We are Doctors
8 Um segundo tipo de encontro.
Notas iniciais
Hospitais costumam ser sinônimo de medo para a maioria das pessoas. Geralmente são mais associados com notícias ruins do que com as coisas boas que podem ocorrer neles. Para as poucas pessoas que nascem ou são criadas para não sentirem esse desconforto, a carreira de cirurgião se torna viável, mas mesmo entre esse seleto grupo há uma terceira categoria de pessoas: Aqueles que não tem outra opção senão se tornarem pioneiros da medicina.
Essas pessoas geralmente são tachadas como estranhas, antissociais, arrogantes, orgulhosas ou frias demais. Normalmente pouco ligam para a vida fora do hospital, na verdade até preferem ignorar que exista uma vida fora dos centros cirúrgicos e quando insistem em tentar provar um pouco do que há “lá fora”, sempre dá ruim.
— Está decidido. Eu vou convidar ela para sair comigo amanhã. – Percy anunciou quando eu atravessei o balcão da cozinha com nosso jantar.
Eu bufei enquanto entregava o prato do meu colega de quarto com dois calzones recém-saídos do forno.
— Não seja imbecil, é nossa primeira folga de 72 horas em meses! Ela com certeza vai querer descansar. – Eu disse já prevendo o rumo daquela conversa. – Eu duvido que ela vá trocar o conforto do lar dela para sair com você.
— Ela já saiu comigo antes! – Percy protestou para então soltar um gemido de dor depois de morder o calzone que soltava muito vapor.
— Almoço no refeitório do Olympus e drinks no Dakota’s. E em todas as ocasiões eu e Thalia estávamos presentes! – Retruquei.
— Mas ela gosta da minha companhia. Você tinha que ter visto a expressão dela no caso daquele bebê prematuro. – Ele argumentou.
Eu rolei os olhos. Percy havia me contado várias vezes o ocorrido de meses atrás em que Annabeth supostamente havia olhado para ele “com aqueles olhos cinzas brilhando, parecia mágica!” e desde então meu grande amigo e colega de quarto estava tendo uma quedinha (mais para um abismo) por nossa amiga loira. Isso era um problema.
Não que eu não apoiasse que Percy se interessasse por alguém ou que eu não gostasse de Annabeth. Mas a loira tinha uma personalidade muito parecida com a de Thalia e com a minha para que eu confiasse nela. Assim como eu, Annabeth havia nascido em uma família tradicional na medicina. Ela havia sido criada para ser uma cirurgiã assim como a mãe, a grandiosa Dra. Atena Chase e eu sei por experiência própria que pessoas assim não dão a mínima importância para relacionamentos. Eu sabia que se ela e Percy se envolvessem, cedo ou tarde ela iria quebrar o coração do meu amigo.
— Vocês nunca saíram sozinhos e você escolheu logo o Valentine’s Day? – Questionei com uma careta de insatisfação. – Ela é uma mulher barra pesada, Percy.
— Eu sei. Por isso vou começar grande: Passeio no Staten Island Ferry no fim da tarde e depois um jantar no Afrodite Love Palace. Isso com certeza vai impressionar ela. – Meu amigo disse com um sorriso convicto no rosto, para o meu horror.
— Afrodi... VOCÊ ESTÁ MALUCO?! Esse é o melhor restaurante da cidade, você sabe quanto custa um jantar nesse lugar?! No Valentine’s Day?! — Eu perguntei completamente incrédulo. – Você teria que pagar três vezes o valor do nosso aluguel e ainda ter que lavar pratos.
— Eu... Eu não sabia. Achei que seria uma boa ideia. – Ele disse constrangido olhando pro chão. Ao seguir o seu olhar me deparei com uma revista aberta com o título “Os 10 melhores lugares românticos de New York”.
É, meu amigo era um idiota apaixonado.
— Você tem certeza que quer fazer isso? Mesmo sabendo que é praticamente impossível você encontrar alguma vaga em qualquer lugar de última hora? –Questionei sério em uma última tentativa.
— Sim, ela vale a pena. – Percy afirmou e eu suspirei derrotado enquanto pegava meu celular.
Depois de três horas de constrangimento no celular enquanto eu pedia dicas de restaurantes adequados para a situação, considerando gastos e a qualidade do lugar, o Persefone’s Garden surgiu como a opção mais viável por sugestão de Hazel. Eu poderia ter recorrido a outras pessoas que não minha irmã mais nova, mas Bianca enlouqueceria de entusiasmo se eu tocasse no assunto e minha mãe, Maria Di Angelo, iria fazer questão que o jantar ocorresse no Afrodite’s sem que nada fosse cobrado porque ela era influente a esse ponto. Então depois de escolhido um restaurante que não fosse falir Percy, nós voltamos nossa atenção para outros problemas de logística.
Percy era habilitado, mas não tinha um carro e sempre ia de carona comigo para o Olympus no meu Honda Civic, então logo o ofereci emprestado para que ele fosse buscar Annabeth. O carro havia sido um presente que ganhei de minha mãe quando me formei na faculdade de Medicina, foi o único bem que eu trouxe comigo depois que saí da mansão da família, embora eu ainda mantivesse em segredo um anel de prata do meu pai escondido no fundo da gaveta. Mas isso não é importante, o mais importante foi a decisão de como fazer o convite.
Eu não estou exagerando em dizer que foi preciso horas para convencer Percy a não ir até a casa em que a loira dividia com Thalia para fazer o convite pessoalmente. Quando finalmente consegui tal proeza, já havíamos passado da meia-noite, mas isso não o impediu de pegar o telefone e ligar para Annabeth. Por insistência minha, ele pôs a ligação no viva-voz.
— Percy? Aconteceu alguma coisa? — A voz de Annabeth soou sonolenta através do aparelho.
— Ah...O...Oi Annabeth, como você está? – Percy gaguejou e eu dei um tapa na minha própria testa.
— Percy, você me ligou de madrugada na minha folga para me perguntar como eu estou?! — A voz dela agora estava mais irritada que sonolenta.
Percy me olhou com uma expressão de pânico no rosto. Eu fiz um movimento com a mão, sinalizando para ele ser direto.
— Bem... Então, você sabe que amanhã é Valentine’s Day certo? Eu...
— Hoje. — Ela corrigiu do outro lado da linha. – Já é quase uma da manhã, o Valentine’s Day é hoje.
— Isso! É hoje. Eu estava pensando se... Bem, eu sei que você quer aproveitar sua folga, mas achei que seria legal se nós...hmm... – Percy estava tão vermelho que eu me senti vingado pelas minhas horas no celular com Hazel.
— Você achou que a melhor maneira de me chamar para sair no Valentine’s Day seria me ligando de madrugada? — Ela perguntou curiosa, embora Percy não tenha percebido, eu tenho certeza que ela estava se divertindo com aquilo.
— Eu... Eu não sabia como fazer. Desculpe. – Percy disse sincero e foi acompanhado por uma risada de Annabeth saindo do celular. Aquilo pareceu animá-lo. – Isso é um sim?
— Isso é um “vou estar esperando”, Cabeça de Algas. – E encerrou a chamada.
Percy me encarou como se não acreditasse no que tinha acabado de acontecer com um sorriso idiota no rosto e eu dei uns tapinhas em seu ombro antes de rumar para o meu quarto já pensando no que eu teria que fazer no dia seguinte. Meu amigo era um idiota apaixonado e estava completamente a mercê da loira, eu precisava garantir que ele não fosse quebrar a cara.
— Eu não acredito que vou fazer isso. – Bufei assim que me joguei na cama para dormir.
Às vezes eu achava que era mais trabalhoso ser um amigo do que ser cirurgião.
O Persefone’s Garden era um local especial. De fato, era um restaurante fino e de excelente qualidade, mas tinha na ambientação seu principal diferencial. Diferente da maioria dos restaurantes que mantinham suas mesas em grandes salões, o Perséfone’s dispõe suas mesas em um amplo espaço a céu aberto enfeitado com flores e árvores de pequeno porte que lembravam um imenso jardim de um castelo medieval, era daí que a dona havia tirado o nome para o lugar. O mais interessante do lugar é que apesar de todo o luxo e da incrível experiência de jantar nesse lugar, os preços eram até que acessíveis para pessoas de classe média. Eu já tinha ouvido boatos que a renda sequer chegava a cobrir os custos de funcionamento, porém a dona do local, Perséfone Smith, vinha de uma família extremamente rica e mantinha o local mais por prazer e hobby do que como um negócio. Sua única exigência era conhecer aqueles que reservavam uma mesa em seu restaurante e saber o motivo para que o jantar ocorresse. Esse último detalhe não era do conhecimento de Percy graças a honorável pessoa que aqui vos narra: eu mesmo.
É, coube a mim a tarefa de contar a quase inexistente história de Annabeth Chase e Percy Jackson para a senhorita Perséfone e assim garantir uma reserva no local para meu amigo. Mas não se iludam se acham que aquela mulher teve o mínimo interesse no primeiro encontro entre dois residentes cirúrgicos. Ela concedeu a reserva em seu querido “jardim” não para uma mesa, mas sim duas. Então foi por este motivo que eu, Nico Di Angelo, estava sentado sozinho em um canto do imenso Perséfone’s Garden enquanto podia observar de longe meu melhor amigo sorrindo como um idiota para a loira sentada na sua frente.
Annabeth estava linda. Ela vestia um vestido cinza longo e liso com um decote que eu tinha certeza que não estava ajudando Percy a se manter concentrado. Os cachos loiros caiam perfeitos em seus ombros e brilhavam como ouro derretido. Seus olhos cinzas brilhavam chamativos em harmonia com seu vestido. Talvez seja porque eu nunca tinha visto ela usando maquiagem, mas ela estava muito diferente do que era no cotidiano. Apesar da loira não ser o meu tipo, eu não poderia culpar Percy por estar praticamente babando por ela.
Por falar em meu melhor amigo, Percy estava tão bem vestido a um ponto que ele só alcançou duas vezes antes na vida: Suas formaturas do colegial e faculdade. Na verdade, ele estaria idêntico a essas ocasiões se eu não tivesse insistido que ele não usasse um terno porque ele parecia um pinguim nas fotos que Sally me mostrou quando a visitamos no fim do ano passado. Ele vestia um conjunto social bem alinhado, com as calças e sapatos pretos e uma camisa social verde escura. Ele queria ter usado uma gravata, mas eu arranquei dele antes que ele tivesse a chance de sair do apartamento. Até fez questão de pentear os cabelos com gel (ele nunca fazia isso), mas eu baguncei com a mão (foi nojento) porque ele ficava melhor com um ar despojado para fazer contraste com as roupas sociais.
Agora que eu paro para pensar, vejo que eu sou praticamente um conselheiro de moda para o meu colega de quarto. Culpo o DNA da minha querida mãe nessa. Ela é uma das maiores estilistas do mundo e não pode ver alguém se arrumando que vai dar seus pitacos. Sempre achei que Hazel tinha sido única da família a ter sido influenciada por ela e eu e Bianca tínhamos escapado, agora percebo que estive errado.
— Você está distraído, querido, um jantar no meu jardim te deixa entediado? – A mulher questionou com sua voz aveludada.
— Eu ainda não estou jantando, estou? – Retruquei sorrindo para a elegante mulher que havia parado ao lado da minha mesa.
Perséfone era uma mulher alta, de corpo esbelto e postura sensual. Seus cabelos negros desciam brilhosos e lisos até o meio de suas costas. Ela vestia um vestido fino cinza com estampas florais negras que ficava bem justo em seu corpo bem delineado. Ela já estava na faixa dos quarenta anos, mas seus olhos castanhos brilhavam como uma adolescente provocante. E acima de tudo, ela tinha fome.
Eu sabia o que ela queria e sabia como ela pretendia conseguir. Mas, infelizmente para ela, eu conseguia ler as entrelinhas de suas ações tão facilmente que eu era capaz de jogar seu joguinho.
— Podemos mudar isso, não é? Sou contra a ideia de um homem elegante ter que jantar sozinho. Além de que não é tão difícil encontrar uma mulher a altura para ocupar esse espaço. – Ela disse e ergueu os braços para ajeitar minha gravata, demorando um pouco enquanto alisava levemente meu peitoral com um sorriso no rosto.
Obviamente, ela não precisava fazer isso. Meu sangue italiano me fazia ficar perfeito em um terno, então “ajeitar” minha gravata era só uma desculpinha para o seu jogo de sedução.
Oh, sim, eu estou usando um terno. Diferente de Percy, eu fico muito bem usando esse tipo de vestimenta. Eu não havia penteado meus cabelos, porém. Sou contra a ideia de me torturar com um pente, muito obrigado.
— Quanto a este quesito, creio estar um pouco adiantado. – Eu disse satisfeito quando vi o sorriso dela vacilar.
—Mas por q... – Ela travou no meio do questionamento e arregalou os olhos com algo atrás de mim. Ao mesmo tempo eu tive que conter um arrepio quando senti os braços finos enlaçando meu pescoço e ela se inclinou para sussurrar eu meu ouvido.
— Desculpe a demora.
Pelo jeito, Thalia era possessiva.
Eu me levantei instintivamente para observar a minha acompanhante e afastar a cadeira para que ela se sentasse, afinal Maria Di Ângelo fez questão de transformar seu único filho homem em um cavalheiro. Isso não impediu que eu fizesse um papel de bobo por alguns momentos porque, enquanto eu segurava a cadeira, Thalia me ignorou completamente e estava encarando Perséfone de uma maneira...Agressiva? Psicótica? Assassina?
— A herdeira dos Grace? Devo dizer que fico surpresa em te ver em um lugar sofisticado como meu jardim. – A mais velha disse depois de um tempo em silêncio. O tom agradável de sua voz havia sumido.
— De fato, é uma surpresa, senhora Smith. É amável de sua parte nos receber aqui. – Thalia respondeu docemente com ênfase nas alfinetadas.
Perséfone abriu e fechou a boca em emitir qualquer som. Sem esperar outra reação, Thalia deu as costas para a mulher e veio até mim, deixando um beijo um pouco demorado em meu rosto e sentando-se na cadeira que empurrei logo depois.
Corrigindo, Thalia era muito possessiva.
Perséfone se retirou dali em mais nenhuma palavra, embora com uma expressão de quem estava ofendidíssima. Sequer dei atenção para isso e logo tratei de voltar para o meu lugar à mesa e observar a mulher sentada na minha frente.
— Eu não estou te reconhecendo. – Admiti porque ela mantinha o sorrisinho doce nos lábios. Lindo, mas bem falso.
— Não sei do que você está falando, querido. Não estamos perfeitamente adequados para esse lugar tão romântico? – Ela respondeu piscando os olhos azuis de maneira inocente.
Eu não aguentei segurar a risada. Ergui a mão para tocar seu rosto numa carícia sutil e toquei o canto de seus lábios para comentar:
— Dá para ver o veneno escorrendo por essas presas.
Acham que fui eu quem quebrou o clima? Não, Thalia fez isso quando mordeu minha mão, quase me fazendo gritar como uma garotinha de cinco anos. Doeu, mas pelo menos me fez ter certeza que eu não estava sentado com uma sósia dela.
Oh, não faz muito sentido porque eu não a descrevi. Bem, o motivo para eu falar isso é porque Thalia estava muito diferente de... Bem, ela estava diferente de Thalia.
Ela usava um vestido branco solto até os joelhos e finas sapatilhas da mesma cor nos pés. Entretanto, a maior diferença estava em seu rosto. Thalia sempre, sempre, usava maquiagens que marcavam seu rosto e deixava seus cabelos soltos de qualquer jeito, estes que haviam crescido exponencialmente desde que eu havia conhecido ela. Agora ela estava com os cabelos negros presos em um elaborado coque meio frouxo que deixava alguns fios sutilmente soltos. Ela usava um suave batom rosa nos lábios e as sardas em seu rosto estavam bem aparentes pela ausência da maquiagem usual.
Não se enganem, ela estava linda, mas era como se eu tivesse em um encontro com a irmã pura de Thalia Grace.
— Quando eu imaginava um encontro com você, não esperava um local tão clichê e entediante assim. – Ela comentou, agora com o tom de voz debochado habitual.
— Você imaginava encontros comigo? – Provoquei.
— Sim, as pessoas têm pesadelos assim. – Ela retrucou me fazendo sorrir.
Eu esperei um garçom servir o vinho que eu havia escolhido previamente. Depois que eu provei um gole e acenei brevemente, ele serviu o de Thalia e se retirou deixando a garrafa na mesa.
— Como eu disse: Muito clichê. Odeio aturar tradições idiotas. – Ela resmungou encarando as costas do garçom com desdém.
— Não deveria ter aceitado sair com um italiano então. Gostamos muito de tradições idiotas, sabe. – Comentei solene e ela rolou os olhos, embora eu tenha percebido que ela achou graça.
— Você é americano, idiota. E de qualquer forma, ainda bem que eu não vim aqui para sair com você. – Thalia disse e virou-se para observar a amiga que conversava animadamente com Percy do outro lado do “jardim”.
Ah! Vocês acharam que eu estava aqui sozinho para jantar e ser um stalker dos meus amigos? Eu não diria que pretendia chamar Thalia para observarmos o encontro dos nossos amigos, mas quando ela me enviou uma mensagem anunciando que iria “assassinar Percy por ter convidado Annabeth para sair na minha madrugada de sono” , ela havia decidido observar para “garantir que ele não fizesse besteira com sua melhor amiga, ou iria castrá-lo”.
Quem sou eu para impedir as ações de uma amiga preocupada, certo? Não que o fato dela ter estendido esta última ameaça para minha pessoa após descobrir que eu havia ajudado Percy a planejar aquele dia tenha, de alguma forma, me pressionado a fazer isso. Claro que não.
Se bem que... Bem, seria um desperdício não tentar aproveitar a situação, certo?
— Nossa, bom saber que eu receberia uma recusa dessa maneira sutil. Me poupa da vergonha de tomar um fora. – Jogar verde com uma mulher sagaz como Thalia é meio perigoso, mas agora já foi.
— Eu não disse que você levaria um fora. Eu disse que não vim até esse lugar para sair com você. – Ela comentou virando o olhar para mim. Mesmo sem os delineadores, seu olhar continuava bem intenso. – Um encontro com você não seria em um ambiente como esse e com certeza não teria como objetivo observar aqueles dois ali.
— E como seria então? – Perguntei como quem não quer nada.
Thalia não respondeu de imediato, tomou outro gole do seu vinho antes e manteve os olhos fixos nos meus.
— O ambiente seria o meu quarto, e o objetivo... – Ela não concluiu a afirmação em voz baixa e se limitou a levar a taça aos lábios novamente.
Perigosa, muito perigosa.
— Nada impede que esse encontro aconteça logo depois desse. – Sussurrei a sugestão lentamente.
Silêncio. Sabem aquele momento em que o ar fica tão pesado que você sente que ultrapassou uma linha que desenhava os limites de uma amizade? Pois é, não foi o que aconteceu aqui.
— É... Nada impede.
Thalia avançou sobre minha boca assim que ela bateu a porta do quarto, fechando-a atrás de si. Acho que ela tinha a intenção de me empurrar até a cama enquanto me beijava intensamente, mas eu estava tão envolvido naquilo quanto ela e empurrei com mais força, prendendo-a contra a porta. Quando ela aprofundou nosso beijo dominando minha língua, eu revidei subindo um pouco do seu vestido e apertando suas coxas com força para tomar um impulso e a erguer. Thalia não reclamou, suas pernas envolveram minha cintura e separou nossos lábios para respirar. Eu aproveitei a brecha para beijar seu pescoço exposto com força e tive que reprimir um sorriso quando ouvi ela soltar um gemido enquanto apertava meus ombros com as unhas curtas.
Era como se fosse uma luta, uma luta bem prazerosa.
Quando nos beijamos novamente, eu já percebi que iria acabar com os lábios bem inchados quando eu saísse dali. Isso porque Thalia não me deixava aprofundar o beijo para poder ficar mordendo meus lábios enquanto ela desabotoava cegamente minha camisa social e me livrava do tecido habilmente, confesso que aquilo me excitou mais do que eu esperaria. Quando nos separamos novamente, ela me olhos nos olhos. Pela primeira vez eu soube facilmente o que aqueles olhos azuis demonstravam, isso porque eu tenho certeza que os meus demonstravam a mesma coisa.
Desejo.
Ela se desvencilhou e me empurrou até a cama, me forçando a sentar. Eu estava sorrindo, talvez por perceber que estava em perfeita sintonia com aquela linda mulher pela primeira vez desde que a conheci.
— Tem certeza? – Indaguei pela primeira e última vez.
— Eu não faço nada que não tenho certeza.
E para provar a determinação de suas palavras, ela me deixou com a boca seca ao tirar o vestido em um movimento cheio de luxúria. Sem aquela peça de roupa, ela era apenas Thalia. A ausência do sutiã me deu uma visão hipnotizante dos seios cheios e bem desenhados que estavam livres.
Apesar de estar extremamente excitado com aquela visão, um pensamento súbito acabou me fazendo rir, para a frustração de Thalia.
— Eu sou engraçada agora, Di Ângelo? – Ela perguntou fechando a cara e eu neguei com a cabeça.
— Eu sabia que você não iria conseguir ficar completamente pura, nem que só para provocar. – Comentei lembrando da atuação dela no restaurante mais cedo.
Ela sorriu como se a lembrança a agradasse. Avançou até mim e soltou o peso do corpo em cima do meu, me deitando na cama.
— Mas você também não está nem um pouco puro. – Ela sussurrou no meu ouvido.
— Não? – Perguntei inocente e desci a mão para brincar com a borda da calcinha rendada vermelha.
— Não. – Ela respondeu beijando meu pescoço e apertando com força o volume na minha calça.
Eu segurei seu rosto com ambas as mãos para beijá-la com vontade. Meu Deus... Como eu queria aquela mulher.
Thalia parece ter entendido isso, porque não deixou que o beijo durasse quase nada.
— Chega de preliminares. – Ela anunciou e desceu os lábios pelo meu corpo.
Enquanto tirava o cinto e abria o zíper da minha calça, ela deixou uma trilha de beijos pelo meu tronco. Seus beijos não eram sutis e muito menos inocentes, eram agressivos, possessivos e intensos. Era como se ela estivesse simplesmente reclamando um direito seu e me reivindicando.
Novamente eu pergunto, mesmo se em algum universo maluco eu quisesse, quem sou eu para impedir alguém como Thalia?
Um segundo depois, com a calça e a cueca em meus tornozelos, tive que reprimir um palavrão quando senti seus lábios tocarem a ponta de minha ereção. Eles ficaram passeando ali sem pudor por alguns segundos até que cometi o erro de olhar para o rosto de Thalia. Ela estava com os olhos azuis fixos em mim, esperando, quando eu fiz contato visual ela deslizou os lábios pelo meu membro e inseriu-o na boca, passando a repetir o processo continuamente sem tirar os olhos dos meus. Maldita, linda, gostosa, perversa e mil vezes maldita. Aquilo quase me fez acabar ali mesmo, então eu tive que me esforçar muito para fazer aquilo durar, afinal havíamos acabado de começar. A solução que eu encontrei foi afastar gentilmente seu rosto para que eu saísse daquela posição e invertesse os papéis, deitando-a no lugar onde eu estivera antes. Não foi uma decisão fácil, até porque aquele estava sendo o melhor oral da minha vida, mas eu sou da opinião de que quem tem a prioridade no sexo é a mulher.
Além disso, Thalia parecia estar se divertindo muito me torturando, então eu fiquei tentado a me vingar finalmente me livrando daquela última peça íntima que cobria seu sexo. Focado, levei minha língua até seu clítoris e a segurei com força pelas coxas quando ela gemeu e tentou se afastar instintivamente.
— Nicolas... — Ela suspirou em meio a outro gemido enquanto eu continuava a chupar de maneira cuidadosa seu ponto frágil.
Quando eu senti seu corpo vibrar contra minha boca e ela prender meu rosto com suas coxas enquanto gemia alto, eu percebi que Thalia era o tipo de mulher que atingia o orgasmo com certa facilidade, ou talvez eu fosse muito bom.
Eu ergui o olhar para ela sem conseguir conter um sorriso convencido. A visão de Thalia nua com o penteado desfeito e respirando pesadamente me mantinha excitado ao máximo e só me fazia desejá-la mais.
— Eu... Eu disse chega de preliminares. – Ela disse ainda com a respiração descompassada.
Eu me inclinei para beijá-la, aproveitando para me acomodar entre suas pernas. Suas mãos passearam no meu peitoral antes de descerem até minhas nádegas e me forçarem a penetrá-la.
Caralho, como ela era apertada.
Ela não tirou os olhos dos meus a medida em que eu me inseri dentro dela, então eu notei uma breve expressão de dor tomar conta de seu rosto e quase entrei em desespero por um momento. Jamais me passou pela cabeça a possibilidade de duvidar de que Thalia, com suas provocações, flertes e extrema sensualidade, não fosse virgem.
Essa breve hesitação não passou despercebido por ela, já que ela me deu um selinho e sussurrou a ordem em meu ouvido:
— Eu quero você com força.
Novamente: Quem sou eu para negar algo a essa mulher?
Minha hesitação se transformou em uma ferocidade que eu jamais havia sentido antes. Só de imaginar que outros idiotas haviam estado ali daquele mesmo jeito com ela me fez sentir o dever de ser muito melhor do que todos eles juntos. Então eu não falei nada e os únicos sons naquele quarto foram dos corpos se chocando intensamente e dos gemidos de prazer daquela mulher que arranhava as minhas costas em êxtase.
Manter aquele ritmo intenso estava cobrando o preço no meu vigor. Thalia percebeu isso e num movimento que me pegou de surpresa, inverteu nossas posições e montou em meu colo, novamente me introduzindo em seu sexo e passando a cavalgar fortemente sobre meu corpo. Seus movimentos eram fortes e ainda mais frenéticos, ela guiou minha mão até seu clitóris novamente e eu comecei a massageá-lo rapidamente ao entender que ela estava chegando em seu segundo orgasmo. Eu queria dar aquilo a ela, principalmente porque sabia que também estava chegando quase lá.
Depois de mais alguns minutos naquela dança extrema e sensual, ela agarrou minha mão livre e, após dar um breve beijo, mordeu-a ao gritar atingindo seu ápice. Mesmo com o corpo fraco pelo orgasmo, ela ainda se esforçou para manter os movimentos em meu benefício.
— Agora, Nicolas! — Ela ordenou e eu soltei um rugido ao me derramar dentro dela. Não irei cansar de afirmar o óbvio, eu não consigo negar um pedido dela.
Ela caiu exausta em cima de mim, me abraçando e acomodando seu corpo aninhado ao meu. Ela beijou meu rosto levemente algumas vezes enquanto eu tentava recuperar o fôlego e passava a mão distraidamente nos fios negros bagunçados. A maneira como estávamos descansando e trocando carícias até nos fazia parecer um casal fofo, acho que o orgasmo causa isso até nas mulheres mais duronas.
— Não vai dizer nada? – Perguntei após algum tempo em silêncio.
— O que quer que eu diga? – Ela retrucou, embora com um tom de voz suave.
Eu a encarei, os olhos azuis me encaravam brilhando de uma maneira que eu jamais havia visto em seu olhar. Era uma visão fascinante, me fez confirmar que aquele pequeno detalhe era o meu favorito naquela mulher.
Às vezes, palavras não são necessárias.
— Eu ainda vou te levar em um jantar clichê. – Disse por fim, fazendo-a rir e enquanto acomodava o rosto na curva do meu pescoço.
Eu senti que iria adormecer a qualquer momento, mas não cheguei a tal ponto graças ao som de uma chamada no celular que eu tinha certeza que não era o meu.
— Let it go, let it go. Can't hold it back anymore. Let it go, let it go…
Eu encarei perplexo a mulher que erguia o tronco para alcançar o celular.
— Frozen, Thalia? Sério?! – Perguntei achando que estava maluco.
— Ela odeia, então é perfeito para a chamada personalizada. – Thalia explicou e atendeu o celular encostando-o no ouvido.
Eu ainda não tinha entendido, mas não tive outra explicação, nem precisei.
— Oi, loira. Como foi o encontro? Sim, estou... Sim, claro.... O quê?! Como assim ela apareceu aí?!...— A expressão no rosto de Thalia se transformou para uma preocupada, o que me fez ficar em alerta. Só agora me lembrei que Annabeth ainda devia estar naquele encontro com Percy. – Entendi, estou indo.
— O que aconteceu? – Questionei quando Thalia desligou o telefone e foi até o closet procurar uma roupa.
Thalia se virou para me olhar, sem qualquer sinal de vergonha por estar completamente nua. Sua expressão dizia que ela não sabia se achava graça ou preocupante ao me responder:
— Bem, parece que Atena Chase tem o mesmo gosto que você e Percy para restaurantes. E agora eu preciso salvar minha melhor amiga de uma situação bem constrangedora.
Fale com o autor