Wedding lost
9 Capítulo 9 – Passo 4: Regressar a um lugar onde foram felizes.
Notas iniciais
Depois do incidente com Finnick, a relação entre Peeta e Ryan piorou muito. No dia seguinte á aquele, Peeta acordou pela manhã e o silêncio que envolvia o ambiente dava uma sensação momentânea de paz. Uma sensação que não durou três minutos, pois logo os acontecimentos recentes lhe voltaram á mente, fazendo-o voltar a ficar cabisbaixo.
Procurou por Katniss e constatou triste, porém não muito surpreso, que ela não estava no quarto. Decidiu levantar-se de vez. A vida não melhoria em nada ficando apenas ali deitado.
Ao entrar no banheiro, deixando a porta aberta, observou o espelho que refletia, além dele, sua cama e parte do quarto que se conseguia enxergar pelo espaço da porta aberta. Olhando isto, percebeu algo que não tinha reparado quando levantou-se: do lado esquerdo da cama, estava um pequeno papel. Voltou para a cama buscando o tal, tentando achar foco em sua visão ainda turva por ter dormido tão pesadamente por tanto tempo.
“Espero que a noite de sono tenha lhe feito bem.
Me desculpe por não estar aí como prometi, mas queria fazer algo legal para o café da manhã.
Te espero à mesa.
PS.: Está pronto para mais um passo da lista de Mags? Eu espero que sim.”
Depois de um tempo no banheiro, desceu pela escada em passos lentos, quase como se não quisesse ser notado. Ao chegar perto da cozinha, observou Katniss, que perto do fogão fritava algo, com um semblante preocupado.
Atentou para a sala procurando por Ryan, porém ele não estava lá.
— Peeta?
Ao ouvir seu nome ser chamado, voltou-se para Katniss, que agora sorria singelamente. Não era um sorriso sincero, com alegria, parecia mais um paliativo. Ela queria acalmá-lo de algum jeito, percebeu.
— Oi.
— Faz tempo que está aí? — a morena começou a arrumar a mesa um pouco mais depressa. Era estranho, parecia que alguém importante e desconhecido fosse sentar-se à mesa e não Peeta. Todos pareciam desconhecidos e estranhos naquela manhã.
— Não. Cheguei há pouco.
Peeta começou a ajudar a esposa a colocar os utensílios sobre a mesa, pensando que talvez melhorasse a atmosfera. Depois de tudo pronto, sentaram-se e começaram a se servir.
— E Ryan? — Começou o loiro, ainda indeciso.
— Está no quarto. Ainda não desceu.
Pararam de tentar evitar o silêncio. Sim, era incômodo, porém era melhor que a tentativa inútil de manter uma conversa completamente forçada. Não demorou muito e ambos voltaram seus rostos para a escada, de onde Ryan descia.
— Vai tomar café, Ryan? — pronunciou-se Katniss. O marido baixou a cabeça, achando melhor ficar calado. Ele tinha consciência do quanto as coisas estavam ruins com o filho e teve ainda mais certeza quando viu o olhar zangado do menino direcionado a ele, logo quando desceu.
— Não quero nada. Vou para a casa do Carl.
— Não quero você dando trabalho à mãe dele. Volte e coma.
Ao ouvir a voz autoritária da mãe, Ryan jogou a bolsa no sofá da sala e voltou, em passos lentos, até a mesa. Olhou para todos os lugares da mesa e sentou-se na cadeira mais afastada.
— Não vai sentar-se ali? — questionou ela, apontando para a cadeira em frente a ela, e ao lado direito de Peeta, que estava sentado na ponta da mesa. — Você sempre brigou por aquele lugar. Dizia que era o segundo da casa, depois do seu pai.
O garoto colocou alguns alimentos no prato e começou a mexer, para lá e para cá, antes de pôr uma pequena quantidade na boca. Não respondeu.
— Você não lembra, Ryan?
Peeta arriscou olhá-lo dessa vez, observando o menino parar de mexer os talheres e ficar parado. Então segundos depois, um pouco grave e parecendo até adulta demais para um garoto que completaria doze anos em poucos dias, sua voz se propagou. Peeta sempre achou curioso o modo como seu filho já parecia um adolescente sendo ainda uma criança. Porém daquela vez, a voz desenvolvida demais em vez de despertar curiosidade, o fez sentir-se pesaroso.
— Esquece isso. Isso foi em outro tempo. — deu uma pausa, antes de completar — No tempo em que eu tinha pai.
Peeta coçou a nuca e diferentemente do que se podia pensar ele não estava irritado ou enfurecido. Estava triste. Puramente triste.
— Ryan — rosnou Katniss — Você não devia...
Ela estava prestes a começar um sermão repreensivo, mas parou quando a mão de Peeta ergueu-se e parou em seu pulso, que permanecia sobre a mesa. Ela o ouviu sussurrar algo como “deixa” e voltar a comer calado, absorto em sua melancolia interna.
Ryan pareceu surpreso com a ação do pai, porém não se pronunciou.
A declaração de Ryan, logo pela manhã, deixou tudo pior. O dia que já estava ruim ficou ainda mais pesado e depois daquela conversa, Peeta apenas se retirou da mesa, alegando que ia á empresa. Katniss nem sabia que ele tinha que trabalhar naquele dia.
— Eu não sei como fazer isso, Mags. As coisas lá em casa estão o pior possível. Você devia ter visto o café da manhã.
As pernas de Katniss estava estiradas sobre o sofá de Mags, com a intenção inútil de relaxar um pouco. Seus nervos deviam estar abalados, pois ela ouvia uma turbulência , um barulho, uma bagunça enorme em sua mente, mesmo em um lugar calmo e silencioso como a casa de Mags, e em um horário tranquilo como ás três da tarde.
— Não pode desistir, menina Katniss. Se você não fizer algo agora as coisas só piorarão. Vamos lá, uma coisa de cada vez. Vamos começar por Peeta, e sobre Ryan vemos o que fazer mais tarde, o que acha?
A mais nova assentiu, esperando a continuação do pensamento.
— Você já o ajudou no trabalho e o visitou lá. Já tentou agradá-lo em casa e foi paciente com a história dele com a possível...
— Não fala a palavra.
— Tudo bem, não vou falar a palavra “Amante”. Você quem manda, querida.
Katniss rolou os olhos e Mags riu baixinho.
— Por que te incomoda a expressão “amante”?
— Ele já falou que nunca teve nada com ela, não falou? — respondeu Katniss, um pouco irritada.
Mags sorriu mais uma vez e ponderou um pouco.
— Hum. — murmurou.
— Hum o que?
— Acho isso bom.
— Isso o quê? Seja clara, Mags.
— Você acredita nele, é isso que estou dizendo. Ele disse que não tinha aquela mulher por amante e você acreditou. No começo eu não conseguia afirmar isso, mas hoje sim, eu posso. Você acredita.
Katniss abriu a boca para falar, porém a senhora voltou a falar-lhe antes:
— Isso é bom, querida. Lembra como você estava desconfiada dele antes? Lembra o quanto estava certa do pior? Você está tão perto de recuperar sua relação com ele Katniss...
A morena não respondeu, mas apresentou um simplório sorriso. Depois, lembrando-se da situação vigente, voltou a falar com pesar:
— Você devia ter visto como ele estava, Mag. Ele ficou tão triste com o que Ryan disse... Eu percebi. Eu vi.
— Eu sei, criança. Porém eu receio que mesmo que tentemos ajudar, a relação de Ryan e Peeta só se ajeitará por conta deles próprios. Não temos muito o que fazer. — após um minuto silencioso, a idosa decidiu — Vamos, levante essa bunda preguiçosa daí. Vamos pensar em sua noite com seu marido.
~~ ~~
No fim da tarde, quando Peeta chegou, encontrou a casa silenciosa. Passou no quarto de Ryan e o encontrou vazio, e como não o viu em nenhum dos outros cômodos que passou, concluiu que ele não estava em casa.
Seguiu pelo corredor e chegou á porta de Katniss. Não soube bem o por que, mas não quis bater, limitando-se apenas a encostar-se na porta, tentando ouvir algo que denunciasse que ela estivesse lá. Na primeira tentativa não ouviu nada, mas quando tentou de novo, desta vez comprimindo-se contra a madeira escura da porta, pôde então ouvir o barulho do chuveiro.
Voltou a andar, agora em direção a seu quarto. Quando entrou, a primeira coisa que percebeu foram as peças de roupas espalhadas em sua cama: uma bermuda branca, simples; Uma camisa polo amarela e um chinelo sofisticado bege, que ele nem lembrava de já ter usado.
Perto das roupas, havia um papel, ao qual ele não demorou a apanhar para ler.
“Não esqueceu nosso compromisso de hoje, certo?
Use a roupa que separei. Nós vamos sair logo.”
Ao se dirigir ao banheiro para tomar banho, não deixou de notar o papelzinho escrito “Use esse” colado em um de seus perfumes. Aquele era o preferido dela, ele sabia, porém ultimamente ele pouco usava. Naquela noite porém, usaria.
Quando já estava quase pronto, ouviu uma batida receosa na porta, acompanhada de um chamado baixo e discreto:
— Peeta?
Ele sorriu, mesmo sem saber direito o motivo. Foi até a porta e a abriu, e antes que ela falasse algo, não perdeu tempo e disparou, ainda com um pequeno sorriso nos lábios:
— Agora você bate antes de entrar?
Ela deu de ombros e ele finalmente parou para analisá-la. Acho-a encantadora, em seu vestido de linho estampado com várias flores, sua sapatilha rosa bebê simples, e uma correntinha fina, que reluzia em volta de seu pescoço, com um pingente em forma de gota, feito de ametista. Peeta conhecia bem aquela joia: Ele a tinha presenteado com ela.
— Podemos ir? — perguntou ela, tirando-o de seus pensamentos.
— Sim.
Ao contrário do que Katniss pensava, Peeta não ficou o caminho inteiro perguntando onde iam. Na verdade, ele não perguntou nada. Porém, quando Katniss encostou o carro em uma rua conhecida, ele já sabia para onde iriam.
— Não acredito que vamos fazer isso outra vez. — falou rindo, e rindo alto.
— Por que não? Foi agradável da última vez. — respondeu ela, com um riso travesso.
Assim como fizeram há vários anos atrás, pularam o baixo muro da casa, e se dirigiram aos fundos. Era um imóvel antigo, há décadas sem moradores, mas com funcionários pagos para cuidarem da casa e deixarem tudo em ordem. Eram as mesmas pessoas que cuidavam desde quando Katniss e Peeta descobriram aquele lugar, fazendo-os conhecedores, ainda jovens, dos horários e dias em que os cuidadores estariam ou não.
Chegaram ao jardim dos fundos, encontrando as tão conhecidas gardênias, como sempre muito bem cuidadas, exalando seu perfume noturno. Eram muitas, um jardim inteiro delas, reluzindo o verde esmeralda de suas folhas e o branco puro de suas pétalas.
Katniss sentou-se na grama, cruzando as pernas como uma adolescente, falando pela primeira vez desde que chegaram ali:
— A noite está fresca, então o cheiro delas se espalham mais. Li isso na internet.
— Você calculou que a noite de hoje estaria fresca? — perguntou ele, tocando uma pequena flor.
— Não, foi sorte.
Quando ele sentou-se a frente dela, deixando igualmente as pernas cruzadas e as mãos caídas no colo, ela só podia pensar que, do modo como ele a olhava, o pensamento de ambos ao se encararem era o mesmo: O que mudou?
O que havia mudado para que eles não se entendessem mais, mesmo que, aparentemente, fossem o mesmo casal que invadia um imóvel privado para se verem?
Como se essa pergunta tivesse mesmo ecoado pelo ar, Peeta declarou:
— Não somos mais os mesmos.
Katniss sentiu um pouco de pesar com aquela constatação, porém manteve sua expressão firme, concordando levemente com a cabeça. — Não.
Peeta aproximou-se um pouco mais, parecendo não se importar em arrastar a bermuda na grama úmida pelo orvalho, tomando ambas as mãos dela e cobrindo-as com as deles. Ainda olhando para as mãos, falou:
— Você sabe que amo você, certo?
Ela remexeu as mãos, e mordeu o lábio por causa do sorrisinho que queria surgir ali. Ele voltou seu olhar para ela, que assentiu em silêncio. Alguns minutos depois, ela quebrou o silêncio que tinha instalado, com, praticamente, a mesma pergunta.
— Você sabe que também amo você, certo?
Ele já havia voltado a encarar as mãos, como se procurasse ali alguma coisa, e Katniss se preocupou quando não o viu responder.
— Certo, Peeta? — repetiu.
Ele levantou o rosto, e sorriu minimamente, antes de assentir. A mulher continuou observando-o, como se tivesse algo a mais ali. Em algum momento, ela o ouviu murmurar algo como “tudo bem”.
— Tudo bem o que, Peeta?
— Nada.
— Fala.
— Estamos começando a nos entender, Kat. Isso é bom, e eu... bem isso na verdade é maravilhoso — levou uma das mãos ao rosto dela, tocando de leve a bochecha.
— É. É maravilhoso. Mas...— ela segurou a mão dele que ainda estava em seu rosto antes de olhar em seus olhos e insistir, desconfiada — Fala.
— Não é nada, é sério... — ao ver o olhar reprovador dela, ele olhou para o lado, condenando o momento em que pensou alto demais — É só que... É que está tudo bem eu amar mais. É sério, eu estou bem com isso agora. Está tudo bem.
Katniss tirou a mão dele de seu rosto imediatamente antes de, surpresa, questionar;
— Como é que é?
— Não fica brava outra vez...
— Como não?! — Levantou-se — Como não?! Quer dizer que eu me casei com você te amando menos? Te dei um filho te amando pouco ? Será que tudo o que eu fiz até hoje não mostra amor suficiente? Se não, eu...
— Katniss, você não está entendendo, eu não quis...
— O que eu não consigo entender é esse seu complexo de inferioridade! — ela gesticulava exageradamente com as mãos, quando Peeta se aproximou, prendendo seus braços para que elas se acalmasse — Como se eu não te valorizasse, como seu eu não te amasse como eu te amo — ela parou um pouco quando percebeu que chorava. Encostou-se no peito do marido que ainda a segurava, e parou de se agitar. — Como que a gente chegou a esse ponto?
Ao ouvir a voz abafada de Katniss que chorava em silêncio em seu peito, algo no loiro se agitou, então, só fez o que queria fazer a tempos:
— Quer saber? — puxou-a para que ela parasse de se encostar e o encarasse — Eu não sei. E nem quero mais saber. Já chega. Acabou Katniss. Isso acaba aqui.
E então a beijou.
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