We are Doctors

9 Pulo no escuro.


Notas iniciais
Olá, pessoas! Demorei? Demorei. Poderia ser pior? Poderia. Mas cá estamos com muito esforço postando esse capítulo para matar um pouco da saudade de We are Doctors! Acreditem, eu não pretendia ter demorando tanto para postar, mas a faculdade me ferrou bonito e nosso calendário está muito maluco, então paciência que eu sempre vou voltar, mesmo que atrase hahaha. Bom, aproveitem o capítulo que ficou bem grandinho.

Controle. Essa é a habilidade mais importante para um cirurgião. Ser capaz de controlar sua S.O, controlar seu corpo para que efetue somente movimentos precisos, controlar sua vida para que ela não desmorone quando você não presta atenção porque só pensa no hospital. Eu sempre me orgulhei de ser uma pessoa que domina essa habilidade e sou um exemplo de pessoa controlada. Afinal de contas, é graças a isso que sou um ótimo cirurgião, marido, pai e padrinho. Eu não encontro mais surpresas, a vida me tornou inabalável.

— Papai, como foi seu primeiro encontro com a mamãe? – A garotinha perguntou me fazendo ingerir o milkshake rápido demais e quase sufocar ao me engasgar.

Ok, talvez quase inabalável.

— Desde quando a senhorita se interessa por isso? – Perguntei ainda tossindo.

— A tia Thalia disse que você foi um empata... – Ela ignorou minha pergunta, me fazendo arregalar os olhos quando continuou.

— Não termine essa frase! – Interrompi exasperado.

— O tio Nico disse a mesma coisa que você! – Ela acusou apontando para mim, os olhos cinzas brilhando curiosos.

Eu suspirei aliviado quase chorando, abençoado seja Nico.

— Um empata foca! – Ela disse alto e eu me afundei no banco tentando me esconder quando vi os demais clientes da lanchonete nos olharem curiosos. – O que é um empata foca, papai?

Eu iria assassinar Thalia. Isso se Annabeth não me matar antes caso ela escute isso da boca de sua filha.

— Você está passando muito tempo com sua tia Thalia, mocinha. – Resmunguei.

— Você não respondeu minha pergunta, papai. – Ela retrucou apertando os olhinhos cinzas e formando uma linha reta com os lábios finos. Os cachos negros caindo em seus ombros e o nariz arrebitado ainda completavam a expressão desafiadora.

Meu Deus, por que essa criaturinha linda teve que puxar tanto da personalidade da mãe?

— Não é uma história que vale a pena ser contada. – Eu tentei desconversar. – Vamos, querida, aproveite seu milkshake.

— Mas eu quero saber! – Ela teimou, mas não deixou de sugar o sorvete pelo canudo.

Me lembrando da ocasião, eu acredito que azar seja a palavra ideal para resumir aquela ocasião.

Estava tudo muito bem até a Dra. Atena Chase aparecer.

Vocês já devem estar cansados de me ouvirem dizer que cirurgiões são pessoas diferentes (pra não dizer esquisitas mesmo) e que lidamos com as situações do cotidiano de maneiras bem diferentes de como vocês, pessoas normais (sem ofensa, na verdade foi um elogio). O que eu quero dizer é que outras pessoas poderiam achar que a situação que eu me encontrava era, no mínimo, bizarra ou estranha. Porém, eu a considero um evento significativo que vale a pena ser narrado.

— Aqui está seu chá, mãe. – Annabeth disse com um sorriso tenso no rosto enquanto oferecia a xícara para a loira mais velha.

Atena Chase estava sentada na extremidade de um dos sofás da luxuosa sala de estar da casa de Annabeth (que na verdade pertencia a mais velha) e não pareceu impressionada com a atitude da filha, limitando-se a cheirar brevemente o líquido na xícara e virar o olhar indagador para a filha.

— Chá de Oolong?

— Sim, mãe. – Annabeth confirmou ainda com o sorriso tenso no rosto.

— Em infusão, sem ser aquelas porcarias de saquinho?

— Sim, mãe. – A mais nova confirmou novamente.

— Deixou em infusão durante três minutos?

— Sim, mãe.

— Usou leite desnatado?

— Sim, mãe.

— Aqueceu o leite separado?

— Sim, mãe.

— Colocou somente uma colher de açúcar?

— Sim, mãe.

— Açúcar mascavo?

— Sim, mãe. – Annabeth confirmou por fim, agora com um sorriso de satisfação em seu rosto, como se estivesse aliviada por ter cumprido uma lista de etapas, o que de fato parecia ter ocorrido.

Somente depois desse pequeno diálogo (eu vi como interrogatório), Atena se dignou a provar o chá com um pequeno gole enquanto segurava a xícara com aquela pose clichê aristocrata, com direito ao dedo mindinho erguido.

— Está frio. – Ela resmungou, transformando o sorriso no rosto de Annabeth em um repuxar de lábios desolado.

— Eu irei refazer... – A mais nova disse pegando a xícara e saindo para a cozinha.

Nessa altura vocês devem estar se perguntando o que diabos estava acontecendo ali. Sinceramente, eu estava tão chocado que sequer conseguia falar alguma coisa e estava reduzido a ficar de boca aberta observando aquela cena sentado no outro sofá da sala acompanhado por Nico que também não tinha uma reação muito diferente da minha. Até Thalia parecia não acreditar, ela que estava sentada na outra extremidade do sofá em que Atena havia se acomodado estava encarando a loira mais velha fascinada.

A Dra. Atena Chase, por outro lado, parecia não dar a mínima para aquela comoção, pois logo que a filha foi para a cozinha ela quebrou o silêncio.

— Achei que ela teria melhorado depois de se tornar uma cirurgiã. Acredito que sua falta de foco deriva de um impulso sexual superdesenvolvido. – Ela suspirou e virou-se para Thalia como se aquilo fosse uma conversa super comum de uma tarde de domingo.

— É...mesmo? – Thalia indagou de maneira lenta, eu percebi que ela estava se segurando para não rir.

— Sim. Não sei de onde ela herdou isso. Seu pai, Frederick, sempre foi bastante entusiasmado com nossas relações sexuais desde a consumação de nosso casamento, mas mesmo assim é capaz de realizar com excelência suas pesquisas sobre a Segunda Guerra Mundial em West Point. – Ela comentou casualmente fazendo Thalia morder a parte interna da bochecha para segurar o riso. – Já no meu caso, o prazer advindo do sexo nunca me atrapalhou de estar no topo da medicina.

Nico e eu nos entreolhamos incrédulos. Aquilo era surreal! Claro que eu já tinha lido em várias matérias em revistas de medicina que a famosa Atena Chase era dona de uma personalidade peculiar, mas nada iria me preparar para aquilo. Ou para o que viria depois daquilo.

— Por falar em impulsos sexuais... – A mulher loira disse e virou o olhar para mim, me analisando com seus olhos cinzas frios. – Então você é o rapaz que está dormindo com a minha filha?

Eu engasguei e balancei a cabeça em negação várias vezes em desespero. Pelo menos Nico, meu melhor amigo, se limitou a abaixar a cabeça para esconder o sorriso, aquilo fez eu me sentir menos traído porque Thalia já estava rindo abertamente da minha cara.

— Aqui está o seu chá, mãe. – Annabeth anunciou retornando com uma nova xícara. Um sorriso apareceu em seus lábios ao ser contagiada pela suposta alegria que predominava a sala. – Vocês parecem estar se divertindo. Sobre o que vocês estão falando?

— Sobre como você estar transando com esse rapaz pode estar influenciando sua capacidade de concentração. – Atena respondeu simplesmente me indicando com um manear de cabeça e provou do líquido mais uma vez, agora aprovando um gosto com aceno de satisfação após o primeiro gole.

Ainda bem que Annabeth havia entregado a xícara para a mãe, pois eu tenho certeza que ela teria derrubado no chão ao ouvir aquela resposta. Suas bochechas ficaram tão vermelhas que me lembrou os cabelos de Rachel, uma garota ruiva que eu havia conhecido na faculdade de medicina.

— O que... Mas... Co...Como... O que?! – Ela gaguejou. Annabeth nunca gaguejava.

No entanto, aquilo não parecia ser grande coisa para Atena.

— Sim, embora não faça muito sentido. Você nunca teve problemas de foco com seus parceiros sexuais anteriores. – A loira mais velha refletiu fazendo pouco caso da situação da filha.

— Mãe! – Annabeth reclamou quase em desespero.

— O que foi, querida? – Atena questionou de maneira calma, como se estivesse ignorando tudo que tinha dito segundos atrás.

Aparentemente Annabeth não esperava que a mãe fosse dar ouvidos para seu apelo porque passou os próximos segundos abrindo e fechando a boca sem que nem mesmo uma palavra saísse de seus lábios. Parecia um peixinho fora d’água. Era até fofo, mas muito diferente da loira sabe-tudo que eu estava acostumado a ver.

— Eu e Percy não... Nós não temos esse tipo de... Nós somos amigos e nada do tipo nunca aconteceu entre a gente e... Argh! – Ela desistiu de tentar explicar e pisou com força no piso de madeira tentando descontar sua frustração.

— Você disse que não se importaria se tivesse acontecido. – Comentei baixinho e Annabeth me fuzilou com os belos olhos cinzas faiscando de ódio que diziam claramente “Não dê munição para ela, idiota!”. Ela olhou para Thalia em um apelo mudo por ajuda.

Thalia se esforçou para segurar o riso e se dirigir para a Chase mais velha.

— Dra. Chase, o que Annabeth quer dizer é que ela e Percy são somente amigos. Nós quatro trabalhamos juntos no Olympus e existem regras bem estritas sobre relacionamento entre os internos. – Thalia explicou, era notável o esforço dela pra manter a expressão séria enquanto o sorriso ameaçava aparecer.

Atena fez um gesto de desdém com a mão, como se achasse aquela ideia ridícula.

Oh, por favor. Relações sexuais entre internos durante a residência cirúrgica é tão comum que beira ao clichê sociológico. – Atena disse entediada e levantou-se do sofá após terminar seu chá, caminhando para as escadas logo depois.

Annabeth ocupou o lugar ao lado de Thalia jogando-se no sofá exasperada, mas seu alivio ainda foi interrompido por uma última colocação de Atena antes dela sair da sala.

— Além disso, Annabeth nunca teve problemas em ir pra cama com um de seus colegas.

Thalia gargalhou e deu tapinhas de apoio nas costas da loira mais nova que escondia o rosto vermelho entre as mãos, mortificada.

Ok, deixem-me explicar um pouco sobre a Dra. Atena Chase. Considerada por muitos como a maior neurocirurgiã da história da medicina, Atena havia sido chamada de prodígio desde o seu primeiro dia como interna no programa de residência cirúrgica do Olympus, sendo a primeira mulher a ser admitida no programa, ela superou qualquer preconceito logo em seu primeiro ano ao humilhar todos os outros internos e residentes somente com suas habilidades naturais. Havia ganho o prêmio Gaia Award três vezes, condecoração essa que é praticamente o Oscar dos cirurgiões, e havia sido retirada das edições posteriores a pedido da mesma para que outros cirurgiões pudessem ser reconhecidos devidamente. Ela se tornou parte do Conselho de Diretores do Olympus e abandonou sua posição de cirurgiã fixa no hospital para agir livremente pelo país porque, segundo palavras da própria, “nem todos os pacientes que precisavam de seu talento tinham condições de chegar até ela, então ela iria até eles”. Ela era uma inspiração, também famosa por realizar diversas cirurgias complexas completamente pro bono (de graça) o que a fazia ser muito amada pela população norte-americana.

Ela não deixava de ser uma pessoa polêmica também. Sua personalidade é intensa e ela nunca deixa de dar sua opinião em qualquer assunto. Certa vez chegou a afirmar que se a vida de um certo ex-presidente dos Estados Unidos, famoso por ser acusado de pedofilia e abuso sexual, estivesse em suas mãos, ela o deixaria morrer mesmo que significasse perder sua licença para praticar a medicina. Ela era controversa a esse ponto.

Sendo ela uma Diretora do Olympus significava que Atena Chase tinha uma boa porcentagem das ações do hospital, ou seja, ela era minha chefe e também da própria filha e de nossos amigos. Não que isso significasse muito na prática, já que Atena atuava mais fora do próprio hospital que dentro dele. Mas dois dias depois de ter estragado meu primeiro encontro com Annabeth e ter envergonhado a filha na frente dos amigos dela, Atena Chase declarou-se entediada e decidiu vestir as scrubs azuis escuras do Olympus e buscar uma cirurgia para se apossar.

Vamos lembrar de quando o pai de Nico, o Dr. Hades Di Angelo, veio até o Olympus realizar uma cirurgia fetal. Foi uma confusão imensa entre os residentes e internos na disputa pelas vagas de auxiliares na cirurgia, afinal todo mundo queria atuar ao lado de um grande cirurgião como Hades. Agora multipliquem essa loucura por mil e talvez vocês imaginem como a equipa cirúrgica do Olympus ficou quando a notícia que Atena Chase estava ali em busca de um caso.

Foi um pandemônio. Cirurgiões se tornaram gladiadores e eu juro que ouvi barulho de tiros soando pelo hospital. Em todos os corredores você conseguia ver pessoas discutindo, brigando pelas pouquíssimas vagas de uma cirurgia que sequer havia sido anunciada ainda! O problema só foi resolvido quando a própria Atena, acompanhada pelo Chefe de Cirurgia, reuniu os baderneiros... digo, cirurgiões, e anunciou que ela já havia escolhido os participantes e comunicaria pessoalmente a cada um que fosse participar da cirurgia, uma remoção de um tumor na medula espinhal caracterizada como hemangioblastoma.

Não se deixem enganar com essa simples explicação. Um tumor na medula espinhal é algo muito grave. Nesse caso em particular, era um tumor “perfeito”, o maior que eu jamais iria ver em minha carreira como cirurgião e que havia subido pela espinha e tomado todo o fornecimento de sangue. Era um monstro que já deveria ter matado o paciente, mas por algum milagre ele ainda estava vivo e com suas funções motoras, Atena Chase havia declarado que iria realizar um segundo milagre e remover aquela monstruosidade dele. Uma tarefa impossível para qualquer cirurgião excelente, mas talvez possível para a Dra. Chase.

A equipe que iria operar o tumor inoperável foi escolhida a dedo por Atena. Primeiro, obviamente, a cirurgiã principal seria a própria. Depois, a Chefe de Neuro, Bianca Di Angelo, a melhor residente do Olympus, Reyna Avilla Ramírez-Arellano e os dois melhores internos do programa, Thalia Grace e... bem, eu, Percy Jackson.

Na verdade, Annabeth e Nico foram muito cotados para ocuparem aquelas vagas. Mas Annabeth se recusara veementemente em participar de uma cirurgia com sua mãe e Nico fora barrado por Bianca porque, segundo ele, ela havia descoberto que ele tinha tido um encontro e não havia pedido por dicas para ela e optara pela ajuda da irmã mais nova, Hazel, o que havia deixado a mais velha muito puta com ele.

Eu estava praticando no Laboratório de Habilidades quando recebi a convocatória. Naquela tarde, eu estava praticando precisão com o uso de microscópio em um exercício consistia em tentar tocar o exato centro de uma nota de dólar com uma caneta passando por um copo descartável sem tocar em nada. Era uma tarefa muito mais complicada do que aparenta quando eu explico, mas até que eu estava indo bem, pelo menos meus pontos de tinta estavam no rosto do presidente. Mas ainda assim, eu não conseguia tocar o nariz da imagem, o centro da nota.

— Droga! – Reclamei em voz alta depois de errar pela nonagésima vez.

— Você está parado muito perto. – Uma voz tranquila me alertou, me fazendo dar um pulo pra longe do microscópio.

Atena Chase caminhou suavemente até o aparelho e pegou a nota, avaliando a imensa quantidade de pontos vermelhos que eu havia deixado nela.

— Interessante, você ainda conseguiu ir bem para uma postura tão desleixada, tente novamente, Jackson. – Ela ordenou recolocando a nota no lugar e dando espaço para que eu me aproximasse.

Eu não hesitei em obedecer. Quando se está cara a cara com a Dra. Atena Chase, você obedece e agradece, não existe outra opção para meros mortais.

Eu me coloquei na posição para o uso do microscópio e ela ajeitou minha postura com as mãos.

— Não se trata de como usa suas mãos, Jackson, seu corpo deve fornecer o apoio que precisa, não se aproxime muito ou vai distorcer sua noção de distância. – Ela orientou enquanto eu levava a caneta até o copo.

O resultado foi perfeito, eu peguei a nota e ergui para exibir para minha ídolo e... pera, isso era pra ser segredo, esqueçam que eu disse isso. De qualquer forma, Atena se limitou a acenar brevemente com a cabeça e caminhar para fora do Laboratório, mas não saiu antes de acresentar:

— SO 2 daqui a quatro horas, se prepare para uma cirurgia longa, Jackson.

Agora estávamos ali, vinte e seis horas já haviam se passado desde o início da cirurgia. Aquilo era insano, completamente insano. Meus joelhos já eram praticamente gelatina naquela altura, mas eu meus braços permaneciam imóveis, assim como os de Thalia, enquanto mantínhamos a incisão estável. Qualquer erro era fatal naquele ponto, mas nenhuma decisão era mais difícil que aquela que a Dra. Chase estava encarando.

A última etapa da cirurgia era cortar os vasos sanguíneos que alimentavam o tumor. O problema é que é praticamente impossível saber qual dos vasos está alimentando o tumor e qual deles está alimentando a medula. Se o cirurgião corta o errado, o paciente iria ficar paralisado para sempre.

Um corte, faltava um corte e a Dra. Chase já estava encarando aquilo há mais de quatro horas tentando decidir o que fazer. Mas se vocês acham que ela estava tão nervosa quanto eu, acho que vocês não prestaram muita atenção até aqui.

— Então, Dr. Jackson, quais são suas intenções com minha filha? – Sua voz estava um pouco abafada graças a máscara e seus olhos estavam fixos nos vasos sanguíneos expostos na sua frente.

— Dra. Chase, com todo o respeito, não acredito que esse seja um local apropriado para essa conversa. – Eu comentei tentando mascarar a minha vergonha com um tom de profissionalismo.

— Estou presa em um corte cego, Dr. Jackson, conversar me ajuda a tomar decisões. – Ela disse e eu pude notar uma sombra de riso em seus olhos, mas permaneci em silêncio.

Um corte cego significa que mesmo para ela, era impossível distinguir qual dos vasos sanguíneos era o certo, ou seja, ela iria pretendia cortar na sorte. Não é algo muito reconfortante de se descobrir.

— Bem, sinto muito em ter estragado o encontro de vocês, Deus sabe como eu nunca gastaria meu tempo com algo assim. – Atena comentou quando eu permaneci em silêncio.

— Dra. Chase, eu prefiro não falar sobre isso aqui. – Disse com uma pontada de pânico na voz, afinal de contas, metade dos cirurgiões do hospital estavam assistindo aquele procedimento da galeria e podiam ouvir tudo que falávamos.

Mais uma vez, aquilo não pareceu ser problema para Atena Chase.

— Annabeth sempre teve um dedo meio podre para relacionamentos, então deve imaginar o que eu pensei quando te vi com ela naquele restaurante. – A loira comentou ignorando meu pedido.

— Dra. Chase, agora eu quem irei pedir para que não continue essa conversa, não posso garantir que irei ficar imóvel se continuarmos assim. – Thalia disse e pelo canto de olho vi que ela estava se segurando para não rir da minha cara. Na verdade, todos ali naquela sala estavam naquele estado, embora eu não tenha notado.

Atena levantou os olhos do paciente e encarou os meus. Seus olhos cinzas não eram como os de Annabeth. Os da minha amiga eram calorosos, amigáveis e reconfortantes. Os de Atena eram gélidos, como se ela estivesse entediada e procurasse qualquer motivo para de divertir um pouco na monotonia.

— O que eu quero dizer, Dr. Jackson, é que não passa de um pulo no escuro. Você não vai saber onde vai cair até que pule, seja de olhos fechados ou não. – Ela explicou e, enquanto me encarava, eu vi suas mãos realizarem o corte em um dos vasos sanguíneos.

Ela se afastou da mesa e tirou a máscara do rosto, revelando um sorriso em seus lábios enquanto ela me olhava como se eu fosse um filhote de cachorro perdido.

Atena Chase era uma mulher estranha.

— Imaginei que estivesse aqui. – Anunciei assim que encontrei a figura loira sentada com as costas apoiada na parede.

Estavámos em um dos porões do hospital que era usado como depósito de produtos de limpeza no passado, mas hoje era uma das muitas salas abandonadas daquele imenso edifício. Thalia havia descoberto aquele lugar no nosso segundo mês de residência quando se perdeu enquanto procurava bandagens (embora ela negue isso até hoje). Desde então, nosso pequeno grupo de amigos usava aquela sala como um refúgio dentro do hospital. Era legal ter um local onde tínhamos certeza que não seríamos perturbados.

Eu havia ido até ali procurar Annabeth para irmos embora, já que já havíamos extrapolado muito o nosso plantão, mas a loira simplesmente havia desaparecido desde que a cirurgia realizada por sua mãe terminara. Eu não estava realmente preocupado com Annabeth, até porque sei que ela só não queria ter que aturar Atena no hospital também.

— Como foi a cirurgia, Percy? – Ela questionou com a voz sonolenta e de olhos fechados.

— Ótima, o paciente já acordou e consegue sentir as pernas. Sua mãe conseguiu um milagre. – Informei me sentando ao seu lado esquerdo.

Yay, mais um feito para o livro de Atena Chase. – Ela disse sarcástica e eu, agora que estava perto, consegui sentir o cheiro de álcool em seu hálito.

Inclinei meu tronco para frente e consegui ver a garrafa de tequila encostada meio escondida do lado direito do seu corpo.

— Você está bebendo no trabalho, Annabeth?! – Questionei surpreso.

— Claro que não, Cabeça de Algas. Já estamos fora do plantão e eu, tecnicamente, estou a caminho de casa para aproveitar minha folga. – Ela abriu os olhos, seus orbes cinzas estavam brilhando. – Mas com minha mãe naquela casa, eu preciso fugir da realidade longe dali.

— Ela não é tão horrível assim. – Comentei e ela revirou os olhos.

— Talvez não seja, mas ela me interrompeu no meio de algo muito importante e eu preciso fazer valer o tempo perdido. – Annabeth disse sorrindo e ergueu uma mão para acariciar meus cabelos antes de inclinar o rosto em minha direção.

Eu virei o rosto, sentindo um arrepio quando seus lábios tocaram minha bochecha e se demoraram um pouco ali. Eu não virei novamente para olhar em seus olhos, sabia que iria fraquejar se fizesse aquilo. Annabeth tampouco desgrudou o rosto do meu, apenas escorregou até a curva do meu pescoço e ficou ali.

— Está me rejeitando, Percy? – Ela perguntou baixinho.

— Você sabe que eu jamais faria isso. E segundo Nico e Thalia, eu sou bem óbvio, então acho que você também sabe a quanto tempo eu estou esperando por isso. Mas não quero que aconteça com você nesse estado. Tequila não é uma boa ideia, lembra?— Expliquei sincero.

Annabeth se afastou e girou meu rosto com a mão para me olhar nos olhos.

— Continua sendo uma rejeição, Percy. Não importa o quão cavalheiro você possa tentar ser. – Ela disse com uma ponta de riso nos lábios e se levantou para sair dali. – Não sei se você vai aceitar uma carona de uma garota nesse estado, mas irei esperar cinco minutos no estacionamento enquanto você se xinga.

Ela saiu batendo a porta, me deixando ali sozinho em um estado de pré-arrependimento. Não pela atitude que eu havia tomado no geral, mas sim porque notei que a maldita garrafa de tequila que Annabeth havia deixado para trás ainda estava lacrada.

Eu era um idiota.

Notas finais
Gostaram da aparição da lendária Atena Chase? Esse capítulo foi muuuito complicado de escrever. Para vocês terem uma ideia, eu escrevi esse capítulo em três versões diferentes, cada uma com quase 4k de palavras e PoVs diferentes. Originalmente era pra ser um capítulo da Annabeth, mas iria revelar muita coisa antes da hora pra poder explicar o comportamento dela com a mãe, então melhor deixar o mistério. E esse final hein? Percy, coitado, não consegue dar uma dentro. Até quando está certo, ele erra. Espero que tenham gostado, como sempre, estarei esperando para ler suas opiniões nos comentários. Até o próximo!