We are Doctors
10 Chega de arrependimentos.
Notas iniciais
Me lembro quando eu assistia “House” e costumava refletir muito sobre seu principal sermão: Todo mundo mente. Para ser sincera, eu acabei levando isso para minha vida profissional, embora eu desaconselhe qualquer um a seguir esses clichês de dramas de televisão quando você tem que lidar com situações reais, então eu acabei adaptando esse termo para “todo mundo tem segredos”.
Isso parece ser bem óbvio, não é? Mas a importância disso tem a ver com uma característica bem simples da medicina. Nessa ciência, segredos não podem se esconder por muito tempo. A medicina tem o seu jeitinho de expor mentiras, então dentro das paredes de um hospital, as mentiras sempre acabam ficando a mercê dos cirurgiões uma hora ou outra. Mas como nós escondemos nossos segredos fora do hospital é uma história bem diferente.
Apesar disso, tem uma coisa que eu aprendi no fim do meu primeiro ano como interna no Olympus: Não importa o que você estiver tentando esconder, você nunca vai estar pronta para aquele momento em que a verdade vem à tona.
Afinal, o problema com os segredos é que, assim como uma pessoa solitária, o que eles mais querem é ter companhia.
21 de outubro de 2018, Residência de Annabeth Chase, Nova Iorque.
10 horas antes do teste dos internos...
— Como você trata um pâncreas divisum? Jackson? – Thalia questionou com um cartão amarelo na mão.
— Eu quero morrer. – O moreno respondeu se arrastando pelo chão até a mesinha no centro da sala de estar.
— Responda, molenga! – Ela retrucou.
Nico, que estava jogado no sofá ao meu lado com o tronco para fora de cabeça para baixo, gemeu e esfregou a confusão que era seus cabelos negros.
— Thalia, se você não vai nos deixar dormir, pelo menos deixe o Percy nos servir café. – Ele resmungou.
— Por que você não serve o seu café? – Ela perguntou irônica.
Nico voltou a metade do corpo para o sofá e se encolheu em uma bola, descansando a cabeça no meu colo, ele ficou parecendo um filhote fofo de gato, o que me fez sorrir e levar a mão até seus cabelos. Era impressionante como mesmo sendo uma bagunça de fios, Nico ainda conseguia ter os cabelos macios.
— Estou muito cansado para ir. – Ele respondeu com os olhos quase se fechando. Como se para evitar cair no sono, ele virou a cabeça e passou a olhar pra cima.
— Pare de olhar para os meus peitos, Nico. – Reclamei agora que ele estava olhando pra cima e puxei seus cabelos para evidenciar minha indignação.
— Não estou olhando para os seus peitos, estava olhando para os seus olhos. – Ele se defendeu após fechar os olhos com a dor. – Estou tão cansado que mesmo se fosse a minha intenção, eu não seria capaz de focar a vi...ah!
Ele soltou um grito esganiçado que pareceu acordá-lo quando Percy o jogou no chão puxando-o pelo pé. O dono dos olhos verdes sentou-se do meu lado parecendo mais irritado do que cansado.
— A resposta é esfincterotomia pelo duto dorsal. – Ele respondeu Thalia e abaixou a voz quando estendeu uma caneca pra mim. – Sei que não pediu, mas aqui está seu chá.
Eu aceitei e agradeci com um breve aceno, mas não falei nada.
Eu sabia que Percy estava tentando compensar a mancada que ele cometeu quando Atena esteve no hospital há semanas atrás. O que acontece é que eu estava sendo injusta com ele e tinha plena consciência disso. Culpar Percy pelo “vacilo” que eu havia praticamente o obrigado a cometer é injusto da minha parte e qualquer pessoa boa deveria se envergonhar disso, mas eu não sou uma pessoa boa.
A verdade é que Percy Jackson me deixava confusa e eu o odiava por isso. Desde que eu me tornei a Dra. Annabeth Chase, havia prometido que seria o completo oposto da adolescente rebelde que ocupou meu corpo até os dias de faculdade. Os dias de rebeldia, bebedeira, cabelos tingidos, cigarros e transas com caras desconhecidos que resumiam a vida da “Annie” estavam esquecidos e enterrados no passado. A Annabeth adulta era responsável, calculista, centrada, elegante, genial e dona da própria vida. Acima de tudo, ela queria Percy Jackson. Já havia assumido que tinha uma queda por ele graças a toda a atração que desenvolvera por ele durante aquele ano que trabalharam juntos. Porém, por mais que tentasse fazer jus aos seus sentimentos e dar um passo adiante na relação entre ambos, sempre acabava se sabotando de alguma maneira.
Thalia dizia que eu estava fazendo “cu doce” e simplesmente tinha vergonha de “pegar” o que eu queria. Um pouco hipócrita para alguém que estava escondendo até de mim que havia transado com Nico no Valentine’s Day, ou será que ela acha mesmo que eu não vi os dois no restaurante? Ou melhor ainda, o estado dos dois quando voltei pra casa? Bem, isso não importa agora.
Eu estava em um conflito interno desgraçado. A Annabeth de dezessete anos jamais se interessaria por Percy, mas seria muito bem capaz de arrastá-lo para um quarto vazio e tê-lo por uma noite só por capricho. A Annabeth de vinte e três estaria facilmente inclinada a se apaixonar por ele, porém parecia ser incapaz de tomar uma iniciativa em relação ao moreno.
Espera... Inclinada a se apaixonar?
— Meu Deus, no que eu me transformei? A vida era tão mais simples com os gostosos tatuados com garrafas de tequila. Vergonha de você, Chase. – Uma vozinha bem parecida com a minha quando eu era adolescente soou na minha mente.
— Cale a boca. – Resmunguei.
— Ih, olha o mal humor. Isso é falta de sexo, com certeza. Por isso que eu nunca quis ser cirurgiã, vocês não transam e vivem irritados. – A voz irritante debochou.
— Cale a boca! – Reclamei irritada.
— Annabeth? – Percy perguntou confuso.
Eu notei que havia falado a ultima sentença em voz alta quando vi que Percy havia se afastado um pouco assustado.
— Eu... Eu acho que estou alucinando. – Resmunguei passando a mão do rosto. Fazia tempo que eu não ficava tão exausta.
— Nós estamos sem dormir e você é a única que não ingeriu uma gota de café, claro que está alucinando. – Nico respondeu ainda jogado no chão, aparentemente ele não tinha forças pra se erguer.
Eu senti um breve arrepio quando Percy tocou a minha mão com cuidado para chamar minha atenção
— Eu trouxe energéticos para você já que não gosta de café, estão na geladeira. – Percy disse meio receoso.
Eu quis muito dizer que eu não tinha mandado ele calar a boca, mas tudo que consegui fazer foi sorrir ao observar sua expressão preocupada. As sobrancelhas dele ficavam juntas e os olhos verdes transitavam entre meu rosto e sua mão, ainda sob a minha, como se estivesse com receio que eu afastasse seu toque.
Mesmo privado de sono, Percy Jackson conseguia ser fofo.
— Meu Deus, você tem um quarto lá em cima, só arrasta ele pelo braço e abusa do corpo dele logo. – A vozinha irritante voltou.
— Fica quieta.
— Ou agarra ele aqui mesmo, não vai ser a primeira vez que você transa com um cara com outras pessoas observando. – Ela insistiu.
— Eu desisto de você. – Respondi por fim.
— É, eu realmente preciso de um energético agora. – Anunciei e me levantei do sofá, porém não antes de apertar levemente a mão de Percy como um sinal de agradecimento.
— Me traz um também, loira. – Thalia pediu quando eu caminhei para a cozinha.
— Você já está tomando café, Thalia. – Nico lembrou com a voz arrastada.
— O teste dos internos é daqui há algumas horas, Di Ângelo, eu preciso de todo tipo de mistura com cafeína que eu possa encontrar. – Ela resmungou agressiva.
Thalia estava pirando graças a prova que iria determinar se nos tornaríamos residentes. Eu nunca acreditei que a toda confiante Thalia Grace era do tipo que se sentia insegura com alguma coisa até a semana do teste começar, ela estava usando todo o tempo livre que tinha para estudar e fazia questão de me arrastar junto com Nico e Percy. Mesmo que o teste fosse hoje, ela insistiu que virássemos a noite estudando. Não posso negar que ela tem um pouco de razão em se preocupar tanto com a prova. O Olympus tem a tradição de expulsar do programa os cinco internos que tirarem a menor pontuação no exame, então todo mundo estava se matando de estudar.
Pelo menos todo esse estresse iria manter minha cabeça ocupada e eu não seria obrigada a lidar com meu drama de vida, certo? Além disso, aposto que toda essa carga de estudos vai compensar e meus amigos vão estar confiantes para fazer a prova.
21 de outubro de 2018, Divine Olympus Royal Hospital, Nova Iorque
10 minutos antes do teste dos internos...
— Eu não estou nem um pouco confiante. – Nico anunciou com o rosto enterrado nas mãos.
— Talvez eu vá trabalhar em um fast-food. – Percy disse com um olhar sonhador.
— Você não consegue nem cozinhar um ovo, Percy. – Thalia retrucou enquanto analisava as próprias unhas displicentemente.
Todos os internos do Olympus estavam espalhados pelo grande corredor que dava acesso a sala onde a prova seria realizada. Ninguém havia tido permissão para entrar na sala como medida de segurança contra possíveis trapaças no teste. Era uma situação um pouco estranha porque era a primeira vez desde o primeiro dia de plantão que todos os internos do Olympus estavam reunidos em um mesmo ambiente. Ironicamente, a maioria dos internos estava muito mais nervosa hoje do que no primeiro dia. Eu não sou do tipo que fica ansiosa com coisas assim, mas toda aquela energia me rodeando estava me deixando um pouquinho irritada.
— Mesmo se você falhar, ainda pode seguir carreira em outra especialidade, Percy. – Eu disse em um suspiro cansado para Percy, o que pareceu animá-lo um pouco. – E Nico, você sabe que não tem motivos para se preocupar, você é um dos melhores internos do programa.
— Ele continua sendo um idiota mesmo assim. – Thalia argumentou tranquilamente fazendo Nico fechar a cara.
Eu olhei para ela indignada.
— E como diabos você está toda calma? Cadê aquela neurótica que fez cena a semana inteira? – Eu pude notar minha voz ficando mais aguda graças a minha irritação, mas eu não estava dando a mínima.
— Oh, aquilo? Era tudo atuação para que os dois preguiçosos estudassem sem reclamar. – Ela respondeu com um gesto de descaso com a mão. Quando viu a expressão no meu rosto, um pequeno sorriso surgiu no canto dos seus lábios. – Que estresse todo é esse, Chase? Isso é falta de...
Eu a interrompi quando apontei o dedo para o rosto dela em uma ameaça muda antes que ela terminasse aquela frase. Eu esperava que meu rosto estivesse expressando toda minha vontade de cometer um assassinato, mas Thalia se limitou a erguer os braços em um sinal de rendição e rir da minha cara.
— Ela tem razão, sabe. – A vozinha irritante disse do seu cantinho escuro na minha mente.
— Eu vou te matar. – Ameacei.
— Eu sou você, só que menos chata e mais bonita, não tem como você me matar. – Ela parecia estar se divertindo.
— Eu escolho o suicídio se isso significa levar você junto. – Retruquei.
— Nossa, você está muito ranzinza mesmo hein. Isso é falta de...
Eu balancei a cabeça com força para me livrar daqueles pensamentos. Sinto que estou enlouquecendo.
Felizmente, o barulho da porta da sala sendo aberta chamou a atenção de todo mundo.
— Muito bem, doutores! Deixem todo e qualquer material de estudo fora da sala e escolham seus lugares, o teste está prestes a começar. Seus residentes irão cobrir todo o trabalho que deveria ser feito por vocês hoje, então mereçam esse esforço. – Uma mulher em roupas sociais escuras anunciou em voz alta. Logo todos os internos estavam correndo para dentro da sala em busca dos melhores lugares.
— Se ficar em dúvidas, escolha a letra B, é sempre a letra B. – Nico cochichou nervoso para Percy que assentiu febrilmente.
— Eles estão ferrados. – Thalia disse em voz baixa quando se sentou na cadeira ao meu lado.
21 de outubro de 2018, Divine Olympus Royal Hospital, Nova Iorque
2 horas depois do teste dos internos...
— Viu? não foi tão ruim assim. – Bianca disse sorrindo enquanto passava a mão pelos cabelos bagunçados do irmão que estava com o tronco jogado na mesa.
Bianca havia nos encontrado minutos após o término da prova e havia decidido que o jantar seria por conta dela como um presente. Claro que a Praça de Alimentação do Olympus não seria minha primeira opção, mas eu estava com tanta fome e cansaço que eu quase chorei quando nos sentamos nas mesas para comer e compartilhar com ela a história da bendita prova.
— Pelo menos não seremos mais internos quando os resultados saírem na semana que vem. – Percy afirmou entre uma garfada e outra do seu prato de spaghetti.
— E ainda tem a festa de Halloween como comemoração. Eu estava precisando disso, vou ficar muito louca. – Thalia anunciou sorrindo.
Era tradição dos médicos do Olympus patrocinarem duas festas anuais paras os participantes do programa de residência cirúrgica. A primeira acontecia no Halloween quando os internos recebiam suas notas da prova e eram anunciados como residentes de segundo ano. A segunda era feita em janeiro quando os residentes de quinto ano faziam a prova para finalizar suas residências e se tornarem fellow ou atendentes de fato.
Uma coisa era comum entre ambas, os participantes simplesmente as adoravam porque podiam aproveitar muito sem gastar um único centavo do próprio bolso.
— Eu ainda não podia beber quando minha turma teve essa festa, é um arrependimento que tenho do meu tempo como interna. – Bianca disse meio melancólica.
— Bem, arrependimento é algo que eu não vou ter, risquei cada item da minha “lista de coisas para fazer como interna”. – Thalia se gabou.
— Você tem uma lista? – Percy perguntou.
— Óbvio, o último item da lista era quebrar a regra da Reyna sobre sexo com colegas do hospital. – Ela disse com uma piscadela marota. – Aliás, pretendo repetir o feito na festa de Halloween.
Nico, que antes estava com a cabeça baixa entre os braços, ergueu o rosto para ela e começou a tossir.
— Você... Você o quê? – Ele perguntou com a voz falha.
Thalia não se deixou abalar.
— Não sinta inveja só porque você não tem coragem, Nico. – Ela zombou.
Nico não respondeu e preferiu manter sua atenção em seu sanduíche.
Claro que eles estavam enrolando e eu sabia muito bem o que Thalia estava realmente falando para Nico ali, mas eu não estava muito interessada na parte sobre os dois ficarem juntos novamente no Halloween, minha cabeça estava em outra questão.
Arrependimento.
Coragem.
— Você sabe que vai se remoer muito de arrependimento depois se não tiver coragem agora, não é? – A vozinha irritante soou mais uma vez na minha cabeça.
— É, eu sei. – Respondi.
— Você é muito chata, devia aprend.... Espera, o quê?! – O tom de deboche sumiu da voz adolescente.
— Você está certa, eu com certeza vou me arrepender se não fizer nada. – Afirmei decidida e me levantei da mesa.
Meu movimento repentino atrai a atenção de todos na mesa, mas eu me importei com aquilo. Estava na hora de chutar o balde.
— Percy, vem cá. – Eu nem terminei de falar e já estava arrastando-o pelo pulso.
Eu ainda tive a impressão de escutado alguns assovios de comemoração de Thalia enquanto eu o guiava para fora do refeitório a passos rápidos, mas aquilo não me era importante no momento. O que importava era encontrar um On-Call Room vazio, o que era uma tarefa relativamente fácil porque num hospital-escola imenso como o Olympus era normal haver uma grande quantidade desses quartos para descanso dos funcionários.
— Annabeth? O que você... o que você está fazendo? – Percy gaguejou quando eu tranquei a porta atrás de mim.
O quarto estava mal iluminado e eu não conseguia ver com detalhes o seu rosto, mas tinha certeza que ele estava vermelho quando falou aquilo.
— Tendo certeza que não vou me arrepender no futuro. – Eu respondi de maneira tranquila enquanto retirava a parte de cima dos scrubs azuis, deixando meu torso coberto apenas pelo sutiã preto.
Ele não respondeu, mas quando ele se adiantou e eu senti seus braços rodearem minha cintura, foi como se todo o estresse cansaço acumulado das últimas semanas tivesse evaporado. Finalmente tocar seus lábios com os meus foi libertador.
Finalmente era hora de parar de me sabotar.
21 de outubro de 2018, Divine Olympus Royal Hospital, Nova Iorque
4 horas depois do teste dos internos...
Eu estava caminhando me sentindo leve e tentando segurar o sorriso que ficava ameaçando surgir no meu rosto a cada dez segundos.
Aquele foi um dia de contrastes. Começou horrível graças a maldita prova, depois melhorou de uma maneira incrível. Eu já podia imaginar as provocações de Thalia quando eu voltasse para casa, mas iria valer a pena. Percy fez valer a pena. Mesmo assim, eu deveria saber que algo de grande estava para acontecer quando entrei no Pronto-Socorro e o encontrei praticamente deserto.
O Olympus é um hospital com um Centro de Trauma Nível 1, ou seja, é um hospital de ponta que está no topo da lista para receber vítimas de acidentes graças a sua eficiência em casos de Trauma. Então nosso PS geralmente está sempre ocupado com novos pacientes. Ter o PS vazio é sempre um mal sinal, porque todo mundo sabe que antes da maior tempestade, sempre há uma calmaria.
— Ótimo, meu último dia nesse inferno será uma noite calma, perfeito. – Um homem resmungou satisfeito atrás do balcão da recepção.
O Dr. Lineus era o Chefe do Departamento de Trauma. Era um cirurgião velho, amargurado, desagradável e que aparentava odiar o próprio trabalho. Apesar da minha preferência por me especializar em Trauma, Lineus já havia quase me convencido a desistir com seu método de ensino. Ele desprezava o papel do atendente como professor e via os internos e residentes como seus serviçais. Trabalhar em um caso com ele era horrível, então vocês podem imaginar a minha felicidade quando ele anunciou na semana passada que iria “finalmente ter sua merecida aposentadoria”. Aquilo significava que logo eu teria um professor(a) de verdade ocupando a posição de Chefe de Trauma.
— Você não deveria estar estudando, garota? – Ele questionou me olhando com uma expressão de tédio no rosto.
— A prova foi durante a tarde, Dr. Lineus. Eu já estudei o que tinha para estudar. – Respondi da maneira mais simpática que consegui. Não iria deixar aquele velho estragar meu bom humor.
— Ótimo, você não é nada brilhante, mas basta lembrar de tudo que eu te ensinei que se sairá bem o bastante para se tornar uma residente. – Ele disse arrogantemente.
Eu estava pronta para retrucar quando o barulho alto da chegada de uma ambulância soou.
— Bem quando eu esperava que fosse uma noite calmo. – Ele reclamou se levantando preguiçosamente da cadeira e saindo para o estacionamento acompanhado pelos residentes de plantão.
Eu até fiquei tentada a ir com eles, mas sabia que os internos estavam proibidos de se envolverem em qualquer procedimento sem serem convidados por um residente ou atendente. Então me limitei a me escorar no batente da recepção e observar o PS vazio, apenas ouvindo o barulho das conversas do lado de fora.
Estava nevando naquele dia. Quando se é noite e a temperatura fica pairando na casa do 0° C, a neve derrete só para congelar novamente e se tornar uma espécie de gelo negro, um tipo de gelo mortal por ser invisível para os motoristas que causava inúmeros acidentes de carro naquela época do ano. Mesmo a suave neve de outono era capaz de causar estrago. Então mesmo antes de ver a maca entrando, eu já sabia que aquilo seria um acidente de carro. Era bem previsível.
— Com uma caneta?! Isso é um absurdo! – A voz esganiçada de Lineus soou tão alta que seria capaz de acordar metade do hospital.
Eu fiquei confusa por alguns segundos até que os paramédicos entraram empurrando uma maca com um paciente loiro ensanguentado que estava imobilizado. Porém o que mais se destacou é que ele tinha uma caneta fincada em sua garganta e outro homem com vestes verdes camufladas estava assoprando pela extremidade do tubo da caneta.
— O que está acontecendo? – Eu perguntei alarmada me aproximando.
O Dr. Lineus, espumando e mais vermelho do que nunca, estava sempre pronto para responder.
— Esse maluco tratou do paciente no meio da rua! – O velho gritou.
Quando eu cheguei numa distância que podia distinguir os rostos deles, tive que segurar um grito de surpresa. Pois o homem com vestes militares que realizara aquela barbaridade que mantinha o loiro respirando me deixou tonta quando me encarou com os olhos verdes familiares.
Eu estava olhando para uma versão mais velha e barbuda de Percy Jackson.
Fale com o autor