela praça imaginária era sintética, e todos respeitariam a lata de lixo.
Sawyer, apesar de ser o mais ansioso para fugir daquele bairro, tinha os pés no chão. Ele sabia que não conseguiriam a casa dos sonhos, que não teria um pote de ouro esperando por eles do outro lado. Ele sabia que teriam de lutar juntos. Sabia que ficaria horrível até ficar relativamente bom. Ele imaginava que sofreriam. Morrendo de fome ou tendo de pedir carona na rua. Ele não queria externar esses pensamentos. Não queria expor suas inseguranças. Não gostaria de deixar seus amigos na mão, depois de ter dito tantas vezes que isso era o que ele mais queria. Sawyer tinha medo. Mas ninguém sabia disso. Sawyer sofria constantemente pensando no quanto seus amigos estavam arruinados por aquele lugar. Ele queria ficar longe, queria tirar todos dali. Tudo isso para não se tornarem como ele. Ou como seu irmão. E quando eles finalmente conseguissem um lugar para ficar, seria pequeno. Seria do jeito deles: bagunçado, sujo, mas todos unidos. Três quartos estavam de bom tamanho. Sawyer não se importava em dividir a cama, afinal de contas.
Os garotos estavam de férias. Ninguém estava mais feliz com isso do que eles. O bairro se tornou ainda mais barulhento. Sawyer teve de fazer duas provas antes de ganhar as suas merecidas férias. “Por faltar demais”, ele dizia. E todos sabiam que era verdade, já que Sawyer gabaritou as duas provas depois.
Mas ninguém estava se importando com isso, pois em algum lugar na cabeça deles, só pensavam em fugir. Só pensavam que o dia estava se aproximando. Eles sentiam. Sentiam que em breve estariam longe.
Longe do pai bêbado de Aiden. Longe da mãe drogada e do irmão problemático de Sawyer. Longe da tia abusiva de Tristan. Longe do pai agressivo de Keith. Eles teriam a liberdade que mereciam. Teriam a sua redenção.
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