We are Doctors
4 Se beber não...cante?
Notas iniciais
A primeira lição que dou aos meus internos desde que me tornei atendente é que o bom cirurgião nunca deve desafiar o karma. O karma é sempre presente na vida de qualquer cirurgião, eu pude provar bem isso quando Nico realizou o parto da minha filha mais velha...Opa, acho que acabei dando um spoiler sem querer, ignorem essa parte.
De qualquer maneira, esquecendo a especialidade de Nico e o nascimento da minha princesa, algo que vou adorar contar para vocês depois, a primeira vez que eu recebi minha lição sobre karma foi na primeira vez que eu, Nico, Thalia e Annabeth bebemos juntos.
Acordei com minha cabeça girando, eu estava tão fraco e meu corpo estava tão pesado que eu não conseguia me levantar. Pela posição que eu estava dormindo, eu sabia que deveria estar dormindo em um sofá, ou pelomenos um sofá-cama. Demorou um pouco para que eu conseguisse ter forças para abrir meus olhos com sucesso e o que eu vi foi surpreendente, de uma maneira boa e ruim.
Com a cabeça pesada, a primeira coisa que eu confirmei foi que eu não estava em minha casa, o que não me surpreendeu porque eu tinha deduzido aquilo só de sentir que estava em um sofá. Eu não tinha um sofá. Com os olhos ainda meio fechados eu analisei bem o ambiente em que me encontrava naquele momento.
Era uma sala de estar ampla e muito bem mobiliada. Tapetes persas cobriam o piso de madeira escura polida. Uma lareira estava ali combinando com as pedras bem desenhadas que consistiam as paredes do recinto. Só por aquela primeira impressão, eu sabia que deveria ser uma casa de uma família quase aristocrata e com certeza era o ambiente mais luxuoso que eu havia pisado.
Mas nada disso me surpreendeu mais do que descobrir o que era aquilo que estava pressionando meu peito me impedindo de respirar normalmente, ou melhor, quem.
Vejam bem, eu já havia passado dos meus 20 anos a alguns anos, então já tinha feito várias coisas que eu havia me arrependido depois, coisas que eu deveria me arrepender, mas não me arrependo e até mesmo erros que eu me orgulhava. Todas essas decisões tiveram consequências depois, mas eu posso afirmar com toda certeza do mundo que nenhuma delas sequer chegaria aos pés do resultado de acordar com aquela mulher de cabelos loiros bagunçados que estava seminua aconchegada em meu corpo.
Oh deuses... o que eu fiz?
Ok, Annabeth Chase estava de lingerie e toda sua beleza dormindo sobre mim em um sofá de uma casa desconhecida. Eu poderia ter entrado em pânico se não tivesse congelado com medo de acordá-la, então eu usei todas as minhas forças pra não ter uma reação involuntária por causa do contato do corpo daquela mulher com meu torso nu.
Mesmo que eu tenha tido sucesso, isso não foi suficiente para que Annabeth permanecesse dormindo. Não demorou muito para que ela se mexer e me levantar a cabeça para me encarar com aquelas íris cinza sonolentas, sonolentas e confusas. Se eu não tivesse em uma situação tão tensa, iria comentar que ela ficava adorável com a expressão de sono no rosto que geralmente era tão sério, era uma cena bem fofa. Mas eu não acho que teria sido uma boa coisa para falar naquele momento.
Deuses... que eu não tenha transado com ela no sofá.
Não que eu não quisesse, era Annabeth! Mas o hospital tinha regras bem estritas sobre relacionamentos e Reyna tinha regras ainda mais estritas especiais para os seus internos.
— Se algum de vocês dormirem com uma enfermeira, residente ou atendente. Eu farei questão de castrá-los. – Ela havia dito a mim e Nico. Quando Thalia riu de nossas expressões, Reyna se virou para ela. – Isso também vale para as mulheres, Grace.
Eu não via como ela iria castrar uma mulher, mas não fui louco de duvidar na frente dela.
Ela não disse nada sobre dormir com outras internas, porém.
— Percy? O que eu estou fazendo em cima de você sem roupas? – Ela perguntou com a voz ainda suave embargada pelo sono.
Eu também gostaria de saber.
— Eu...Eu não sei, não lembro... – Respondi antes de fazer uma careta quando fui tomado por uma dor horrível na cabeça.
Ela ergueu o tronco se afastando de mim e eu imediatamente senti frio com a ausência do calor do corpo dela longe do meu. Ela passou a mão pelos fios loiros ainda um pouco embaraçados pelo sono e se levantou do sofá. Se ela estava incomodada com o fato de estar seminua na minha frente, não demonstrou. Olhou diretamente em meus olhos com uma expressão que eu não consegui identificar e caminhou para fora da sala sem dizer nem mais uma palavra.
— Isso foi Annabeth andando apenas de lingerie ou eu estou alucinando? – Uma voz rouca de sono soou do outro lado da sala, próximo a lareira onde havia outro sofá idêntico ao que eu estava.
Nico di Ângelo estava deitado de bruços ocupando todo o espaço daquele sofá. Usava apenas a mesma calça jeans preta da noite anterior, o que constatava muito com a pele pálida que ele exibia no tronco despido. O rosto estava colado no sofá, porém virado para mim e me observava com os olhos fundos característicos dele.
— Você também está aqui?! O que diabos aconteceu no bar? – Questionei nervoso, embora em voz baixa.
— Antes ou depois de você torcer seu tornozelo? Superstar?— Ele disse e riu da própria piada.
Foi só então que eu notei que meu tornozelo me incomodava, quando toquei nele com a ponta dos dedos, uma pontada de dor tomou conta do meu corpo e eu tive um flash da noite passada.
— Eu amo todo mundo nesse bar!! – Gritei enquanto era ovacionado e me equilibrava em cima da mesa com uma garrafa de tequila que eu segurava como um microfone.
— E nós também te amamos, Percy Bêbado. – Alguém havia respondido, embora eu não soubesse quem. No mesmo instante, a jukebox mudou de música e eu comecei a cantar junto.
— Love Huuuurts, Love scaaaars. Love hounds and mark...aaaah! – Eu teria continuado cantando se a mesa que eu estava me equilibrando não tivesse virado me levando ao chão.
Bem, isso explicava o tornozelo.
— Eu não fiz isso, me diz que eu não fiz isso. – Eu lamentei e meu amigo se limitou a rir.
— Fez sim. Você tem uma ótima voz pra quem estava bêbado, sabia? – Nico comentou ainda rindo.
— E depois disso? – Questionei com a mão no rosto como se para encobrir minha vergonha.
— Depois disso, o bar fechou e nós viemos continuar nossa festa aqui. Metade do bar nos seguiu, mas depois só restavam eu, você, Annabeth e Thalia. Foi quando a loira sugeriu jogar strip poker. – Nico contou.
— Annabeth sugeriu isso? – Perguntei espantado.
Nico deu um sorriso de lado com minha surpresa.
— Entendo sua reação, mas acredite, aquela loira se transformou depois de algumas doses de tequila e nessa hora já havíamos tomado litros. Quando você decidiu dar seu show de canto, ela de bom grado quis te acompanhar, mas Thalia disse que não ia deixar ela passar aquela vergonha. – Ele explicou.
— Por que vocês me deixaram passar essa vergonha então? – Perguntei inconformado.
— Porque eu achei que seria divertido. – Uma voz feminina respondeu e Thalia entrou no recinto com uma bandeja com quatro xícaras de café fumegantes.
Aquela resposta me deu outro lapso se memória.
— Vai ser divertido! – A loira insistiu sentada em um dos tapetes com um baralho em mãos.
— Eu não quero ver o pequeno pinto do Di Ângelo para fechar a minha noite, Chase. – Thalia revirou os olhos, embora mantivesse o sorriso no rosto.
— Hey! — Nico exclamou Nico indignado.
— Vai ser divertido! – Annabeth repetiu com uma animação que não combinava com seu perfil do dia a dia.
Thalia suspirou falsamente e sentou-se no tapete de frente para a loira. Eu já estava sentado, pois sequer raciocinava direito mais e Nico decidiu jogar para vingar seu ego ferido.
— E então nós jogamos strip poker? – Questionei incrédulo.
— E então nós jogamos strip poker. – Thalia confirmou enfiando uma xícara de café em minhas mãos e fazendo o mesmo com Nico.
Então nós não transamos no sofá?
Foi só quando vi a careta que Thalia fez que eu percebi que havia pensado em voz alta.
— Não, pelo menos eu espero que não. Caso contrário, eu fui um voyeur enquanto dormia. Isso não é legal. – Nico comentou enquanto cheirava o vapor do café. Mas sua expressão se embrulhou quando ele se tocou no que disse. – Acho que vou vomitar.
E ele se foi, meio cambaleando e meio correndo.
— É melhor eu garantir que ele não destrua o banheiro. – Thalia disse quando Nico saiu da sala, mas antes de ir me avaliou com um olhar férreo. – Jackson, se você aproveitou dela, eu juro que vou cortar o seu...
— Eu não fiz nada, sua louca. Não viu o meu estado? Antes alguém se aproveitaria de mim do que eu ser capaz do contrário. – Eu disse exasperado.
Thalia me lançou um último olhar desconfiado antes de se virar para sair da sala, mas retesou-se antes de se por a caminhar pela visão de Annabeth encostada na quina de maneira que dava a curva para outro cômodo.
— Annabeth, você...
— Ouvi tudo? Praticamente. – A loira completou a fala da amiga com um sorrisinho no rosto. – Acho melhor você ir dar uma olhada em Nico, ele estava soltando uns gemidos bem sofríveis do banheiro do seu quarto.
— Ele está vomitando no meu banheiro?! – A morena exclamou e saiu às pressas pelo corredor fazendo Annabeth rir suavemente.
A loira havia trocado de roupa, ou colocado uma, melhor dizendo. Ela estava com uma regata cinza sem estampa e shorts jeans curtos e gastos. Os cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo meio desajeitado, mas que ficava perfeito nela.
Quando ela andou em minha direção, meu coração falhou uma batida. Ela ouviu tudo! Ela o ouviu perguntar se eles tinham... deuses, queria achar um buraco e se enterrar antes de ter que encarar os olhos cinzentos de Annabeth Chase.
Ela sentou ao meu lado no sofá e torceu o fino nariz com o vapor do café saindo das xícaras paradas na bandeja no centro da sala.
— Não gosta de café? – Ok, foi uma pergunta idiota, mas eu estava nervoso!
Annabeth pareceu mais divertida do que ofendida.
— Odeio o cheiro, sou uma pessoa do chá. – Ela respondeu e passou a me encarar com certa expectativa.
— Eu não... eu não me lembro de quase nada de ontem a noite. O que você ouviu... que nós... que eu achei... eu só tive a impressão porque... – Comecei a gaguejar tentando formular uma explicação decente, mas para minha surpresa, Annabeth sorriu.
— Relaxe, Percy. Meu Deus, não precisa ficar tão nervoso, não somos adolescentes. – Ela riu ao ver meu nervosismo. – Não teremos certeza se aconteceu algo a mais, eu não me lembro de nada da noite passada. Eu disse que tequila não era uma boa idéia.
— Eu não deveria ter insinuado... – Tentei me desculpar mais uma vez, mas a loira se limitou a rolar as belas íris e se levantar do sofá.
— Já disse para não se preocupar, eu não me importaria se realmente tivesse acontecido algo a mais. – Ela falou de maneira simples enquanto pegava a bandeja para ir até a saída do cômodo. – Agora vamos para a cozinha que precisamos almoçar algo. Temos plantão de madrugada.
— Sim, sim claro. – Eu disse me levantando do sofá lembrando que teria que ir trabalhar mais tarde, mas então travei quando me toquei em algo que ela havia dito. – Como assim você não se importaria se algo a mais tivesse acontecido?
Annabeth virou o rosto pra mim. Seus olhos estavam tão risonhos quantos seus lábios quando ela piscou pra mim e disse quase como uma risadinha infantil.
— Você baba enquanto dorme.
E saiu em direção a cozinha me deixando ali em pé, completamente corado e tentando compreender o sentido de suas palavras.
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