Welcome to badlands
10 Capítulo Nove: drogas?
Depois do pequeno constrangimento na casa da Katherine, Tristan tentou evitá-la. Da mesma forma que tentava evitar todos seus outros problemas. Ele sentia algo bom ao lado dela, mas sabia que nunca poderia dar o que ela queria. Não poderia ficar com Katherine da forma que ela gostaria.
Evitou saídas com Keith e Vanny, pois imaginava que Katherine estaria junto.
Dessa forma, Aiden e Sawyer foram seu porto seguro naqueles dias. Ele não comentava nada, só preferia a presença dos rapazes, já que Keith preferia ficar com Vanny.
Quase todas as noites Vanny aparecia com algo diferente para apresentar a Keith.
Drogas, bebidas, posições e lugares diferentes para conhecerem o corpo um do outro.
Os garotos não estranhavam a ausência de Keith, mas quando estavam juntos, era como se nem tivessem se separado em nenhum momento.
Era fim de ano, eles deveriam estudar para as provas da escola, mas há muito tempo eles desistiram disso. Iam para as aulas quando tinham vontade e nem sempre prestavam atenção. Para Keith era uma desculpa para encontrar Vanny todas as manhãs. Para Tristan era só mais um lugar para tentar se esconder de Katherine. Sawyer gostava de ir para a aula, mas sempre que via o garoto que lhe deu um chute naquela noite com Aiden, ele ficava receoso de acontecer algo. Aiden só aceitava ir para a escola pois era menos tempo em casa.
As noites no bairro eram sempre iguais. Nada silencioso e sempre acontecendo algo pelos arredores.
Mas naquela noite tudo parecia diferente. O silêncio dominava a rua. Nenhum carro passando, fugindo da polícia. Nenhuma criança gritando. Nenhum barulho de tiro ou de bombinhas na rua. Parecia até que estavam em outro bairro.
Tristan estava no quarto tentando estudar. Era quinta-feira e ele nem sabia onde estavam todos os garotos. O que ele tinha com Katherine acabou tão rápido quanto começou, mas ele não estava chateado, só esperava que algum dia ela entendesse. Mas nem ele entendia.
Keith estava esperando Vanny naquela noite. Nem lembrava de nenhuma prova, nem se importava com seu pai na rua. Só queria Vanny e a novidade da noite.
Sawyer estava com Aiden no seu quarto. Estavam conversando, aproveitando o silêncio da noite. Seth estava trabalhando e sua mãe estava sentada no sofá, assistindo as notícias daquele dia. Era o único barulho na casa inteira enquanto Sawyer e Aiden conversavam baixinho, quase com medo que algo quebrasse.
A notícia que a repórter estava anunciando era triste. Mas nada que fosse diferente. Todos os dias tinha algo ruim acontecendo pelo mundo. Sawyer odiava. Respirava fundo e tentava ignorar enquanto a mulher contava aos telespectadores quantas mortes foram divulgadas no assassinato em alguma cidade ali perto.
Sawyer estava distraído, já nem escutava o que Aiden estava falando.
— Eu quero te beijar de novo — Aiden disse. Rápido e direto. Aquilo costumava divertir Sawyer. A facilidade de falar sobre aquilo. Há tanto tempo ele queria aquilo de novo, mas nunca conseguia ser direto como Aiden. Sawyer estava pronto para responder algo (o que, exatamente, ele não sabia), quando Seth apareceu no quarto, escancarando a porta.
— Levantem — ele disse. O quarto de Sawyer estava escuro e Seth estava sem camiseta, branco feito um papel e tão magro que dava para notar suas costelas. Sawyer o encarou, tentando processar o que ele disse — tenho um trabalho pra vocês
— Seth bufou, sem paciência.
— Faz você — Sawyer murmurou. Mas Seth escutou. Ele sempre escutava.
— O que? — Seth semicerrou os olhos para Sawyer, cada vez mais perto dele. Aiden levantou rápido da cama e se colocou no meio dos dois.
— Nós faremos — ele disse. Sawyer ergueu os olhos para Aiden, que nem conseguia encará-lo de volta. — Drogas? — Aiden perguntou, encarando Seth, que finalmente desviou os olhos do irmão mais novo e encarou Aiden.
— Também — ele murmurou e saiu do quarto.
Não era surpresa nada daquilo, mas Sawyer e Aiden não perguntavam nada, apenas faziam.
— Vocês tem de ir em direção ao ponto de ônibus — Seth voltou para o quarto e começou a explicar enquanto vestia um moletom — não tenho como explicar, pois às vezes eles mudam de lugar, mas eles vão encontrar vocês — Seth dizia como se fosse natural. E para ele, de alguma forma, era — sigam reto até o ponto e encontrarão um homem alto, negro de dread. Vocês digam que é pro Seth, entenderam?
Aiden e Sawyer assentiram e saíram do quarto.
— Não quero ir sozinho — Aiden murmurou enquanto saíam da frente da casa de Sawyer.
— Você não tá sozinho — ele balançou a cabeça — quer chamar os molengas?
— Prefiro — Aiden murmurou.
Foram até a casa de Tristan primeiro. A tia atendeu a porta. Parecia cada dia pior. Os garotos não gostavam dela e ela sabia, pois nem tentava agradá-los mais. Não sorria para eles e nem os convidava para entrar.
— Tristan — ela gritou para o andar de cima, deixou a porta aberta e saiu da vista dos garotos. Tristan desceu rápido. Ele estava acostumado a correr quando sua tia o chamava.
— E aí — ele disse quando notou os garotos. Sawyer e Aiden estavam encolhidos, inseguros, na soleira da porta.
— Ei — Aiden murmurou — quer dar uma volta com a gente?
— Claro! — Tristan sorriu e pegou o casaco pendurado ao lado da porta. As noites eram sempre frias na cidade. — vamos onde?
— Trabalho pro Seth — Sawyer respondeu quando já estavam indo em direção à casa de Keith.
— Drogas? — Tristan perguntou.
— Também — Aiden e Sawyer responderam em uníssono.
Eles bateram na porta de Keith. Tocaram a campainha. Mas não obtiveram resposta.
— Vamos entrar de uma vez — Sawyer revirou os olhos e girou a maçaneta.
A casa estava em silêncio, mas escutavam a música no quarto de Keith. Sawyer correu para o andar de cima, querendo acabar logo com aquela noite. Ele sabia que Keith não escutaria caso batesse, então apenas ergueu a mão para a maçaneta e abriu a porta.
A primeira coisa que viu foi Vanny em cima dele. Sawyer quis fechar os olhos. Fechar a porta. Sair dali. Mas ficou parado observando. Algo dentro dele mandava sinais para parar. Pare de observar Keith. Pare.
— Ei — Vanny olhou para o lado, notando Sawyer. Ele ergueu os olhos para ela, que nem ficou envergonhada com a situação. Na verdade, sorriu e continuou — veio participar? — ela perguntou enquanto Keith ria embaixo dela e lhe tirava delicadamente de cima dele.
— O que aconteceu? — Aiden perguntou enquanto se aproxima de um Sawyer petrificado na frente do quarto. Ele olhou para o lado e notou que atrapalharam Vanny e Keith.
— Não — Sawyer disse, olhando para seus tênis rasgados — viemos te chamar pra sair...
— Um trabalho pro Seth — Aiden continuou por Sawyer. Keith ergueu as sobrancelhas. Ele permaneceu deitado na cama. Vanny ao seu lado, se inclinando para o criado-mudo e cheirando sua cocaína. Keith acendeu um cigarro e retirou o cabelo dos olhos.
Tristan estava atrás de Aiden e Sawyer, ignorando Vanny nua. Tentando.
— Drogas? — Keith perguntou, pronto para levantar. Retirou o lençol de cima de si e ficou em pé no meio do quarto. Sawyer olhou na direção do corpo nu de Keith e sentiu as bochechas e orelhas queimarem de vergonha.
— Também — Sawyer, Tristan e Aiden responderam.
— Tudo bem — Keith murmurou, segurando o cigarro com a boca enquanto andava pelo quarto procurando suas roupas.
— Acho melhor esperarmos lá embaixo — Sawyer murmurou, erguendo a mão para a maçaneta querendo fechar a porta.
— Acho melhor você colocar uma cueca — Aiden disse, encarando Keith.
— Que besteira — Keith riu. Abaixou o volume da música e começou a se vestir. Os três garotos ficaram parados na porta, esperando. — Isso nunca fez diferença antes — Vanny pegou o cigarro da boca de Keith, o observando enquanto ele se arrumava.
— Não posso ir junto? — ela perguntou, ainda deitada na cama, tapada com o lençol apenas da cintura para baixo.
— Não — Aiden respondeu — melhor você ficar.
— É — Keith disse, colocando um casaco — e fecha a porta. Sabe que não confio no meu velho — ele disse enquanto se inclinava para dar um beijo nela.
— Então — Keith perguntou, acendendo outro cigarro — o que faremos?
— Temos de encontrar esse cara grandão — Aiden disse, dando de ombros — acho que saberemos quando encontrarmos.
— Por que fica se metendo nas coisas do Seth? Tá ligado que vai sobrar pra ti, certo? — Keith cutucou Sawyer, lhe entregando o cigarro.
— Eu sei — Sawyer deu de ombros e pegou o cigarro.
— E você tá de boa com isso? — Tristan franziu o cenho. Sawyer deu de ombros outra vez, soltando a fumaça grossa.
— Ele dá dinheiro depois — Aiden respondeu, acompanhando Sawyer no descaso que estavam fazendo, mas a verdade é que os dois sabiam como aquilo poderia prejudicá-los. Muito mais Sawyer, que estava sempre com Seth quando ele precisava.
Eles prosseguiram em silêncio, apenas passando o cigarro um para o outro. Algumas crianças estavam jogando bola na frente de uma casa amarela. Quando eles passaram pelo ponto de ônibus, Sawyer gelou por dentro. Ele odiava ter de fazer aquilo. Odiava colocar seus amigos naquela situação. Mas ele sabia, felizmente, que os seus amigos o seguiriam sempre.
Enquanto seguiam em frente, um homem alto e de cabelos longos apareceu na frente deles. Ele apontou para Sawyer. Seus dedos eram compridos e ele era magro, usava uma jaqueta militar maior que ele e Sawyer quase conseguia notar o formato da arma no seu bolso da frente. Sawyer o conhecia. Talvez. Eram tantos rostos parecidos que ele conhecia por causa de Seth.
— Irmão do Seth? — o garoto mais velho perguntou. Sawyer apenas assentiu — legal — ele olhou para cima, encarando o céu e começou a rir — avisa aquele idiota que ele tá me devendo dinheiro?!
— Aviso — Sawyer respondeu, engolindo em seco. E continuaram caminhando. Mas claro que um amigo do Seth não deixaria algo assim passar em branco. Quando eles passaram pelo homem mais velho, ele segurou o braço de Sawyer com força.
— Acho melhor ele saber que estou falando sério, não acha? — o garoto abriu a boca em um sorriso tenebroso. Sawyer quase podia contar quantos dentes faltavam e quantos estavam podres. Mas ele não conseguiria fazer nada, o bafo de cachaça o impedia de pensar direito. Só sentiu aquela pressão nas suas costas, e ele sabia, imediatamente, que era aquela arma.
— Ei — Keith foi em direção aos dois. Tristan e Aiden estavam muito apavorados para fazer algo.
— Sai — o garoto ergueu a arma, a apontando para Keith. Ele estava segurando Sawyer pelo pescoço, o apertando cada vez mais. Sawyer não se mexia. Não por que não podia, mas simplesmente por que não queria. Ele já estava até esperando o disparo daquela arma.
— Solta ele, por favor — aquela era a voz de um Aiden apavorado. E foi a única coisa capaz de levar Sawyer para o presente, e ele enfim conseguiu se defender, tentando escapar do aperto. Ele participou de lutas e brigas demais com Seth para sair machucado daquela. Muito mais sabendo que aquele homem parecia muito mais fraco que Seth.
Enquanto o garoto dos cabelos longos erguia a arma para qualquer um que se aproximasse, Sawyer abriu a boca e conseguiu morder o braço do garoto, que gritou de surpresa e dor, o soltando no chão. Sawyer caiu de bunda, mas aquilo não doeu. O que doeu, na realidade, foi ver aquela arma apontada na direção de Aiden.
— Não vou avisar nada pro meu irmão — Sawyer disse, tentando desviar a atenção e a arma do garoto. Funcionou, já que o garoto olhou para trás e baixou a arma. Estava drogado demais para fazer algo.
— Avisa, sim — ele sorriu. Guardou a arma e se aproximou de Sawyer.
— Ele vai avisar — Tristan disse, saindo do transe — deixa a gente em paz, por favor.
Tristan não estava chorando. Ele estava rangendo os dentes de raiva. Isso não incomodou o garoto, mas ele apenas deu de ombros e seguiu em frente.
— Viu onde a merda do seu irmão nos coloca? — Keith empurrou Sawyer. Estava tremendo. Ainda podia enxergar aquela arma apontada na sua direção.
— Relaxa — Aiden disse, prosseguindo pelo caminho onde deveriam continuar, tentando fingir que as pernas não estavam bambas.
— Vamos — Tristan disse, correndo até Aiden.
O silêncio chegava a ser ensurdecedor. Só era possível ouvir o barulho dos passos deles na calçada. O ar estava seco e a fumaça do cigarro atrapalhava a visão. Mas Sawyer estava atento. Não poderia vacilar novamente. Se não conseguisse encontrar o homem, Seth seria o responsável por sua morte.
O ponto de ônibus já estava longe, Aiden conseguia vê-lo ficando cada vez menor. E nada do homem. Nada de conseguirem acabar a noite em paz.
Seguiram em frente, atentos a cada beco escuro e pessoas passando. Ninguém parecia o homem que Seth disse.
— Olhem — Tristan apontou, sua voz estava alta. Muito tempo sem falar nada e um pouco rouca por causa do cigarro. Os garotos olharam na direção que ele estava apontando. Sawyer estremeceu. Eram cinco homens. Estavam iluminados pela lâmpada de uma das casas. Estavam quase perto da divisa do bairro. Se andassem mais alguns quilômetros, iriam até o bairro dos ricos. Mas não. Nenhum daqueles homens pertencia àquele bairro.
— Acho que é ele — Aiden disse. Eles estavam parados, um pouco afastados dos homens. Estavam no escuro, então ninguém notou os quatro garotos. Mas o coração de Sawyer estava acelerado, ele até achava ser possível os homens escutarem.
— Vamos acabar logo com isso — Keith disse, jogando o cigarro no chão e pisando em cima da bagana. Sawyer se concentrou no cigarro apagado. Era daquele jeito que ele se sentia naquele momento: apagado. Sem vida.
— Sawyer — os garotos estavam seguindo em frente. Aiden olhou para trás, chamando a atenção de Sawyer. Logo Sawyer com medo? Era de se espantar.
“Para de ser molenga”, Sawyer pensou, cerrou os punhos com força ao lado do corpo e pisou firme, seguindo em frente, acompanhando os garotos.
Cada vez os cinco homens ficavam maiores e mais ameaçadores. Mais reais. Eles demoraram para notar os garotos, mas quando notaram, não fizeram nada. Apenas observaram.
— Mini Seth — um homem grande, negro e com dreads compridos disse. Ele tinha um sorriso sincero e contagiante, se Sawyer não estivesse tremendo de medo, teria sorrido para o estranho. O homem usava uma camiseta regata e seus braços eram cheios de tatuagens. Seus dentes eram tão brancos que Sawyer demorou para notar que um deles era de ouro.
— Vocês demoraram — um outro homem disse. Esse era menor, quase do tamanho de Aiden, mas dez vezes mais ameaçador. Ele tinha sobrancelhas grossas, quase encostando uma na outra. Seus braços eram grandes e cheios de hematomas.
— Sabe — o homem negro continuou — vocês não deveriam andar por aí numa hora dessas.
— Somos mais durões do que você imagina — Keith disse, dando de ombros. Aquilo arrancou um sorriso dos homens.
— Gostei dessa. Durão — o homem prosseguiu — eu sou Hilla — ele disse, piscando o olho para os meninos. Mas os meninos não acreditaram. Homens como eles arrumavam nomes diferentes todos os dias. Seth tinha vários, mas Sawyer nunca sabia quais eram.
— Então — Sawyer disse, engolindo em seco — tem algo pro meu irmão?
— Tem — ele sorriu e seu dente de ouro reluziu na noite. Sawyer encarou os outros homens. Nenhum deles estava dando atenção para aquela conversa. Nem mesmo o homem que conversou com eles antes. Apenas Hilla estava dando atenção para os quatro garotos — Sabe, Sawyer — Hilla murmurou, erguendo a sobrancelha. Sawyer se preocupou imediatamente. — gostei de você. Mas você está no caminho errado, rapaz — ele fez um barulho com a boca. Estava decepcionado. Mas Sawyer não podia fazer nada em relação a isso — seu irmão é muito impulsivo e explosivo. Tem muitos inimigos por aí — ele balançou a cabeça — não arranje inimigos pra você — Hilla piscou o olho para Sawyer. Aiden estava ao seu lado, concordando com tudo que o homem estava dizendo. Keith estava mais afastado, pegando outro cigarro, querendo voltar para a casa de uma vez por todas. Tristan estava tremendo. De frio. De nervoso.
— Tudo bem — Sawyer disse. A garganta seca, os punhos doendo de tão fechados.
— Estamos entendidos? — Hilla se aproximou. Estava segurando uma mochila preta pela alça, a jogou aos pés de Sawyer, mas Aiden a pegou, sentindo imediatamente o peso — sinceramente espero não vê-lo novamente — ele disse aquilo de um jeito que fez Sawyer estremecer. Até Hilla ficava triste com aquela situação. Então por que Sawyer não conseguia parar de tentar ajudar seu irmão?
— Obrigado — ele disse, mas sua voz saiu como um sussurro. Hilla não escutou. Estava observando os garotos.
— Tenho algo pra vocês — ele se aproximou mais de Sawyer, Aiden, Tristan e Keith ficaram alarmados imediatamente. Sawyer observou enquanto Hilla pegava algo no seu bolso e o entregava — se divirtam — ele riu. Tinha uma voz suave, que deixava Sawyer calmo. Ele pegou o pequeno saco transparente com a maconha e colocou no bolso.
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